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	<title>Pierre Danhaive &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Pierre Danhaive &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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		<title>Sobre a fobia… comum</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/sobre-a-fobia-comum-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pierre Danhaive]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 18:22:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Pierre Danhaive]]></category>
		<category><![CDATA[Sobre a fobia... comum]]></category>
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					<description><![CDATA[No curso de um trabalho em pequeno grupo sobre a fobia, nos pareceu encontrar uma convergência entre os trabalhos de I. Diamantis, J.-M. Forget, G. Chaboudez, J.-P. Lebrun e alguns outros. Aqui estão diversos elementos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pierre Danhaive – 01/05/2008</p>
<p>No curso de um trabalho em pequeno grupo sobre a fobia, nos pareceu encontrar uma convergência entre os trabalhos de I. Diamantis, J.-M. Forget, G. Chaboudez, J.-P. Lebrun e alguns outros. Aqui estão diversos elementos.</p>
<p>A fobia, clinicamente, se desencadeia no momento de um atentado narcísico que remete ao inseparável.</p>
<p>Parece então que seu ponto de partida lógica se situa no momento da passagem do auto-erotismo do lactente (fase narcísica primária) ao amor pela mãe (segundo objeto de amor) ou, para dizer de outra forma, no momento da constituição do primeiro objeto externo (a a-separação).</p>
<p>Essa “fase” é dita por Freud: pré-edipiana, e desemboca no amor edipiano de objeto.</p>
<p>Ela gera na criança uma angústia de <em>separação</em> de si mesma, e uma angústia de perda da mãe, a qual, pelo simples fato de se ausentar, se <em>objetiva</em> como significante. (Fort-da)</p>
<p>Dois agentes vão aqui interferir, concorrendo para o nascimento de um sujeito desejante.</p>
<p>De um lado, o surgimento de um terceiro (o pai na nossa civilização originada do monoteísmo judaico) vai referir esse significante (do desejo da mãe) a alguma coisa que ele deteria. É a “fase” edipiana. Ele vai significar para o sujeito o Falo (Lacan), que toma o lugar do desejo da mãe (é uma metáfora) que se vê falicizado, toma um sentido sexual. A presença efetiva do pai (seu <em>não</em>) estabelece a diferença sexual e seu significante: o Falo simbólico (seu <em>nome</em>)<a id="_ftnref2" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup> </a></p>
<p>De outro lado, os objetos pulsionais parciais (seio, fezes, olhar e voz), objetos de troca não verbalizada com a mãe, se tornam, pela intervenção da linguagem, objetos de uma demanda. O sujeito se vê confrontado à demanda <em>da</em> e <em>à</em> mãe, isto que Lacan escreve SàD, o algoritmo da pulsão. A elaboração lacaniana conceitua mais precisamente essa etapa lógica da passagem da linguagem à palavra, do significante Um (recalcado) à cadeia dos S2 falada por um corpo, inventando o objeto <em>a</em>. A letra: <em>a</em> é aquilo que cai entre dois significantes. Ela <em>causa </em>aí um intervalo, uma tensão de onde se engendra o sujeito.</p>
<p>Vamos ver se perfilarem dois elementos lógicos, duas constantes (<em>a</em> e -f) cuja articulação esquematiza o enodamento do real ao simbólico, graças ao imaginário<a id="_ftnref3" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>3</sup> </a>.</p>
<p>A <em>Hilflosigkeit</em> do pequeno nascituro, sua falta a ser, se assimila a uma perda (que Lacan escreve: <em>a</em>) que ele negocia na pulsão, e que vai agora referir à diferença sexual imaginada como aquilo que falta ao Outro materno, e que Lacan escreve -f. A nomeação pelo pai real faz dessa diferença um significante: F. De falta a ser, o (<em>a</em>), causa do desejo, adquire o estatuto de uma perda de objeto que se faliciza e toma lugar na fantasia.</p>
