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	<title>Stéphane Thibierge &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Stéphane Thibierge &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<item>
		<title>A agnosia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Feb 2018 12:07:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[O Nome, a Imagem, o Objeto[1]   Parte II   Abordagens neurológicas dos distúrbios do reconhecimento e da imagem do corpo Capítulo 1   A agnosia Stéphane Thibierge   Não é inútil precisar o porquê de começarmos por um exame da agnosia, quando outros transtornos neurológicos que abordaremos na sequência se relacionam mais diretamente com  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: center;"><strong>O Nome, a Imagem, o Objeto<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a></strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">Parte II</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Abordagens neurológicas dos distúrbios do reconhecimento </strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>e da imagem do corpo</strong></p>
<p style="text-align: center;">Capítulo 1</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">A agnosia</p>
<p style="text-align: right;">Stéphane Thibierge</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não é inútil precisar o porquê de começarmos por um exame da agnosia, quando outros transtornos neurológicos que abordaremos na sequência se relacionam mais diretamente com as patologias da imagem do corpo ou do reconhecimento das pessoas.</p>
<p>É precisamente na medida em que a noção de agnosia é evocada na designação de muitos transtornos da imagem do corpo ou do reconhecimento que nos pareceu desejável precisar seu sentido, antes de abordar o exame desses transtornos. Esse ponto de partida permite expor os elementos primordiais das questões que evocaremos em seguida no campo neurológico.</p>
<p>A definição e a delimitação clínicas da agnosia foram, com efeito, a oportunidade de destacar e progressivamente recapitular um certo número de fenômenos que haviam sido inicialmente descritos separadamente a propósito de transtornos distintos.</p>
<p>Num livro que propõe uma tomada em perspectiva geral do problema da agnosia, a partir da agnosia visual, H. Hécaen e R. Angelergues retomam os diferentes fios que vieram se ligar nessa noção<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. Eles lembram que foi na época dos primeiros trabalhos sobre a afasia que foi possível individualizar um certo tipo de transtorno que chamou de início a atenção particularmente pelo fato de que foi considerado como “distinto tanto da demência quanto do transtorno próprio da linguagem.” Dizia respeito a “certos modos de relação do sujeito doente com o objeto”, que foram globalmente designados como afetando o<em> reconhecimento</em> do objeto, em um sentido suficientemente amplo para recobrir tanto o que dizia respeito à capacidade de utilizá-lo, quanto ao fato de reconhecê-lo.</p>
<p>Esses transtornos, como se vê, colocavam os neurologistas diante da dificuldade de especificar, do ponto de vista etiológico, uma certa categoria de fenômenos cujo registro eles não distinguiam muito bem quando tentavam defini-lo segundo as coordenadas que eram as suas: não parecia dizer respeito à demência, e nem também a um transtorno próprio da linguagem.</p>
<p>O problema, em seu estado inicial, é assim resumido por Hécaen e Angelergues: “a primeira ideia que se destaca na análise clínica é que o<em> reconhecimento</em> do objeto implica na excitação conjugada dos<em> diversos elementos</em> que resultam na sua<em> representação</em>.” E acrescentam: “se alguns desses elementos faltam &#8211; perda posta habitualmente em relação com a interrupção de uma via de associação -, a evocação do objeto não é mais possível: ele será <em>visto</em><a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>,<em> ouvido</em> ou<em> sentido</em>, mas não será<em> reconhecido</em>.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a></p>
<p>Nas síndromes de falsos reconhecimentos que evocamos, encontramos também uma separação dos dois planos do percepto e do reconhecimento. É o que evocávamos dizendo que a imagem cai de um lado e o nome do outro. O que nos interessa nos dois casos são os efeitos da decomposição do reconhecimento que aí observamos. Essa decomposição não tem, em princípio, a mesma amplitude, nem as mesmas causas, nas psicoses e nos transtornos neurológicos. Mas, nos dois casos, ela tem efeitos sobre a relação do sujeito com aquilo que ele não reconhece mais, mesmo identificando algo, no entanto. Daremos aqui um exemplo do que visamos a título desses efeitos, a partir da descrição dada por Hécaen e Angelergues da agnosia para os objetos, entre as agnosias visuais: “esse transtorno é posto em evidência pedindo ao sujeito para descrever o objeto proposto e, de uma forma geral, evocá-lo. […] O comportamento do doente diante do objeto assim apresentado é inteiramente característico: ele o<em> fixa</em>, o<em> envolve com o olhar</em>, o aborda<em> por diferentes ângulos</em>, exprime por mímica seu <em>espanto</em>, sua<em> ansiedade</em>, e geralmente pede para tocar essa coisa que ele não identifica; tão logo ele<em> pega</em> o objeto, seu rosto se ilumina, ele o<em> nomeia</em>, o descreve e o utiliza sem a menor dificuldade” (grifos nossos). Os autores notam igualmente que “a apresentação prolongada do objeto não facilita constantemente seu reconhecimento e pode até mesmo entravá-lo”, e que, por outro lado, “a<em> soma dos detalhes</em> do objeto e a<em> busca de um detalhe significativo</em> parecem os procedimentos mais utilizados habitualmente pelo doente para superar seu déficit.”<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a></p>
<p>Nessa descrição, e ainda que autores não ressaltem particularmente esse ponto, parece que não é exatamente o <em>objeto</em> que o doente não pode mais nomear, mas que é o<em> objeto</em> enquanto apreendido pelo<em> olhar</em>, que vem ao primeiro plano do fenômeno descrito. Ele surge de um modo particular, que a descrição mostra muito bem: o sujeito<em> fixa</em> o objeto, ele o<em> envolve com o olhar</em>, mas não pode nomear o que esse envolvimento deveria em princípio reconhecer. Nesse sentido, é isso &#8211; o objeto <em>do olhar </em>&#8211; que ele não pode mais nomear.</p>
<p>O olhar, tal como ele aparece aqui, de certo modo negativamente, não pode ser elucidado apenas no registro da percepção. Se fosse questão apenas de um transtorno dessa ordem, não compreenderíamos por que o sujeito “exprime por sua mímica seu espanto, sua ansiedade” nesse momento<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a>. Que ele o faça atesta que o transtorno comporta consequências que não se limitam ao campo da visão propriamente dita, mas que colocam em questão de modo mais geral aquilo que podemos chamar de coordenadas do reconhecimento, no sentido em que o definimos, favorecendo o surgimento de algo que o sujeito recebe sob o modo de uma opacidade subitamente prevalente e que ele não pode mais nomear, ou que está desligada do nome.</p>
<p>Nosso propósito não é colocar em questão por causa disso a descrição do transtorno, nem tampouco sua etiologia tal como os neurologistas podem defini-las. Nós sublinhamos apenas a maneira pela qual um tal fenômeno, quaisquer que sejam suas causas identificáveis em termos anátomo-clínicos, comporta, ao lado e além de um acometimento local, efeitos que afetam necessariamente o campo do reconhecimento, por causa do surgimento nesse campo de um objeto &#8211; o olhar, e não somente o que é olhado &#8211; sobre o qual a nomeação não tem mais domínio. Poderemos compará-lo, nesse sentido, ao sentimento de estranheza. Esse exemplo indica, a partir de uma referência clínica relativamente simples, em qual perspectiva nos interessam os transtornos neurológicos que citaremos.</p>
<p>Voltemos agora à maneira pela qual Hécaen e Angelergues apresentam e introduzem a clínica dos fatos que eles determinam sob a noção de agnosia. Vimos como eles reduziam a questão à de saber quais são os elementos em jogo no que culmina no<em> reconhecimento normal</em>. Essa formulação do problema interroga o que faz<em> manter juntos</em> o percepto no sentido amplo, e o que permite ligá-lo ao nome num reconhecimento. A questão é posta aqui pelos autores de forma muito geral e sem decidir inteiramente sobre a natureza desses elementos. Destacando apenas que seu defeito ou sua perda são interpretados “geralmente” em termos neurobiológicos, isto é, remetidos à interrupção de uma via de associação, eles deixam em aberto a questão de saber se não cabe fazer intervir dados etiológicos de outra ordem, que levam igualmente em conta o material altamente<em> simbólico</em> que os dados clínicos e anátomo-clínicos da agnosia expõem e articulam de modo diversificado, mas seriável.</p>
<p>E eles fornecem, sob duas rubricas distintas, os diferentes aspectos dessa seriação: a agnosia óptica é<em> seletiva</em> e admite uma<em> especificidade das associações</em> segundo suas formas.</p>
<p>Ela é<em> seletiva</em>, isto é, os transtornos do reconhecimento concernem sempre a esse ou aquele aspecto determinado do domínio visual. É notável que esses aspectos remetem a uma lógica e a segmentações articuladas a categorias simbólicas: agnosias espaciais (perda da orientação, das localizações no espaço e nos lugares), transtornos do reconhecimento das cores, agnosias para os objetos e para as imagens, agnosias para as fisionomias.</p>
<p>Os autores ilustram esse ponto com alguns exemplos em que aparecem séries de<em> disjunções exclusivas,</em> invertidas conforme o caso: ou o sujeito não identifica as pessoas, mas as reconhece por certos traços, ou ele as identifica muito bem, mas não pode reter nenhum detalhe. Assim, “o doente B., atingido espontaneamente por sua incapacidade de distinguir sua mulher de sua sobrinha, reconhece perfeitamente os objetos, as imagens simples e os cartões postais e identifica muito bem os detalhes menores que lhe permitem situar um personagem. A “fisionomia” de uma paisagem não significa mais nada para ele, mas ele é capaz de extrair dela certos detalhes e reconhecê-los perfeitamente como referências. A doente D., que reconhece muito bem os objetos, as cores e a maior parte das imagens simples, só pode identificar sua filha quando ela está com seus sapatos, e não consegue reconhecer nenhum lugar do serviço, ao passo que se situará com um detalhe aparentemente tão pouco pregnante como o tipo de curativo de sua vizinha. Ao contrário, o doente A., que reconhece perfeitamente as pessoas e se orienta sem nenhuma dificuldade, fracassa no reconhecimento das imagens mais simples, não diferencia as cores e é incapaz de visualizá-las. Mais claramente ainda, o doente M., que reconhece bem as fisionomias, nas quais ele discerne as diferentes mímicas, e pode até identificar seus próximos em pequenas e medíocres fotografias de amador, é incapaz de identificar pela visão os objetos mais familiares. E, se o doente G. não apreende mais o sentido das palavras nem o das imagens, ele percebe perfeitamente a significação do espaço e a dos rostos”<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>.</p>
<p>Essas segmentações e essa seletividade justificam a distinção das diversas categorias de agnosia óptica que os autores elencam, no interior de vários grupos principais: agnosias para as coisas, agnosias para as cores, agnosias espaciais, agnosias das fisionomias.</p>
<p>A agnosia óptica admite em seguida<em> uma especificidade das associações segundo suas formas:</em> os autores consideram, a partir do material clínico que trazem, estarem fundamentados para isolar a recorrência de associações preferenciais entre diferentes tipos de agnosia. Eles distinguem a esse respeito dois grandes grupos: “com as agnosias espaciais e a agnosia das fisionomias, são a apraxia construtiva, a apraxia da vestimenta, os transtornos da somatognosia de um hemicorpo, os transtornos oculomotores, os transtornos direcionais e vestibulares que dominam”, esses sintomas correspondendo a lesões diretas. “Com as agnosias para os objetos e para as imagens, para as cores, e naturalmente com as alexias, nós encontramos essencialmente transtornos da linguagem”<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a>. Essas agnosias são consecutivas a lesões esquerdas.</p>
<p>É a partir desta seriação clínica da diversidade dos fenômenos relacionados com a agnosia óptica que os autores introduzem o que reduz, a seus olhos, essa diversidade a uma unidade: eles propõem, de fato, uma definição específica da agnosia. Todo o esforço de seu livro consiste precisamente em isolar a unidade nocional e clínica do que eles chamam de “fenômeno agnósico”.</p>
<p>Mesmo evitando querer falar de<em> uma</em> agnosia enquanto tal, já que “é preciso admitir mecanismos e consequentemente níveis diferentes para cada campo sensorial e provavelmente também no interior de cada campo sensorial”, eles apresentam entretanto a seguinte tese: “o que constitui, apesar de sua diversidade, a especificidade da agnosia enquanto fenômeno, diferenciando-a<em> radicalmente</em> (grifo nosso) do transtorno sensorial elementar, é<em> a perda de uma significação</em> (grifado no texto)”<a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a>.</p>
<p>Essa tese se reveste de grande importância para nossa proposição: ela situa, com efeito, a agnosia em um registro que implica a dimensão de um transtorno das coordenadas fundamentais do sentido e do reconhecimento. É assim que ela faz da agnosia um problema abordável do ponto de vista psicopatológico.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a> Ela é em seguida retomada e precisada nas conclusões do livro: “essencialmente, escrevem os autores, a originalidade do transtorno gnósico limita-se à<em> perda de uma significação, </em>seja<em> por que um código não possa mais ser decifrado, </em>seja<em> por que uma distinção de duas individualidades tenha se tornado impossível</em>”<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a><em>.</em></p>
<p>Podemos notar o quanto se revela próxima à clínica que interrogamos essa forma de colocar o problema quando, deslocando-a um pouco, nós a aplicamos à observação <em>princeps</em> da síndrome de Frégoli ou à da síndrome de Capgras. A definição do transtorno gnósico dada aqui pelos autores tomaria aí, com efeito, valor operatório, desde que ressaltemos a significação perdida como aquela que o <em>nome próprio</em> simboliza.</p>
<p>Não dissimulamos, entretanto, o que haveria de forçado em pretender reduzir ao mesmo, sem outras precauções, termos que concernem num caso ao campo das psicoses e em outro ao das agnosias. É manifesto que, por “perda de uma significação”, Hécaen e Angelergues entendem que, em uma agnosia, um objeto particular, ou um certo tipo de objetos, não são mais discriminados simbolicamente pelo sujeito: é o que eles precisam imediatamente depois escrevendo que “é o objeto particular que, na agnosia, perde seu valor de signo”.</p>
