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	<title>Marcel Czermak &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Marcel Czermak &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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		<title>Apanhar um fato clínico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marcel Czermak]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 13:42:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Apanhar um fato clínico]]></category>
		<category><![CDATA[Marcel Czermak]]></category>
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					<description><![CDATA[Stéphane Thibierge : Eu lhes proponho partir do seguinte ponto, aferente a nosso trabalho, que dá conta de uma preocupação que Marcel Czermak queria abordar. Trata-se da maneira pela qual apreendemos, apanhamos os fatos da clínica. Poderíamos começar a falar disso a partir de duas conjunturas da situação atual.

Na primeira dessas conjunturas eu estive diretamente implicado, já que por sua iniciativa, junto com Marcel Czermak, Alain Cardon e Alain Harly, em Poitiers, reunimos algumas pessoas que fazem apresentações de doentes, ou seja, pessoas diretamente ligadas a essa questão do fato clínico, como é que se apanha um fato clínico, pois se trata disso, o que chamamos de uma apresentação de doente. Numa apresentação de doente, trata-se da maneira pela qual cada um dá conta da maneira pela qual ele apanha ou não, aliás, como ele procede para estabelecer os fatos. Quais são os fatos? O que é que há? Do que é que falamos?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sexta-feira de Sainte-Anne</p>
<p>Marcel Czermak &#8211; 15/02/2007<br />
Seminário de Marcel Czermak</p>
<p>Sexta-feira de <em>Sainte-Anne</em>, janeiro de 2006<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a></p>
<p><strong>Stéphane Thibierge</strong> : Eu lhes proponho partir do seguinte ponto, aferente a nosso trabalho, que dá conta de uma preocupação que Marcel Czermak queria abordar. Trata-se da maneira pela qual apreendemos, apanhamos os fatos da clínica. Poderíamos começar a falar disso a partir de duas conjunturas da situação atual.</p>
<p>Na primeira dessas conjunturas eu estive diretamente implicado, já que por sua iniciativa, junto com Marcel Czermak, Alain Cardon e Alain Harly, em Poitiers, reunimos algumas pessoas que fazem apresentações de doentes, ou seja, pessoas diretamente ligadas a essa questão do fato clínico, como é que se apanha um fato clínico, pois se trata disso, o que chamamos de uma apresentação de doente. Numa apresentação de doente, trata-se da maneira pela qual cada um dá conta da maneira pela qual ele apanha ou não, aliás, como ele procede para estabelecer os fatos. Quais são os fatos? O que é que há? Do que é que falamos?</p>
<p>Uma segunda conjuntura concerne a Christian Hoffmann, mas Marcel está ligado a ela, trata-se de um colóquio, do qual participamos e organizamos em parte, em Poitiers, dentro de dez dias, sobre a passagem ao ato. Hoje em dia trata-se de uma questão atual, seria o caso de dizer. Trata-se de uma questão que é particularmente, eu não diria mal abordada, mas abordada de uma maneira que não é muito feliz e por razões que eu lhes proponho evocar um pouco com vocês hoje.</p>
<p>Então, com relação a esses dois pontos: como é que se apanha um fato clínico – sempre essas questões de método que nos animam – e o outro ponto: o que é que se faz com a passagem ao ato, já que se trata de um fato, a passagem ao ato. O que é que é preciso para que seja um fato? Quando vocês dizem “passagem ao ato”, não é suficiente para caracterizar um ato, naturalmente. Trata-se de um dado muito pobre no plano comportamental, a passagem ao ato. É portanto necessário ir um pouco mais longe.</p>
<p>Para encaminhar nosso trabalho de hoje, eu lhes proponho partir daí, depois Christian nos dirá o que ele pensa disso. Essas questões de método, tal como as trabalhamos enquanto analistas ou enquanto concernidos pela análise, enquanto sujeitos, mas esse termo sujeito, não é um termo evidente. Talvez eu volte a isso porque quando emprego esse termo sujeito, não é evidente que sejamos sujeitos. Quero dizer com isso que, na nossa vida comum, temos uma propensão, que não é verdadeiramente necessário realçar, a nos colocar de bom grado de uma maneira que nos põe na função de objeto muito mais do que na de sujeito. É por isso que não é evidente falar de sujeito a propósito de cada um de nós. É como a divisão do sujeito. Essa famosa divisão do sujeito de que falamos como se fosse uma evidência, enquanto ela não o é de modo algum.</p>
<p>A divisão do sujeito supõe que um sujeito fale do que lhe concerne, do que o toca, do que o faz falar, justamente. Não é uma condição atendida de maneira geral. De maneira geral, a divisão do sujeito não está presente, eu diria mesmo que, é uma observação, eu talvez desenvolva essa questão, porque se trata de um ponto que acho muito importante na clínica e na doutrina. A divisão do sujeito é justamente o que é recalcado na neurose. E vocês sabem que na análise, quando um sujeito neurótico vem à análise, não é sempre simples nem evidente, longe disso, levá-lo a consentir em se dividir, no sentido de falar. Há sujeitos que levam muito tempo para consentir em colocar em ato essa divisão. Não somos ordinariamente divididos e somos ordinariamente levados a nos colocar em posição de objeto e não de sujeito.</p>
<p>Não é desonroso se colocar em posição de objeto. Não, mas é simplesmente para lhes fazer entender que essa posição de sujeito, da qual Lacan dizia em “Ciência e Verdade”, de maneira viva, como sempre: “por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis”. Se ele lembra isso, é que não é evidente que assumamos essa responsabilidade. Então, isso para dizer que quando se trata de estabelecer os fatos, quando se trata de saber do que é que falamos, com o que é que trabalhamos e o que é que levamos em conta, pois bem, o primeiro instrumento metodológico que temos, pode parecer um pouco trivial lembrá-lo, se bem que eu não acho que seja, o primeiro instrumento que temos é uma língua, uma linguagem bem feita. Não é inútil lembrar, hoje em dia, quando a ênfase dada à maneira de falar, à linguagem que cada um fala, essa ênfase, como vocês sabem, está em vias de se perder e então, esse primeiro instrumento de abordagem dos fatos clínicos que nos interessa é uma linguagem suficientemente bem feita para tomar parte, para fazer parte disso. Trata-se de uma questão maior hoje em dia, eu acho, na medida em que muitos sujeitos são excluídos da linguagem que falam. Isso esclarece muito a questão da passagem ao ato. Vou ficar por aqui.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Com isso que vocês acabam de evocar, eu poderia achar que a telepatia existe. Pois, justamente, eu contava continuar coisas que começamos a levantar da última vez, na medida em que, tendo visitado recentemente meus colegas de Brest, soube que eles pretendem, como tema de sua reunião anual no mês de junho, abordar a seguinte questão: “Como é que se ensina a psicanálise hoje em dia?”.</p>
<p>É sempre difícil ter uma idéia do que estamos fazendo, pois só o medimos <em>a posteriori</em>. Eu poderia lhes dizer, justamente, como é que se ensinava quando eu era mais jovem, mas minha fala não vai ser exatamente essa. Seja o que for, havia sempre uma questão que perpassava, e Lacan dizia: “Façam como eu”. Isso, isso não leva a nada: “Façam como eu”, “é preciso que haja quem faça como eu”.</p>
<p>Enfim, se retomamos essa questão, que está aqui alinhavada: “o que é um fato clínico”, e como é que isso se dá, não é nada evidente. Sem dúvida, existe gente que imagina que os fatos clínicos saem completamente armados de nossa cabeça e que teríamos apenas que inscrevê-los, que eles viriam nos ditar o que convém.</p>
<p>Há uma coisa, em todo caso, que, no que me concerne, é bem sensível. Pediram-me para redigir, no último fim de semana, o prefácio de uma publicação que deve sair, que colegas brasileiros e franceses prepararam, de traduções de textos deles. Eu os relia, e o que me apareceu claramente, primeiro eu me senti obrigado a assinar, meu nome sendo ali secundário, do lugar onde isso foi construído, ou seja, tanto dessa associação em que nos encontramos quanto da escola de <em>Sainte-Anne</em> e, sobretudo, como é que eu via o conjunto dos textos? Aliás, os próprios autores já o tinham demarcado, e muito melhor do que eu teria sabido fazê-lo, como uma antologia didática e genealógica das questões partilhadas, com uma única condição, que é a mais difícil e raramente se realiza, que é a de estar submetido, a qualquer preço, a um discurso comum. Não o “discurso comum”, mas um discurso que nos seja comum. Essa é, evidentemente, a coisa mais difícil na atmosfera de pretensão à discussão e à troca em que estamos, em que cada um teria sua palavra a dizer sobre cada um e o que quer que seja, é perfeitamente claro que só se fala com gente a quem se tenha infundido, a quem se tenha transmitido, a mesma linguagem. Isso, isso já leva alguns anos.</p>
<p>Se vocês lerem a última edição da <em>Magazine littéraire</em> consagrada a Freud, que é apenas um número destinado a servir de badalação para a Sra. Elizabeth Roudinesco, essa questão está perfeitamente evacuada. Há ali um artigo de um senhor que é diretor dos <em>Hautes Études</em>, que ainda não aprendeu nada apesar de sua idade avançada, continuando a se insurgir contra o que ele chama de “idioleto”<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. Como se toda disciplina não tivesse que forjar a língua que lhe é oportuna! Quem vai censurar um matemático por dizer “função de”? Quem vai impedir um matemático de escrever, para designar o infinito, um pequeno oito deitado? Que vai impedir Eintein de escrever E=MC2 ? É muito espantoso ler essa reivindicação, ligada ao fato de que cada um se estime parte integrante em qualquer discurso ambiente. Estamos envolvidos numa história na qual seria preciso que cada um abdicasse de sua própria forja em benefício do discurso comum e abandonasse sua própria linha.</p>
<p>Esse viés, para lhes dar, de algum modo, algumas observações preliminares que não nos deixem completamente desarmados diante da bobagem ambiente, ainda por cima agressiva, em que cada um está implicado, mesmo procurando se desimplicar, já que o grande elogio, nesse número da <em>Magazine littéraire</em>, em relação à Sra. Roudinesco, é que ela não tem nenhum dogmatismo, que ela não é sectária, que ela gosta de todo mundo, que ela dá atenção a todo mundo, enfim, isso aí&#8230; Não é assim que se faz a doutrina e, como vocês sabem, a doutrina, infelizmente, supõe sempre se apoiar em questões que sejam axiomáticas, ou seja, dogmáticas: não tem jeito! Como vocês vêem, trata-se de encaminhamentos que não apenas são antianalíticos, mas anticientíficos propriamente falando. Se estou a bordo de um navio e o capitão do navio diz: “Direção 180, deriva de –3”, isso quer dizer o quê? Trata-se de idioleto? Isso quer dizer um mapa, compassos, lápis, borrachas, binóculos e aí vemos qual a rota que seguimos.</p>
<p>Então, esse terceiro volume, traduzido por nossos amigos para os brasileiros, é extremamente interessante para mim quanto aos fatos, pois eu não mexi um dedo para sua publicação. De que maneira eles tentaram apanhar e retomar a genealogia do trabalho partindo daquilo que é preciso mesmo dizer e admitir: Lacan! Ali, evidentemente, há coisas que Lacan não trabalhou. Não é Lacan, é inédito. Enfim, tem o mérito de indicar de que maneira, no quadro de um mesmo discurso, há gente que pode chegar a abrir uma gaveta e, nessa gaveta, encontrar uma outra e depois fechá-la e fabricar uma nova. O que nos leva, ainda assim, à dificuldade, para nós mesmos, de resistir ao que seria a demolição daquilo que seriam nossas próprias condições de produção. Em que condições nós produzimos? Em um número da <em>Lettre de la psychiatrie française</em>, que é um jornal sindical que eu recebo, há uma carta de um colega corso que relata as falas da diretora do hospital de Bastia, que se queixa, enquanto diretora do hospital, de que “seus instrumentos de produção não acompanham”. Esses instrumentos de produção são os médicos! Como vocês vêem imediatamente, a questão de saber até que ponto, pois afinal somos sempre o instrumento de nossos pacientes, enfim, ser o instrumento de seus pacientes é uma coisa, instrumento de seu próprio diretor é outra.</p>
<p>Em todo caso, o que eu queria evocar, com relação a esses volumes brasileiros, é que eles têm o mérito de mostrar que a clínica, isso não se constrói sozinho. Pois, se no discurso que nos é comum, ao qual seria preciso se submeter, se está sozinho, pois bem, não se constrói nada. Há uma colega brasileira que veio me visitar esta semana e eu a interroguei um pouco, justamente, sobre as condições de produção da psicanálise lá onde ela se formou. Então, é formidável: uma pessoa = uma instituição. É isso mesmo! Isso quer dizer que é a própria recusa da transferência! Eu sou, por mim mesmo, uma instituição, isso é a própria recusa da transferência! Evidentemente, não há nada a esperar daí.</p>
<p>Da última vez, eu brinquei um pouco a propósito da questão do falo, dizendo que o falo é o que serve para enviesar. Isso fez vocês se divertirem um pouco. Mas é bem mais verdadeiro do que vocês podem imaginar, penso nos Bretões e nos Brasileiros. Da última vez que fui a Brest, me trouxeram uma moça para examinar. Eu queria ter a observação integral, infelizmente ela me foi enviada pelo correio essa manhã. Então, tomei conhecimento por alto, numa transcrição um pouco rápida demais. Uma vez mais, volto ao fato de que, quando lidamos com pacientes rigorosos, o mínimo é estar à altura dos pacientes, ou seja, ser tão rigoroso quanto eles. Assim, a transcrição não está totalmente à altura da paciente.</p>
<p>Seja como for, havia ali algo de extremamente interessante. Sem retomar toda a observação em detalhe, essa paciente psicótica distinguia muito bem o que ela chamava de voz alta, isso que estamos fazendo aqui, eu me dirijo a vocês, conversamos, isso se ouve, e depois a voz infraverbal ou a voz <em>off.</em>Era em suma um diálogo paralelo, isso se encontra em certos casos de automatismo mental, então era uma voz paralela. Então, como ela chamava isso de sua voz infraverbal, pusemo-nos a conversar e tentei estabelecer as características que distinguem a voz alta, essa que eu tenho agora, me dirigindo a vocês, dessa voz infraverbal que convoca e na qual se convocam diversos interlocutores. Então, o que é muito interessante, é que eu entrei nesse diálogo a fim de estabelecer as características estritamente formais tanto da voz alta quanto da voz infraverbal. Eu me abstive de procurar o menor sentido. Apenas tentei estabelecer as características formais dessas vozes de modo a poder apreciar não o sentido, mas a significação.</p>