<p>Pode-se pensar com Lacan<a id="_ftnref4" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>4</sup></a>, que esta confusão salutar (<em>a</em> = -f) entre a falta a ser e a ausência de pênis em um dos dois sexos se estabelece no “estádio do espelho”.</p>
<p>Com o narcisismo secundário, a falta passa do ser ao ter, e a ausência <em>significa</em> a castração, sob o golpe do interdito paterno.</p>
<p>A letra <em>que não se pode </em>desaparece <em>como</em> o pênis é, ou será, cortado. – A cadeias de Markov tomam ao pé da letra o carretel<strong> </strong>freudiano.</p>
<p>A fobia, como outras patologias contemporâneas, resultaria &#8211; seria nossa primeira hipótese &#8211; de uma dificuldade no processo de simbolização devido a uma falta de eficiência do pai real que não poderia objetivar o -f como perda simbolizada, subjetivada.</p>
<p>Cabe aqui distinguir o que se passa em cada pólo da díade mão-filho.</p>
<p>A mãe é reconhecida faltante, mais sua falta não pode ser referida a<strong> </strong>outro lugar senão em sua relação com seu filho, que, desde então, lhe serve de falo imaginário<a id="_ftnref5" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>5</sup></a>. Isto é, a falta na mãe é imaginariamente preenchida por seu filho-falo. Sua relação a ele é sexuada (e não sexual) na medida em que, para ela, o<em>símbolo</em> fálico<a id="_ftnref6" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>6</sup></a> tomou o lugar do objeto <em>a</em>, sem todavia ter podido ser interditado como tal, isto é, sem passar a significante.<a id="_ftnref7" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>7</sup></a></p>
<p>Clinicamente, os não ditos das gerações anteriores (o que não foi <em>inter-dito</em>) sustentam no inconsciente dessa mãe uma nuvem<strong>,</strong> um perfume de incesto, a esperança de um gozo ilícito mas não recusado, não contestado.</p>
<p>No que concerne ao filho, sua imagem especular (construída a partir de seu primeiro outro) não lhe aparecendo furada no nível do sexo, tudo se passa como se a nomeação do desejo da mãe (não se trata de foraclusão) fracassasse, como se o <em>interdito</em><a id="_ftnref8" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn8" name="_ftnref8"><sup>8</sup></a> não pudesse excluir o objeto, e então nomear seu lugar vazio. O interdito-nomeação se detém no objeto pulsional, na medida em que o símbolo não adveio para ele. Sua mãe o coloca para ela mesma no lugar de falo imaginário negativado (-f), mas ele se vê no lugar de objeto a-sexuado, objeto <em>insensato</em> de uma demanda (SàD), isto é, de uma pulsão parcial.</p>
<p>A causa do desejo (<em>a</em>) não recebe seu nome, por falta de instauração do símbolo sexual &#8211; é a segunda hipótese -, e então não pode passar a significante (não há subjetivação), ela permanece uma hiância no sujeito, sem imagem especular, sem referência a um outro <em>separado</em>, sem alteridade “vivida”,<em>corporificada</em>.</p>
<p>Esse (<em>a</em>) não terceirizado fica sendo, para o sujeito, uma questão privada entre ele e sua mãe, numa troca dual, como eram os objetos parciais. E em particular, já que estamos no estádio do espelho, como olhar &#8230; siderante.</p>
<p>O objeto fóbico vem substituir uma exigência simbólica<a id="_ftnref9" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn9" name="_ftnref9"><sup>9</sup></a>. Ele é um resto destes “apagadores” da falta que são os objetos pulsionais parciais. Real, ele mascara a hiância no Outro que, desde então, não pode se inscrever, tanto quanto o Outro, que daí resulta.</p>