<p>Mas, a partir do momento em que essa discriminação do objeto é reconhecida, e com razão, para implicar seu valor de <em>signo</em>, é legítimo considerar que a significação perdida não pode ser apenas faltante <em>isoladamente</em>, isto é, pontualmente e localmente: isso por razões que têm a ver com a própria estrutura dos sistemas simbólicos, começando pela linguagem. A linguística moderna insistiu, particularmente depois de Saussure, no fato de que os elementos significantes tomam valor apenas diferencial, em relação com outros elementos e com o conjunto. Uma significação qualquer só se constitui graças a essas relações. É a razão pela qual seu comprometimento ou sua perda não podem se conceber sem serem correlacionados aos de outras significações. Então, é mesmo preciso supor, para que uma significação seja perdida, ou que alguma coisa <em>da </em>significação seja afetada &#8211; na hipótese de certo modo mais pesada; ou ao menos que a significação perdida não seja a única a ser tocada, mas que uma correlação se observe com o comprometimento de outras significações &#8211; numa hipótese mais leve. Esse último caso recorta o que os autores ressaltam a título de uma especificidade das associações na agnosia, como lembramos acima.</p>
<p>É nisso que um quadro de agnosia e um quadro de psicose do tipo dos que nos interessam aqui se mostram comparáveis, menos pelo fato da eventual proximidade descritiva dos transtornos realçados, do que por se tratar nos dois casos da perda de uma significação, determinando o comprometimento conexo de outras significações.</p>
<p>É assim, por exemplo, que podemos comparar um quadro como o do caso <em>princeps</em> da síndrome de intermetamorfose, no qual vimos que a doente não distinguia mais seu marido de um vizinho qualquer, mas continuava a identificá-lo a partir de um ou dois <em>traços</em>, com o do Sr. B&#8230;, no qual o sujeito confunde sua sobrinha e sua mulher e se mostra incapaz de reconhecer e de identificar as pessoas, salvo se apoiando em certos traços e, em particular, precisam os autores, no da voz<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a>.</p>
<p>Nessa última observação, o sujeito é crítico em relação ao que lhe acontece e nada do que nos é relatado deixa pensar num transtorno de ordem psicótica. Por outro lado, os fenômenos agnósicos são correlacionáveis, no que lhe concerne, a lesões bilaterais de origem vascular. Entretanto, insistiremos na perda, nos dois casos, da significação de conjunto em favor dos traços elementares.</p>
<p>O que nos interessa aqui é não somente fazer observar como certas afinidades podem se destacar, num nível descritivo, entre quadros de psicoses e quadros neurológicos, mas sobretudo determinar onde passa para nós a linha divisória entre os dois domínios. Essa partilha não é, com efeito, sempre sustentável a partir apenas do nível da descrição ou do contexto patológico, sem que seja necessário tomar posição sobre a estrutura do sujeito. É trivial fazer observar que um sujeito que apresenta um quadro neurológico específico pode, por outro lado, e sem que esse quadro permita afirmá-lo, ser ou não de estrutura psicótica: são dois pontos distintos<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a>. Mas, o essencial consistirá em examinar, conforme os casos, se o que os autores chamam de perda de uma significação remete no sujeito a um comprometimento fundamental da significação como tal, e do que a funda estruturalmente, ou se ela tem apenas uma incidência local e limitada, assinalando assim sua natureza lesional, isto é, acidental em relação à estrutura<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a>.</p>
<p>Ao que nos parece, essa distinção fornece um critério que permite determinar a partição clássica entre transtornos neurológicos e transtornos psiquiátricos, e especialmente entre agnosia e psicose.</p>
<p>Colocando essa distinção nos termos que acabamos de indicar, ficamos em condições de interrogar a clínica da agnosia também do ponto de vista da psicopatologia. Isso nos permite também, para concluir nesse ponto, dar seu alcance à fórmula que encontramos no início desse trabalho sob a pena de Capgras para caracterizar a síndrome que leva seu nome.</p>
<p>Vimos, com efeito, de que maneira, em 1923, Capgras propusera o termo <em>agnosia de</em> <em>identificação</em> para qualificar o cerne dos fenômenos que aparecem na ilusão dos sósias, no começo dessa série de síndromes cuja descoberta nós relatamos. Realçamos então o interesse dessa expressão e do problema que ela assinala, que está longe de se limitar aos transtornos designados nesse caso particular por Capgras.</p>
<p>Na medida, efetivamente, em que toda gnosia supõe, do lado do sujeito, ao mesmo tempo um reconhecimento formal e uma modalidade de inscrição simbólica do que ela apreende, isto é, a sustentação de uma significação, ela comporta necessariamente uma dimensão de identificação, entendida não especificamente no sentido que lhe dávamos anteriormente (cf. <em>Observações preliminares</em>), mas no sentido mais corrente do que pode ligar esse reconhecimento e essa significação. A partir daí, uma agnosia de <em>identificação</em> designaria uma agnosia que atinge aquilo que se mostra no fundamento de toda gnosia.</p>
<p>Capgras produz aí, então, uma noção clínica cujo sentido ele não aprofunda, mas sobre a qual podemos considerar que, para além da ilusão dos sósias, ela remete a uma operação implicada na gnosia em geral. Essa operação não é realçada pelo uso habitual de qualificar as gnosias pela referência a seu objeto &#8211; uma gnosia sendo sempre dita gnosia de alguma coisa. O que não impede que, em seu princípio, todas elas suponham a operação daquilo que torna possível o laço entre uma <em>imagem</em> ou um <em>percepto</em> no sentido amplo, objeto do reconhecimento, e um <em>nome</em>.</p>
<p>A noção trazida por Capgras nos conduz, então, ao cerne do que está em jogo nessa problemática, indicando ao mesmo tempo, por meio dessa referência à <em>agnosia</em>, um ponto de passagem na direção do que pode nos reter nos fenômenos mais circunscritos e segmentados que os neurologistas repertoriam e interrogam.</p>
<p>Efetivamente, toda agnosia é em sua base o que ele chama de agnosia de identificação, se ficamos atentos ao que destacam Hécaen e Angelergues ao falarem da perda de uma significação. E será preciso consequentemente determinar em cada caso, como indicamos, qual é a força motora da significação perdida, quais são aquelas que ela carrega consigo, enfim, se a perda é circunscrita ou se ela repercute sobre o próprio estatuto da significação para o sujeito.</p>
<p>Acrescentemos que, com relação à problemática que seguimos, a expressão de Capgras é igualmente apropriada por uma outra razão. De fato, mesmo enfatizando, no caso da Sra. de Rio-Branco, a questão da identificação no sentido <em>objetivo </em>na medida em que ela se distingue para ela, tratando-se de pessoas, do reconhecimento da <em>imagem</em>, a observação de Capgras e de Reboul-Lachaux realça vivamente o que nesse quadro se liga à questão da identificação na medida em que ela incide dessa vez <em>no próprio sujeito</em>. Em outros termos, essa observação nos mostra como a impossibilidade de identificar sob um nome uma imagem por outro lado <em>reconhecida</em><a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a> se acha estreitamente ligada clinicamente nesse caso a um impasse da identificação subjetiva, entendida como impossibilidade para o sujeito de ser identificado.</p>
<p>Esse segundo aspecto da questão da identificação não é explicitado como tal por Capgras. Mas ele está, no entanto, presente bem no primeiro plano, se considerarmos o conjunto de notas que nessa observação se ligam ao problema do <em>nome próprio</em>. Basta se remeter ao seu resumo, e sublinhamos isso em nosso comentário, para constatar o quanto os autores insistem nesse impasse, realçando a multiplicidade dos nomes próprios nas falas da doente, e em primeiro lugar dos que a designam; o quanto eles apoiam suficientemente nisso as ocorrências e a tensão para identificar porque se encontra aí destacado um ponto eletivo de desmoronamento simbólico para o sujeito.<u>  </u></p>
<p>Courbon com Fail, depois com Tusques, aliás não se enganaram quanto a isso, pois podemos considerar que é a partir desse ponto de partição realçado na clínica, senão na doutrina, entre <em>reconhecimento da imagem</em> e <em>identificação do nome</em>, que eles encontraram o crivo que lhes permitiu isolar a síndrome de Frégoli, e depois a síndrome de intermetamorfose, enfim, produzir o conceito de identificação delirante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> NT. Traduzido do original <em>Le Nom, L’Image, l’Objet</em>, de Stéfane Thibierge, ed. <em>Presses Universitaires de France</em>, abril 2011, Paris, p. 155-167.</p>
<p>Tradução: Juliana Castro Arantes</p>
<p>Revisão: Sergio Rezende</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> <em>La Cecité psychique, op. Cit</em>., em particular p. 9 a 27.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> “É evidente, escrevem eles, que só se pode falar de agnosia se o sujeito tem a possibilidade de apreender visualmente o objeto. Em todos os casos, um estudo preciso da função visual primária se impõe então. Igualmente, convém em todos os casos assegurar-se [&#8230;] de que não existe uma alteração da inteligência ou da vigilância que impeça qualquer reconhecimento” (C.P., p.31).</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> Esse transtorno do reconhecimento, lembram eles, foi inicialmente chamado de <em>assimbolia</em> por Finkelnburg (1870), que traduzia assim a perda do reconhecimento das pessoas e dos lugares que ele tinha observado em um doente. Mas foi de Wernicke que o termo recebeu sua elaboração mais desenvolvida: “é a Wernicke que devemos a primeira concepção muito elaborada da assimbolia, que não designa apenas a perda do reconhecimento óptico, mas a própria noção do objeto; os doentes veem, já que evitam os obstáculos, ouvem, como traduz a expressão de seu rosto, exploram manualmente os objetos com movimentos apropriados, mas as impressões que eles retiram dessas diversas sensações permanecem inúteis e eles não reconhecem os objetos”(<em>C.P.</em> p. 10). Os autores lembram em seguida a origem do termo <em>cegueira psíquica</em>, devido a Munk, que o inventou em 1876 para dar conta de uma experiência praticada em um cão que tinha sofrido “a ablação de uma zona de mais ou menos um centímetro e meio de diâmetro na substância cinzenta da parte superior e posterior da ponta dos dois lobos occipitais”. Esse cão se comportava como se sua motricidade e sua sensibilidade estivessem indenes, ficando indiferente ao que distinguia ali, não notando nem reconhecendo mais nada. Munk deduziu daí, de maneira muito mecanicista, uma distinção entre uma zona da percepção visual e uma zona da representação dessa percepção inicial, apenas esta estando comprometida no cão da experiência. As concepções de Munk foram criticadas na sequência no curso de um debate que evoluiu esquematicamente entre, de um lado, os defensores de um associacionismo localizador, vivamente criticado por Bergson na filosofia e por von Monakow na clínica, e, de outro lado, as teses da <em>Gestalttheorie</em>, tais como elas foram especialmente tornadas célebres e muito discutidas na sequência da publicação do caso Schn&#8230; de Gelb e Goldstein. Hécaen e Angelergues destacam dessa discussão os termos principais através dos quais o problema da cegueira psíquica tornou-se progressivamente o da agnosia óptica e de suas diferentes formas: agnosias espaciais, transtornos do reconhecimento das cores, agnosia para os objetos e as imagens, agnosias para as fisionomias (prosopagnosia). Eles lembram que foi Freud quem substituiu o termo assimbolia por <em>agnosia</em>, mais apropriado segundo ele para traduzir “a dissolução da relação entre as qualidades do objeto e seu conceito”. Freud se explica sobre isso no final de seu livro sobre a afasia, de 1891: “Recorri à denominação assimbolia num sentido diferente do usual desde Finkelnburg, já que a relação entre a representação de palavra e a representação de objeto me parece merecer mais o título de “simbólica” do que aquela existente entre um objeto e uma representação de objeto. Os transtornos do reconhecimento dos objetos que Finkelnburg reúne sob o termo assimbolia, eu proporia chama-los de <em>agnosia</em>” (<em>Contribution à la conception des aphasies</em>, Paris, PUF, p.128).</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> <em>C.P.</em>, p. 32-33.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> Acrescentemos que a significação desses fenômenos ainda continua incompleta e abstrata se não leva em conta o fato de que eles só aparecem e são descritíveis em resposta à demanda de um outro – mais frequentemente o médico ou o pesquisador que interroga. Essa demanda não é exterior ao quadro. Ela, ao contrário, orienta seu sentido, de modo que podemos dizer que a caracterização dos transtornos, tais como o sujeito os manifesta e os descreve, e em particular a angústia que pode acompanha-los, remetem, a um só tempo, a um déficit objetivamente constatável e à maneira pela qual esse déficit é recebido pelo sujeito em resposta a essa demanda. Ela está, então, diretamente implicada naquilo que o sujeito fracassa em reconhecer: não se trata apenas de seu déficit, mas também da opacidade em que esse déficit o coloca em relação ao que o outro espera dele.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> <em>C.P.</em>, p. 168-169.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> <em>C.P.</em>, p. 169.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> <em>Ibid.</em>, p. 170-171.</p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a> Ela, aliás, aparece no livro imediatamente antes de um desenvolvimento consagrado às teses de Wallon sobre a passagem na criança da atividade sensório-motora à significação, às de Piaget sobre o esquematismo e o acesso progressivo à objetividade, bem como aos trabalhos de Spitz sobre a noção de relação de objeto: cf. p. 171 <em>sq</em>.</p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> <em>C.P.</em>, p. 194.</p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> Cf. <em>op. Cit.</em>, p. 49 <em>sq</em>, onde o caso do Sr. B. é desenvolvido de maneira mais detalhada. Ele foi hospitalizado por recente baixa brutal da acuidade visual com perda da visão das cores. Ele descreve o acidente assim: “eu estava saindo no corredor e bruscamente tive um véu diante dos olhos; ao olhar peixes, eu via sua forma, mas eram corpos negros, eu não fazia mais a distinção entre o branco e o vermelho da toalha da mesa. Eu fazia a diferença entre um homem e uma mulher de uma calçada para a outra, mas eu não reconhecia um rosto conhecido, um colega, tomei minha sobrinha por minha mulher”. Secundariamente, a acuidade visual foi um pouco readquirida. Depois, “de repente o doente manifesta no serviço, além de uma impossibilidade quase completa de identificar as cores, uma dificuldade acentuada em reconhecer as pessoas. Ele se queixa de não poder diferenciar as fisionomias dos outros doentes e do pessoal e só chega à identificação pelo ar geral, a roupa, o andar e sobretudo pela voz”.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> Veremos na sequência (cap. 3) que essa distinção não é mais sempre sustentada hoje em dia numa abordagem neurobiológica da psiquiatria.</p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> Nesse último caso, é preciso acrescentar, e nós logo daremos exemplos clínicos disso, que um comprometimento mesmo local da significação vai determinar num sujeito um remanejamento da relação com a imagem especular e, consequentemente, da subjetividade. É o que Lacan ressaltou desde 1949, em “Formulações sobre a causalidade psíquica”, comentando o artigo clássico de Gelb e Goldstein: Goldstein, K., &amp; Gelb, A., 1918, “Psychologische Analysen hirnpathologischer Falle auf Grund von Untersuchungen Hirnverletzer”, <em>Zeitschrift fur die gesamte Neurologie und Psychiatrie</em>, 41, 1-142. Isso decorre do que admitimos na introdução da função primordial dessa imagem na instalação das coordenadas do reconhecimento e do que vai constituir de maneira geral o registro do sentido para o sujeito. Mas veremos que encontramos confirmações importantes disso na clínica. Esse remanejamento pode tomar diversas formas, sem excluir soluções de natureza delirante. Nesse caso, uma ideia delirante surgida no decurso de lesões neurológicas não assinala necessariamente uma psicose, mas pode resultar dessa relação remanejada com a imagem especular.</p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a> Na verdade, esse reconhecimento não é sem apresentar uma certa labilidade, como vimos: certos detalhes mudam, nunca é exatamente a mesma imagem. É por isso que o campo do reconhecimento também está comprometido. E é também por isso que podemos colocar a questão: o que é que o sujeito identifica nesse caso, que torna impossível a identificação da imagem, e lábeis os traços que permitem seu reconhecimento.</p>