<p>Vou lhes dizer uma palavra a respeito, mas o que era extremamente interessante, no plano didático, no plano do trabalho, da pesquisa, era que, excepcionalmente, estavam lá três enfermeiras que se ocupam da doente – elas sempre se perguntam se podem vir, se isso é endereçado a elas -, mais uma jovem estudante de medicina que estava chegando e que estabeleceu a observação. Era a primeira observação psiquiátrica que ela estabelecia em sua vida. O que é extremamente interessante, em primeiro lugar, é que agora se formam as enfermeiras dizendo-lhes que há entrevistas de enfermagem, que há diagnósticos de enfermagem.</p>
<p>Eles pensam que é parecido com os “especialistas” e então, estavam muito espantados com o fato de que a entrevista que eu acabara de ter com essa moça não tivesse nada a ver com a entrevista deles; de se dar conta de que, colocá-la no bom caminho, recolocar as coisas no lugar, não tinha sido minha preocupação e que tenha sido simplesmente: Com quem você fala? Quando isso começou? De onde vem? Quem toma a iniciativa? De quê isso fala? Portanto, um caráter puramente formal. O que era interessante ali, é que todos são gente triturada, trabalhada, entre parênteses, por estudos em que lhes ensinaram a psicologia. Então, vejo essa jovem estudante, de vinte e cinco ou vinte e seis anos, trata-se de sua primeira doente, ela não conhece nada. Dizem a ela: “você estabelece a observação”. Então, como ela não entende nada, é formidável, ela se agarra aos galhos. E os galhos não são assim tão ruins! Ensinaram a ela na medicina que, diante de uma dor, procura-se saber onde ela se situa, como e quando ela se desencadeia, quais são suas características, transfixante ou não? Pra onde irradia? Portanto, ensinaram-lhe a transcrever as coisas puramente formais. Então, ela faz como de Clérambault. Ela faz uma observação impecável, e eu me digo: “Diabo, mais três anos e ela está ferrada!” Se ela for estudar mais tempo ela está ferrada! Ela está muito bem assim!</p>
<p>Vou ler para vocês alguns pequenos fragmentos, de qualquer modo, se bem que isso se preste mal à sistematização. Não tive muito tempo pois só recebi agora. Enfim, a voz alta: “a gente pode mentir”. Quanto à voz infraverbal, a voz baixa: “não há mentira, ela comporta a verdade absoluta e é preciso encontrar a palavra certa”. Ela descobriu essa voz infraverbal e descobriu uma nova comunicação. Então, essa comunicação, muitos a utilizam, sua mãe e outras pessoas, então, cada um pode utilizá-la. Antes, eles vivem todos em suas mentiras com a voz alta. É muito interessante! Todo mundo mente. Em voz baixa, então, em voz infraverbal, pode-se trocar todo tipo de comunicação, porque aí as pessoas são muito mais sinceras, vai de pensamento a pensamento, e ela tem essa fórmula deliciosa: “Ninguém pode impedir que o outro esteja em seus pensamentos”. Não é que o outro esteja em meus pensamentos, são os pensamentos do outro que vêm parasitar os nossos. Eu lhe pergunto então se é ela que os convoca ou se eles é que se convidam. Então: os dois são possíveis. Tanto ela os convoca e há uma discussão, quanto eles se convidam sozinhos. Eu lhe faço observar que comigo, me acontece todos os dias de convocar um monte de colegas com os quais eu discuto um pouco e há mesmo aqueles que se metem e que eu não convidei. (Risos). Não é parecido porque, precisamente, a distinção concerne ao fato de que eu posso convidar quem eu quiser no meu pequeno debate interior, em todo caso, com ela, é franco e direto e dá sempre mais ou menos certo o tempo todo. E então, ela começa a ficar feliz.</p>
<p>Em voz “alta”, mente-se, em voz “baixa”, “infraverbal”, ela diz que também se pode mentir, mas de preferência é feito para esclarecer as coisas. Quando as pessoas se falam em voz alta, há sempre sentimentos misturados. É verdade! Se me endereço a vocês, posso ser ambivalente, descontente, estar embaraçado com o fato de ter chegado meia hora atrasado, achar a melhor ou a pior das desculpas, enfim! Mas ali, no nível infraverbal, não há engano. Em voz alta, podemos estar numa relação mais imperfeita, temos a pessoa na frente, diretamente, há menos demanda de sinceridade, em voz <em>off </em>há mais esforço. Vocês vêem como aparecem dois níveis, dos quais um estaria desembaraçado de nossa resistência comum, portanto um nível sem resistência, franco e sincero, onde poderíamos invocar, convocar ou se fazer convocar espontaneamente, mas sem que isso crie problemas do tipo daqueles que encontramos em nossas relações efetivas com o outro. Nesse momento, acabo por lhe perguntar se há um namorado do lado da voz infraverbal. De todo modo, como era uma dama que eu examinava, era preciso que eu lhe perguntasse se ela tinha um namorado. Havia um namorado, havia mesmo dois, com os quais a relação era espontânea, franca, direta, desprovida de qualquer escória, enfim, a verdadeira felicidade e as promessas. Ela simplesmente não quis me dizer seu nome. Enfim, a voz <em>off</em> tinha o direito de ter assim mesmo algumas pequenas resistências! Mas o namorado em questão, tinha assim mesmo marcado um encontro com ela. Então, aí também, não pude obter o local do encontro. Suspeitei, vocês que conhecem Brest, que ele deve ter marcado o encontro na<em>Récouvrance</em>. É, de todo modo, no plano da estrutura, o local ideal para conseguir um encontro com uma jovem. Então agora que há uma balaustrada para impedir os suicídios! Enfim, ela não quis me dizer onde era o encontro, ela foi até lá e, decepção, o namorado em questão não estava lá. Enfim, ela o trocou por um outro. Ele tinha prometido o quê, esse namorado? Ele tinha prometido, é delicioso: “que a gente ficaria junto”.</p>
<p>Só com isso, como a coisa está incompleta, recaímos nessa história do falo como instrumento do viés, pois ela indica muito claramente de que modo, em sua linguagem comum, corrente, diante do outro, evidentemente, há uma opacidade. Há uma incógnita: a alteridade do outro. Existe mentira inexorável e inevitável e, no fundo, todo mundo mente. Agora há seu Imaginário, que é seu Real, que ela convoca, onde ela é convocada, a relação é transparente, o objeto é o bom. Enfim, aproximativamente, não adianta marcar encontros, ele não está lá. Então, esse é talvez o único ponto bom do negócio: “O bandido, ele me enrolou, marca um encontro e na última hora foge!” Em todo caso, é num nível alucinatório em que isso não enviesa! Não é enviesado! Daí a questão, pois tínhamos falado disso da última vez, do operador em jogo, o falo. Chamo a atenção de vocês, é uma maneira de nomear esse operador que faz passar desse registro enviesado e astuto, eventualmente reservado e reticente, para esse registro no qual, entre o outro e eu, não há nenhum afastamento e estamos na cooptação mais sincera, mais franca, mais direta. Podemos pensar que a falta do namorado ao encontro era o último obstáculo sério e bem-vindo a um encontro, digamos, definitivo.</p>
<p>Na última quarta-feira, em <em>Sainte-Anne</em>, evocamos este encontro que deve acontecer nos dias 14 e 15 de janeiro próximo, sobre esse tema: “Questões clínicas usuais e inusitadas” e, paralelamente, há essa reunião, da qual vocês falavam quando eu cheguei, que aconteceu em Poitiers, em torno das atividades a que nos dedicamos e, especialmente, as entrevistas com doentes. O eco que me chegou, pois lamento não ter podido participar, é que, no fundo, a propósito de um tema mais ou menos semelhante, as práticas e os interesses eram bem diferentes. Ou seja, daquilo que eu ouvi, nada dizia que se possa obter os mesmos efeitos, pois – vocês confirmem ou não o que eu digo -, alguns pareciam defender o fato de não transcrever nada. O que me choca um pouco, pois sem essa transcrição, apesar de suas imperfeições, não nos seria possível fazer uma articulação correta do aspecto formal e distintivo entre a voz alta e a voz infraverbal. Então, havia ali, já presente nessa reunião, um problema em relação à porta a ser aberta para ter, de algum modo, documentos que nos permitam justamente nos desprender de nossa tendência espontânea a enfiar sentido onde não há, ao invés de privilegiar as questões formais, morfológicas e significativas.</p>
<p>Então, Thierry Jean me revelava que ele se pergunta o porquê, nos tempos que correm, de tanto interesse pela psicose. Eu relia o seminário sobre as psicoses, em que Lacan se coloca a questão fundamental: “o que é que falar quer dizer?”. É mesmo assim sensacional, pois nós podemos todos discutir nossa vida inteira sem nunca nos perguntarmos o que é que falar quer dizer! A paciente de que eu lhes falava talvez não se colocasse a questão, mas ela estava eliminada! Podemos falar numa língua que tenha toda a espessura da linguagem e numa outra em que não haja nenhuma. Uma língua em que o Outro me faz resistência e uma língua em que ele não me faz resistência, tanto quanto eu não resisto a ele. Uma língua em que estou colado a meu objeto e uma língua em que não estou. Uma língua em que eu giro em torno desse objeto, me queixando pro meu analista: “não, não, o cara, nunca é o bom, ou a menina, nunca é a boa!”, e uma outra em que basta que ele se apresente e é o bom! Vocês vêem, tocamos aí algo que concerne a nossos colegas de Brest no mês de junho, ou seja, que não tem nada a ver tentar explicar ou ensinar a psicanálise, quando se enfatiza o sentido e quando se enfatiza a significação. Lacan dizia que o sentido é a religião. Em todo caso, isso permite deixar de lado essa questão de saber o que é que falar quer dizer, mais ainda, como evocamos há um mês, o que nos mostram as psicoses, fenômenos de decomposição de todos os fios, dissociação de todos os fios normalmente implicados na fala e na transferência. Ou seja, esse lado, mal visto em nosso meio, eminentemente mecânico, é mesmo preciso nomear as coisas assim, disso que vem tecer nossa relação com o Outro. “Mecânico”, é muito desagradável, desaponta: “Como assim? Eu não sou uma mecânica! Eu não sou uma máquina!” Fizemos um progresso, assim mesmo, quando aceitamos estar sob comando! É o que ignoramos habitualmente. É preciso um pouco de divã para se dar conta de até que ponto somos comandados. Enquanto isso, continuamos a dizer: “Não, não, eu faço o que eu quero!” Façam o que vocês quiserem!</p>
<p>É mesmo mais interessante ainda, sempre chamo a atenção para esses fatos, tentamos chamar a atenção para isso, que quando vocês lêem, quando se trata de método, as publicações e os livros de psicanálise lacanianos que saem continuamente, é sempre: “Tudo o que vocês sempre quiseram saber de Lacan e não conseguiam”, “A verdade sobre&#8230;” Freud teve sua dose e, agora, é Lacan. Isso não ajuda nada, pois as verdadeiras questões que os documentos lacanianos levantam, enfim, os textos de Lacan, trata-se de até que ponto somos capazes de mobilizá-las para pô-las em ato.</p>
<p>Explicar às pessoas que vocês vão lhes dizer a verdade sobre o ensino de Freud ou de Lacan, talvez não seja inútil, mas enfim, não leva a nada, pois isso faz como a voz infraverbal! Isso permite que se imagine que compreendemos, enquanto se trata de utilizar a voz alta, ou seja, isso resiste. A única maneira de saber que se pode fazer algo com alguma coisa que resiste é servir-se dela, servir-se dessa própria resistência, o que é exatamente equivalente à transferência.</p>
<p>Quarta-feira pela manhã, para lhes dar um outro exemplo clínico, Nicolas Dissez me apresentou um doente muito interessante, pois sua psicose se resumia a algo que é da atualidade, visto que a imprensa está cheia de histórias de eutanásia e, ontem, ainda havia no Sudoeste um caso de eutanásia, e esse paciente dizia: “Me eutanasiem!”. Eu lhe perguntei porque ele queria que o eutanasiássemos e ele respondeu: “Porque é mais difícil do que se suicidar”. O que é interessante, formalmente, é que primeiramente, quando alguém faz um pedido assim, vocês se perguntam se se trata de uma fantasia, de algo delirante, seria uma idéia fixa pós-onírica? Sabe-se lá! O que é interessante, é que isso tinha começado em um sonho. Ele tinha sonhado que um cara lhe dizia: “Eutanasie-se”. Depois, quando acordou, como acontece na psicose, trata-se de um despertar que não é bem um, e o delírio que começou no sonho continua no estado de vigília, mas com uma pequena permutação: não é “eutanasie-se”, é “eutanasiem-me”. Subsiste uma demanda, feita ao Outro, de sua própria liquidação, com algo que, no intervalo, foi completamente varrido, vocês conhecem a síndrome de Cotard, ou seja, o tipo já estava morto. É por isso que ele demandava que o eutanasiassem. Naturalmente, como é sempre o caso nessas situações, isso não o impediu, em tal ou qual ocasião, de tentar se suprimir.</p>
<p>Bem, haveria ainda muitas coisas a dizer, mas como cheguei atrasado, vou talvez ficar por aqui. Lembro-me que da vez anterior vocês tinham sugerido dar uma olhada na questão da lingüisteria e da topologia e eu fiquei interessado, por quê? Porque se trata de uma questão estritamente formal. Era incompreensível, era para mim, como observação, nem mesmo&#8230; eu não diria memorizável, mas nem mesmo engramável sem passar pelo escrito. Ou seja, tratava-se de uma mulher que eu tive que interrogar lhe dando papel e lápis e, eu mesmo, com papel e lápis. Em outras palavras, era inacessível, e mais ainda no movimento linguageiro dela, que era o de um recorte retroativo permanente de qualquer fala que ela avançava à medida que a significação desaparecia. Então, a única coisa que era apreensível era, da maneira mais pura, a morfologia das coisas, levando em conta, evidentemente, algumas indicações muito bem-vindas de Jakobson, entre os códigos de mensagem e as mensagens de código, etc. Então, aí está. Aí estão algumas observações que eu lhes faria, que concernem, como vocês sentiram, o falo como fator de viés.</p>