<p>O objeto fóbico, que é sempre intimamente ligado ao olhar, é uma construção que assume a angústia de separação, no momento lógico em que a perda do objeto <em>a</em> (fora do sentido, fora da linguagem) deveria ser reconhecida (pela referência à diferença sexual) e recalcada pela nomeação fálica, no momento em que a carne se torna um corpo que <em>cede</em> ao significante.</p>
<p>Mas ao mesmo tempo, diante da presença de um terceiro, mesmo desvalorizado, este objeto que faz crer numa possível não separação, gera não somente uma angústia, mas uma <em>culpa</em><a id="_ftnref10" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn10" name="_ftnref10"><sup>10</sup></a>. Pois se a inscrição (fálica) não pode ser lida pelo sujeito, se o furo que marca seu corpo<a id="_ftnref11" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn11" name="_ftnref11"><sup>11</sup></a> não pode, para ele, produzir significante, não pode se inscrever na subjetividade, o objeto pulsional foi, entretanto, <em>inter-dito</em>. Ele é <em>ilegal</em>, fora-da-lei fálica, e portanto fora do sentido, letra que sobra de um gozo culpado.</p>
<p>Cada ataque ao narcisismo do sujeito vai ressoar com a primeira separação, e recolocar em cena o olhar mudo, provocando a cada vez uma pletora de suposições inquietantes, verdadeira “hemorragia do imaginário”, desse registro que falha no sujeito fóbico.</p>
<p>“Para compreender a gênese da fobia para um sujeito, é preciso voltar a sua pré-história, [&#8230;] aos segredos das gerações<a id="_ftnref12" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn12" name="_ftnref12"><sup>12</sup></a>.”</p>
<p>Pré-história ou pré-inscrição consiste, para um filho, em <em>erotizar</em> aquilo que escondem dele, o segredo se comportando como um interdito de saber relativo a um gozo ilícito. Foi assim com Édipo, que realizou a previsão temida de seus pais.</p>
<p>É primeiramente através das trocas com a mãe que passam os <em>não-ditos</em>, presentes no desejo do Outro, que dão seu lugar ao sujeito no romance familiar. O discurso dos pais dá estofo em seguida à “lenda”, e seus significantes apoiarão a inscrição que lhe designa esse lugar.</p>
<p>O trabalho de análise consiste em ler, na transferência, estas inscrições e em reencontrar as suposições que o sujeito fez a partir delas. É aqui que intervém o desejo do analista, um desejo Outro que visa a pura diferença, o (<em>a</em>) recalcado, maquiado pelas inscrições, pelos significantes – nisso incluídos os “objetos” fóbicos – que desnaturam e mascaram a letra.</p>
<p>No caso particular da fobia, onde o objeto olhar constitui a tela imaginária para a angústia, é, entre outras, a voz do analista que pode substituir a pulsão escópica <em>monstruosa</em> que afeta os objetos. É bom, no caso, que o dispositivo analítico retire o analista da visão do analisante, e vice-versa.</p>
<p>É na pulsão, anteriormente outrificada, erotizada pela mãe, isto é, nisso que enoda o corpo ao significante, que pode ser lida a inscrição inconsciente, restituindo ao sujeito a parte que lhe cabe no seu romance familiar.</p>
<p>Daí a importância do corpo na transferência (transferência <em>contactual</em> de Lina Balestriere<a id="_ftnref13" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn13" name="_ftnref13"> <sup>13</sup></a>),  mesmo que o aparecimento da fantasia e do desejo inconsciente seja uma etapa necessária, assim como, sem dúvida, uma reabilitação narcísica do sujeito. Reabilitação que, como ressalta I. Diamantis<a id="_ftnref14" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn14" name="_ftnref14"><sup>14</sup></a>, pode se produzir no momento de um luto, na separação (enfim) realizada; tal como pode suscita-la, acrescentaremos, a escansão ou o silêncio do analista.</p>
<p>Idealmente, a atenção dita flutuante do analista se liga à música do discurso do analisante e permite ao bom entendedor se apossar de uma letra (em falta ou em excesso), de uma pontuação, para ler de outra forma o que é dito através do dizer, e assim inscrever a letra na pulsão invocante.</p>