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		<title>Le syndrome de Fregoli</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/le-syndrome-de-fregoli-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 18:25:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Le syndrome de Fregoli]]></category>
		<category><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></category>
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					<description><![CDATA[Je vais vous parler donc, dans le cadre de ce cycle de conférences sur un certain nombre de syndromes psychotiques, du syndrome d'illusion de FREGOLI. Je ne vais pas vous faire un topo sur l’historique de ce syndrome, j’en parlerai un peu , mais je vais l'aborder directement par ce qui m'a intéressé dans la façon dont j'ai pu le travailler, et rattacher par là ce que nous présente ce syndrome au fil de nos interrogations au cours de cette série de séminaires.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Stéphane Thibierge</p>
<p>Je vais vous parler donc, dans le cadre de ce cycle de conférences sur un certain nombre de syndromes psychotiques, du syndrome d&#8217;illusion de FREGOLI. Je ne vais pas vous faire un topo sur l’historique de ce syndrome, j’en parlerai un peu , mais je vais l&#8217;aborder directement par ce qui m&#8217;a intéressé dans la façon dont j&#8217;ai pu le travailler, et rattacher par là ce que nous présente ce syndrome au fil de nos interrogations au cours de cette série de séminaires.</p>
<p>Je partirai du point suivant, très simple en apparence, qui me parait un bon point de départ . Ce qui caractérise un sujet normal &#8211; ce qu&#8217;on appelle normal &#8211; un sujet qui n&#8217;est pas psychotique, pour faire bref, c’est ceci : disons que notre rapport à la réalité a ceci de caractéristique qu&#8217;il est fondé précisément sur le fait que la réalité, en principe, nous la reconnaissons. Nous la reconnaissons au sens où, lorsque nous nous levons le matin, nous ne sommes pas étonnés de retrouver les mêmes objets, les mêmes personnes, les mêmes numéros de téléphone à leur place. Nous reconnaissons.</p>
<p>Or, ce qu&#8217;il y a de curieux, c&#8217;est que lorsque nous réfléchissons un peu, nous remarquons que le fait que nous reconnaissons ainsi la réalité, va de pair avec un autre fait tout aussi remarquable, qui est que nous n&#8217;identifions, à proprement parler, rien dans cette réalité. Nous n&#8217;identifions rien et c&#8217;est la condition à laquelle est subordonné le fait que nous reconnaissons. Si la réalité nous est familière, c&#8217;est parce que précisément nous n&#8217;identifions à peu près rien. Je dis à peu près, parce qu&#8217;en réalité bien sûr, il arrive que nous identifions quand même quelque chose. Lorsque nous identifions quelque chose, c&#8217;est-à-dire lorsque quelque chose vient faire rupture dans le ton de continuité dans lequel nous recevons la réalité, quand quelque chose se signale de façon telle à notre attention, que nous puissions dire que nous l&#8217;identifions, eh bien en général ça s&#8217;accompagne de surprise, voire d&#8217;angoisse, avec les corollaires de l&#8217;angoisse, c&#8217;est-à-dire ça peut aller jusqu&#8217;au passage à l&#8217;acte.</p>
<p>La réalité que nous reconnaissons, est fondamentalement monotone et c&#8217;est pour cela que nous la reconnaissons . Si je vous évoque ceci comme point de départ, c&#8217;est parce que le syndrome dont je vais vous parler, qui a été appelé le syndrome d&#8217;illusion de Frégoli, a ceci de tout à fait notable qu&#8217;il nous présente un trait structural des psychoses, mais qu’il nous le présente d’une façon remarquablement isolée, remarquablement spécifique, qui tient à ce que dans ce syndrome, c&#8217;est exactement l&#8217;inverse : le sujet identifie, il identifie constamment. Il ne reconnaît pas, il identifie et c&#8217;est cela qui fait tout l’intérêt de ce syndrome il identifie un objet qui a pour caractéristique d&#8217;être toujours un et le même.</p>
<p>Alors, je vais vous dire un mot d&#8217;abord sur le contexte historique dans lequel ce syndrome de Frégoli a été découvert et ça permet d’ailleurs de faire la remarque suivante : ces syndromes dont nous nous occupons au cours de cette série de conférences : le syndrome de Cotard, l&#8217;automatisme mental, le syndrome de Frégoli, par exemple ils ont pour caractéristique de ne pas être des syndromes qui aujourd&#8217;hui sont spécialement connus des cliniciens. Je ne crois pas que dans le DSM, dans sa version actuelle, ils soient répertoriés comme tels. Or, ces syndromes, nous les avons hérités d&#8217;une période de la psychiatrie française qui s&#8217;est avérée exceptionnellement féconde précisément en ceci, que les cliniciens comme DE CLEREMBAULT,ou comme ceux qui ont découvert le syndrome de FREGOLI, COURBON , FAIL. Ces cliniciens, ce n&#8217;était pas des gens très versés dans la psychanalyse…. Mais, ils étaient attentifs à ce que disait le malade et ils ont été attentifs à isoler les traits les plus caractéristiques, les traits que nous pourrions dire structuraux de ce que ces malades disaient. Et c&#8217;est ça qui leur a permis de dégager, à travers ces syndromes qui ont l&#8217;air comme ça d&#8217;être des choses un petit peu curieuses, des étrangetés à ranger au rayon des curiosités psychiatriques, ils ont isolé à travers ces syndromes des traits fondamentaux de la psychose, c&#8217;est- à- dire pas des choses locales, mais des traits fondamentaux. Et c&#8217;est un des mérites de l&#8217;ouvrage de Marcel CZERMAK &#8221; Passions de l&#8217;objet&#8221;, ainsi que cet autre qu&#8217;il a publié tout récemment qui s&#8217;intitule &#8221; Patronymies&#8221;, comme vous savez,- mais Passion de l&#8217;objet&#8221; ça fait déjà maintenant plus de dix ans que c&#8217;est publié,- c&#8217;est un des mérites de cet ouvrage que d&#8217;avoir attiré l&#8217;attention des analystes sur le fait que nous trouvons dans cette clinique classique, fréquemment oubliée aujourd&#8217;hui, les voies d&#8217;un abord structural extrêmement instructif des psychoses.</p>
<p>Alors, le syndrome de FREGOLI d&#8217;un mot, comment est-il apparu ? D’abord, en quoi est-ce qu’il consiste ? Il consiste en ceci que le sujet, comme je vous le disais tout à l&#8217;heure, identifie toujours le même, le même persécuteur en lieu et place des autres auxquels il peut avoir affaire ou côtoyer. Dans le cas princeps, dans le premier cas qui a été identifié en 1927, la malade, c&#8217;était une femme, disait qu&#8217;elle était persécutée par l&#8217;actrice ROBINE, grande actrice de théâtre de l&#8217;époque, et elle disait &#8221; Robine m&#8217;envoie des influx, elle m&#8217;impose des actes, elle m&#8217;oblige par exemple à me masturber à certains moments, et elle fait tout cela sous des déguisements les plus divers&#8221;.</p>
<p>C’est-à-dire que non seulement Robine est capable de prendre l&#8217;apparence de n&#8217;importe qui, mais elle est capable de transformer l&#8217;apparence des gens. Ce qui fait que cette malade disait comment à travers ceux ou celles à qui elle avait affaire, en réalité elle n’avait toujours affaire qu&#8217;au même : Robine. Elle donnait donc à ce persécuteur, à ce qui la tourmentait de cette façon, un nom, et elle lui donnait toujours le même nom, Robine. Ce nom était si vous voulez, pour elle, cette malade, ce nom était 1’identification par elle de ce qui était au principe de ce qui la persécutait. Alors, le nom, je vais l&#8217;écrire au tableau, je 1 &#8220;écris : N, tout simplement pour désigner son importance. Vous remarquerez que dans des syndromes comme le syndrome de Cotard, comme le transsexualisme, voire même dans l&#8217;automatisme mental, le Nom, en particulier le nom propre est très fréquemment atteint, il est touché, il n&#8217;opère plus. C&#8217;est un trait commun à cette série de syndromes. Et dans le syndrome de Frégoli, cette atteinte du nom propre est exemplaire, puisque tous les noms propres des autres auxquels le sujet a à faire, de même que toutes leurs images, toutes leurs apparences, sont réduits à un seul et même nom propre: Robine. Dans ces syndromes le nom nomme toujours le même UN.<br />
Je fais ici un petit retour en arrière. Je disais en commençant que ce qui caractérise le névrosé, c&#8217;est que la réalité qu&#8217;il connaît, il la reconnaît au prix de ne rien identifier. Et il est vrai que notre rapport à la réalité n&#8217;est supportable qu&#8217;à la condition d&#8217;être fondamentalement, on peut dire ça comme ça, abruti. Il faut que nous soyons relativement abrutis pour supporter la réalité. Vous savez que Lacan désigne cela sous des termes spécifiques mais très précis, puisque ce que nous refoulons, ce que nous tempérons ainsi, en identifiant jamais rien ou si peu dans la réalité, c&#8217;est ce que Lacan appelait la jouissance. La jouissance, ce n&#8217;est pas du tout quelque chose qui nous est familier, contrairement d&#8217;ailleurs à ce que pourrait nous laisser croire l&#8217;époque dans laquelle nous vivons, une époque, qui, pour des raisons complexes, qui tiennent aux modalités contemporaines du marché, de l&#8217;échange, du commerce, etc., nous vivons une époque qui tendrait plutôt à dire au sujet: &#8220;Eh bien vas-y, tu peux jouir, tu peux jouir autant que tu veux ! &#8221; On pourrait penser que cet impératif est un impératif plaisant, agréable. En réalité, il n&#8217;en est rien. Nous constatons en clinique, aussi bien chez chacun qu&#8217;à l&#8217;échelle sociale, que cet impératif moderne est essentiellement angoissant. Pourquoi ? Parce que nous ne supportons pas la jouissance, je veux dire les névrosés, les gens ordinaires ne supportent la jouissance que dans la mesure où elle est tempérée, c&#8217;est-à-dire dans la mesure où elle nous permet d&#8217;éprouver notre être comme un corps et comme un corps ayant une unité, comme un corps que nous nous représentons comme permanent, comme le même. C&#8217;est ce que je vous disais tout à l’heure, le matin nous nous réveillons, nous nous voyons dans la glace, nous nous reconnaissons.</p>
<p>Cette sorte de manière dont nous parvenons plus ou moins bien, ou plus ou moins mal, à faire en sorte que la jouissance, pour nous, soit compatible avec la forme unitaire d&#8217;un corps, ça ne va absolument pas de soi. Et si je me permets de faire cette remarque en commençant, c&#8217;est que ces syndromes dont nous parlons cette année dans les psychoses, le syndrome de Cotard, le transsexualisme, le syndrome de Frégoli, les toxicomanies aussi, ce sont des structures cliniques dans lesquelles le rapport du sujet à la jouissance n’est Absolument pas agencé de la même manière que pour nous. Autrement dit, la conséquence, c’est que le corps auquel nous avons à faire chez de tels sujets et dans de tels syndromes, n&#8217;est pas celui par rapport auquel nous nous orientons d&#8217;habitude. Quand vous examinez quelqu’un présentant un syndrome de Frégoli, si vous essayez de vous repérer par rapport à l&#8217;idée que vous vous faites de ce qu&#8217;est un corps pour nous normal, c&#8217;est-à-dire, un et organisé avec des organes tels que les répertorie l&#8217;anatomie, vous n&#8217;avez aucune chance de vous en tirer. La seule chance que vous ayez de vous en tirer, c&#8217;est de suivre les propos de ces malades, et les propos de ces malades donnent les coordonnées d&#8217;une jouissance et d&#8217;un corps absolument inintégrables à l&#8217;image du corps, c&#8217;est-à-dire à l&#8217;image spéculaire.</p>
<p>Justement, sur cette question de l&#8217;image spéculaire, le syndrome de Frégoli, est tout à faire remarquable. C&#8217;est un syndrome qui n&#8217;est pas aussi rare qu&#8217;on le pense. Une fois qu&#8217;on l&#8217;a repéré, on découvre qu&#8217;il n&#8217;est pas si rare que ça. Le syndrome de Frégoli, c&#8217;est un syndrome dans lequel de manière exemplaire, l&#8217;image du corps et le Nom qui désigne cette image sont séparés. L&#8217;image du corps si vous le voulez bien, je vais l&#8217;écrire de la manière dont Lacan l&#8217;écrit très simplement, mais ça change quand même les choses de l&#8217;écrire comme ça, je l&#8217;écris: i.<br />
Si j&#8217;écris au tableau, ce n&#8217;est pas pour le plaisir d&#8217;écrire au tableau, c&#8217;est parce que j&#8217;attire votre attention sur ce fait que, dès lors qu&#8217;on écrit les choses, justement on ne se trouve plus dans les coordonnées, dans l&#8217;horizon habituel qu&#8217;on appelle celui de la reconnaissance. Quand on écrit, on a affaire à des lettres et les lettres, c&#8217;est quelque chose qu&#8217;on ne reconnaît pas, mais qu’on identifie. C&#8217;est même si vous y réfléchissez, un des seuls objets qu&#8217;en tant que névrosé nous serions capables d&#8217;identifier. Par contre, nous ne reconnaissons pas les lettres. Si vous êtes dans un endroit que vous connaissez plus ou moins, mais que vous n&#8217;êtes pas sûrs de connaître, vous allez vous dire &#8220;tiens, c&#8217;est comme ça, oui &#8230; &#8220;, en réfléchissant un peu, vous pouvez vous dire &#8220;oui, finalement je connais cet endroit&#8221;. Mais si je vous écris par exemple la lettre &#8220;a&#8221;, bien sûr vous avez l&#8217;impression que vous la reconnaissez, mais en réalité vous ne la reconnaissez pas, vous l&#8217;identifiez. Vous ne pouvez pas la reconnaître, vous ne pouvez pas arriver en la regardant, en l’examinant attentivement, à vous dire &#8220;oui, finalement c&#8217;est bien là quelque chose que je connais et que je reconnais&#8221;. La preuve, c&#8217;est que si je vous écris une lettre comme ça: * (caractère chinois) vous ne la reconnaissez pas. Ou bien vous l&#8217;identifiez ou bien vous ne l&#8217;identifiez pas, mais vous ne pouvez pas dire que vous la reconnaissez plus ou moins : &#8221; oui, c&#8217;est vaguement ça&#8221;.Non, c&#8217;est: (&#8221; j&#8217;identifie ou je n&#8217;identifie pas&#8221;.</p>
<p>C&#8217;est important de souligner ce caractère de l&#8217;écriture et de la lettre, parce dès lors qu&#8217;on passe à l&#8217;écriture, on est capable, même lorsqu&#8217;on ne s&#8217;en rend pas compte, de repérer des choses que l&#8217;on ne repère absolument pas quand on se fie à ce qu&#8217;on croit entendre par exemple de ce qui nous est dit. Si je fais cette remarque, c&#8217;est que ces psychiatres qui ont découvert le syndrome de Cotard, de Frégoli, etc … c&#8217;étaient des psychiatres, , quand vous lisez leurs textes, vous vous apercevez que ce n’étaient pas nécessairement des gens brillants., mais ils avaient cette habitude excellente et qui malheureusement aujourd&#8217;hui est en train de plus ou moins se perdre : les propos de leurs malades, ils les écrivaient systématiquement. Et en les écrivant, qu’ils s’en rendissent compte ou non, ils situaient les choses sur un plan qui n’avait plus aucun rapport avec ce qu’ils croyaient en comprendre.</p>