<p>Em sua Segunda morte de Jacques Lacan, Claude Dorgeuille, que fez algumas amplificações e acrescentou um capítulo vinte anos depois, diz que é preciso não esquecer que, em alguns, nós tentamos atualizar o que o hospital psiquiátrico tinha de melhor. É verdade e não é falso, Não é falso, é verdade, no sentido em que se deu crédito ao fato de que um certo número de instrumentos foi recolhido, coisas bizarras, com a questão de saber se tinham sido recolhidos corretamente, e se não conseguíssemos fazer alguma coisa com eles, talvez fosse porque essa coleta não tivesse sido suficiente, ou seja, que eram necessárias certas modalidades e modificar a abordagem para, essa clínica, fazê-la pivotear, ou seja, não era mais a clínica do século XIX. Ou seja, ela não é apropriada, pode-se falar dela, mas atualizada, ela está ao mesmo tempo destacada de sua base de sustentação, mas religando-se a ela. Mas toda a história das ciências é assim. Creio que Newton é que dizia não ter inventado nada e ter-se apoiado nos ombros de gigantes. Ele prestava homenagem aos que o haviam precedido. Ele não dizia “Entre eu e os outros não há mais nada”.</p>
<p><strong>Stéphane Thibierge</strong> : Desculpe, você tinha dito que Claude Dorgeuille utilizou a expressão&#8230;</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : &#8230; atualizar. Não creio que o termo seja verdadeiramente bem-vindo, terei ocasião de voltar a falar com ele sobre isso, porque tem esse lado&#8230; Não é suficiente. Isso implicou em um certo tipo de corte com a base, mesmo se apoiando nela.</p>
<p><strong>Stéphane Thibierge</strong> : O que você diz me faz pensar muito simplesmente em algo inteiramente notável, é que os psiquiatras do século XIX, em relação aos quais, no meio analítico, às vezes há uma devoção excessiva&#8230; Por que excessiva? Porque é como se houvesse ali uma espécie de alfa e ômega da clínica, que nós teríamos perdido, com essa nostalgia do tempo. Enfim, é preciso lembrar que esses psiquiatras, eles tinham nas mãos todos os casos que quisessem, numa época em que a clínica ainda não estava anestesiada pelos medicamentos e neurolépticos, então, eles tinham a sua disposição um material considerável. A mim, parece-me, pelos numerosos percursos que fiz, em Chaslin, Séglas ou outros, que era, antes de tudo, e eu retomo sua fala, Marcel, tratava-se de gente que registrava corretamente, formalmente, de maneira absolutamente correta, e tudo que diziam ao lado, perdoem-me a maneira crua de dizê-lo, eram bobagens.</p>
<p>Chaslin fez um livro de psiquiatria magnífico, um livro de clínica que, quando se está um pouco advertido, é uma pura maravilha. Quero dizer que desde que vocês estejam um pouquinho advertidos, meus alunos sabem disso, vocês aprendem ali a clínica a céu aberto. Com a condição, como lembra Marcel, com a condição de deslocar um pouquinho as coisas. Pois como é que ele, Chaslin, fez seu manual clínico? Um manual com oitocentas ou novecentas páginas! Ele pegou todas as categorias da psicologia tradicional, ou seja, a sensação, a percepção, o julgamento, a imaginação, a vontade, o raciocínio, etc. Ele pegou todas as categorias que vocês encontravam nos cursos de filosofia e de psicologia, ainda não faz muito tempo, e então ele inventou as modalidades psiquiátricas que juntas também têm pouco a ver, o que tem a ver a voz alta, de que Marcel falava, com a voz baixa? Mas eu diria que esse não era o problema de Chaslin.</p>
<p>Ele tinha necessidade de uma grade para organizar o material que ele reunia, e ele não sabia bem por que é que ele o reunia, eu acho. Mas ele era matemático e tinha, certamente, um interesse pela linguagem, e foi esse interesse pela linguagem que lhe permitiu nos ser útil. Mas, efetivamente, com a condição de atualizar um pouquinho as coisas, pois o que Chaslin pode contar sobre a imaginação, a vontade&#8230; Nesse plano, não podemos condenar esses psiquiatras. Eles estavam fazendo a demarcação quase científica do caráter imaginário do sujeito. Eles faziam a mesma coisa que Freud, só que Freud o fazia de uma maneira um pouco esclarecida, era seu gênio, enquanto eles o faziam de uma maneira mais automática, ficando bem atentos em recolher bem a linguagem de seus doentes.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Quanto a mim, sou muito sensível, em Chaslin, a seu gosto pela matemática e, inclusive, a obra que ele escreveu sobre as operações psicológicas da matemática pura. Enfim, seus “elementos” são uma obra tardia, ele já tinha cinqüenta e três anos. Um dia, ele disse a si mesmo que via doentes o tempo todo e já era tempo de escrever alguma coisa: fazer um tratado. Ele já tinha escrito sobre a confusão mental. Então, ele fez esse tratado com um aspecto, aliás, que é preciso não subestimar, é que não temos muito mais aquelas condições: foi Georges Daumézon que me chamou a atenção, tendo-os tido como mestres, eles eram todos burgueses ricos que não tinham nenhuma necessidade de ganhar a vida, tinham bens e seu salário hospitalar era verdadeiramente derrisório. Não tinham que quebrar a cabeça, iam de manhã a seu serviço e recolhiam suas observações e, em seguida, voltavam para casa. Chaslin, com cinqüenta e três anos, ia todo dia pra casa da mamãe, que fazia para ele sua sopa de grão de bico que ele adorava! (Risos). É, em todo caso, uma atmosfera um pouco particular e eu conheci isso na minha geração, quando um de meus colegas, querendo ser psiquiatra e tendo sido reprovado no internato, inscreveu-se para o Certificado de Estudos Especiais, que era a via lateral para se tornar psiquiatra. Então, ele freqüentava o serviço de Delay, e como ele tinha uma família e filhos, era preciso ganhar o pão, ele ia dois dias por semana fazer substituições de médicos generalistas. Então, ele pediu a Delay para poder se ausentar um dia ou dois por semana. A resposta de Delay foi: “Meu caro, quando não se tem os meios a gente não se torna especialista”. (Risos).</p>
<p>Então, há também as condições materiais que mudaram e que se traduzem pelo fato de que, quando se quer uma secretária, lhe respondem que você se vire com seu computador. É mais barato. Sim, mas o computador, ele não sabe tomar notas sozinho! É feito para que a gente anote nele. Como é que podemos dialogar com alguém anotando ao mesmo tempo? É preciso um terceiro! Os melhores registros e as melhores transcrições que encontrei vinham de gente que não procurava compreender, a partir do momento em que a coisa lhes era explicada. Desembaracem-se da bobagem da compreensão! Quando eles pegavam isso, a coisa rolava sozinha. Penso na Sra. Bogatski, que era uma estenodatilógrafa da Assembléia Nacional e que foi contratada pela <em>École Freudienne</em> para anotar as entrevistas de Lacan. Ela era tão aguerrida que podia ler nos lábios. Quando ela não entendia, mesmo assim ela podia anotar seu negócio na sexta-feira e, no domingo, vinha me ver, a gente revia os erros juntos e acertávamos as coisas que ela tinha entendido meio tortas ou um pouco a menos e, então, eis aí, em quarenta e oito horas a coisa estava liquidada, acertada! Ela também, no início, tentava compreender, mas ela já estava treinada, porque, na Assembléia Nacional, se alguém tenta compreender o que o cara conta&#8230; (Risos). Não, mas trata-se de um problema de disciplina! Todo o pessoal é treinado para isso. São formados para isso, é por isso que se trata de um verdadeiro ofício. Então, eu lhe dizia que, os doentes, é como na Assembléia Nacional, não se deve procurar compreender e aí logo você faz bem o seu trabalho. Daí, rapidamente ela ficou à vontade e a gente se entendia admiravelmente, pois não se tentava compreender.</p>
<p><strong>Christian Hoffmann</strong> : Eu queria voltar, muito rapidamente, à fala desse paciente: “Eutanasiem-me”&#8230; Isso me lembra, isolado do nosso contexto, isso me lembra certas falas de pacientes melancólicos que eu conheci.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Sim, claro!</p>
<p><strong>Christian Hoffmann</strong> : &#8230; que grudam em você nos corredores do hospital e lhe pedem para levá-los e jogá-los, por exemplo, na lixeira. Isso me faz pensar também no que você desenvolveu, efetivamente, sobre a retirada do objeto <em>a </em>do mundo. Então, queria lhe submeter uma coisa que trabalhamos e na qual eu me apoio, de uma certa maneira, trata-se de Kafka. Muito rapidamente, Kafka, essa fala me fez pensar no fim da vida de Kafka, e uma das falas de Kafka para seu médico, logo antes de morrer, quando ele estava cheio de dores assustadoras, na sua doença, sua tuberculose, ele se dirigiu ao médico dizendo: “Doutor, se você não me der a morte você é um assassino”. Então, conhecendo o percurso de Kafka, d’A metamorfose até seus outros escritos, há sempre, em Kafka, essa identificação a um objeto que se retira do mundo, que evoca de todo modo algo de melancólico. Mas nessa fala, tem-se a impressão de que temos a quintessência, assim, de uma relação do sujeito com a linguagem, ali onde há, no entanto, uma piada. Será que podemos aproximá-lo do lado da melancolia?</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Penso que há um aspecto assim, quer dizer: “Eu sou uma excrescência sobre a face do mundo”&#8230; Basta olhar sua vida cotidiana, a de cada um de nós, e nos perguntamos: o que é que estamos fazendo aqui? É a própria crueza do inconsciente: “liberem a área”&#8230;</p>
<p><strong>Christian Hoffmann</strong> : A Metamorfose termina assim&#8230; Como você diz, sobre a melancolia, é preciso livrar o mundo dessa pequena merda que esse personagem se tornou, para que a jovem possa florescer.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Há uma coisa que eu não evoquei, que é comum tanto na observação dessa jovem paciente de Brest quanto na do paciente que eu vi aqui quarta-feira de manhã: ambos tinham erradicado completamente sua própria filiação. A moça em questão tinha tomado um outro nome, tinha recusado, posto em dúvida, a paternidade de seus pais, para desviar sua filiação para o lado de uma filiação imaginária, o que era também o caso do paciente que eu vi quarta-feira. Ou seja, havia uma relação visivelmente íntima, pois eram as duas coisas que vinham no primeiro plano, entre, de um lado, tanto para um quanto para o outro, a ruptura e, podemos mesmo dizer, a volatilização de toda instalação genealógica, portanto recusa radical do nome, e o fato de escolher um nome para si. De outro lado, nela, sob a forma do encontro com o objeto, com sua voz baixa, ou seja, a esperança de que um dia o cara, o namorado, viria ao encontro, o que era o lado mais inquietante e, no paciente de quarta pela manhã, a exigência de ser eliminado do terreno. Esse seria um outro ponto, essas duas observações muito interessantes, para explorá-las corretamente seria preciso algumas semanas.</p>
<p><strong>Christian Hoffmann</strong> : Eu me lembro de ter ouvido, assim, durante alguns anos, um jovem esquizofrênico, que dizia ter encontrado, como você disse, o objeto certo de sua relação sexual, se se pode dizer. Mas o “objeto certo”, é verdade que isso tem um caráter inquietante, pois a gente se diz que essa parceira, que ele acabou de encontrar, não tem interesse em se mexer, que ela é como uma borboleta pregada em seu delírio. É inquietante.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Vocês notem que se trata de uma questão de atualidade, que vemos cada vez mais gente dizendo que não encontraram o bom cara ou a boa menina: “não é o bom” ou “não é a boa”. Ou seja, está formulado em termos contemporâneos, daquilo que seria a possibilidade de que o objeto seja enfim o bom. Não está formulado nos termos de uma insatisfação de que, com os rapazes, a coisa não ande: “não, não, não!” É: “Nunca encontrei, nisso aí, o bom”.</p>
<p><strong>Stéphane Thibierge</strong> : Marcel, acho que aí há um prolongamento a fazer, para retornar à voz alta e à voz baixa, pois é verdadeiramente formidável o que diz essa paciente que você evocou. Hoje em dia, em nossa conjuntura, parece-me que, quanto mais a atenção que se dá à qualidade da linguagem falada, quanto mais essa atenção diminui, mais a linguagem é desvalorizada e mais aparece, eu diria, esse desencarceramento do objeto da fantasia. As pessoas, quanto menos elas são capazes de metaforizar alguma coisa a partir de uma posição dividida, mais aparece para elas que o objeto deveria se apresentar por si mesmo, sozinho. Ou seja, uma espécie de primado social da voz baixa, disso que ela chama de voz baixa. Isso é totalmente espantoso, é chocante na clínica de hoje em dia.</p>
<p><strong>Marcel Czermak</strong> : Sim. Eu me permiti, na semana passada, ao redigir esse curto prefácio para esse tomo brasileiro, saudar a qualidade da tradução que os colegas fizeram, que é verdadeiramente uma tradução excelente. Eu mencionei, e o fiz com moderação, pois os brasileiros são sempre muito sensíveis quando acham que alguém toca no pavilhão nacional, não pude me impedir de me queixar um pouco da má qualidade das traduções que circulam na América do Sul. De um lado, querem difundir a psicanálise e querem difundí-la com traduções absurdas, nas quais não se consegue nem mesmo descobrir qual é o discurso que as suporta. Portanto, uma desenvoltura em relação a questões da língua que é de qualquer modo&#8230; Eu não sabia, eu descobri quando os argentinos traduziram meu trabalho, As paixões do objeto, para o espanhol. Primeiro eles nunca me pediram nada, traduziram e me enviaram, recebi um volume, não mais, e aí eu li o livro em espanhol e não achei de jeito nenhum o que eu tinha posto ali. Em especial, havia notas incríveis. Se vocês relatarem isso na América do Sul, eles vão dizer que eu não gosto deles. Estarão errados, é por isso que eu gosto deles! Eu tinha utilizado a expressão <em>“moins tu mouftes et plus&#8230;”</em>. Então, havia uma nota no pé da página, com várias linhas: “Nós procuramos em todos os dicionários existentes (risos), essa palavra não existe, nem no <em>Littré</em>, nem no<em>Robert</em>, etc. Tendo em vista o contexto, poderíamos supor que&#8230;”, e traduziram por uma coisa totalmente aproximativa. Poderiam ter me ligado, em vez de pegar todos os dicionários e ir às bibliotecas para ver os dicionários, inclusive dicionários clássicos e acadêmicos&#8230; Se tivessem me ligado para me perguntar o que quer dizer <em>moufter</em>, eu lhes teria dito que se trata de um termo de gíria: “quanto menos você abre o jogo, quanto menos você fala&#8230;”. Ou existe uma palavra equivalente no <em>lunfardo</em> argentino, ou então não existe e você mantém no original e dá uma pequena explicação. Então, aí está, o problema era que não dava para compreender mais nada, foi de todo modo uma grande desenvoltura em relação ao autor. O autor é secundário no caso, mas a própria língua! Porque não custa nada diante de um termo bizarro, afinal poderia se tratar de um neologismo, não custa nada pegar o telefone e é mais barato do que passar uma semana nas bibliotecas!</p>