<p>A letra é escutada como uma <em>falsa nota</em> na expressão do gozo pulsional, que assinala a impossível separação simboligênica. Com efeito, se (<em>a</em>) representa (-f) no inconsciente, se o objeto <em>a</em> representa o sexual a vir, e à “espera” de sua nomeação como significante, a presença desse resíduo em <em>lalangue</em>do sujeito atesta a persistência de um tipo de gozo caduco, fora da linguagem.</p>
<p>A leitura da letra – que passa necessariamente pelo corpo, pela pulsão – na transferência, pode permitir recolocar em cena o objeto <em>a</em> que foi ativo na “fase” perverso-polimorfa, e que constitui o que Diamantis<a id="_ftnref15" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn15" name="_ftnref15"><sup>15</sup></a> chama de nó fóbico, comum às diferentes neuroses. O objetivo sendo que este objeto possa se constituir como separado, na medida em que, para o sujeito fóbico, há indistinção entre ele mesmo (sua imagem, isto é, seu eu) e seu laço pulsional (incestuoso) a sua mãe (o Outro primordial). O que se chama: o gozo.</p>
<p>O olhar, objeto <em>a</em>, que surge na ocasião de um colapso do eu (ataque narcísico), lembra ao fóbico que ele é esse objeto, ao mesmo tempo não separado e jogado para fora, esse objeto da negociação perverso-polimorfa que deveria ter sido recalcado e <em>inter-dito</em>, o que se chama: castração simbólica<a id="_ftnref16" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn16" name="_ftnref16"><sup>16</sup></a>, em que é reconhecida a alteridade do objeto, sua “extimidade”.</p>
<p>Na falta da eficiência do interdito paterno para a subtração de gozo, compreende-se que, se a angústia face ao desejo do Outro “só é coberta pelo objeto fóbico”<a id="_ftnref17" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn17" name="_ftnref17"><sup>17</sup></a> – sempre no campo do olhar –, qualquer manifestação minimamente apoiada desse desejo virá inchar o embuste (o objeto fóbico) de sua importância para o sujeito: <em>vital</em>.</p>
<p>Um olhar que se perde no ilimitado, que desaparece no negro, que se fixa na intensidade, surge na surpresa ou se demora com complacência, reavivará a angústia de separação – desaparecimento, uma angústia indizível, inexplicável, fora do sentido, que não tem nem mesmo a ameaça de castração por álibi. Tudo pode acontecer, sem recurso possível diante do vazio que se cava.</p>
<p>A metáfora paterna, nomeando o desejo do Outro, o sexualiza referindo-o ao Outro sexo e dá um esperança &#8230; para mais tarde.<a id="_ftnref18" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn18" name="_ftnref18"><sup>18</sup></a> É assim que o Falo simbólico toma o valor de um bem supremo que empurra o sujeito para a vida, para um desejo sexuado através de sua fantasia.</p>
<p>Segundo Diamantis<a id="_ftnref19" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn19" name="_ftnref19"><sup>19</sup></a>, o estudo da fobia demonstra que o “acesso ao outro do sexo oposto passa pelo caminho das pulsões, e não pela diferença sexual”. Seria na medida em que a pulsão “outrifica” a libido, permitindo o encontro da alteridade, a dependência em relação à linguagem, e a entrada no “discurso, único que pode excluir um sexo para designar o outro”? Com efeito, contrariamente ao discurso, o inconsciente não conhece a negação a não ser sob a forma da expulsão. Pois o filhote de homem é afetado antes de pensar, pois o acesso de uma coisa à consciência passa pelo julgamento de atribuição antes do julgamento de existência<a id="_ftnref20" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn20" name="_ftnref20"><sup>20</sup></a>, pois o recalque é primeiro e a subjetivação da Coisa (a a-Coisa) só é permitida pela atribuição da falta estrutural do humano a uma falta do objeto, da qual a diferença sexual é uma das vicissitudes, isto é, somente <em>in fine</em>, pela negação do <em>símbolo</em> fálico (que nesse momento se torna um significante), isto é, por uma dupla negação.</p>