<p>Vous assistez ainsi, lorsque vous lisez les textes sur ces syndromes, et sur la manière dont ils ont été découverts, à un phénomène très étrange Et la description du syndrome, sa caractérisation, sont faites par ces psychiatres, de façon remarquable. Par contre, le sens qu’ils leur donnent, les explications qu’ils leur cherchent, sont le plus souvent décevants. Autrement dit, quand ils cherchent à comprendre, à reconnaître, ils se trompent mais quand ils notent ce qui est livré à leur observation, notamment ce qu’ils en couchent sur le papier, là, ils ne se trompent pas.</p>
<p>Et c’est comme cela que le syndrome de Frégoli a été découvert par COURBON et FAIL Ils se sont rendu compte de ceci, que la patiente, la malade, nommait toujours identiquement ce dont elle parlait comme la persécutant. Et c’est à partir de là, à partir des caractéristiques grammaticales du syndrome, qu’ils ont été amenés à l’isoler comme tel.</p>
<p>Un autre point mérite d’être brièvement relevé, c’est que ce syndrome nous montre l’importance des déterminations logiques et des déterminations de structure en clinique. Je veux dire qu’il n’a pas été découvert n’importe quand, il a été découvert en 1927. En 1923, Joseph CAPGRAS et Jean REBOUL-LACHAUX avaient isolé un syndrome très curieux, qu’ils ont appelé syndrome d’illusion des sosies. Pour arriver au syndrome d’illusion des sosies, CAPGRAS avait remarqué chez une persécutée délirante, un petit quelque chose qui l’avait retenu. Il disait voilà, c’est une persécutée, mégalomane, délire de persécution et de grandeur, tout cela c’est classique, mais il y a quelque chose qui ne colle pas dans ce genre de tableau, c’est que cette femme à chaque qu’on lui présente la même personne, elle dit : &#8221; c’est pas la même personne, je reconnaît les traits, c’est à peu près le même visage, c’est à peu près la même apparence, mais en réalité, ce n’est pas la même personne c’est un sosie. &#8220;CAPGRAS a isolé dans ce tableau un peu particulier, quelque chose qu’il a dit être un symptôme très particulier, et il a décrit ce symptôme. Ensuite, il a eu l’occasion d’observer une autre malade, qui présentait le même symptôme, et ça leur est apparu suffisamment important à ces psychiatres pour qu’en à peine deux ans, on distingue ce symptôme comme un syndrome : ils avaient pigé qu’il y avait là, quelque chose qui dépassait simplement le coté phénoménologique, descriptif de la maladie, mais qui nous donnait un trait structural qui méritait d’être isolé au titre d’un syndrome. Dans le syndrome d’illusion des sosies, au fond, ce que les psychiatres ont repéré c’est quelque chose comme : le même est toujours autre. C’est assez caractéristique, la patiente du cas princeps d’illusion des sosies, on lui présenta sa fille cent fois dans la journée, et elle disait : &#8221; J’ai eu affaire à cent sosies différents de ma fille, ce n’est pas ma fille, c’est un sosie &#8220;. On a appelé cela le syndrome d’illusion des sosies ou syndrome de Capgras. Quand il est apparu, cela a fait gamberger les gens, c’était en 1923. Et en 1927, COURBON et FAIL voient arriver la malade dont je vous parlais tout à l’heure, qui reconnaissait toujours le même à travers ses différents autres. Et ils se sont dit : logiquement c’est l’inverse du syndrome de Capgras. Vous voyez comment là, la structure du langage la plus élémentaire soutient des différences articulables de syndromes psychotiques qui sont livrés à l’état pur et séparément.</p>
<p>Dans l’illusion des sosies, le même est toujours autre. Et dans le syndrome de Frégoli, l’autre est toujours le même. Ce n’est pas rien, le fait d’isoler des systématisations délirantes minimales, foc alisées sur des structures aussi simples dans leur formulation logiques .</p>
<p>Je n’ai pas le temps de vous développer tous les aspects du syndrome de Frégoli, mais pour aller à l’essentiel, ce qui est remarquable, c’est que les syndromes comme l’automatisme mental, comme le syndrome d’illusion des sosies, comme le syndrome de Frégoli, ont été découverts à une époque extrêmement féconde de la psychiatrie française en particulier. Là dessus, en 1936, et en 1946, Lacan sort de sa poche le stade du miroir. Si vous interrogez les gens sur le stade du miroir, vous constaterez facilement que tout le monde pense que le stade du miroir est du au génie de LACAN ce qui est vrai d’ailleurs, à ceci près, qu’il ne l’a pas sorti seulement de sa poche. En réalité quand on regarde d’un peu près la clinique, de l’automatisme mental, la clinique que nous livre les syndromes tels que celui de l’illusion des sosies ou de Frégoli, on aperçoit ce que LACAN a remarquablement théorisé, il l’a fait en ramenant les fils de plusieurs phénomènes différents à un phénomène fondamental, qu’il a caractérisé dans la conception du stade du miroir.</p>
<p>Ensuite, il est allé un tout petit peu plus loin dans l’élaboration de ce stade du miroir. Vous savez que plus tard, il a été amené à définir la forme spéculaire, la forme dans le miroir, qui donne consistance à notre corps,à notre corps de névrosé, en tant que nous l’imaginons comme un. Il n’est pas du tout un ce corps, mais nous l’imaginons comme un, parce que nous refoulons, nous tempérons la jouissance de ce corps.</p>
<p>Plus tard, dans son enseignement, après le stade du miroir, LACAN a écrit la formule de l’image spéculaire sous la forme d’une écriture extrêmement simple : i(a). Qu’est ce que i(a) ? Sans trop entrer dans les détails, ça indique ceci : nous ne nous reconnaissons nous-mêmes, nous ne pouvons nous orienter par rapport à notre image( et vous savez qu’il n’y a que ça qui nous oriente dans la vie, pratiquement) , qu’à la condition de ne pas jouir. C’est d’ailleurs ce que disent généralement les névrosés, quand ils ne vont pas bien, et qu’ils viennent sur le divan, ils disent : ça ne va pas, je m’ennuie, ou bien je fais ceci ou cela pour différentes raisons. Effectivement, ce qui caractérise le fait que l’image spéculaire soit reconnaissable et constituée, c’est que comme je vous le disais, nous n’identifions pas. Et plus précisément, grâce à ce que Lacan a théorisé, nous pouvons dire : nous n’identifions pas l’objet que Lacan nomme a, nous n’identifions pas cet objet, dont cette image spéculaire est faite pour symboliser le refoulement.<br />
Je dis symboliser car l’image du corps est bien le symbole de quelque chose. Qu’est ce que c’est qu’un symbole ?C’est une chose qui est mise à la place d’une autre, et qui la représente. Nous pouvons tout à fait dire que l’image du corps, dans la mesure ou elle est constituée comme image, dans la mesure ou nous y croyons, où nous l’aimons, où nous en sommes amoureux, dans la mesure où elle fonde le narcissisme, où elle n’est pas délitée et décomposée comme dans le syndrome de Frégoli- parce que dans le syndrome de Frégoli, il y a cet aspect tout à fait important que le corps de la malade est complètement décomposé, puisqu’elle dit : c’est Robine qui commande mes gestes, c’est Robine qui a mes yeux, etc, etc. nous avons donc affaire à un corps complètement démantelé.</p>
<p>Ce qui commande au contraire l’unité sous laquelle nous percevons l’image du corps, c’est qu’elle est le symbole de quelque chose , elle est mise à la place de cet objet que nous n’identifions pas. C’est parce que nous n’identifions jamais l’objet en tant que névrosé que nous pouvons reconnaître l’image spéculaire et à l’inverse, c’est parce que le sujet dans la psychose( et encore on peut se demander si on peut parler de sujet dans la psychose,), en tous cas le malade ou la malade, dans la psychose ne peut reconnaître en aucun cas son image spéculaire : soit il va dire comme dans le Cotard qu’il n’a plus d’organes, qu’il n’a plus de trous, qu’il n’a plus d’orifices, soit il va dire comme dans le syndrome de Frégoli : mon regard a été pris par Robine, mes yeux…etc. Elle me force à faire des gestes etc le sujet dans ce cas là ne peut plus reconnaître mais en revanche, il identifie.</p>
<p>Et ce qu’il y a donc de remarquable dans le syndrome de Frégoli, c’est qu’il nous présente, de façon parfaitement épurée en structure, quelque chose qui est présent dans toute psychose finalement, c’est à dire une identification de l’objet. Dans le syndrome de Frégoli, c’est parfaitement clair, puisque cet objet il est désigné comme un, comme le même, comme un nom propre, un nom qui n’a pas de signification (Robine dans le cas princeps), et toujours le même nom propre. Le syndrome de Frégoli nous donne à l’état isolé, quelque chose qui est souvent beaucoup plus éclaté dans d’autres psychoses.</p>
<p>Dans le transsexualisme par exemple, le transsexuel quand il s’agit de la forme psychotique, du transsexualisme, dit exactement la même chose que dans le Frégoli, c’est à dire qu’il est persécuté par un UN qui est toujours le même et cet un, il exige qu’on le nomme et qu’on le lui donne .Vous savez que les transsexuels demandent régulièrement et de façon impérative qu’on change leur prénom( je passe sur la différence entre le nom et le prénom, il s’agit quand même de nomination). Ils demandent qu’on leur donne le nom de cet objet un et toujours le même, qui les persécute, et au titre de quoi ? au titre de ce que régulièrement, ils expliquent qu’ils ne sont pas , qu’ils n’incarnent pas une femme, mais La Femme, la seule, la véritable, La Femme réelle. Et les transsexuels disent régulièrement que les femmes de la réalité sont des semblants de femme. Exactement comme SHREBER dit que les hommes et les femmes qu’il voit sont des trucs torchés &#8221; à la six-quatre-deux &#8220;, mal fichus, mal fagotés, pas réels. Alors que le transsexuel dit en général : &#8221; La femme, c’est moi. Et il ne dit pas ça dans le sérénité, il dit cela dans le morcellement d’un corps dont il est en train de rattraper les morceaux qui fichent le camp.</p>
<p>Vous voyez que cet aspect d’identification de l’objet comme tel, entraînant corrélativement un délitement de la reconnaissance, cet aspect là, le syndrome de Frégoli en donne une illustration clinique parfaite, et c’est ce qui le rend très étonnant.</p>
<p>Seulement, pour revenir à ce que je disais au début, les psychiatres n’ont pu découvrir l’intérêt de ce syndrome et même découvrir sa structure qu’en écrivant les propos de leurs patients, en mettant cela par écrit. Et d’une façon plus générale, on remarque qu’en clinique, on n’a pas du tout le même abord des choses, en tous cas, certainement quand on commence, après les choses se présentent peut être un peu différemment, mais on n’a pas du tout le même abord des choses selon qu’on les prend à partir de ce qu’on a cru en recevoir et en comprendre, ou à partir de ce qu’on en écrit. On est souvent tout étonné en relisant les écrits cliniques, en relisant avoir noté des choses que l’on avait pas vues au départ.</p>
<p>Alors, pour ce qui me concerne dans ce genre de clinique, quand on a l’impression de comprendre -LACAN l’a souligné souvent- La difficulté pour nous, et l’intérêt de cette clinique, c’est que de fait, on n’y comprend rien, et c’est ce qui donne la chance aussi d’être un peu moins bête qu’on l’est, parce qu’on se protège comme ça c’est pas un défaut, on ne peut pas faire autrement. Mais avec des syndromes comme ceux-là, disons que ça nous lave un peu de cette compacité avec laquelle nous nous précipitons littéralement pour comprendre les choses. Là, c’est impossible. Ecoutez un transsexuel par exemple ?ou un paranoïaque, qui vous parle de son image du corps, eh bien, vous ne comprenez pas très bien.</p>
<p>J’ai eu l’occasion, il n’y a pas longtemps, d’avoir un entretien avec un sujet paranoïaque, qui présentait cette caractéristique qu’il percevait facilement que l’image de son corps ne tenait pas . Lorsque je lui demandais s’il lui arrivait de se regarder dans un miroir, il me disait non et lorsqu’il m’expliquait sa problématique, il apparaissait que ce sujet passait son temps à se transférer d’un lieu à un autre, il était toujours en train de se transporter, c’est à dire qu’il ne pouvait pas supporter la coexistence de ses différents morceaux dans un même temps et dans un même lieu, il ne pouvait se supporter que dans la mesure ou il se déplaçait. Donc, il était sans arrêt en train de programmer des déplacements : de chez lui à une station de métro, de telle station à telle autre, puis de la station à l’hôpital… il faisait en permanence tout un circuit articulé à ceci qu’il ne pouvait pas tenir en place.</p>
<p>Une dernière chose : i(a) et le stade du miroir, LACAN ne les a donc pas sortis comme ça. LACAN connaissait cette clinique. Dans une thèse qui est due à une certaine Mlle DEROMBIES, une personne fort intelligente, en 1935, une thèse sur l’illusion des sosies, elle cite une observation des sosies qui lui a été prêtée dit-elle par le docteur LACAN.(…)La structure de i(a) et du stade du miroir c’est difficile à repérer chez les névrosés. Par contre dans un syndrome comme celui de Frégoli, vous avez le nom d’un coté, vous avez l’image d’un autre coté, puisque le malade dit : &#8221; Lui, c’est pas lui, c’est Robine &#8220;, donc, l’image et le nom sont disjoints, l’image tombe d’un coté, le nom d’un autre et puis l’objet tombe d’un troisième coté, il est parfaitement visé, c’est Robine. C’est un objet autonome, xénopathique, un, toujours le même. Ces coordonnées là,(le nom, l’image, l’objet), repérer leur incidence dans la névrose, c’est beaucoup plus difficile parce que l’image est tellement faite pour méconnaître l’objet, qu’il faut souvent toute une analyse, et encore, pour qu’un sujet soit capable soit en position d’articuler un peu quelque chose de cet objet qui le mène. Ce qui fait qu’on peut soutenir, c’est ce que j’essaie de faire dans ouvrage qui va paraître, que cette écriture que LACAN a produit l’image spéculaire notée i(a), qui ne tient que par l’opération que symbolise le nom propre( c’est à dire la castration), ces coordonnées de l’image spéculaire, il y a fort à parier que LACAN les a trouvées dans les psychoses, mais à l’état séparé, disjoint, dans ces syndromes comme le syndrome de Frégoli, ou le syndrome de l’illusion des sosies.</p>
<p>Prenez aussi l’automatisme mental dont LACAN faisait grand cas, il est clair que ce qui le définit fondamentalement, c’est une structure en écho, c’est à dire le fait que le sujet reçoit directement son message de l’Autre, sans inversion , ce qu’on appelle le syndrome SVP &#8221; salope-vache-putain &#8220;, &#8221; tu fais ceci, tu fais cela, maintenant tu vas dans telle pièce. &#8221; là, il n’y a pas de forme inversée : le sujet est directement articulé à l’autre mais cet écho de la pensée, cet automatisme mental c’est clairement une des sources de Lacan dans la mise au jour du stade du miroir. Puisque le stade du miroir, la reflexion spéculaire, c’est précisément le dispositif en écho qui tempère, qui permet de méconnaitre la srtucture reduplicatoire élémentaire de l’automatisme mental et de la psychose, c’est-à-dire de l’objet. Et il me paraît tout à fait avéré que l’automatisme mental de DE CLEREMBAULT a donné à LACAN, avec ce syndrome que j’évoquais, des fils dont il a eu le génie de reprendre la trame. Il a lié tout ça dans une élaboration tout à fait inédite, tellement inédite d’ailleurs que nous n’en tenons pas grand compte.</p>