<p>Portanto, eu saúdo a qualidade da tradução desses três volumes intitulados A Clínica da Psicose: Lacan e a Psiquiatria, volumes 1, 2 e 3, publicados em 2004 e 2006, pelas edições Tempo Freudiano Associação Psicanalítica, Rio de Janeiro. Essa tradução é muito notável e espero que sirva de exemplo, pois é vão esperar difundir o que quer que seja da análise se não for com a língua correta e o discurso que vai junto.</p>
<p><strong>Stéphane Thibierge</strong> : Essa é, com efeito, uma questão de primeira ordem.<br />
________________________________________________</p>
<p>Texto original: <a href="http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/1145-Attraper_un_fait_clinique" target="_blank" rel="noopener"><span class="texto">http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/1145-Attraper_un_fait_clinique</span></a><br />
Tradução: Sergio Rezende.<br />
<a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Transcrição de Annie Deschênes<br />
<a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> N.T. Utilização pessoal de uma língua por um falante. No original, <em>langue de bois</em>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Sobre alguns aspectos freqüentes em clínica</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcel Czermak]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 12:24:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[bem dizer]]></category>
		<category><![CDATA[clínica]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
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		<category><![CDATA[“Função e Campo da Fala e da Linguagem”]]></category>
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					<description><![CDATA[Não começamos este ano de 1981 em uma conjuntura qualquer dentro da história do movimento psicanalítico. A propósito do ensino da psicanálise, se nos impõe a obrigação de abordar alguns problemas específicos e que raramente são evocados no contexto deste ensino. Esta obrigação é, também, uma oportunidade, pois nos possibilita, de maneira coloquial, tecer comentários sobre as relações que a psicanálise mantém com a política.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Marcel Czermak</p>
<p>Não começamos este ano de 1981 em uma conjuntura qualquer dentro da história do movimento psicanalítico. A propósito do ensino da psicanálise, se nos impõe a obrigação de abordar alguns problemas específicos e que raramente são evocados no contexto deste ensino. Esta obrigação é, também, uma oportunidade, pois nos possibilita, de maneira coloquial, tecer comentários sobre as relações que a psicanálise mantém com a política.</p>
<p>Recentemente, pudemos assistir na televisão um filme há muito tempo afastado das telas, por razões de Estado: trata-se de “Mágoa e Piedade”, onde fica perfeitamente aceitável, além de amplificado pelos efeitos das entrevistas, que a verdade daquela época não podia senão aparecer de maneira unívoca. Cada um dos entrevistados, homens e mulheres, comprovavam isso com depoimentos nesse sentido. Vimos, então, uma seqüência onde Pierre Laval<a id="_ftnref2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn2" name="_ftnref2"> (**)</a> era filmado em sua cidadezinha pelo jornal de atualidades e, a seguir, quarenta anos mais tarde, como falam dele os habitantes que o conheceram.</p>
<p>Era um sujeito impressionante, dizem-nos. Corajoso, atencioso, acessível a todos. Um cara ótimo. Por quê? Porque tinha uma palavrinha para cada um e, como Napoleão, sabia sempre ter um gesto gentil para com seus veteranos. Todo mundo o adorava. Sabemos muito bem que o amor para com um chefe permite um certo sossego. E nisto os psicanalistas cedem, atraídos pela idéia de uma promessa e de uma esperança, o que lhes dá algo sobre o que se apoiar. Ainda mais que, tendo em vista a função da causa, eles se dirigem a uma outra: a religião. Lacan nunca cansou de repetir que uma das diferenças fundamentais entre psicoterapia e psicanálise reside no fato de que numa faz-se crer que existe Pai, enquanto que na outra &#8211; no ideal &#8211; chega-se à constatação de que não existe. Esta diferença teve, até o momento, uma repercussão limitada. Então, por que as psicoterapias têm tanto sucesso atualmente? E se digo, por exemplo, que Pétain<a id="_ftnref3" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn3" name="_ftnref3"> (***)</a> era um psicoterapeuta, não é senão para aumentar a importância desta questão.</p>
<p>Primeira resposta: é que a psicanálise não parece ser bem sucedida em dar coragem a quem não a tem. Entenda-se por coragem não o desconhecimento do medo, da inibição, do sintoma ou da angústia, mas esta disposição para perder aquilo de que nos sustentamos. De onde vem, então, tal disposição? Esta é uma questão crucial para a psicanálise.</p>
<p>Lacan não hesitava em falar do dever que é atribuído à psicanálise. É verdade que é difícil achar a saída para muitos problemas. Pessoalmente, e começando este ano da maneira como há pouco lhes falei, teria a tendência de abordar a questão do dever utilizando uma simplificação que é a seguinte: analiticamente, não há separação entre o privado e o público. O inconsciente nos trai. Ele é discurso e enuncia uma verdade que fala, apesar do sujeito. Se levarmos em conta o comentário de Freud sobre a psicologia das massas (que não é “coletiva”, o que seria um erro de tradução), veremos que, do ponto de vista analítico, esta psicologia se atém à psicologia de dois seres discursantes.</p>
<p>Tendo em vista o comentário anterior, afirmamos, então, que não existe para um psicanalista uma maneira de orientar-se com relação a seus pacientes, e nela situar a conjuntura clínica. Não existe, igualmente, uma maneira pela qual ele orientar-se-ia em sua vida pública, social, institucional. Isto é válido mesmo quando um contexto nebuloso tornar qualquer apreciação mais delicada para ser feita. Nós nos orientamos pela palavra e o que nos orienta é, da mesma forma, aquilo com que trabalhamos: “Função e campo da palavra e da linguagem”, dizia Lacan. Isto implica claramente que existem domínios onde ela funciona e outros onde ela não funciona mais ou nem mesmo funciona. Podemos até brincar com este assunto, mas que fique claro, desde agora, que é preciso curvar-se à disciplina do clínico, sem o que recairíamos na obscuridade comum às relações humanas.</p>
<p>O que é ser um bom psicanalista? &#8211; perguntava-se Lacan. Esta era uma pergunta que ele se colocava no sentido de que se exige que um analista leve em conta, na mesma perspectiva e num só ato, tanto problemas clínicos como problemas sociais. Neste sentido, Temístocles foi um bom cidadão por também ter sido um bom analista: isto é, ao ordenar a saída da frota de navios gregos do Pireu, tinha dado a resposta correta. Este tipo de resposta precisa reunir algumas condições mínimas: orientar-se pouco, mas ainda assim orientar-se na realidade das próprias operações e, daí &#8211; o que não é o mais fácil &#8211; poder tirar as conseqüências dentro de um registro especial: o do Bem Dizer.</p>
<p>Isto nos traz de volta o problema de saber o que seja o ensino da psicanálise, quando alguém, sensibilizado por esta, nele adentra. Ao mesmo tempo, impõe a exigência inadiável de ter de se explicar o que faz.</p>
<p>Uma vez, quando éramos jovens residentes, convidamos Lacan, e de maneira ostensiva, para vir explicar-se em nossa sala de plantão. Ele concordou em vir através de uma carta que começava por: “Prezados Camaradas&#8230; É a vocês que se destina tudo aquilo que faço”. Em outros trechos, ele ressaltava, várias vezes, não falar senão àqueles que estavam formados na mesma linguagem que a sua. Deixava, assim, entrever o problema que coloca um ensino. De um lado, dirige-se a &#8230; não se sabe quem &#8211; mesmo que se escreva “É para vocês” -, pois não existe sujeito de uma enunciação coletiva. No máximo, este “destinar-se a” tem uma forma verbal intransitiva. Por outro lado, falar com&#8230; exige que tenhamos sido formados numa mesma linguagem. Nasce daí a questão tão central para a psicanálise: o que quer dizer falar. Dirigir-se a é indicar a si mesmo pra onde se vai. É afirmar através de uma alusão. Isto já indica algo do sujeito, mas nada revela do destinatário &#8211; nem mesmo se ele existe. Enquanto que falar, falar verdadeiramente, exige que o locutor encontre um verdadeiro interlocutor.</p>
<p>Ora, o repouso que cada um pode encontrar nos discursos já estabelecidos só existe com a eliminação da enunciação que tais discursos carregam. Um exemplo típico de um discurso estabelecido é o discurso científico. O que produziu até agora? Em sua origem, a psicanálise como função vivificadora. E um pouco mais tarde&#8230;, o nazismo. Leiamos o Seminário sobre “Os Quatro Conceitos”, onde mostra-se que nenhum sentido de história poderia explicar fenômenos como o nazismo, mas onde a ênfase é colocada sobre a função do objeto “a”: “&#8230;algo a que poucas pessoas não sucumbiriam seria a enorme tentação de uma oferenda, de um objeto de sacrifício a deuses ocultos.”</p>
<p>“Este mistério ainda pode estar oculto sob algo que a ignorância, a indiferença, o desvio do olhar podem explicar como véu encobridor. Mas para aquele que for capaz de dirigir um olhar corajoso para tal fenômeno &#8211; e, ainda assim, há poucos que não sucumbam à fascinação do sacrifício em si -, o sacrifício significa que no objeto de nossos desejos tentamos encontrar o testemunho da presença do desejo deste Outro que chamarei aqui de Deus obscuro.”<a id="_ftnref4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>(1)</sup></a></p>
<p>Leiamos, então, a página inteira do referido texto. Lacan assinala o caminho que alcança não somente a rejeição do objeto patológico, mas também seu sacrifício e seu assassinato. É por isto que escreveu Kant com Sade.</p>
<p>Eis aí a idéia central &#8211; até em suas conseqüências sociais extremas &#8211; à qual teremos de nos conformar: esta relação ao objeto e ao saber sobre o objeto, sem a qual nosso saber de nada nos serve. Senão poderíamos brincar de diversas maneiras com os quatro discursos.</p>
<p>Isto tudo para responder a esta brincadeira que aparece em toda parte: o que tem a ver a psicanálise com os grupos, se toma as pessoas caso por caso? Ora, todos sabem, através do próprio inconsciente &#8211; nem que seja no de seus sonhos -, que o sujeito, seja do privado ao público, do indivíduo aos grupos, deve ser contado, no mínimo, em termos de três.</p>
<p>Surge daí a questão da identificação do sujeito e, ao mesmo tempo, do lugar de onde ele poderia se ver. Se, indo mais além, considerarmos que os discursos ligam-se uns em relação aos outros e não valem senão em função desta relação, este valor reenvia ao primeiro passo: o da contagem. Há o que se conta e há o que tomba, permitindo a contagem: o objeto “a” em torno do qual giram os que se contam.</p>
<p>Isto quer dizer que o objeto está fora de todo cômputo: por esta razão existem colecionadores. Eles nunca terminam de contar suas moedas, suas aventuras ou seus membros, nem que sejam os do próprio corpo. Como dizia bem humoradamente Amos Tutuola<a id="_ftnref5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn5" name="_ftnref5"> <sup>(2)</sup> </a>, eles nunca estão seguros de serem cavalheiros completos. Com exceção de certos casos de psicose, completo ninguém pode ser. É por este motivo que a psicose não faz discurso nem elo social. Ela é absolutamente radical.</p>
<p>Esta radicalidade sem recurso fica claramente indicada seja pela estrutura do significante, pela do fantasma, seja pela lógica do inconsciente, pelo fato que é estruturado como uma linguagem, podendo tanto determinarem discursos específicos como também a ausência de qualquer discurso.</p>
<p>Se considerarmos que o psicanalista faz parte do conceito do inconsciente, o que é necessário como operador lógico para validar esse conceito, deduz-se, então, que a prática da psicanálise nada tem de “liberal”, mesmo que seja uma arte liberal. A interpretação se baseia no dito de espírito<a id="_ftnref6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn6" name="_ftnref6"> <sup>(****)</sup> </a>: nada menos inconsistente.</p>
<p>O dizer é sedativo, alguns podem senti-lo; o que diz respeito ao saber da estrutura provoca uma ação econômica, simplificadora da prática. A psicanálise deveria evitar contorções àqueles que a ela se submetem.</p>
<p>Até mesmo os mais novatos da aventura psicanalítica entrevêem que, mesmo sendo claro que em nome da transferência, a psicanálise progrida pelos caminhos da ilusão, da impostura &#8211; é preciso, neste exercício, uma certa coragem que permita ajudar a efetuar sua desmontagem. Entretanto, este caminho da ilusão, da impostura, pode também ser mantido, não desmontado, pois o paciente é conivente &#8211; salvo alguns bons casos &#8211; e mostra-se freqüentemente disposto a manter-se numa conivência agradável e cúmplice com seu analista, por menos que este o queira. Eis aí uma porta aberta ao psicanalista para todos os ocultamentos, prorrogações racionalizadas, sob a cobertura da liberdade que se dá à singularidade do processo de cada um e a seu código próprio.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o mecanismo poderia até &#8211; e não seria nada inédito &#8211; fabricar covardes.</p>
<p>O saber da estrutura, que tem um lugar de verdade no discurso do analista, possui efeitos de exigência: esta verdade não obriga por si só, mas dentro de uma relação específica à relação social, razão pela qual Freud aconselhou Eduardo Weiss a dispensar certo paciente esloveno (a correspondência deles a respeito é maravilhosa), ou pela qual Lacan dizia que se devia recusar a psicanálise aos canalhas: eis aí uma simplificação magistral. Mas é uma simplificação que não é um dado imediato de consciência. Neste sentido pode-se ver, tanto nos hospitais psiquiátricos como nos divãs, tentativas de se melhorar os piores indivíduos a partir de considerações sofisticadas, acobertadas pelo argumento de que se deveria dar a cada um sua oportunidade.</p>
<p>A psicanálise é uma oportunidade e é por isto que não há nenhum motivo para estragá-la. Como, então, enfrentar-se as que estão aí implicadas? Um modo essencial é o de libertar-se da religião e de suas esperanças.</p>
<p>Pois, afinal, de que falamos? Simplesmente, já que a psicanálise faz parte dos três exercícios impossíveis de que Freud nos fala, falamos disto: de que chegamos à psicanálise porque estamos petrificados na maneira de conduzirmos nossa vida e que, então, poderíamos esperar dela que nos ajude um pouco. Percebe-se logo como, com tal formulação, que se mantém pertinente, a religião aí já se apresenta.</p>