<p>Lembremos que Freud datava no tempo pulsional (entendido como tempo lógico) o nascimentos de um novo sujeito, <em>ein neue subjekt</em>, e não na apercepção da diferença anatômica dos sexos. Dito de outra forma, o “estádio do espelho” só adquire sua eficácia pela intervenção concomitante das palavras do Outro, numa demanda recíproca (SàD), que concerne a um embuste, pretensamente perdido pelo corpo.</p>
<p>Não seria então o imaginário do símbolo que falta aqui, tornando impossível sua colocação em equivalência com a perda, e então sua nomeação?</p>
<p>Isto faria da fobia o paradigma de um acidente da simbolização, pela falta de um apoio suficiente no imaginário para a função paterna.</p>
<p>Bem mais que isso, chegaríamos a dizer que a fobia “comum” testemunha a fragilidade dessa função, e o peso “neurotizante” da figura do Um Pai, ainda por cima eterno.</p>
<p>Quer se queira ou não, para nossa civilização oriunda do monoteísmo, é a linguagem, ou mais exatamente a palavra, o <em>inter-dito</em> trazido pela <em>voz</em> de um terceiro real, e não o inconsciente, que permite a dupla negação, a subjetivação da perda, e, por via de conseqüência, a sexuação do sujeito humano, sua tomada num desejo.</p>
<p>Lembremos ainda que a única ligação entre o corpo e o inconsciente, estruturado como uma linguagem, é <em>representada</em> pela letra (a materialidade do significante), e <em>objetivada</em> pela pulsão parcial, pelo objeto <em>a</em>, aqui a voz, que substitui o olhar siderante. O sujeito <em>de-siderado</em> torna-se desejante.</p>
<p>Dizendo de outra forma: o objeto <em>a</em>, real, enoda o corpo ao significante (F ou S1) passando pela negativação do símbolo (-f), isto é, pelo que Freud conceituou sob a forma do interdito do incesto.</p>
<p>Quanto ao complexo de Édipo, um sonho de Freud segundo Lacan, ele traz a marca superegóica do Um todo poderoso que monopoliza o Falo em nome do Pai.</p>
<p>Sem dúvida, Lacan o atenuou com os Nomes-do-Pai plurais, mas talvez conviesse não ocultar este dado antropológico que quer que na aurora da humanização, o homem se tenha desprendido do olhar “totalizante” pela imagem produzida por suas mãos, que “propõe ao olhar a imanência de uma ausência”,<a id="_ftnref21" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn21" name="_ftnref21"><sup>21</sup></a> de uma alteridade.</p>
<p>Talvez o Um, incontornável, não fosse obrigatoriamente o Pai? A transferência que coloca um significante em posição de exceção, e o <em>afeta</em> com o traço Um poderia, criando com a pulsão uma imagem da perda, realizar as condições de um desprendimento da fusão incestuosa?<a id="_ftnref22" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn22" name="_ftnref22"><sup>22</sup></a></p>
<p>O símbolo constituído pelas “mãos negativas”<a id="_ftnref23" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn23" name="_ftnref23"><sup>23</sup></a> encontradas nas grutas paleolíticas dariam testemunho disso. A <em>transferência</em> do pigmento, soprado pela boca sobre a mão colada na parede, deixa, quando ela é retirada, uma borda, a marca de uma ausência <em>visível</em>, a de um sujeito liberado graças à imagem, equivalente à letra cedida por um sujeito falante que se busca de significante em significante.</p>