<p>Il est vrai qu’il peut sembler difficile de saisir ce que LACAN énonce : or, ce qu’il énonce, c’est aussi d’une grande lisibilité, d’une lisibilité élémentaire, à partir du moment où on veut bien faire l’effort de ne pas trop vite chercher à reconnaître ce dont il s’agit et accepter d’en passer par ce que disent les malades.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Proximidade do transexualismo e da síndrome de ilusão de Frégoli na clínica e na doutrina</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 17:44:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Proximidade do transexualismo e da síndrome de ilusão de Frégoli na clínica e na doutrina]]></category>
		<category><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></category>
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					<description><![CDATA[Stéphane Thibierge   As observações que se seguem concernem ao lugar que podemos atribuir na clínica à problemática do transexualismo, a partir da lógica que dela emana. Elas se apóiam em várias indicações dadas a esse respeito pelo Dr. Marcel Czermak. Podemos falar do “sintoma” transexual num sentido bastante geral, principalmente para sublinhar em que  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Stéphane Thibierge</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As observações que se seguem concernem ao lugar que podemos atribuir na clínica à problemática do transexualismo, a partir da lógica que dela emana. Elas se apóiam em várias indicações dadas a esse respeito pelo Dr. Marcel Czermak.</p>
<p>Podemos falar do “sintoma” transexual num sentido bastante geral, principalmente para sublinhar em que a demanda dos transexuais faz aparecer, de modo solidário, uma vertente individual e uma vertente social do sintoma.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#d1" name="1"><sup>1</sup></a> Todavia, enquanto entidade clínica no sentido estrito, lidamos realmente aqui com uma síndrome, isto é, com uma série de traços logicamente articuláveis que tomam esse valor. Ora, é possível mostrar de que maneira o transexualismo, longe de ser uma entidade apenas local na patologia, pode ser referido a coordenadas que conhecemos, porque já foram determinadas, no essencial, pela observação psiquiátrica clássica.</p>
<p>O transexualismo pode, com efeito, ser aproximado de uma outra síndrome, igualmente rara e aparentemente muito distante, evidenciada em 1927, por Courbon e Fail, sob o nome de <em>síndrome de ilusão de Frégoli</em>. Essa aproximação poderá parecer espantosa à primeira vista, mas é precisamente articulável: ao exame da estrutura e dos elementos dessas duas síndromes, ela se fundamenta na clínica e na doutrina. Contudo, pelo que conhecemos, essa observação nunca foi feita; é por isso que a desenvolvemos aqui.</p>
<p>A síndrome de ilusão de Frégoli se apresenta como um distúrbio do reconhecimento das pessoas, no sentido de que o sujeito não identifica mais os outros, os semelhantes, por seu nome próprio – sem que se trate de um déficit da memória ou de um falso reconhecimento no sentido clássico. Esses nomes próprios, ele vai substituí-los, sempre da mesma maneira, por um mesmo nome. Este nome é o de um perseguidor, a quem o sujeito atribui os fenômenos de despedaçamento e de xenopatia de que seu corpo é objeto. No caso <em>princeps</em> de Courbon e Fail, a doente indicava que esse perseguidor fazia como o ator italiano Frégoli, famoso no começo do século: ele era capaz de tomar a aparência de qualquer um, substituindo os outros e agindo assim sobre ela com aparências emprestadas.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#d2" name="2"><sup>2</sup></a></p>
<p>Assim, no lugar e na função da imagem, da aparência ou da roupa dos outros que ele encontra, o sujeito é levado a identificar sempre <em>o mesmo.</em> O mesmo o quê? Será que devemos dizer: a mesma pessoa, o mesmo nome, a mesma imagem, a mesma coisa? Aqui somos levados, imediatamente, para um ponto em que esses termos vêem seu valor e sua condição ordinários profundamente remanejados. Digamos, então, simplesmente: o mesmo X, recorrente sob a diversidade das aparências, que o sujeito vai designar por um único e mesmo nome próprio. É assim que, no caso <em>princeps</em>, a doente “reconhece” quase sempre a atriz Robine, que viu atuar muitas vezes, sob a imagem dos outros que encontra e que agem sobre ela, enviam-lhe influxos etc.</p>
<p>Acrescentemos que a imagem de seu próprio corpo, pelo modo como surge nas falas da doente, fica igualmente modificada por esse mesmo X e em parte identificada com ele: os fenômenos sensoriais que afetam esse corpo são correlatos a certas modificações no corpo da atriz, em particular em seus olhos e em suas pálpebras. Em outras palavras, o nome Robine designa algo cujos efeitos determinam um corpo específico, parcialmente distribuído entre o da doente e o de Robine.</p>
<p>Estamos diante, portanto, de um quadro clínico no qual a imagem – a de outrem, a de Robine, a do sujeito – se acha parcial ou totalmente desligada do nome próprio, para ser referida a um mesmo nome, em todos os casos.</p>
<p>Esse nome não é mais, em função disso, um nome próprio, mas é rebaixado a um estatuto de nome comum.</p>
<p>Quanto à imagem, ela remete, em tal situação, a algo completamente diferente daquilo que a princípio caracteriza sua função e sua noção – que tomamos em suas acepções geralmente aceitas, sem entrar aqui na questão do estatuto da imagem como tal, que não tem, como mostram precisamente esses fatos clínicos, nenhum caráter de evidência. Digamos então, apenas, que aqui ela não está determinada como<em>unidade</em> formal de um corpo, mas desarticulada entre vários suportes; que ela não admite, por conseguinte, a dimensão do <em>semblant</em>, isto é, a diferenciação de si nos limites dessa unidade formal, mas remete sempre, ao contrário, ao princípio real dos fenômenos que a doente experimenta: xenopatia, despedaçamento.</p>
<p>Não é, portanto, à imagem como tal que esse nome, que designa qualquer imagem para a doente, remete, mas antes a esse X com modalidades reais, atuantes, dispersas através dos “outros” que ela encontra e em seu próprio corpo.</p>
<p>Transportemo-nos agora da síndrome de ilusão de Frégoli àquilo que o transexualismo presentifica.</p>
<p>Como vimos, o sujeito transexual quer ser <em>nomeado mulher</em> – limitamo-nos aqui ao caso mais corrente, de sujeitos masculinos, mas as coisas não são sensivelmente diferentes, do ponto de vista de sua lógica, na outra direção.</p>
<p>Se ele demanda que se modifique seu registro civil e o nome que carrega – nome de família ou apenas prenome, de qualquer modo é o nome em seu princípio, o patronímico, que é visado –, é em referência ao que ele designa pelo nome d’<em>A mulher</em>, que remete a algo da ordem de uma identidade absoluta, totalmente diferente daquela, degradada, que é presentificada pelas mulheres, que para ele são apenas<em>semblants</em> de mulher.</p>
<p>Ou seja, mesmo reivindicando a imagem feminina, o que ele visa não é da ordem da imagem propriamente dita: é aquilo com o que identifica essa imagem, e que evoca regularmente como o real de um gozo que ele invoca e às vezes experimenta, um gozo cutâneo do invólucro, da matriz, da completude – remetam-se aqui ao material clínico apresentado nesse volume.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#d3" name="3"><sup>3</sup></a></p>
<p>Ali onde entendemos: imagem, aparência, <em>semblant</em>, o transexual visa esse <em>ser</em> ao qual tenta juntar a imagem. Essa versão da imagem, exatamente como na síndrome de Frégoli, nos remete a outra coisa, diferente daquilo que a princípio entendemos nesse registro, pois também está identificada a um X cujas determinações reais ela mantém, paralelamente à desarticulação de sua consistência de imagem: na síndrome de Frégoli, o que advém nesse lugar é um corpo xenopático e despedaçado por causa do perseguidor, cujo nome único fica sendo a única ilhota identificável nessa desagregação do registro imaginário; na síndrome transexual, trata-se de um corpo igualmente despedaçado, muitas vezes xenopático, que encontra, no real do gozo do invólucro já evocado, o suporte de uma identificação invocada a esse gozo.</p>
<p>É esse suporte que o transexual invoca no nome d’<em>A mulher</em>: nome comum a que ele vem reduzir seu nome próprio, mas também substância real, por assim dizer, em cuja experiência se desfaz qualquer imagem como tal. É por isso que, como vimos, sua demanda não poderia ser apaziguada por aquilo que se imagina valer como retificação de seu corpo, “correspondendo” à imagem que ele tem desse corpo: essa imagem não é uma imagem. Em lugar de representar, como faz uma imagem, <em>outra coisa</em>, isto é, de ter um valor diferencial, de se inscrever numa escala de variações possíveis, ou ainda de não se completar em <em>uma significação</em> que a tornaria idêntica a si mesma, ela é tomada aqui num valor de identidade não diferencial, exatamente como na síndrome de ilusão de Frégoli. Mas isso equivale a dizer que ela se apóia numa outra ordem de realidade.</p>
<p>Lacan traz, para a imagem do corpo, tal como ela se constitui na dialética especular em relação à do semelhante, uma fórmula que se escreve: <em>i(a).</em> Sem explicitar aqui essa fórmula e para ficar só com o que interessa imediatamente à nossa questão, ela indica sobretudo que a imagem <em>i</em> se produz e se fundamenta pela colocação entre parênteses de algo, notado <strong><em>a</em></strong>, que é assim subtraído de seu campo, e que a psicanálise isolou sob o conceito de <em>objeto</em>. A beleza da imagem, isto é, da imagem do corpo em princípio, seu poder intrinsecamente cativante, e ao mesmo tempo sua variabilidade e sua diferenciação nos limites de uma forma, ela os obtém desse objeto com o qual se relaciona, metaforizando sua ausência.</p>
<p>Munidos dessa escrita lógica mínima, mas operatória, voltemos à síndrome de Frégoli e ao transexualismo.</p>
<p>Observamos aí uma partilha e uma economia do nome e da imagem comparáveis, suas respectivas funções remanejadas sob o efeito desse X identificado pelo sujeito.</p>
<p>Quanto ao nome, notemos que, nos dois casos, o nome próprio é rebaixado ao nível de um nome ao mesmo tempo <em>comum </em>e <em>único</em>. Na síndrome de Frégoli, é o nome do perseguidor, identificado através dos “outros” que o sujeito encontra e mesmo nos elementos disjuntos de seu próprio corpo. No transexualismo, é o nome d’<em>A mulher</em> que vem designar uma identidade diante da qual a do nome próprio se apaga e não se sustenta mais, pois deve ser modificada na direção comandada pela primeira.</p>
<p>O que o nome comum único nomeia, aquilo que comanda e antecede a função do nome próprio nas duas síndromes, tem a propriedade de retornar ao sujeito sob a forma de uma identidade real e unívoca, aquela de uma significação imposta. Esse X designa muito exatamente o que é notado <strong><em>a</em></strong> na fórmula da imagem <em>i(a)</em>, ou seja, o <em>objeto</em>, na medida em que esse objeto, sempre o mesmo, na neurose, em princípio, nunca é identificado pelo sujeito. Mas aqui, nos dois casos, ele é identificado e constitui o pivô de uma sistematização articulada do delírio.</p>
<p>Ressaltemos essa diferença, no entanto, de que, no Frégoli, o sujeito deduz, pelas modificações em seu corpo, o nome único do objeto que as causa, ao passo que no transexualismo as coisas são em parte invertidas a esse respeito: o sujeito deduz, pelo nome único do objeto, que ele identifica (a mulher) e ao qual ele está identificado (como gozo do invólucro), as modificações que ele reclama em seu corpo, no sentido de sua identificação a esse objeto.</p>
<p>Assim, constatamos de que modo a redução do nome próprio a um estatuto de nome comum se duplica por uma redução do nome comum ao objeto, o nome perdendo, nesse remanejamento, o que está no fundamento de sua operação, a saber, a identificação também, mas na medida em que ela é, na ordem da linguagem, sempre <em>diferencial</em>. Um nome jamais identifica senão por diferença para com outros nomes. Ele não se junta ao real que nomeia – exceto eventualmente na psicose, como nas duas síndromes que nos retêm aqui. Trata-se mesmo de um de seus traços mais notáveis, do ponto de vista clínico, que o nome venha aqui se juntar ao objeto, identificando-o.</p>
<p>A demanda do transexual, de ser “nomeado mulher”, encontra nessa nomeação o último termo de sua significação, que é concluir e, se possível, fixar o desmoronamento de qualquer diferenciação identificatória, numa tentativa de <em>realização</em> do sujeito, a ser entendida literalmente como sua união completa com o objeto.</p>
<p>Esse remanejamento da função do nome, na síndrome de Frégoli e no transexualismo, coloca então em primeiro plano uma invalidação do registro do nome próprio. No Frégoli, a imagem não está mais articulada a ele, pois não é mais nomeada, seja qual for a forma que tome, senão com um único nome, diretamente relacionado ao objeto. No transexualismo, o nome próprio é igualmente jogado para fora do campo: ele não representa mais o sujeito, que tenta reparar essa carência situando exatamente seu ser no próprio lugar da nomeação, da potência nomeante, aqui confundida com a lei real – ou seja, aquela pronunciada pelos tribunais. O sujeito transexual identifica a nomeação a um objeto cujo nome se deduz do ser: esse objeto nomeante por excelência é o que ele chama de <em>A mulher</em>. E se sua demanda toma a forma de uma exigência, é porque ele espera da lei que ela simplesmente registre aquilo que esse objeto implica, na medida em que ele comanda o nome.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#d4" name="4"><sup>4</sup></a></p>
<p>Nos dois casos, mas de modo mais imediatamente sensível no transexualismo, é o <em>patronímico</em>, forma primordial do nome próprio, que é recusado, ou seja, perde sua função de nomeação. Ora, o patronímico, na medida em que é <em>sem significação</em>, é o que permite precisamente a um sujeito ser representado na ordem da linguagem, sendo de saída identificado a um lugar vazio, porém nomeado, ou seja, engajado na operação e na troca da fala. Esse lugar vazio, esse simples traço nominal recebido de seus pais, onde uma criança vem primeiramente ser representada, é a metáfora inicial que torna possíveis as que se seguirão, isto é, a fala do sujeito.</p>
<p>O transexualismo, bem como a síndrome de ilusão de Frégoli, ilustra de modo muito preciso os efeitos decorrentes, na psicose, do fracasso dessa primeira metáfora do sujeito, que o patronímico simboliza: o nome próprio é comandado nos dois casos por um nome único, que identifica o objeto, que se torna, em retorno, pivô ou princípio da nomeação: único Nome que subsiste.</p>
<p>Quanto à imagem, enfim: ela é posta em primeiro plano, de modo prevalente, nos dois casos, como forma persecutória na síndrome de Frégoli, como ideal de completude no transexualismo. Essas duas modalidades são bastante próximas, primeiro por serem ambas apreendidas aqui como modalidades do Um, depois porque é corrente, na clínica, ver se inverterem os valores do ideal e do persecutório.</p>
<p>Mas constatamos igualmente de que maneira a imagem com que lidamos aqui é desamarrada de sua consistência e de sua identidade de forma, para ser referida a determinações que são as do objeto, seguindo uma série que vai da conjunção unificante com o Um (o perseguidor na síndrome de Frégoli, “A mulher” no transexualismo) à disjunção desse Um num despedaçamento do corpo, cujas linhas de partição as falas desses pacientes nos permitem seguir, segundo uma topologia muito diferente daquela em que nos deslocamos ordinariamente.</p>