<p>No ano passado eu escutava um colega de fala autenticamente apaixonada falar do gosto de cinzas que tinha na boca. Ele evocava justamente fatos que tinham se desenrolado em tempos de pesar e de tristeza. O que me lembrou, então, um comentário do rabino Leib de Sassov a seus hassidis, no século passado: “Vocês querem procurar o fogo? Procurem-no sob as cinzas”.</p>
<p>Se nos lembrarmos deste aforismo de Lacan no “Etourdit”: “Que se diga fica esquecido por trás do que se diz naquilo que se escuta”<a id="_ftnref7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn7" name="_ftnref7"> <sup>(3)</sup> </a>, e enfatizarmos o que ele desejava &#8211; o “que se diga” &#8211; nos indicará o fogo que pode flambar sob a palavra, fogo que é incandescência da palavra.</p>
<p>É por isto que temos sempre pressa em chamar os bombeiros. Há sempre fogo em demasia e que se acende sem parar das próprias cinzas; seria melhor que de uma vez por todas ele se apagasse, que a palavra acabasse.</p>
<p>Um psicanalista poderia até transformar-se em um ótimo bombeiro, vestido com um uniforme que lhe daria uma cor de muro de fábrica, sujo de cinzas. Seu papel seria o de vigiar e controlar com sabedoria o fogo no altar da fábrica, mesmo que saibamos, afinal, que o altar é vazio.</p>
<p>Nossa ética é nossa prática, do mesmo modo que a clínica e a teoria não são senão o verso e o reverso de uma mesma moeda. Todos os debates, no mínimo escabrosos, entre teoria e prática, ou ainda entre ética e clínica, podem ser considerados como fora do campo analítico, se partimos de que, analiticamente, não há ética senão a do Bem Dizer, e em relação a qual estamos sempre aquém. Ela se coloca muito acima e nunca é algo conquistado, seja de um paciente a outro, ou com o mesmo paciente de um momento ao outro.</p>
<p>Já que este ensino está dentro do tema da clínica analítica, o fato de nos lembrarmos de que não há ética senão a do Bem Dizer significa nos lembrarmos, também, deste fato elementar: que a psicanálise é um diálogo. É certo que é uma forma particular do dialogar, mas, fundamentalmente, é dialogar. Não é suficiente pensar que a escuta ou o fato de falar sejam favoráveis por si sós, ou que sejam suficientes para que haja psicanálise.</p>
<p>A simples existência da transferência é um obstáculo enquanto resistência. Levar isto em consideração não garante que haja psicanálise. Não é suficiente dizer que é o paciente que faz o caso &#8211; o que é fundamentalmente exato &#8211; para pensar que estamos certos; pois sem o questionamento deste outro, o psicanalista, que faz parte do conceito de inconsciente, não há caso analítico. Para que tal aconteça, é preciso haver analista, mesmo que ele não o saiba.</p>
<p>Como não experimentar o sentimento de inquietante estranheza diante de tudo que, em nosso caminho, deve ser jogado fora? Vamos enumerar alguns aspectos mais importantes. No ponto a que cheguei, vejo que avanço mais dizendo o que não é psicanálise. Freud notava, com razão, que dizer o que é a psicanálise suscita tanta resistência como dizer o que ela não é. Por haver ouvido demais sobre o que seja &#8211; o que não é, com certeza, o que de melhor se faz &#8211; não tenho, então, outro motivo para prosseguir, do que a definição pelo que ela não é.</p>
<p>Voltemos periodicamente ao que deve ser jogado fora, e que não é exaustivo:</p>
<p>&#8211; o privilégio dado à anamnese, que valoriza as “histórias” em detrimento da estrutura;</p>
<p>&#8211; o privilégio dado ao vivenciado, ao sentimento (a contratransferência!) como prova e guia da ação, em detrimento de uma reflexão adequada sobre a estrutura;</p>
<p>&#8211; a ilusão da linguagem como sistema de comunicação (quando a própria palavra é obstáculo à comunicação) e, simultaneamente, esta bobagem que é a idéia que funcionamos em um contexto de compreensão, que seria melhor deixar em suspenso;</p>
<p>&#8211; a ilusão de simetrias na clínica, do tipo <i>voyeurismo</i>/exibicionismo, sadismo/masoquismo, agrupados no sonho de retornos simétricos do tipo amor/ódio, introjeção/projeção, de que todos participem de uma concepção que eliminaria a “tripartição” em Real, Simbólico e Imaginário: sonhos de reversibilidade que nos fazem crer que nada é irreparável;</p>
<p>&#8211; a suficiência no “não-saber”, face à suficiência no saber, quando todo discurso atribui um lugar específico ao saber e enquadra um não-saber igualmente específico, um impossível igualmente definitivo;</p>
<p>&#8211; a não-distinção entre impossibilidade e impotência, e a confusão de inibição e de angústia com o sintoma. O esquecimento de que o sintoma é fato de estrutura, o que não acontece com a inibição e a angústia;</p>
<p>&#8211; a não-discriminação entre fantasma, sonho e alucinação;</p>
<p>&#8211; a certeza inicial de que aquele com quem dialogamos seria dotado de uma intencionalidade, colocando em jogo uma “intersubjetividade”;</p>
<p>&#8211; enfim, o esquecimento de que, se a psicanálise é a arte de suspender as certezas para melhor encontrá-las, isto, é claro, não é para sufocá-las ou atenuá-las. Pois a dor de existir pode ser o que de melhor existe no homem, quando ele descobre que sua vida não tem outro sentido senão o de lançar mão incansavelmente do mesmo desejo, e que este desejo inscreve-se banalmente, ridiculamente, num conjunto cuja possibilidade combinatória é fechada. Isto é evidente para o Simbólico mas é igualmente válido, mesmo que mais camuflado, para o Imaginário. Nosso Imaginário é limitado, mesmo que sonhemos em dar livre curso à inventividade.</p>
<p>Partindo de um certo ponto, fizemos um desvio que nos afastou um pouco da perspectiva anunciada, de insistir sobre a necessidade de apreender, com um só movimento, problemas clínicos e problemas sociais. Mas, depois de tudo, ao evocar a dor de existir, fomos de certo modo trazidos de volta ao ponto inicial, no mínimo por aquela citação de Lacan em “Kant e Sade”, que diz respeito a uma das regras da perversão: “Eu tenho o direito de gozar de seu corpo &#8211; podem dizer-me &#8211; e exercerei este direito sem que nenhum limite me impeça os caprichos desenfreados com os quais terei então o gosto de me fartar.”</p>
<p>“Tal é a regra à qual pretendemos submeter a vontade de todos, por menos que, com suas exigências, a sociedade a facilite”<a id="_ftnref8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn8" name="_ftnref8"> <sup>(4)</sup></a>. Esta questão, do direito de gozar do corpo do outro, é regularmente camuflada pela questão dos direitos do homem e, no mínimo, remete cada um a esta região sempre presente onde nos dispomos a ser maltratados, objeto de maus tratos, de injustiças e de dilapidações. É claro que todos resmungariam se o autor das ações às quais se curvam decretasse tal condição. Seria essencial aperceber-se de que esta margem estreita, porém decisiva, que propicia o exercício da psicanálise &#8211; por pressupor a interpretação &#8211; pode também, facilmente, cair numa perversificação. Podemos avaliar a partir deste comentário de Lacan sobre aquele que é objeto de gozo, quando se trata dos direitos do homem: “Aquele que se submete não é tanto por violência como por princípio; a dificuldade de quem executa a sentença <i>não é tanto de nela fazer consentirem, mas de pronunciá-la em seu lugar</i>.”<a id="_ftnref9" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn9" name="_ftnref9"> <sup>(5)</sup></a>Entrevê-se, assim, como pode ser mínima a distância entre o exercício da psicanálise e da interpretação: “(&#8230;) para aquele que faz a sentença &#8230;” “pronunciá-la no lugar de alguém”. A situação fica até mais fácil quando se reconhece o fato de que “os direitos do homem&#8230; voltam-se para a liberdade de desejar em vão”<a id="_ftnref10" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn10" name="_ftnref10"> <sup>(6)</sup></a> ; cada um geralmente preferiria um mestre do qual reclamar, a reconhecer que esta lei é a sua, invocada como estranha, como outra lei, outra que aquela de seu desejo.</p>
<p>Qual a relevância que existe em se reclamar de um tratamento injusto que nos é infligido, quando, ao formularmos o que somos em nome de uma voz externa, baseamo-nos na covardia que nos faz desconhecer que ela não é senão o eco de nossa voz interior. A diferença com a psicose é que, neste caso, a voz interior, abolida, torna-se a voz externa, enquanto que no primeiro exemplo a voz interior é vergonhosamente camuflada e articulada pelo Outro encarnado; que se torna, então, o suposto articulador do jogo. É claro que o que evocamos diz respeito ao discurso da vítima: nunca poderemos evitar, para situar adequadamente uma conjuntura subjetiva, de nos interrogarmos sobre a função do parceiro.</p>
<p>Analiticamente, cada um é sempre responsável por seu inconsciente, até mesmo quando o inconsciente seria o discurso do Outro: eis aqui um das aporias da psicanálise. Sem tal axioma, não há psicanálise possível.</p>
<p>Constataremos que as dificuldades multiplicam-se quando nos lembramos que a clínica tem as maiores afinidades com problemas de perspectiva, com o que seja um quadro (diz-se bem um quadro clínico) e, em conseqüência, com a função do olhar. Isto é inegável. Se, considerando os fatos clínicos, abstemo-nos de neles analisar a função do olhar, ou se imaginamos que se consiga eliminá-la, então, reiteramos aí, e de modo insidioso, uma posição perversa. Podemos facilmente compreender o porquê, se nos lembrarmos que a função do olhar é aquela que melhor ilude a castração e onde a queda do sujeito reduz-se a zero; ela opera de maneira quase insensível, “de fininho” &#8230;<b></b></p>
<p>Há uma parte do seminário sobre “Os Quatro Conceitos” onde Lacan indica que o quadro é uma armadilha para o olhar. Algumas páginas adiante ele volta a esta afirmação para nuançá-la: “A função do quadro (&#8230;) tem uma relação com o olhar. Esta relação não é, como pareceria à primeira vista, a de ser uma armadilha para o olhar.”<a id="_ftnref11" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn11" name="_ftnref11"> <sup>(7)</sup></a></p>
<p>Como resolver esta aporia? Lacan diz que o pintor não visa mostrar-se ostensivamente. “Dá alguma coisa para entreter a visão, mas ao mesmo tempo convida o espectador a pousar seu olhar sobre o quadro como quem depõe as armas.”<a id="_ftnref12" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn12" name="_ftnref12"> <sup>(8)</sup></a></p>
<p>Isto vale também para o paciente para qualquer um que tente fazer quadro, ou examiná-lo, assim como para os que seriam ouvintes ou espectadores desta relação. Pensem por um instante na dialética que poderia se instalar, que assim se instala. E que dá para produzir vertigens.</p>
<p>Como estabelecer uma relação justa? Principalmente esta: para qualquer paciente em análise, o importante não é o estabelecimento de uma relação imediata ao outro da alocução &#8211; o que não é senão um começo -, mas que ele consiga ocupar uma posição terceira em relação ao par que forma com este outro. A nosso ver, é isto que pode legitimar o aprendizado que constitui um trabalho coletivo como o seria uma apresentação de doentes, sob condição de que existam aí pessoas &#8211; não quer dizer muitas pessoas &#8211; que estejam “engajadas do mesmo modo”<a id="_ftnref13" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftn13" name="_ftnref13"><sup>(*****)</sup></a>, para se retomar uma expressão de Lacan naquela noite, no Hospital Henri-Rousselle.</p>
<p>Lacan situava a ignorância douta &#8211; quer dizer, formal, mas não inculta &#8211; no campo do que seria eventualmente uma ignorância formadora. Há uma margem estreita separando-a da ignorância discente, um passo pequeno entre aquela posição e uma degradação perversa: o desejo perverso apóia-se em um ideal de objeto inanimado, razão pela qual há tantos perversos na pedagogia. Isto serve para situar as responsabilidades, tanto a minha como a de vocês.</p>
<p>____________________________________________________________________</p>
<p><a id="_ftn1" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref1" name="_ftn1">* .</a> Conferência proferida em 1981 no Hospital Henri-Roussele. Publicada no livro de Marcel Czermak<i>Paixões do Objeto- estudo psicanalítico das psicoses.</i> Porto Alegre: Artes Médicas, 1991<br />
<a id="_ftn2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref2" name="_ftn2">** .</a> Pierre Laval: político francês, chefe do governo de Vichy em 1942. Partidário da colaboração com a Alemanha durante a guerra, foi condenado à morte e fuzilado em 1945. <i>(N. da R.)<br />
</i><a id="_ftn3" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref3" name="_ftn3">*** .</a> Marechal Pétain, H. P. (1856-1951): presidente da França ocupada pelos alemães, durante a II Grande Guerra. Herói na I a Guerra, conduziu uma política de colaboração com o inimigo na 2 a. Com o término desta, foi condenado à morte, pena depois comutada em prisão perpétua.<br />
<a id="_ftn4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref4" name="_ftn4">1 .</a> J. LACAN, <i>Le Seminaire, livre XI, </i>“Les Quatre Concepts fondamentaux de la pychanalyse”, SeuiI ed., Paris 1973, pp. 246-247.<br />
<a id="_ftn5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref5" name="_ftn5">2 .</a> TUTUOLA, <i>L&#8217;lvrogne dans Ia brousse, </i>Gallimard<br />
<a id="_ftn6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref6" name="_ftn6">****.</a><i> Mot d´ esprit </i>no original <i>(N. da T.)<br />
</i><a id="_ftn7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref7" name="_ftn7">3 .</a> LACAN, “L’Étourdit”, in <i>Scilicet </i>n 0 4, Seuil éd., Paris 1973, p. 5.<br />
<a id="_ftn8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref8" name="_ftn8">4 .</a> LACAN, “Kant avec Sade”, <i>in Écrlts, </i>Seuil éd., Paris 1966, pp. 768-769.<br />
<a id="_ftn9" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref9" name="_ftn9">5 .</a> IBID., p. 771. Eu sublinho.<br />
<a id="_ftn10" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref10" name="_ftn10">6 .</a> IBID., p. 783.<br />
<a id="_ftn11" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref11" name="_ftn11">7 .</a> “Les Quatre Concepts fondamentaux de la psycanalyse”, p. 93.<br />
<a id="_ftn12" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref12" name="_ftn12">8 .</a> IBID., p. 93.<br />
<a id="_ftn13" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/sobre-alguns-aspectos-frequentes-em-clinica?cod=30#_ftnref13" name="_ftn13">***** .</a><i> Dans le coup”, </i>no original: “por dentro” <i>(N. da T.)</i></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>O desconcertante da prática</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/o-desconcertante-da-pratica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcel Czermak]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 12:12:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[crueldade]]></category>