<p>O trabalho de J.-M. Forget<a id="_ftnref24" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn24" name="_ftnref24"><sup>24</sup></a>, que propõe “reintroduzir o imaginário a partir de uma vacuidade no Outro”, mostra que nos <em>acting</em> e <em>sintoma</em>&#8211;<em>out</em> dos adolescentes com os quais ele lida, “o que é recusado pela palavra é chamado pelo olhar”. Procurando “o fechamento do circuito da pulsão em torno de um vazio”<a id="_ftnref25" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn25" name="_ftnref25"><sup>25</sup></a>, trata-se para eles de tentar suscitar um “novo sujeito”, colocando em cena o que deveria ser no Outro um traço de corte, um traço de renúncia, a marca de um impossível&#8230;”<a id="_ftnref26" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftn26" name="_ftnref26"><sup>26</sup></a>.</p>
<p>Ali onde a pulsão invocante falta, um apelo é lançado ao olhar, como na fobia, se bem que de outra maneira.</p>
<p>Charles Melman evocou, em Paris, no último dia 16 de março, uma outra possibilidade de mudança de objeto pulsional, a propósito da anorética, inacessível pelo tratamento clássico em sua resolução implacável, e para a qual ele sugeria a prescrição de&#8230;  cursos de canto. Um pouco, dizia ele,”como o que faziam os xamãs”.</p>
<p>O Um separa do Outro; comumente, até há pouco, o pai separa da mãe. Mas se esta separação vem de outro lugar, se ela sobrevém por outro lugar, seria a mesma coisa?</p>
<p>Pode-se imaginar que a <em>struggle for live</em> a que estavam submetidos nossos ancestrais antes de neolitização tinha um efeito separador <em>de facto</em>, pela pressão vital exercida permanente e indistintamente sobre os dois sexos.</p>
<p>O capitalismo liberal <em>democrático</em> que nós conhecemos, em que tudo parece possível, não haveria um efeito semelhante, que torna homens e mulheres (quase) iguais diante da lei do mercado, submetendo-os todos à norma-macho, ao todo fálico?</p>
<p>Mas talvez o homem das origens não tivesse inconsciente?</p>
<p>Talvez o significante fálico não viesse, para ele, anular a própria idéia de um Outro gozo, <em>não-todo</em> nas palavras?</p>
<p>Nas patologias atuais, com a “derrota da transcendência divina do Pai”, onde se vê reduzirem-se as capacidades de transferência dos sujeitos que nos são endereçados, mais do que se endereçam a nós, estaríamos assistindo ao desaparecimento do inconsciente?</p>
<p>Talvez o próprio sujeito do inconsciente seja resultado do monoteísmo?<br />
<a id="_ftn1" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref1" name="_ftn1">1. </a>Tradução: Pedro Silveira; Revisão: Sergio Rezende<br />
Para ler o texto original: <a href="http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=pdanhaive010508" target="_blank" rel="noopener">http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=pdanhaive010508</a><br />
<a id="_ftn2" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref2" name="_ftn2">2. </a>Nesse estádio, uma questão nos importa: em que medida, o Nome-do-pai, que resulta do monoteísmo, se confunde com o significante fálico? Vê-se bem que, se eles são mais ou menos confundidos, o desmantelamento da função paterna que observamos atualmente terá uma influencia no estabelecimento do significante mestre.<br />
<a id="_ftn3" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref3" name="_ftn3">3. </a>Nos apoiaremos mais adiante na distinção entre o símbolo e o significante fálico.<br />
<a id="_ftn4" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref4" name="_ftn4">4. </a>J. Lacan, O seminário, 1962-1963, A angústia, Edição da ALI.<br />
<a id="_ftn5" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref5" name="_ftn5">5. </a>Aqui se coloca precisamente a questão de saber se a <em>rolha</em> em questão (o filho) tem para ela e/ou para ele mesmo, estatuto de falo ou então de objeto <em>a</em>.<br />
<a id="_ftn6" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref6" name="_ftn6">6. </a>Retomamos esta interessante distinção entre símbolo e significante fálico de Gisèle Chaboudez, em<em>Relação sexual e relação dos sexos</em>, Denoel, Paris, 2004.<br />