<p>Em outras palavras, se há mesmo uma prevalência da imagem, é através de modalidades em que esta não é identificável com uma forma determinada pela colocação entre parênteses do objeto, isto é, <em>i(a)</em>. Trata-se mais de uma estrutura na qual, tendo o nome fracassado em vir no lugar de primeiro representante do sujeito – o que é propriamente a operação metafórica, que coloca os parênteses, permitindo que a imagem também se constitua como <em>representação</em> distinta do objeto –, a imagem vai ser de algum modo virada sobre sua vertente de objeto: seja conjugada a ele, o que se observa notadamente nos momentos de sistematização delirante, seja disjunta dele, no despedaçamento. Estaríamos, nesse sentido, fundamentados para escrevê-la não mais <em>i(a)</em>, mas <em>i </em>&amp;<em> a</em>, ou seja: <em>i</em>“conjunção e disjunção de” <em>a</em>.</p>
<p>Em uma ou outra dessas duas modalidades, é o objeto que comanda, no que essas duas síndromes nos presentificam, todas as determinações da imagem. Isso nos permite levantar a questão, em ambos os casos, de uma possível <em>equivalência</em> entre imagem e objeto, e de sua interversão recíproca: <em>i</em>&lt;=&gt;<em>a</em>. Acrescentemos que, no transexualismo, é a título do impossível que esse encostamento de <em>i </em>e de <em>a</em>implica, ao mesmo tempo conjuntivo e disjuntivo, que se pode entender a demanda de ablação do pênis. Com efeito, é como puro objeto real, mas dessa vez como presença intolerável e dejeto na imagem, que os transexuais solicitam ser desembaraçados dele.</p>
<p>Concluindo: se retomarmos agora o conjunto dos elementos dessa estrutura, tal como a vemos dar conta, a uma só vez, no essencial, da síndrome de Frégoli e da síndrome transexual, constatamos de que maneira seus elementos, <em>nome próprio</em>,<em> nome comum</em>,<em> imagem </em>e<em> objeto</em>, perdem, no caso dos três primeiros, suas escalas de determinações próprias, em benefício de uma atração identificatória do objeto, num modo de unificação, o nome e a imagem fracassando em prevenir essa unificação, ou seja, em introduzir uma função de diferenciação e de representação em seus respectivos registros.</p>
<p>A partir daí fica bastante manifesto que tanto a acepção dada ao nome quanto aquela dada à imagem, na problemática do transexual, tomam um valor radicalmente diferente daquelas que podem ter naqueles que têm que decidir sobre sua demanda, se não tiverem tido antes algum esclarecimento sobre esses dados clínicos.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#d5" name="5"><sup>*</sup></a><br />
______________________________________________________</p>
<p>*<em>Proximité du transsexualisme et du syndrome d’illusion de Frégoli en clinique et en doctrine. </em>Em <em>Sur l’identité sexuelle: à propos du transsexualisme. Ouvrage collectif. </em><em>Collection Le Discours Psychanalytique.</em> <em>Éditions de l’Association freudienne internationale</em>, Paris, 1996.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#1" name="d1">1</a> THIBIERGE, S. “Le transsexualisme, individuel et social”.Em <em>Sur l’identité sexuelle: à propos du transsexualisme. </em>Op. Cit., pp. 199-217.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#2" name="d2">2</a> N.E. – O artigo de Courbon e Fail de 1927, sobre a síndrome de Frégoli, está publicado neste volume, adiante: “Síndrome de ilusão de Frégoli e esquizofrenia”, pp. 264-271.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#3" name="d3">3</a> N.E. – O autor se refere à coletânea em que este trabalho foi publicado na França [<em>Sur l’identité sexuelle: à propos du transsexualisme. </em>Op. Cit.], da qual publicamos, nesta Revista, outros dois textos, além deste: “A pele virada pelo avesso”, de J.J. Tyszler (pp. 165-181), e, em versão modificada, “Anotações de clínica social”, de M. Czermak e L. Sciara (pp. 119-146).<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#4" name="d4">4</a> N.T. – No original: “&#8230;c’est qu’il attend de la loi qu’elle prenne simplement acte de ce qu’implique cet objet en tant qu’il commande le nom.”<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/proximidade-do-transexualismo-e-da-sindrome-de-ilusao-de-fregoli-na-clinica-e-na-doutrina-2/?cod=57#5" name="d5">*</a> Tradução: Paula Glenadel. Revisão da tradução: Sergio Rezende.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Incidências clínicas e teóricas da nomeação</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/incidencias-clinicas-e-teoricas-da-nomeacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Dec 2014 12:40:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Incidências clínicas e teóricas da nomeação]]></category>
		<category><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=3498</guid>

					<description><![CDATA[Vou propor a vocês, para começar, uma observação a propósito da psiquiatria e da psicanálise, uma observação muito simples.

Creio que, para os médicos e para os psicanalistas, encontramo-nos numa situação que alimenta uma confusão ambiente, a tal ponto que aquilo que podemos chamar os diferentes discursos tradicionais não têm mais, propriamente falando, objeto. Um discurso, na medida em que ele articula um conhecimento, é especificado pelo fato de incidir sobre um objeto e enunciar um certo número de proposições relativamente a esse objeto, as quais se chamam uma teoria. A teoria tem por função definir o objeto, justamente, ou seja, seu objeto e, se for o caso, o método que esse objeto reclama. Se nos apoiamos nesses termos e nesses critérios bastante simples, hoje em dia há poucos discursos que conservam um valor articulatório.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Stéphane Thibierge</p>
<p>Vou propor a vocês, para começar, uma observação a propósito da psiquiatria e da psicanálise, uma observação muito simples.</p>
<p>Creio que, para os médicos e para os psicanalistas, encontramo-nos numa situação que alimenta uma confusão ambiente, a tal ponto que aquilo que podemos chamar os diferentes discursos tradicionais não têm mais, propriamente falando, objeto. Um discurso, na medida em que ele articula um conhecimento, é especificado pelo fato de incidir sobre um objeto e enunciar um certo número de proposições relativamente a esse objeto, as quais se chamam uma teoria. A teoria tem por função definir o objeto, justamente, ou seja, seu objeto e, se for o caso, o método que esse objeto reclama. Se nos apoiamos nesses termos e nesses critérios bastante simples, hoje em dia há poucos discursos que conservam um valor articulatório.</p>
<p>Desse ponto de vista, acho que a questão de nosso congresso, como ela está posta, é uma questão muito pertinente, pois tem o interesse de nos apresentar, de saída, o que podemos chamar de ordens de fatos diferentes. Lembro-lhes o título, com efeito, que menciona: <em>a operação do significante: o nome, a imagem, o objeto</em>.</p>
<p>Já no título, vocês têm uma tese que é colocada: a saber, que a operação do significante, enquanto tal, produz um fato que é precisamente a distinção de três ordens de fatos diferentes. É assim que essa operação é aqui apreendida, na medida em que ela produz essa distinção. E isso remete de maneira muito direta, podemos acrescentar, à incidência do significante no corpo.</p>
<p>É isso que especifica o humano, que, como diz Lacan, é o animal que padece do significante, ou seja, cujo corpo deve suportar a estrutura do significante. Não temos escolha quanto a isso, embora isso se realize segundo diversas modalidades, que admitem uma certa diversidade.</p>
<p>A distinção inicial dessas três ordens de fatos é algo que pode parecer bem simples, podemos mesmo dizer que é elementar – no sentido em que reduz as coisas a seus elementos. Mas como vocês sabem, já que vocês seguramente estudaram um pouco de história das ciências, ou de filosofia, de método, os pontos elementares são sempre aqueles aos quais só podemos chegar por último – e mesmo assim, nem sempre chegamos, é preciso fazer um esforço.</p>
<p>E aí, acho que esses três registros, assim apresentados como a operação do significante, são três<em>termos</em> nos quais podemos nos apoiar para trabalhar. Digo três termos: a importância de indicar três termos e não três idéias, por exemplo, é para insistir no fato de que esses três significantes indicam três ordens de fatos que assim identificamos. Estamos, pelo meio articulado desses três significantes, em condição de identificar aí três ordens de fatos que distinguimos respectivamente.</p>
<p>Nós as identificamos, isso não quer dizer que as compreendemos. Não estou certo de que qualquer um de nós compreenda o que uma imagem é – ou então, se temos a impressão de compreender uma imagem, será fácil mostrar que essa compreensão só pode ser vaga, fraca.</p>
<p>Para que serve isso, identificar <em>o nome, a imagem, o objeto</em>? Isso nos serve – aos psicanalistas, aos médicos, a outros ainda – isso nos serve para identificar os fatos, ou seja, aquilo que vamos levar em conta. Vocês sabem o quanto é necessário, quando se tem uma prática, seja ela qual for, saber em que fatos vamos nos apoiar, que fatos vamos reter como importantes, que fatos vamos deixar de lado como secundários. Quando vocês recebem um paciente, por exemplo, se fizerem esse exercício que consiste em escrever aquilo que gostariam de deixar para alguém que viesse a se ocupar desse paciente depois de vocês, digamos, vocês verão que se trata de um exercício que comporta uma dificuldade muito sensível. Era um exercício no qual Clérambault era excelente, são seus famosos atestados. Não digo que tenhamos que fazer da maneira que era a dele, que era ao mesmo tempo tributária de seu trabalho de médico e de seu estilo singular. Acho apenas que cada um de nós, que é clínico, sabe o que pode designar essa prova, que consistiria em deixar para um colega um relatório correto, não muito disforme, a propósito do paciente que recebemos.</p>
<p>Esses três termos, portanto, permitem-nos identificar fatos, e não somente fatos clínicos, também fatos, simplesmente.</p>
<p>Uma primeira dificuldade que essa questão de nosso colóquio permite esclarecer, me parece, é a seguinte. A operação do significante, tal como acabei de evocá-la, admitimos que ela determina efeitos no corpo humano – dizemos o corpo humano para ser breves, na realidade não é só no corpo humano, longe disso – que qualificamos de neuróticos, psicóticos ou perversos. São três modos segundo os quais o corpo suporta a estrutura do significante. E a operação do significante, está aí a dificuldade que eu evocava, quando ela consegue se dar de uma maneira neurótica, para dizer as coisas assim, ela tem esse efeito estranho de levar justamente a desconhecer seus próprios efeitos, e isso de princípio, e de uma maneira, em certos aspectos, radical.</p>
<p>Em outras palavras, vocês não podem mais saber o que ela foi.</p>
<p>Em conseqüência, na medida em que você é tomado na estrutura que o constitui e que lhe permite então analisar os fatos, se essa estrutura neurótica comporta justamente seu próprio desconhecimento, você fica embaraçado para identificar os fatos. Podemos formular essa dificuldade de uma outra maneira. É que na neurose, dentre esses três registros, pode-se dizer que o registro da imagem é que vai estar em posição de mestria, no sentido do que Freud chamou de narcisismo. E isso vai embaralhar tudo, a partir do momento em que é a imagem que comanda. O neurótico, trata-se sem dúvida de uma evidência, mas ela me parece poder ser lembrada aqui, é mais do que atento a sua imagem, ele às vezes é obnubilado por ela. E o neurótico se regula mais facilmente pelo que é da imagem, como vocês sabem, do que pelo que faz sua questão, pelo que faz seu desejo. Uma das experiências mais elementares da psicanálise, Lacan ressalta, é constatar que quando se convida um sujeito a falar do que o interessa e a falar, como se diz, livremente, muitas vezes isso se interrompe bem rapidamente. Aí temos um exemplo concreto dessa posição de mestria da imagem.</p>
<p>E é nesse sentido que, na neurose, a imagem embaralha tudo. E isso parasita o que pode valer para nós como nossa abordagem científica dos fatos. O comportamentalismo – e Eduardo Rocha falou muito bem dele, antes, quando falou do cognitivo-comportamentalismo – é uma visão do mundo que diz, em suma, que tudo que não tem imagem deve ser deixado de lado, negligenciado, até mesmo eliminado. E então, se acontece de você ter um sintoma que não tem imagem, você sabe assim o que pode lhe acontecer, ou pelo menos a esse sintoma. Isso torna difícil uma abordagem séria dos fatos, dos quais pode-se dizer que estamos verdadeiramente longe, e especialmente para o que nos concerne e nos interessa, uma abordagem analítica. É bastante sinistro, na medida em que o objetivo é chegar a que tudo esteja fixado em imagens, ou seja, à morte. Não é verdadeiramente agradável, como abordagem.</p>
<p>O registro da imagem embaralha nossa abordagem científica dos fatos, mas embaralha também, de maneira considerável, e cada vez mais, nossas relações sociais. Se vocês estão num contexto em que é a imagem que está em primeiro plano, com efeito, vocês não podem não se esforçar para ser sempre<em>reconhecidos</em>, já que a imagem comporta esse registro do reconhecimento, com esse equívoco que isso produz em francês, em que o reconhecimento quer dizer o fato de que se percebe a realidade e, além disso, quer dizer também a preocupação que se tem em ser reconhecido pelo outro.</p>
<p>Isso nos mostra bem o tipo de lógica em que se acha engajado aquilo que o cientificismo contemporâneo quer chamar de <em>objetividade</em>. Essa objetividade é de fato uma busca do reconhecimento, que tem um acento inevitavelmente paranóico. Esse privilégio concedido ao registro da imagem coloca no centro o Eu, isso que Freud chamou de Eu, e o confunde, ao fazê-lo, com a operação do significante.</p>
<p>A operação do significante, nós a percebemos bem no exemplo que lhes dei há pouco do analisante que encorajamos a dizer e que em determinado momento, que às vezes surge muito rapidamente, pára de falar. Aí percebemos o que é a operação do significante: é a divisão do sujeito. O corpo humano é dividido pelo significante, enquanto sujeito falante.</p>
<p>Podemos dizer, se nos referimos às três estruturas clínicas, que a psicose consiste na rejeição, o que Lacan chama de foraclusão. Na perversão, ela é desmentida, e na neurose é desconhecida ou recalcada – o que, aliás, não é a mesma coisa, mas esse não é nosso tema aqui.</p>
<p>Isso quer dizer, entre outras coisas, que não podemos nos orientar, na demarcação dos fatos, somente a partir do registro da imagem – é impossível. Constatar que é impossível, isso pode ir longe, já que poderíamos dizer que toda a tentativa de uma certa tradição filosófica, de se orientar no real a partir do pensamento e da compreensão, na medida em que o pensamento é da ordem do imaginário, pois bem, é uma tentativa impossível. Vir a se dar conta disso pode ter conseqüências.</p>
<p>Nós, enquanto clínicos, apoiamo-nos na <em>identificação</em> de algo diferente. E isso nos exige muitos esforços. Tentamos, para identificar os fatos, seguir, eu diria de maneira quase cega, a lógica do significante.</p>