		<category><![CDATA[desejo do analista]]></category>
		<category><![CDATA[ensino]]></category>
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					<description><![CDATA[O que é um aluno? Pergunta perigosa tratando-se de psicanálise, sobretudo aquela à qual Lacan tentou nos introduzir, desembaraçada dos formalismos cegos, mas preocupada em destacar as estruturas formais de seu próprio encaminhamento em que estão incluídos o psicanalista como participante do conceito de inconsciente, o sintoma como tecido no endereçamento transferencial e incompleto sem o Outro desse endereçamento. Pergunta tanto mais perigosa uma vez que o verdadeiro patrão é o analisante, e isso no momento mesmo em que ele acentua sua queixa de estar sob o jugo de quem vem encarná-lo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Marcel Czermak</p>
<p>O que é um aluno? Pergunta perigosa tratando-se de psicanálise, sobretudo aquela à qual Lacan tentou nos introduzir, desembaraçada dos formalismos cegos, mas preocupada em destacar as estruturas formais de seu próprio encaminhamento em que estão incluídos o psicanalista como participante do conceito de inconsciente, o sintoma como tecido no endereçamento transferencial e incompleto sem o Outro desse endereçamento. Pergunta tanto mais perigosa uma vez que o verdadeiro patrão é o analisante, e isso no momento mesmo em que ele acentua sua queixa de estar sob o jugo de quem vem encarná-lo. Vale perguntar-se se um psicanalista pode realmente ser chamado de aluno de um outro, levando-se em conta as fantasias que traz comumente esse termo, que vão da criação à promoção e até mesmo ao negócio: todas fantasias comuns na relação do mestre com seu discípulo.</p>
<p>A que altura é preciso levar o diálogo para que haja psicanalista? Lacan não gostava nada da palavra “aluno”, embora a empregasse. Mas que outro termo encontrar? Em particular, tratando-se do plano do<em>reconhecimento</em>, em que vemos frequentemente operar esses termos, observamos que eles são especialmente utilizados em contextos em que se poderia esperar, justamente, desembaraçar-se deles. Se, hoje, eu devesse formular uma vontade, seria a de que aquilo que nos reúne fosse o modo de reconhecimento da dívida própria a cada um em relação a Lacan e, ao mesmo tempo, o modo de reconhecimento do efeito produzido sobre aqueles que o praticaram durante sua vida, como sobre aqueles que o praticam agora que ele está morto.</p>
<p>Lacan não hesitava, em suas preliminares, em seus exames, do mesmo modo que em sua prática do tratamento, em registrar de que maneira pode partir e avançar um sujeito: ele enquadrava a conjuntura, especificava as coordenadas, o ponto de partida, e fazia com que isso fosse constatado. Em suma, ele realizava o que poderíamos chamar um inventário. Ele cuidava, efetivamente, de apontar os degraus, as viradas, os lugares em que as problemáticas se redirecionam, se invertem, se interrompem&#8230; o que ele chamava uma <em>primeira introdução do sujeito</em> à sua demarcação no real; o que ele não cessava, contudo, de colocar em operação a todo momento oportuno. Nós não podemos, aqui, fazer menos, tornando nossa conduta pública solidária às exigências do tratamento, quer dizer, incluindo nela igualmente o desenvolvimento da transferência, assim como sua interpretação.</p>
<p>Uma vez que é evidente que, quanto mais se tenta mentir, mais a mentira manifesta sua tendência à verdade, eu gostaria de partir aqui da constatação da ausência de diferença entre privado e público. Constatação da qual não se pode dizer que, tendo-a feito, o movimento psicanalítico tenha tirado dela muitas consequências. Assim, por exemplo, conhecemos em demasia esta maneira comum que os psicanalistas têm de se conduzir publicamente de um modo idealizado de serenidade, de força tranquila. Modo de <em>estatuficação</em> daquele a quem nada tocaria, que estaria enfim livre da castração, aliviado de sua divisão e desencarregado da preocupação de ter iterativamente que repetir sua operação&#8230; Resumindo, encontramos em muitos de nossos colegas a vontade de serem <em>cadaverizados</em>. O que é, certamente, e por uma astúcia bastante habitual do inconsciente, apenas uma maneira de se oferecer como objeto <em>a</em> ao desejo do Outro, em uma recondução de vontades de <em>inanimação</em> masoquista em que o instinto de morte se junta à mineralização da prática, quer dizer, da teoria, pois a prática psicanalítica é teoria, seus instrumentos sendo os próprios sujeitos operados.</p>
<p>Em suma, anestesia da prática contra a qual Lacan se insurgiu ao ponto em que puderam frequentemente acusá-lo de levar ao pior, de soprar o fogo enquanto ele apenas ressaltava que, o fogo estando lá, era tempo de se despertar. Igualmente poderão tachar – o que muitas pessoas não se privaram – a prática de Lacan de inconveniente. Quem não ouviu piadinhas sobre a duração das sessões, a distribuição dos pacientes nos cômodos, os diálogos “portas abertas”, as interpretações no corredor ou no saguão, a janela aberta e logo fechada novamente, os encontros em táxis&#8230; eu me esqueço do resto. De fato, o impressionante é constatar a solidariedade de encaminhamento, de conduta, a unidade do estilo de Lacan, em seu consultório, em sua apresentação de pacientes, em supervisão, no restaurante, em uma festa ou em seu seminário, quer dizer, sua maneira de recusar todo esforço para “representar o psicanalista”, assim como de se inscrever no jogo social. A psicanálise, ele não a vestia!</p>
<p>Como escutar esta fórmula de Lacan, de que o desejo do analista é o de uma “diferença absoluta”?<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d2">2</a><a name="top2"></a></sup> É, para o analista, uma posição incômoda, que não pode ser de artifício. Posição tão fixa quanto movediça e desconcertante ao extremo. Des-concerto que supõe estar em posição correta no que concerne a cada um, referenciado em sua própria estrutura, com as consequências diretas que podem disso decorrer, ou seja: a quem tratar com simpatia? A quem tratar com desdém? Com quem insistir e quem frear? A quem dar? De quem tomar?&#8230;</p>
<p>Essa maneira de proceder não podia deixar de ser igualmente penosa a partir do momento em que, ultrapassando o limiar de um consultório, onde ela já se exercia suficientemente, vinha se estender ao conjunto da vida do homem. Percebemos que aqueles com quem Lacan tinha relações autênticas e uma fraternidade discreta – mesmo se esta tomava, às vezes, um viés abrupto – eram seus pacientes, isto é, justamente aqueles que, mais do que ninguém, poderiam achar que deveriam se queixar de suas maneiras. Aí se compreenderá o aspecto verdadeiramente desligado que Lacan podia ter em certas circunstâncias, quando estas reproduziam para ele o emaranhado comum das relações humanas, quer dizer, quando elas o lançavam nesse emaranhado. Desligamento que vinha, imediatamente, em contraste com sua extraordinária precisão, sua fineza imperceptível, sua delicadeza extrema no manejo de sua palavra, uma vez que ele operava no campo autêntico da linguagem, ao ponto mesmo de poder conduzir uma ação invisível. Da mesma forma, essas modalidades na troca, em que ele não produzia, às vezes, resposta audível senão àquele que interrogava, os outros ouvintes permanecendo perplexos quanto ao motivo de uma réplica que lhes parecia eventualmente inadequada, estranha, ambígua ou embaraçosa. Essas eram as maneiras que também se exerciam em sua apresentação de pacientes e da qual ele podia dizer que o que se desenrolava aí passava despercebido à maioria dos participantes, mas igualmente em seu seminário, que era alimentado por sua prática, onde as ocorrências eram numerosas, para seus analisantes, de encontrar resposta à pergunta feita na mesma semana durante a análise. Em suma, maneira de responder de outro lugar, diferente daquele onde se é esperado, seja porque a resposta seria inoportuna, ou de alcance inadequado, mas que permanece necessária e a faz produzir em um lugar especial: aquele onde se pode indicar que há lição e lição, onde se exerce o estilo indireto. Para falar como convém ao sujeito do inconsciente, para conversar com ele diretamente, é preciso esse equívoco da in-direção, que é o lugar mesmo de onde Lacan operava. Ele dizia a respei-to das pessoas que ele recebia: “Naturalmente eu não estou lá, em face dos candidatos, para ensinar a doutrina, a teoria, para retificar ou discutir, eu estou lá para registrar de que pé eles partem”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d3">3</a><a name="top3"></a></sup>. Mas pode-se ver nisso também uma lição e, aliás, a respeito de sua apresentação de pacientes, Lacan evocava:</p>
<p>Não se pode dizer que eu possa registrar todo benefício da operação, pois eu estou na condição de quem examina, e são antes terceiros que estão aí que podem registrar esse benefício, desde que eles estejam aí comigo, na mesma condição, em relação à psicanálise. Quer dizer, em uma transferência de trabalho enodada à transferência de quem vem se confiar a mim.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d4">4</a></sup></p>
<p>É, então, uma dimensão que participa ao extremo da necessária não-mestria daquele que se expõe quando ele o faz aos olhos, aos ouvidos de quem ele analisa. Maneira, em suma, de tentar que a pessoa faça obstáculo ao que a transferência supõe à função.</p>
<p>É possível permanecer insensível a esse modo de interpelação, de aparição, de palavras, de contestações, praticadas com seus pacientes em diversos lugares aparentemente heterogêneos, e até mesmo heteróclitos? Essa maneira de fazer solidária de uma prática – marcada pelo tempo e pelo espaço – dos limiares, das bordas, utilizados como tais em um manejo da intervenção e da interpretação, do olhar e da voz é totalmente impregnada da topologia que a linguagem implica e introduz às bandas de Mœbius, garrafas de Klein e outros cross-cap, às diversas cirurgias. Portanto, prática coerente com a topologia que Lacan desenvolveu, em seu aspecto de aparente falta de direção quanto às orientações recebidas e que não pode, no mundo em que estamos, senão ser julgada pejorativamente ao ponto de causar escândalo e principalmente junto àqueles que são os mais interessados nisso, pois cada um sempre se agarra à fixidez de seu lugar. Quando, efetivamente, se trata do objeto <em>a</em> em sua relação com a superfície que ele parasita, assim como de sua queda a ser produzida para que um sujeito faça emergência, estamos então, em cheio, em uma revisão da ética que perturba a significação atribuída ao amor (desculpa ao pior), em sua relação ao assassinato (o amor não valendo mais como desculpa) e à lei (pois ela não pode mais se fazer indulgente ao amor do qual ela procede em regra geral). Resumindo, relação do amor e do assassinato com a lei, na relação ao tempo e ao espaço enquanto sobredeterminados pelo significante. Muitos não veem em tudo isso senão pequenos esboços ilustrando um pensamento, sem que tenham necessidade na estrutura, enquanto eles não têm nenhum valor metafórico, mas testemunham, de preferência, um real que precisamente nos é barrado por causa do recalque. Há aí um aspecto crucial e não há razões o bastante para que aquele que não se apercebe dessa topologia possa apreender seja o que for da prática que lhe é homogênea, na medida em que uma prática se desenvolve em um espaço específico. E, quan-do é uma prática linguageira, deve-se lembrar que a língua não é “linguisteria”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d5">5</a><a name="top5"></a></sup> simples, pois ela comporta estruturações espaço-temporais próprias. Lacan, aliás, chegou mesmo a dizer: “A topologia é o tempo”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d6">6</a><a name="top6"></a></sup>.</p>
<p>O inconsciente é, certamente, “estruturado como uma lingua-gem”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d7">7</a><a name="top7"></a></sup>, mas, nesse caso, ele tem sua própria estruturação tempo-espacial, uma vez que são as sobredeterminações significantes que a produzem. É o que a psicose indica com uma crueza particular e é o que tentei mostrar estudando a síndrome de Cotard, pela qual o sujeito atingido nos diz não mais conhecer o tempo.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d8">8</a><a name="top8"></a></sup> Até o presente, poucos se interessaram analiticamente pelas relações do tempo e do espaço e por sua determinação. Contudo, como ritmar o tratamento para que um sujeito se reconheça como efeito de ritmo?<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d9">9</a><a name="top9"></a></sup> Como medir o tempo para que ele adquira valor lógico, desembaraçado das cronologias que o camuflam? Como lhes dar, por sua operação prática, seu verdadeiro alcance significante, quer dizer, manifestar sua solidariedade na palavra do sujeito? Como apontar a proximidade da numeração, do cômputo, da contagem com o que vetoriza uma temporalidade organizada em um espaço fundamentalmente não métrico e não euclidiano, onde, no entanto, é preciso passar pela alienação contável e métrica a fim de não produzir uma alienação maior ainda?<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d10">10</a></sup></p>
<p>A partir daí, parece-me difícil não considerar que Lacan nos deu uma lição, talvez a mais difícil de todas, pois ele fazia o que dizia. Lição a mais difícil, pois a mais inapreensível, já que é traçada na própria superfície temporal onde ele se deslocava, cada vez diferentemente, com aquele com quem ele falava. É o que se poderia chamar <em>falar verdadeiramente ao outro</em>; pelo que, aliás, seus analisantes, eventualmente, o reprovavam. Em que se pode sentir que, a posição do analisante, é antes ele que a mantinha, e sabe-se o que foi sua extraordinária atenção, como igualmente o que foi sua preocupação com um bem-dizer partilhado. Há, portanto, do que rir ao se ler, por exemplo, sob a pluma daquele que estabelece seu seminário, que “não há obra oral”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d11">11</a><a name="top11"></a></sup>, portanto, só a obra escrita seria uma obra. Reescrever a obra oral como ela é, quer dizer, por garantia legal, volatiza precisamente todo o agenciamento espaço-temporal, os ritmos, os atrasos, as precipitações, as discordâncias e reviramentos, as rupturas e continuidades, as aporias próprias à topologia autêntica daquele que ensinava. Eu só posso me espantar que alguns digam “os seminários não são dignos de fé” (de que então? Além disso, tratando-se de fé, será que eles não despertariam fé o suficiente?). Os seminários seriam, portanto, muito contraditórios, muito sinuosos. Apenas os escritos seriam dignos de fé.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d12">12</a><a name="top12"></a></sup> Para o analista, essa posição só pode ser falsa. Certamente, entre o escrito e o oral, as exigências são distintas. É precisamente a extirpação do que sustenta a função oral – agenciamento de palavras nascentes, virtualidades imaginárias&#8230; – que produz o escrito, seus encaminhamentos e suas vozes: “Que se diga fica esquecido atrás do que se diz no que se ouve”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d13">13</a><a name="top13"></a></sup>.</p>