<a id="_ftn7" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref7" name="_ftn7">7. </a>O símbolo f designa uma presença sob o modo imaginário, enquanto que o significante F nomeia uma ausência que ele anula – assim como, por outro lado, a possibilidade de um gozo <em>suplementar</em> para uma mulher.<br />
<a id="_ftn8" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref8" name="_ftn8">8. </a>Uma maneira elementar mais eficaz de nomear um objeto é interdita-lo, o que resulta em expulsá-lo, segundo o mecanismo descrito por Freud com a <em>Verneinung</em>, a negação.<br />
<a id="_ftn9" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref9" name="_ftn9">9. </a>A subjetivação da falta.<br />
<a id="_ftn10" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref10" name="_ftn10">10. </a>O que diferencia a fobia da perversão.<br />
<a id="_ftn11" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref11" name="_ftn11">11. </a>Lembremos que a pulsão deixa o corpo furado por orifícios erotizados como, em <em>lalangue</em>, a queda de uma letra separa os significantes por uma hiância que chama a continuação da cadeia. O sujeito é empurrado para a frente.<br />
<a id="_ftn12" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref12" name="_ftn12">12. </a>Irène Diamantis, <em>Les Phobies ou l’impossible séparation</em>, Champs Flammarion, Paris, 2003.<br />
<a id="_ftn13" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref13" name="_ftn13">13. </a>In L. Balestries, J. Gogfrin, J.-P. Lebrun, P. Malengrau, <em>Ce que est operant dans la cure</em>, Erès, 2008.<br />
<a id="_ftn14" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref14" name="_ftn14">14. </a>I. Diamantis, op. cit.<br />
<a id="_ftn15" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref15" name="_ftn15">15. </a>Op. Cit.<br />
<a id="_ftn16" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref16" name="_ftn16">16. </a>“A castração quer dizer que é preciso que o gozo seja recusado, para que ele possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo” (Lacan, Subvertion du sujet, in Écrits, p. 827)<br />
<a id="_ftn17" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref17" name="_ftn17">17. </a>J. Lacan, Écrits, p. 824.<br />
<a id="_ftn18" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref18" name="_ftn18">18. </a>É esta “colocação à distância” do objeto que traz dificuldade para o sujeito fóbico.<br />
<a id="_ftn19" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref19" name="_ftn19">19. </a>Op. Cit, p. 170<br />
<a id="_ftn20" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref20" name="_ftn20">20. </a>S. Freud, Die Verneinung, (1925), La négation, em Obras Completas, tomo XVII, PUF, Paris, 1992.<br />
<a id="_ftn21" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref21" name="_ftn21">21. </a>Marie José Mondzain, Homo spectator, Bayard, Paris, 2007.<br />
<a id="_ftn22" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref22" name="_ftn22">22. </a>Isto nos remete, sem dúvida, à difícil questão da sublimação.<br />
<a id="_ftn23" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref23" name="_ftn23">23. </a>Remetemos, a este propósito, ao nosso trabalho: Pierre Danhaive, De l’Aurignacien au Lacanien&#8230;., in Bulletin de l’Association freudienne internationale, Paris, nº 79, setembro 1998.<br />
<a id="_ftn24" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref24" name="_ftn24">24. </a>J.-m. Forget, <em>L’adolescent face à ses actes &#8230; et aux autres</em>, Éditions Erès, 2005, p. 154.<br />
<a id="_ftn25" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref25" name="_ftn25">25. </a>Ibidem.<br />
<a id="_ftn26" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-a-fobia-comum-2/?cod=79#_ftnref26" name="_ftn26">26. </a>Ibidem.</p>
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