<p>Foi o que Freud fez desde o início, e está aí toda a dificuldade, nele, da questão do objeto. Eu li, na introdução da revista que vocês editam, no terceiro volume sobre as psicoses<a title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/incidencias-clinicas-e-teoricas-da-nomeacao/?cod=60#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a>, que Marcel Czermak realçava essa questão do objeto como uma questão especialmente difícil para Freud. Não sei se vocês estarão de acordo, mas proponho-lhes distinguir da seguinte maneira a questão do objeto.</p>
<p>Freud trouxe, no início, os <em>Estudos sobre a histeria</em>. O que faz Freud, o que faz Breuer, nos <em>Estudos sobre a histeria</em>? Eles deixam as histéricas falarem e elas enunciam significantes, elas dizem muitas coisas.</p>
<p>Não era evidente saber de que elas falavam. Se vocês tomam o discurso de Anna O., não era simples para Breuer, seguramente. Ele podia bem se perguntar de que exatamente ela falava. Seria ela louca? Efetivamente, os significantes saíam e se colocava a questão de saber que sentido isso tinha, ou para onde isso remetia, para que tipo de fatos. Freud foi, com relação a essa questão, de um grande rigor e, ao mesmo tempo, testemunhou uma grande dificuldade. Ele sempre enfatizou o fato de que era preciso seguir de perto os significantes produzidos pelo sujeito, ou seja, tomá-los à maneira de um texto sagrado, um texto a decifrar.</p>
<p>Mas onde ele ficou mais embaraçado, parece, foi para articular o sentido, ou algo da ordem do sentido. Como vocês sabem, ele propôs, supôs, que o que ligava o significante e o significado, em outras palavras, o significante e a imagem, ele supôs que o que os ligava era o sexual: que era da ordem disso que chamamos de <em>falo</em> – que o falo era o que garantia um laço localizável entre esses significantes produzidos pelas histéricas e o sentido. Foi a maneira pela qual ele tentou tratar o que fazia sintoma. Mas foi também uma maneira de preservar, ao fazê-lo, o que podemos chamar de solidariedade entre o significado e o significante.</p>
<p>Aí, eu proporia dizê-lo assim, encontra-se uma dificuldade de Freud, que Lacan localizou e da qual ele mesmo partiu para avançar alguma coisa que permitisse orientar-se também fora das neuroses e, em particular, no que concerne às psicoses. Pois essa operação do significante, nas psicoses não temos nenhuma esperança de nela articular de maneira solidária o significante e o significado. E é aí que se acha, me parece, a dificuldade de Freud.</p>
<p>E o que eu evoco aí com meus colegas – pois, isso que eu lhes digo, nós tentamos trabalhr juntos, a partir do ensino de Marcel Czermak, de Melman e de alguns outros… – temos alguns pontos de apoio existentes para abordá-lo. A psicanálise não chegou diante dessas questões como se as descobrisse num deserto: havia coisas que já existiam.</p>
<p>Na tradição médica neurológica, por exemplo, na época em que a psiquiatria e a neurologia não eram tão distintas quanto hoje, observou-se que havia toda uma série de fenômenos que manifestavam de modo notável uma dessolidarização entre o significante e o significado. Isso se via em neurologia, em psiquiatria, e é porque esses fenômenos estavam em voga que, um dia, o clínico advertido que era Joseph Capgras pôde ver chegar uma paciente, uma psicótica, que apresentava uma megalomania e um delírio de perseguição. Mas esse ambiente onde ele estava, digamos de espírito científico, mesmo se também era cientificista, permitiu a Capgras isolar um fato que parecia periférico, mas que era de primeira grandeza. Capgras isolou, na fala dessa mulher, que ela se queixava do seguinte: mudavam o tempo todo a pessoa de sua filha. Ela dizia: “minha filha, cada vez que eu a vejo, nunca é a mesma, substituem-na por um sósia”.</p>
<p>Capgras não deixou isso passar. Ele disse que esse sintoma era muito notável. Está certo: temos de um lado a imagem e do outro o nome. Alguns anos mais tarde, outros psiquiatras isolaram um outro sintoma que era logicamente muito próximo da síndrome de Capgras, na qual se pode dizer que a mesma pessoa é sempre uma outra. Eles viram chegar uma paciente que lhes dizia: “todos os outros que eu encontro, é <em>o mesmo</em>”. Dessolidarização, aí também, entre o nome e a imagem.</p>
<p>Vocês vêem como se formulava ali uma questão que já atormentava Freud. Freud sabia, efetivamente, que não estava quite com a questão do objeto, ou do real, apenas com a suposição do falo como aquilo que vem ligar o significante e o significado no corpo humano.</p>
<p>Freud, aliás, deixou textos, principalmente um texto, em que se percebe a dimensão da identificação <em>de</em>algo. Gostaria aqui de dizer apenas uma palavra sobre esse termo <em>identificação: </em>quando falamos de identificação, geralmente falamos da identificação intransitiva, ou seja, de um fenômeno que pertence ao registro do reconhecimento e que é, bastante freqüentemente, da ordem do imaginário. Mas não sabemos muito bem como pegar isso – pois não é apenas do registro do imaginário, Lacan consagrou um seminário inteiro a mostrá-lo muito precisamente.</p>
<p>É difícil demarcar a função, aqui, da identificação transitiva: o que o sujeito identifica? Não <em>a que</em>, mas: <em>o quê</em>?</p>
<p>O desconhecimento da estrutura próprio da neurose, que evoquei no início, não pode ser levantado para assim promover a identificação, no sentido transitivo, do objeto que comanda o neurótico. A esse objeto, com efeito, ele não tem acesso. Ele só pode situar sua recorrência, eventualmente, num tratamento e na ordem do significante. Lacan chamava isso de <em>a lógica da fantasia</em>. Para situar isso é preciso fazer um esforço. Podemos dizer que para nós a realidade, o reconhecimento, só pode se sustentar se não identificamos o objeto que comanda nosso desejo.</p>
<p>Para retornar a Freud, há um texto no qual percebe-se muito bem que ele tinha se dado conta dessa questão da identificação, texto sobre o qual Charles Melman falava um dia, dizendo que o achava completamente desorientador e inapreensível quanto ao sentido. Trata-se de <em>Pulsões e destinos das pulsões. </em>Nesse texto, Freud segue ao pé da letra, pode-se dizer, a lógica do significante na cartografia das pulsões. Trata-se de um texto que não se presta de modo algum ao reconhecimento, ou seja, é difícil lhe dar um sentido, exceto o sentido seguinte, que não é propriamente um: apenas uma regulação quase automática da incidência do objeto sobre o sujeito. E Freud declina as diferentes modalidades da pulsão, de um modo gramatical, fazendo muito pouco apelo ao sentido.</p>
<p>Para chegar ao fim de minha exposição: Freud colocara de uma maneira completamente inédita a questão do objeto, mas como sem dúvida acontece com invenções de tal alcance, digamos que ele ainda não sabia muito bem o que fazer disso, como marcar seu alcance em certas ordens de fatos, e em particular nos fatos da psicose.</p>
<p>Lacan retoma as coisas por uma borda diferente, e especialmente a partir da descoberta feita por esses médicos franceses que evoquei. Digo médicos franceses porque isso se inscrevia numa certa tradição que era a da escola francesa em clínica e em psiquiatria. Faz sentido dizer isso porque se trata de uma tradição que sempre preferiu tentar fazer um relatório preciso dos fatos, inclusive quando isso fazia balançar a teoria. Eles tinham uma grande preocupação com a exatidão do que escreviam. E confiavam mais na escrita, e no que escreviam sobre o que seus pacientes diziam, do que no pensamento de seu tempo, especialmente em psicopatologia. A descoberta que evoco aí é que esses psiquiatras – que encontraram a síndrome de Frégoli, a síndrome de Capgras – criaram um termo que Lacan certamente conhecia. São dois psiquiatras, Courbon e Tusques. Eles escreveram um artigo, hoje em dia esquecido, com razão de certa maneira, pois quase que só o título é inventivo, mas já está bom. Eles intitularam esse texto <em>Identificação delirante e falso reconhecimento. </em>E ali, indicaram de que modo, nas psicoses que evoquei, o núcleo da psicose e do delírio, que pode ser um delírio muito pouco desenvolvido, o núcleo elementar comporta a menção de <em>algo</em> – “que me atormenta”, dizem os pacientes. Esse algo ou esse alguém, Courbon e Tusques resumiram muito bem suas características. Trata-se de um objeto autônomo, xenopático, e é sobretudo sempre o mesmo, ou seja, sempre o mesmo <em>um</em>, que tem sempre o mesmo <em>nome</em>, e que não tem nada a ver com a unidade contável, o um da conta – trata-se de um tipo de isolamento perfeitamente puro de uma instância persecutória no real.</p>
<p>Em toda psicose, encontramos uma modalidade mostrável, demarcável, do fato de que a estrutura especular se acha reduzida a uma lógica reduplicativa em que a imagem se confunde estritamente com o objeto. E para se dar conta do que pode designar isso que chamamos de <em>representação</em> quando se trata de psicose, ou ainda a imagem, não temos nenhum outro meio senão nos fiarmos no que os pacientes nos dizem. Não vale a pena tentar compreender alguma coisa, é preciso apenas tentar <em>levá-la em conta</em>, no sentido literal e estrutural.</p>
<p>Por exemplo, na síndrome de Cotard, quando um paciente nos diz que ele se torna o universo inteiro, um, não temos que compreendê-lo, mas tentar levar isso em conta.</p>
<p>Quis sobretudo chamar a atenção para o que nos parece ser o interesse dessa seriação, o isolamento dos fatos que a série dos três termos propostos pelo colóquio torna possível.</p>
<p>Obrigado.</p>
<p align="right"><em>Tradução de Sérgio Rezende</em></p>
<p>____________________________________________________________________</p>
<div id="ftn1"><a title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/incidencias-clinicas-e-teoricas-da-nomeacao/?cod=60#_ftnref1" name="_ftn1">1</a>&#8211; <em>Revista Tempo Freudiano </em>nº 7 –<em> A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria. Vol. 3 – O corpo: hipocondria, Cotard, transexualismo</em>. Tempo Freudiano Associação Psicanalítica, Rio de Janeiro, março de 2006.</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Do sujeito clínico ao político</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/do-sujeito-clinico-ao-politico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Dec 2014 12:31:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Do sujeito clínico ao político]]></category>
		<category><![CDATA[Stéphane Thibierge]]></category>
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					<description><![CDATA[Discurso político, dizemos. Mas o que é - partamos daí - a condição primeira para que um discurso seja simplesmente possível? Esta questão poderá acender nossa lanterna tanto sobre o discurso político atual, como também sobre o que permite aos psicanalistas avançar de forma não muito inoportuna para falar dele, e a partir de sua prática.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Stéphane Thibierge</p>
<p>Discurso político, dizemos. Mas o que é &#8211; partamos daí &#8211; a condição primeira para que um discurso seja simplesmente possível? Esta questão poderá acender nossa lanterna tanto sobre o discurso político atual, como também sobre o que permite aos psicanalistas avançar de forma não muito inoportuna para falar dele, e a partir de sua prática.</p>
<p>Sublinhemos, de passagem, que nossa atualidade não fala com freqüência, justamente, do discurso político – e notadamente do que podem querer dizer uma ação, uma responsabilidade, uma palavra ou uma posição políticas – ainda que sejamos mais instruídos sobre os diferentes aspectos da técnica política, no sentido instrumental: de que modo são colocados em circulação uma imagem ou uma palavra de ordem, por exemplo, e eventualmente a figura, homem ou mulher, que as portará. Mas esta técnica, por mais sofisticada que ela seja, não constitui por si mesma um discurso.</p>
<p>CONDIÇÕES DO DISCURSO</p>
<p>O que é preciso para que haja discurso? Digamos que é preciso que haja no mínimo a distinção de dois lugares diferentes, esta distinção tornando possível uma troca tal que alguma coisa possa ser endereçada, e endereçada a um outro, o que supõe efetivamente ao menos dois lugares.</p>
<p>Este dispositivo, muito simples em seu princípio, é bem conhecido do psicanalista, pois é a partir daí que ele trabalha. Ele recebe alguém que ele convida a falar: a dizer “o que é que há” – dito de outra forma, o que não funciona, mais freqüentemente. Isso não constitui um início muito diferente, em seu princípio, daquele da política. Nos dois casos, uma fala é suposta poder ser endereçada, o que quer dizer que alguém fala, e que fala com o objetivo&#8230; de se fazer escutar. Pode-se achar este objetivo otimista, não razoável, utópico ou, ao contrário, fundado e legítimo, pouco importa aqui: mas é justamente o início daquilo com que temos a ver, nos dois casos.</p>
<p>Tentemos então apreciar o que está em jogo: o que é que isto implica, e que tipos de conseqüências isso pode ter, sustentar assim uma fala e um endereçamento?</p>
<p>Para termos uma idéia, partamos do que um psicanalista pode observar no espaço onde opera, o de seu consultório. Vamos ver que isto pode esclarecer também as condições do discurso político.</p>
<p>Um psicanalista dá acesso à responsabilidade e às conseqüências da palavra e da linguagem na medida em que alguém as assume, quer dizer, na medida em que a palavra encontre aí um valor de enunciação. Ora, o simples fato de que ela seja assumida, comporta os dois aspectos seguintes, cujo alcance, veremos, não se limita somente ao enquadramento da psicanálise, mas concerne também nossa relação com o político.</p>
<p>UM SUJEITO REPRESENTADO</p>
<p>O primeiro destes aspectos consiste em que o sujeito – aquele que fala, que sustenta uma enunciação &#8211; é, por aí mesmo, representado. Estamos justamente aí, de saída, pode-se ver, na questão política. Estamos aí, aliás, tanto mais na medida em que a psicanálise está em condições de acrescentar aqui: o sujeito é representado, sim, e mais: ele não é senão representado. É disso que a psicanálise – e, concretamente, uma psicanálise – leva alguém, se ele o deseja, a fazer a prova, no sentido experimental do termo. Para ele não há ser, personalidade – a identidade, em uma palavra – constituídos: ele não existe, esse sujeito, senão representado, e não em substância ou em pessoa, por assim dizer.</p>
<p>Pelo simples fato de enunciá-lo e de propor pô-lo à prova, a psicanálise tem um alcance político, mas talvez ainda muito novo, mesmo que ela seja mais que centenária, para que se hesite em tirar partido disso, inclusive e em primeiro lugar no campo político, justamente.</p>
<p>Pelo quê o sujeito é assim representado? Pelo que ele diz, em primeiro lugar, mas não somente: também pelo que fala nele de todas as maneiras possíveis, por seus sonhos, por seus sintomas, por toda esta ordem de fatos que Freud realçou a título de formações do inconsciente. O sujeito é representado, sobretudo por este tecido, tecido de banalidades eventualmente, bate-papo, mas também de bizarrices, lapsos, incongruências ou estranhezas diversas, que ele próprio, por si próprio não será facilmente levado a reconhecer: “não – isto não sou eu”. Sim, entretanto: e a psicanálise engaja mesmo a assumir que é pelo que nos parece mais incongruente ou estranho daquilo que nos vem desse modo, pelos elementos de linguagem – os significantes, em uma palavra – que nos parecem a nós mesmos os mais estranhos, que somos, em primeiro lugar e sobretudo, como sujeitos, representados.</p>
<p>Este sujeito – é o segundo aspecto que nós evocaríamos &#8211; que é assim representado, diante de quem ou de quê ele o é?</p>