<p>No final da <em>Ética</em>, Lacan se perguntava em que daria o Livro quando ele fosse completamente comido<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d14">14</a><a name="top14"></a></sup>. Em relação a isso, podemos dizer que nós estamos aí, pois, quanto ao que vem de Lacan, seu ensino é refabricado em livro por quem não o emitiu de forma alguma – é o que se chama ter status de co-autor<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d15">15</a><a name="top15"></a></sup>– e vendido em porções com exercícios minuciosos dos direitos de alimentação. Esquecem-se simplesmente que, se se aferram tanto a empanturrar-se com o livro, é antes em razão daquilo que o próprio Lacan insistia em recordar a propósito do monstro Chapalu de “L’enchanteur pourrissant”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d16">16</a><a name="top16"></a></sup>, de Apollinaire: “Aquele que come não está mais só”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d17">17</a><a name="top17"></a></sup>.</p>
<p>Lacan não se empanturrava com o Livro, apesar de suas imensas leituras, e é talvez uma das coisas que o tornavam insuportável a seus próximos, ao ponto de que, atualmente, para não se sentir só, é preciso acomodá-lo na comilança. Nós vamos fazer uso dele da mesma forma? Apontando esse medo da solidão contra o qual cada um luta incorporando o autor do livro, Lacan fixava seu próprio des-apego da incorporação e sua passagem para essa solidão específica que o des-apego do Pai ordena. Ele encontrava aí, se podemos dizer, sua base própria: passagem da oralidade a um equilíbrio sem canibalismo, lugar onde se indica a solidão assumida de uma rota sem assistência no Outro, do qual, no entanto, se mantém a remanência, sem a qual nenhuma troca mais se organizaria.</p>
<p>E o preço a pagar? Se o único diálogo verídico permanece o diálogo analítico, é o paciente que possui a melhor parte, pois ele pode dizer tudo, deve dizer tudo, enquanto esse não pode ser o caso para o analista. Em outros termos, designei Lacan como esse analisante especial, pois, em sua expectativa do dizer do outro e na solidão assumida de um desaparecimento da incorporação do outro, indica que a crueldade da psicanálise se exerce antes de tudo sobre o psicanalista, que a castração é antes de tudo e sobretudo para ele, que é apenas daí que ele pode, como convém, proceder em sua operação</p>
<p>Temos aí, então, uma posição subjetiva verídica, espontânea, não forçada, sem afetação. Ela se liga ao lugar mesmo em que um homem vem se alojar na estrutura do diálogo e permite analisar, para além de todo artifício técnico, apenas servindo como guia aproximativo para aquele que nele não está. É uma posição, em seu limite, de extrema proximidade e de afastamento último, de uma diferença irredutível. Ela pôde, no que concerne a Lacan, dar esse sentimento de que ele operava numa bolha de vidro, mesmo conduzindo seu ofício em uma proximidade perturbadora. É uma posição de uma dissimetria radical com quem chega ao campo da análise.</p>
<p>Maneira, igualmente, de dar conta do caráter de orientação aguda de um modo de ação, simultâneo ao caráter de desligamento aparente que pode a ele se associar. E, nesse movimento que leva o desejo do psicanalista em direção à diferença absoluta, em que se indica o que é a castração na medida em que ela é subtração ao que correntemente ordena a vida de trocas e sustenta cada ser humano, aparece então a dimensão cruel da figura do psicanalista. Mas a crueldade sem maldade, exercida, primeiramente, em relação a si próprio e que, quando assim ela é expe-rimentada pelos mais próximos como uma crueldade indevida, leva a esquecer sobre quem ela se exerce, antes de tudo, uma vez que seu exer-cício não é nem de artifício nem de forçagem. Crueldade sem sadismo e sem masoquismo, em que o sofrimento – o verdadeiro sofrimento – emerge, para indicar o jugo imbecil ao qual se submetem os seres humanos, que mantêm a reivindicação dirigida a um Outro, cujo bel-prazer os faria servos. O verdadeiro chicote é o do significante e é aí que jaz o verdadeiro sofrimento. O psicanalista é uma figura tanto mais cruel quanto ele atualiza, no que pode ser sua dor sem pena, o caminho, o verdadeiro, aquele que espera quem quer se engajar. Sem isso não há escolha senão a idiotice.</p>
<p>A castração própria ao psicanalista, Lacan a presentificava ao psicanalisante como sendo o que o esperava no caminho. Ele a atualizava sem vergonha e pouco ligando para toda justiça distributiva, pois é o inconsciente que não liga para ela. O que é que é uma castração que não porta mais nenhuma queixa, mesmo se ela supõe sua própria dor, significada sem que dela se aperceba, pela colocação a meio mastro da bandeira que a consagraria a fazer alarde do Outro? Para dizê-lo de outra maneira: guardar suas lágrimas no registro do objeto a ou ainda deixá-las ao imenso leito que faz o rio dos sofrimentos humanos. Quer dizer: não mais se empanturrar com o Livro, não mais se aliviar nessas águas. O psicanalista come “nada”.</p>
<p>Nesse processo que vai em direção à retificação das relações do su-jeito com o mundo, como podemos adotar, atualmente, uma posição justa, se nos limitamos a repetir o que é do ensino de Lacan, ou seja, por exemplo: “um significante é o que representa o sujeito para um outro significante”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d18">18</a><a name="top18"></a></sup>, “o sintoma só se interpreta na ordem do significante”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d19">19</a><a name="top19"></a></sup>, “o sintoma é a verdade na medida em que ele só se instaura na cadeia significante”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d20">20</a><a name="top20"></a></sup>? Efetivamente vemos que, quanto mais esses aforismos soam – incluindo “o inconsciente seria estruturado como uma linguagem” –, mais eles adquirem valor sintomático do refrão. Há aí uma nova maneira mais camuflada de pedir socorro ao Outro. Efetivamente, se, no momento em que se convocam essas fórmulas mais pertinentes, utilizando-as como proteção, alojamento, até mesmo como alimento, elas só reconduzem à problemática contra a qual estavam destinadas a operar.</p>
<p>Lacan zombava, em “Variantes do tratamento-padrão”, do “forma-lismo prático: seja do que se faz ou, antes, do que não se faz”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d21">21</a><a name="top21"></a></sup>. O que vale igualmente para a cantilena de suas fórmulas e para os mimetismos de sua prática, fazendo esquecer que uma ética não tem variante, pois, como se trata da psicanálise, ela opera de maneira homogênea à estrutura em causa. Isso não impede que – mesmo se, sempre nesse mesmo texto, Lacan escreveu que nos psicanalistas “a manutenção das normas cai cada vez mais na esfera dos interesses do grupo”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d22">22</a><a name="top22"></a></sup>, “trata-se menos então de um standard que de standing”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d23">23</a><a name="top23"></a></sup> –, por um reviramento que deveria merecer todo o nosso interesse, sua oposição ao<em>standing</em> pôde, às vezes, conduzir ao <em>standing</em> de um não-<em>standard</em>. O que se pode chamar: maneira nova de arbitrar as elegâncias, em que a reiteração dos interesses de grupo recomeça a prevalecer sobre a manutenção de normas próprias à psicanálise, que não têm nada a ver com o formalismo prático. Em um dos primeiros números de <em>Scilicet</em>, Lacan lembrava que, a partir do momento em que o fio autêntico da práxis se perde, os homens tornam a cair na tentativa de exercer um imaginário poder – como é, na história dos homens, habitual. E pode-se medir esse fato atualmente – pois aí ainda a história se repete – pela maneira pela qual Lacan vale hoje – quer dizer, se mostra negociável –, tendo sido ele mesmo degradado, tanto em sua vida quanto agora em sua morte, a um objeto com valor comercial, protegido juridicamente, com cofre-forte e interdição de uso, dos quais participam, aliás, as ofertas públicas àqueles que se quer seduzir.</p>
<p>Se a psicanálise ensina que o sujeito ex-siste a seu sexo, como à sua vida de ser vivo, é propriamente essa dimensão que tende a ser apagada pelo mundo moderno, que instala na promessa, sobre o modo de bens a adquirir, de uma resolução das inadequações. Concebe-se, então, que a neurose só pode se ampliar constatando como os procedimentos que nós acabamos de lembrar infiltram a própria psicanálise. Então permanece intacta a pergunta: de onde vem que em seu final a operação de Lacan tenha levado alguns ao ponto mesmo que seu ensino tentava desmontar? Certamente, essa é a consequência do declínio da função do Nome-do-Pai, inclusive na psicanálise. A vontade de ser “nomeado para”, que substitui a função do Nome-do-Pai, cria círculos de ferro que continuam a nos estrangular.</p>
<p>Lacan, ao situar a maneira pela qual o <em>encarceramento</em> do objeto <em>a</em><br />
na vida psíquica de cada um operava seus efeitos de submissão, tinha uma prática de <em>desincorporação</em>do objeto. Colocando quem se endereçava a ele em postura de ter que manifestar até que ponto extremo ele mantinha seus modos de submissão, ele o levava a saber se queria, verdadeiramente, mantê-los ou largá-los. E um dos efeitos de sua prática foi, então, em alguns, o de uma recepção de sua teoria do objeto <em>a</em> sob o modo de uma positivação própria à perversão, próxima da troca dos bens na economia de mercado, fornecedora de mais-valia identificada ao mais-de-gozar, e reiteradora, sob o modo camuflado, das próprias alienações que a prática mais desalienante possível visava a fazer cair.</p>
<p>Então, como é habitual, operaram-se adiamentos e <em>acting-out</em> diversos, escarros ou regurgitações do Nome-do-Pai, vômitos do objeto <em>a</em> identificado ao pai como nome, ou ainda retenções inconfessáveis&#8230; Em resumo, questões de esburacamento. Como encontrar uma saída que não seja uma forçagem do real? A psicanálise é menos uma prática ou uma teoria que uma ascese e uma ética em operação. Ela coloca o ato no cerne da política do psicanalista, uma vez que aí se conjugam a transferência, a identificação, a interpretação, a castração. E permanece, sem dúvida, a razão, precisa, dessa sucessão de seminários, que vão de <em>O desejo e sua interpretação</em><sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d24">24</a><a name="top24"></a></sup> a <em>A identificação</em>, passando por <em>A ética da psicanálise</em> e <em>A transferência</em><sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d25">25</a><a name="top25"></a></sup>.</p>
<p>Evocando o que o havia conduzido a falar da beleza em <em>A transferência</em> e <em>A ética da psicanálise</em>, Lacan diz que nesse último seminário ele “abordou exatamente a função dessa barreira da beleza sob a forma da agonia que exige de nós a <em>coisa</em> para que nos juntemos a ela”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d26">26</a><a name="top26"></a></sup>. A prática de Lacan jamais levou à identificação e ainda menos à unificação à coisa, mas antes ao inverso, enquanto a beleza só emerge como última barreira antes da morte do sujeito, preludiando a sua unificação à <em>coisa</em>. Nessa mesma medida, podemos ressaltar que a prática de Lacan não era certamente preocupada com a beleza, nem dirigia para a cultura dos sentimentos do belo: ela não tinha <em>nada de estética</em>. E, curiosamente, é essa radicalidade mesma que pôde fascinar, ser considerada bela, incluída no horrível: horrivelmente bela, na medida em que era desconhecido que não é porque um homem circula no “entre-duas-mortes”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d27">27</a><a name="top27"></a></sup> que ele desapareceu como sujeito e que ele se juntou ao objeto. Desconhecimento de que se possa circular no “entre-duas-mortes” ao preço da castração, que é, pois, uma circulação no inferno, sem junção nenhuma com a coisa inominável. Para dizê-lo de outra forma, a coragem sem queixa e sem forçagem, da qual Lacan deu prova em seu próprio movimento, pôde produzir um efeito verdadeiramente estético sobre alguns, que aí viram a promessa da coisa enfim capturada, lá onde se tratava de seu inverso, a coisa enfim abandonada, como o medo que acompanha sua busca. Que um tal sujeito possa produzir esse efeito estético se sustenta no fato de que circular na mesma zona onde circulam os loucos, mas sem ser um deles, leva, facilmente, a ser tomado pela coisa inominável, o <em>a</em>. Lacan podia, então, aparecer para alguns como um zumbi, um morto-vivo, um perdido nesse mundo, enquanto ele foi um dos homens mais vivos possíveis. É uma indicação, finalmente, bastante encorajadora, para um grande número, da discordância a que pode trazer a psicanálise com o mundo que nos rodeia. Um sujeito se engaja na psicanálise em razão de sua discordância manifesta em seus sintomas, e em seu final o que ele encontra? Uma discordância maior. Ela abre mão dos sintomas, incluídos os sociais, em que ela se mascara comumente, e vem fazer barulho no concerto homogêneo de vozes falsamente supostas estar em desacordo, que são aquelas mesmas que agitam o discurso comum. “Paixão da ignorância” oposta à paixão do objeto<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d28">28</a><a name="top28"></a></sup>, enquanto uma esclarece e a outra obscurece, mas é daí mesmo que nosso século de obscurantismo vem normatizar o lugar de onde a psicanálise se enraíza. Compreende-se, talvez, por que, na própria psicanálise, é atualmente o século que tende a uma revanche. Tarefa, para aqueles que acham seu discurso intragável, de reformulá-lo, quer dizer, de <em>se tornarem novamente esses porta-vozes</em> que devem ser os psicanalistas. A menos que eles julguem essa tarefa excessiva, que eles vomitem sua própria ascese, compreendida aí sob a forma: “eu não decido nada, eu não tenho nenhuma certeza”. Modo de fuga habitual ao psicanalista. Ora, Lacan insistia em dizer:</p>