<p>Diante de um outro, podemos responder – certamente, como todas as vezes em que somos representados &#8230; mas o que dizer desse outro? Quem é, ou o quê é?</p>
<p>Aqui ainda, a prática da psicanálise e a lógica que esta prática revela não são sem incidência política. Pois este outro diante de quem ou de quê o sujeito é representado, também não é alguém propriamente falando. É somente um lugar, que a linguagem suscita e faz existir, na medida em que ela pode ser linguagem endereçada. O analista, como se sabe, se oferece à experiência de se sustentar aí, nesse lugar. Isto permite ao analisante supor assim, que um saber mora aí, relativo justamente ao que ele pode dizer, ou ao que lhe pode advir, de mais estranho – relativo aos diversos sintomas, aos significantes que o atravessam, e que lhe parecem eventualmente os mais estrangeiros.</p>
<p>LEITURA</p>
<p>O discurso assim tornado possível e posto em ato permite o seguinte: é porque o analisante supõe um saber neste lugar que ele próprio pode dizer qualquer coisa sobre a linguagem e sobre os significantes que lhe advêm, e que eventualmente o inquietam, o atormentam ou o parasitam. Se chamarmos de Sx estes elementos parasitários e percebidos como estrangeiros, podemos dizer que o sujeito psicanalisante vai, assim, ter condição de dizer outras palavras, outros significantes que vão fazer retorno sobre Sx. Essas outras palavras, esses significantes, valem como interpretação, isto é, como leitura de Sx, e eles representam o sujeito por seu turno, não menos que Sx.</p>
<p>O que se mostra aí, e é o preço do que traz a psicanálise, é que o sujeito não é um ser, tampouco uma imagem ou um ponto localizável, não é um espaço e também não é um corpo. Ele reside somente na diferença, no intervalo entre o que nós chamamos aqui de Sx – o significante que o sujeito facilmente percebe como estrangeiro, que o perturba e às vezes o ameaça – e um outro significante, uma outra palavra que ele mesmo, o sujeito, ou também o analista – pois o analista representa justamente esse lugar do outro significante – poderá dizer.</p>
<p>Assim, o sujeito – e isto vale para o da análise, mas também para o da política, posto que não é nem mais nem menos que o sujeito da palavra – reside somente no intervalo, na diferença entre dois lugares que se pode reduzir a sua escrita mais simples: Sx de um lado, o que afeta o sujeito, e um outro significante S do outro, que poderá fazer parada, escansão na sua palavra, ou nos pedaços de linguagem que o conduzem, e valer assim como leitura, ou como interpretação de Sx. Lacan, a quem se deve o isolamento destes dois lugares e da lógica que eles implicam, os escrevia respectivamente como S2 (para o que nós escrevemos aqui como Sx) e S1.</p>
<p>ASPECTOS DA TRANSFERÊNCIA HOJE EM DIA</p>
<p>A distância entre estes dois lugares que acabamos de evocar pode também ser designada como a estrutura mais simples da transferência. Ela se instala assim que uma palavra é dita, desde que esta palavra possa ser endereçada.</p>
<p>Esta estrutura é também a mais simples das instituições políticas: pois ela indica um lugar, que todo homem político conhece, onde se trata de encontrar um modo justo, ou não muito inadequado, de responder a um endereçamento. O que isto quer dizer? Pode-se entender aí uma enunciação que não seja formatada para fechar o endereçamento, isto é, para reduzi-lo à forma de demanda, uma demanda votada então a se tornar sempre mais viva e mais fechada nela mesma. É aparentemente, voltaremos a isto, o circuito do qual tem dificuldade de se desprender o nosso discurso político. Àquilo que se produz subitamente como sentido ou como não sentido no laço social, aos sintomas que marcam regularmente ou esporadicamente, de maneiras muito diversas, nossas modalidades de trocas, o político é tradicionalmente suposto encontrar o modo justo de resposta. Nossa tradição política parece estabelecer que é aquela que permite ao cidadão ser representado de uma maneira que se ajuste melhor ao exercício de sua responsabilidade. Entendamos que o que “não anda”, o que traz dificuldade, mal-estar, sintoma, não seja abandonado ao único recurso da demanda, à fixidez antagonista do confronto, ou ainda ao automatismo da passagem ao ato, mas possa se constituir, como evocamos, em um endereçamento.</p>
<p>Isto é correto, seguramente, mesmo se não é exatamente o que observamos. Torna-se difícil constituir verdadeiramente um endereçamento, isto é, o que chamamos uma transferência. Ao contrário, os usos ordinários das nossas relações sociais tendem cada vez mais a denunciar na transferência uma modalidade inadmissível de alienação a outrem – quando ao mesmo tempo florescem os recursos à sugestão “adaptativa” e as técnicas de manipulação mental individual ou coletiva. Por outro lado, tendem a se tornarem correntes as modalidades de resposta automáticas, em forma de passagem ao ato, às situações sociais recebidas como ameaçadoras ou insuportáveis. Enfim, parece que um número cada vez maior de demandas ou reivindicações sociais – e segundo repartições bastante independentes das classificações tradicionais – procuram menos o exercício da responsabilidade do que a garantia de uma identidade, conforme uma variedade dispersada de traços comunitários.</p>
<p>É verdade que a condição de um endereçamento, e por isso mesmo de um discurso, é que a distância da qual falávamos seja respeitada, e não ocluída por uma resposta em forma de satisfação dada ao sujeito e suposta completá-lo. É suficiente deixar entender que esta resposta seria possível para incitar um sujeito a estimar que doravante ele está quite com essa distância: em outros termos, que haveria uma resposta adaptada à questão que ele traz, e que traz qualquer enunciação enquanto tal. Ora, não há, não por uma especial infelicidade da nossa relação com o real, mas simplesmente pelo fato da incidência da linguagem sobre o corpo. É essa incidência que determina o sujeito como efeito possível desta distância – mas efeito, lembremo-nos, que nada garante em si mesmo. É nisto que aquilo que chamamos de sujeito é mais precário do que estamos habituados a crer. É, sobretudo, como colocação em ato de uma responsabilidade que ele se realiza. E ali onde ele encontra sua responsabilidade singular de sujeito, a análise mostra &#8211; a política também, se bem que de uma forma menos direta &#8211; que o sujeito encontra também o seu desejo e a questão, sempre mais ou menos em forma de enigma, que está ligada para ele a este desejo. Que Freud tenha sabido distinguir este desejo fundamentalmente como sexual, não impede que ele tenha para cada um fundamentalmente valor de questão, e de uma questão sempre marcada, em algum grau, por um caráter enigmático. O que isso quer dizer senão que o sujeito tem a ver aí não com a tentativa de uma satisfação, mas com um objeto singular, estranho, evocado pelo Sx do qual falamos, bem como pela distância que precisamente o causa como sujeito. Este objeto nunca pode ser dado em uma resposta adaptada, de qualquer forma que a concebamos.</p>
<p>Uma tal resposta aboliria toda distância entre uma enunciação – reduzida à demanda – e sua resposta – reduzida à satisfação. É o ideal praticamente confessado de um laço social do tipo toxicômano, como se pôde realçar há muito tempo.</p>
<p>Uma das razões da dificuldade que encontra hoje em dia a instalação de um discurso, qualquer que ele seja, ou o estilo de relações que ele permitiria sustentar, é a entrada em circulação em grande escala de diversos objetos tendo como traço comum significar para o sujeito sua satisfação possível, e então obrigatória – inclusive como condição de pertencimento a uma comunidade, pois o modo de gozo tende a se tornar um traço identitário maior. É claro que este tipo de objeto de satisfação fecha a distância de um endereçamento possível, por toda parte onde ele comanda as modalidades de trocas. Isto tem seguramente efeitos mensuráveis no discurso político, mas também em qualquer outra forma de discurso.</p>
<p>INFORMAÇÃO DO SUJEITO</p>
<p>A isto se acrescenta uma outra razão, em parte correlacionada à entrada em circulação destes objetos que acabamos de evocar, que merece ser aqui mencionada em último lugar, para se apreciar o tipo de dificuldades com o qual devem se confrontar os discursos, e em particular o discurso político atual.</p>
<p>Ela se liga às modalidades contemporâneas da informação. Como se sabe, estamos envolvidos em uma enorme quantidade de mídias de toda sorte, que veiculam sem trégua uma massa de mensagens das quais somos os destinatários. Não sabemos, com freqüência, os suportes destas mídias, e também não conhecemos, salvo em uma medida muito fraca, as mensagens das quais somos assim destinatários. Acrescentemos que estas mensagens formatam seu alvo com precisão, de tal forma que o que é enviado antecipa geralmente a resposta que o receptor, o mais das vezes, aliás, sem mesmo estar consciente disto, é levado a dar.</p>
<p>Pode-se dificilmente conceber que tal estrutura de informação seja sem efeito sobre os sujeitos que ela informa. E por outro lado, se é verdade que cada um está colocado, queira ou não, e sem que as escolhas de seu modo de vida singular constituam a esse respeito uma proteção significativa, nesse lugar de destinatário, o que é que ele pode fazer com essas mensagens? Elas não são endereçadas propriamente falando: elas visam um alvo, o que é outra coisa. É difícil supor que um sujeito possa retomar ou elaborar grande coisa do que ele recebe assim, para dizer, por exemplo, uma mensagem em retorno. E mais, a massa destas mensagens recebidas assim, a cada dia, é de tal maneira importante, que é preciso necessariamente, por razões de espaço e de estocagem de informação, que a tela onde se exibem estas informações – tela a localizar de uma maneira ou de outra do lado do sujeito receptor – seja apagada a cada dia, de maneira que as mensagens do dia seguinte possam vir a se exibir sobre a tela limpa. O saudoso Patrick Bourrat nos falou um dia sobre este fenômeno que ele chamou, na revista<em>La Célibataire</em>, de “apagador de memória”.</p>
<p>IDENTIFICAÇÃO CONTEMPORÂNEA</p>
<p>O que resulta disso? O sujeito está aqui fixado a mensagens que ele não tem nem o tempo nem os meios para interpretar, pois, sendo sem endereço localizável, elas pedem antes de tudo – e antecipam largamente – uma resposta simplesmente reativa. Além disto, este sujeito é constrangido a se deslocar num tempo cada vez mais fatiado, sem passado e sem memória – mais propício, portanto, a favorecer uma resposta limpa de escórias subjetivas.</p>
<p>É em referencia a estes efeitos de informação que C. Melman isolou, no seu livro <em>O homem sem gravidade</em>, aquilo que ele sublinha como uma forma moderna e inédita de identificação. Ela tem a ver com os efeitos presumíveis, num sujeito, de ser assim visado e antecipado por mensagens às quais, saiba ele ou não, e sem que ele tenha a possibilidade de se subtrair totalmente, ele se disporá materialmente a responder – isto é, pelo efeito de uma estrutura, tudo que há de mais material. Não avaliamos, talvez, em sua justa medida os efeitos no sujeito de um tal dispositivo, em particular no que toca a possibilidade e as modalidades de um endereçamento, tal como evocamos no começo.</p>
<p>Se somos assim destinatários de mensagens sem endereço, que nos vêm do social, e sem que seja esperado e nem mesmo possível que respondamos, o que é que é esperado de tais destinatários? Provavelmente nada mais do que o que se pode produzir no lugar de objeto visado pela mensagem, isto é, um modo de resposta automática. É assim no registro do que chamamos de gozo, registro de automaticidade bastante estrita, que pode ser esperado que cada um responda.</p>
<p>Um dos efeitos que podemos sublinhar, e que evidentemente não é sem incidência política, é que um sujeito aparentemente encontra raramente outra opção possível senão se conformar. A menos que escolhesse uma enunciação, mas cujo endereçamento nesse caso parece ter que ser bem precário. Parece que haja aí, nessa dificuldade em sustentar uma enunciação e achar o modo de endereçamento que lhe seria correlativo, uma dificuldade sensível no laço social que nós conhecemos. Trata-se de uma dificuldade de natureza eminentemente política, e ela interessa primordialmente aos psicanalistas. Ela pode ter por conseqüência uma inclinação a preferir em suma o modo automático, colocando-se fora do jogo como sujeito, e privilegiando o gozo como único valor então a preservar. Mas não é unívoco, pois isso interroga também o sujeito quanto a sua responsabilidade, precisamente enquanto sujeito. Alguns são às vezes levados por aí a encontrar o caminho que os conduz a um analista.</p>
<p>CONSTRANGIMENTOS DO VIRTUAL</p>
<p>Do lado do homem – ou da mulher – político, isso parece dever constrangê-los a se colocarem onde isso responde automaticamente e, portanto, o mais longe possível do que poderia evocar uma enunciação e um endereçamento. Trata-se de chegar a encontrar a forma de uma “resposta” que não pode ser uma resposta tal como evocamos, mas que dá forma e aparência de sentido a esta automaticidade. Aquele que vem se colocar exatamente aí, e que consegue ainda fazer imagem, ganhou. Entretanto, aí também não é unívoco: podem-se ouvir, apesar dos constrangimentos, modalidades de enunciação nos responsáveis políticos, e posições subjetivas que não se equivalem.</p>
<p>Esse lugar dado hoje ao político, e cujos contornos nós tentamos marcar com grandes traços, é por essência imaginário, isto é, virtual – o que não o impede, naturalmente, de ter efeitos muito reais<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/do-sujeito-clinico-ao-politico?cod=62#d2">2</a><a name="top2"></a></sup>. Ele parece tanto mais invasivo na medida em que ocupa quase todo um terreno que cabia tradicionalmente à argumentação, isto é, às tentativas de articulação, resumindo, da linguagem e do real. Ao mesmo tempo em que ele se torna assim cada vez mais virtual e unitário, totalizante, observa-se por outro lado uma dessolidarização sensível entre certas reflexões argumentadas, de um lado, e o real do outro, como se o virtual, em posição de comando e em tempo real, constrangesse, nesse caso, a esse tipo de disjunção sistemática. Isto produz, entre outros, efeitos que se pode encontrar regularmente nas análises, sem dúvida pertinentes, de situações reais, às vezes urgentes, sem que estas análises ou as soluções preconizadas possam encontrar um começo de aplicação, na falta de serem integráveis aos constrangimentos de forma e tempo próprios à informação. Estes constrangimentos próprios à pregnância do imaginário na nossa abordagem do real, hoje em dia, e as conseqüências que daí decorrem para o sujeito – como o tipo de identificação evocado mais acima – ficam ainda largamente por desbravar, nos seus aspectos clínicos e políticos. Para o sujeito, tentamos mostrá-lo, é a mesma responsabilidade que aí se experimenta.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/do-sujeito-clinico-ao-politico?cod=62#top1">1</a><a name="d1"></a> <em>Du sujet clinique au politique – Le Bulletin – Association Lacanienne Internationale – numéro 1, p.29-34.</em><br />
Tradução : Pedro Silveira<br />
Revisão : Sergio Rezende</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/do-sujeito-clinico-ao-politico?cod=62#top2">2</a><a name="d2"></a> Pode-se ler, especialmente sobre esse ponto, no segundo número da revista <em>La Célibataire</em>, verão-outono de 1999, o artigo esclarecedor de Pierre Larrouy: “O virtual é o populismo, ou o imediatismo tomado como real”.</p>
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