<p>O inconsciente se fecha (&#8230;) na medida em que o analista não porta mais a palavra (&#8230;). É por isso que o analista deve aspirar a tal domínio de sua palavra, que ela seja idêntica ao seu ser (&#8230;). O ser do analista (&#8230;) está em ação mesmo em seu silêncio, e é na estiagem da verdade que o sustenta que o sujeito pronunciará sua palavra.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d29">29</a></sup></p>
<p>A palavra do psicanalista deve ser desinteressada para poder portar a palavra. Mas essa palavra só pode ser desinteressada sob a condição do despojamento extremo imposto pelo desejo da diferença absoluta, que é o de uma castração reiterada incessantemente. É, então, somente assim, que o analista circula sem muito medo, sem ódio, sem culpabilidade – para retomar o título do artigo célebre de Ernest Jones<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d30">30</a><a name="top30"></a></sup> – na zona do “entre-duas-mortes”. Ao funcionar aí, o psicanalista recorda – e Lacan o manifestava em seu estilo impaciente, em seus vaivéns, em suas insistências, em suas recusas de levar em consideração a diferença entre o dia e a noite, entre os feriados e os dias comuns – que nós somos contadores de um tempo que nos é contado, quando nós circulamos no próprio lugar da gelificação do tempo, em que nossos sentimentos, dizia ele, têm apenas um lugar possível nesse jogo, o do morto, e que, ao reanimá-lo, o jogo continua sem que se saiba quem o conduz. Eis por que o analista é menos livre em sua estratégia que em sua tática: ou seja, sua política em que ele faria melhor em se orientar por sua falta a ser de que por seu ser.<br />
É, portanto, uma prática a-sentimental em que os sentimentos têm o lugar do morto. Mas, igualmente, o que há de mais fascinante – e as perversões o demonstram – do que aquele que é capaz de fazê-los calar para agir na separação do que ele sente, e até mesmo contra isso? Pressente-se facilmente a recondução da fantasia de dominação infatigável para quem não apreendeu que o verdadeiro mestre é a morte<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d31">31</a><a name="top31"></a></sup>, que não é nenhum objeto e, certamente, não é este objeto <em>a</em> que é o morto, mesmo se ele encarnasse em um vivo muito vivo.</p>
<p>É aí que eu volto ao início deste artigo, em que eu evocava a prática desconcertante de Lacan, ou seja, o que era a verdadeira mola de sua ação e sem a qual todo o resto é apenas depósito, confiado à necessidade dos depositários legais. Maneira, afinal, que teve Lacan de nos prestar o mais eminente dos serviços: aquele de nos obrigar a retomar por nossa conta a interrogação sobre a mola verídica de nossa prática. Sabemos como ele se conduzia de um modo a fazer obstáculo ao sonho maior do amor – fazer um com o outro –, assim como a desmontar a fantasia da comunicação. Ele sustentava uma fundamental posição de incompreensão. Ele ironizava mesmo: “Eu não sou um homem compreensivo”. Sua prática, assim como seu ensino, tinha – e como poderia sê-lo de outra forma? – o traço de suas feridas: homem ironizado, rejeitado, não reconhecido, querendo vencer a IPA, empreendendo uma relação ambígua com a universidade, com lamentos imensos no momento mesmo em que ele denunciava seus discursos e suas práticas, querendo subverter o campo das psicoses, portanto, da psiquiatria – que até hoje não tem cura para elas! –, modificar o curso das disciplinas afins, revisar a ética a partir do objeto <em>a</em>. Essas feridas, tanto mais vivamente percebidas quanto mais eram veladas, levavam numerosos entre nós a querer, como é comum, preencher completamente sua falha tomada por sua demanda, a tentar reduzir uma solidão, no entanto, inerente ao próprio caminho do psicanalista, a procurar reparar o que podia parecer uma injustiça passível de lhe ser feita, esquecendo-se de que somente desses lugares poderia surgir o discurso psicanalítico.</p>
<p>Nós assistimos, então, à reiteração do que Lacan evocava em “Do sujeito enfim em questão”: “Talvez se veja mais claramente ao purificar o dito sujeito das preocupações que resume o termo de propaganda: o efetivo a estender, a fé a propagar, o <em>standard</em> a proteger.”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#d32">32</a><a name="top32"></a></sup></p>
<p>Reiteração das religiões de propaganda em seus temas de salvação e onde, sobre o modo gnóstico do reviramento dos termos revelados, se pode fazer religião de propaganda invocando o “não há salvação” que, em sua própria denegação, porta traço da afirmação que ele quer recobrir.</p>
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<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top*">*</a><a name="d*"></a> In: CZERMAK, M. <em>PATRONIMIAS &#8211; Questões da clínica lacaniana das psicoses</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2012, p. 283.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top1">1</a><a name="d1"></a> <em>Esquisses Psychanalytiques</em>, nº 15, nota 1, 1991. Artigo modificado e condensado a partir de um texto anterior: “La pratique raisonnée de Jacques Lacan”. In: <em>Le Discours Psychanalytique</em> nº 1, fevereiro de 1989. Agradecemos a Claude Dorgeuille e a <em>Le Discours Psychanalytique</em> pela concessão que foi dada a esta publicação.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top2">2</a><a name="d2"></a> “O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a <em>diferença absoluta</em>, a que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de aí se assujeitar” (grifo meu). LACAN, J. <em>O seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 260.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top3">3</a><a name="d3"></a> Id. “Pétit discours aux psychiatres” (10/11/1967). Transcrição do Cercle Psychiatrique H. Ey de Sainte-Anne.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top4">4</a><a name="d4"></a> Id. <em>Notas pessoais</em>. Cf. também LACAN, J. “Contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica”. In: CZERMAK, M. &amp; JESUÍNO, A. (Orgs.). <em>Fenômenos elementares e automatismo mental</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2009, p. 34. (Ver a citação de Lacan no final deste artigo)</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top5">5</a><a name="d5"></a> Cf. Id. “A Terceira. In: <em>Cadernos Lacan</em> vol. 2. Porto Alegre: APPOA, 2002.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top6">6</a><a name="d6"></a> Id. <em>La topologie c’est le temps</em> (1978-9). Inédito.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top7">7</a><a name="d7"></a> Aforismo lacaniano frequentemente posto em equivalência com “o inconsciente é o discurso do Outro”. Cf. Id. “O engano do sujeito suposto saber”. In: <em>Outros escritos</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, onde eles estão correlacionados, pois para “reencontrar o inconsciente”, é preciso “<em>forçá-lo</em>” (grifo do autor).</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top8">8</a><a name="d8"></a> Cf. CZERMAK, M.“A significação psicanalítica da síndrome de Cotard”. In: <em>Paixões do objeto</em>. Porto Alegre: Artmed, 1991.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top9">9</a><a name="d9"></a> Lacan insiste muito sobre a função abertura/fechamento do inconsciente. LACAN, J. <em>O seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>, op. cit, p. 46. (Ver a citação de Lacan ao final.)</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top10">10</a><a name="d10"></a> Quem não se lembra da interrogação de Lacan no seminário <em>R.S.I.</em> (lição de 14/1/75)? (Ver a citação de Lacan ao final.)</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top11">11</a><a name="d11"></a> Cf. MILLER, J.-A. “Entretien à propos de l’établissement du Séminaire de Jacques Lacan”. In: <em>Le Bloc-Notes de la Psychanalyse</em> nº 4, 1984, p. 12.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top12">12</a><a name="d12"></a> Cf. Ibid. Aquele que estabelece o seminário de Lacan escreve que a contorção de seu pensamento foi para Lacan uma verdadeira maldição. Nós sabemos, ao contrário, baseados em nossa experiência psicanalítica, que não há psicanálise sem essa mesma contorção&#8230; Conclusão: a psicanálise seria, portanto, uma verdadeira maldição?</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top13">13</a><a name="d13"></a> LACAN, J. “O aturdito”. In: <em>Outros escritos</em>, op. cit.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top14">14</a><a name="d14"></a> Id. <em>O seminário, livro 7: A ética da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, pp. 385-6 e 390. (Ver as citações de Lacan ao final.)</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top15">15</a><a name="d15"></a> “Tenho juridicamente o <em>status</em> de co-autor”. MILLER, J.-A. “Entretien à propos de l’établissement du Séminaire de Jacques Lacan”. In: <em>Le Bloc-Notes de la Psychanalyse</em>, op. cit.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top16">16</a><a name="d16"></a> APOLLINAIRE, G. “L’enchanteur pourrissant”. In: <em>Oeuvres en prose I</em>. Paris: Pléiade, 1977.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top17">17</a><a name="d17"></a> Ibid, pp. 38-9. Lacan faz esta referência a Apollinaire, que eu saiba, duas vezes: <em>O seminário, livro 3 – As psicoses</em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 362; <em>L’identification – séminaire 1961-62</em>, lição de 29/11/61.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top18">18</a><a name="d18"></a> LACAN, J. “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. In: <em>Escritos</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 833.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top19">19</a><a name="d19"></a> Id. “Do sujeito enfim em questão”. In: <em>Escritos</em>, op. cit, p. 235.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top20">20</a><a name="d20"></a> Como a própria verdade. “O sintoma (&#8230;) é verdade, por ser talhado na mesma madeira de que ela é feita, se afirmarmos materialis-ticamente que a verdade é o que se instaura a partir da cadeia significante”. Ibid.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top21">21</a><a name="d21"></a> Id. “Variantes do tratamento-padrão”. In: <em>Escritos</em>, op. cit, p. 326.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top22">22</a><a name="d22"></a> Ibid, p. 329.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top23">23</a><a name="d23"></a> Ibid.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top24">24</a><a name="d24"></a> Id. <em>Le désir et son interprétation – séminaire 1958-59</em>. Edição não comercial da Association Lacanienne Internationale.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top25">25</a><a name="d25"></a> Id. <em>O seminário, livro 8: A transferência</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top26">26</a><a name="d26"></a> Id. <em>L’identification – séminaire 1961-62</em>. Edição não comercial da Association Lacanienne Internationale. Lição de 15/11/61 (grifo meu).</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top27">27</a><a name="d27"></a> Ou seja, esse lugar “balizado em uma topologia (&#8230;) sadiana”, onde se desenrola o “destino trágico”. Id. <em>O seminário, livro 8: A transferência</em>, op. cit.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top28">28</a><a name="d28"></a> Na medida em que ela é da ordem da “paixão do ser”. Cf. LACAN, J. “Variantes do tratamento-padrão”. In: <em>Escritos</em>, op. cit, p. 360. (Ver a citação de Lacan no final deste artigo.)</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top29">29</a><a name="d29"></a> Ibid, p. 361.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top30">30</a><a name="d30"></a> JONES, E. “O medo, a culpabilidade e o ódio”. In: <em>Théorie et pratique de la psychanalyse</em>. Paris: Payot, 1969.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top31">31</a><a name="d31"></a> Lacan qualifica a morte de mestre absoluto. Cf. LACAN, J. “Variantes do tratamento-padrão”. In:<em>Escritos</em>, op. cit, p. 350.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/o-desconcertante-da-pratica?cod=35#top32">32</a><a name="d32"></a> Id. “Do sujeito enfim em questão”. In: <em>Escritos</em>, op. cit, p. 230.</p>
<p>____________________________________________________________________</p>
<p>NOTAS (CITAÇÕES COMPLETAS)</p>
<p>NOTA 4: “Num certo momento, Lemoine tomava notas sobre tudo o que se contava nessas apresentações. [&#8230;] Não vejo por que não se instauraria isso como um certo método de exploração e de interesse por essas coisas. Penso que é profundamente motivado na estrutura que isso possa ter esse relevo, que, no fim das contas, aquele que poderia inscrever o benefício semiológico da coisa não seja nem mesmo forçosamente idêntico àquele que conduz o exame, mas que não pode conduzi-lo de outra maneira por estar ele mesmo numa certa posição que é a do psicanalista”. LACAN, J. “Contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica”. In: CZERMAK, M. &amp; JESUÍNO, A. (Orgs.). <em>Fenômenos elementares e automatismo mental</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2009, p. 34.</p>
<p>NOTA 9: “Não cessei de acentuar em minhas exposições [&#8230;] a função de algum modo <em>pulsativa</em> do inconsciente, a necessidade de desvanecimento que lhe parece ser de algum modo inerente – tudo que, por um instante aparece em sua fenda, parecendo ser destinado, por uma espécie de preempção, a se cicatrizar [&#8230;], a escapulir, a desaparecer” (grifo do autor). LACAN, J. <em>O seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>, op. cit, p. 46.</p>
<p>NOTA 10: “A ciência conta. Ela conta a matéria [&#8230;]. O que o inconsciente tem de contável nele? Não digo algo que não possa contar, falo do contável, esse personagem que vocês conhecem, ‘escrevinha’ em algarismos, e eu pergunto – há algo de contável no inconsciente? É realmente evidente que – sim.<em>Cada inconsciente é contável</em>. E um contável que sabe fazer as adições, as multiplicações, ele não está ainda nelas, é o que o embaraça. Mas contar os cortes, eu sei que ele sabe fazer isso? Ele é extremamente desajeitado – mas ele deve contar no gênero desses nós. É daí que procede esse famoso sentimento de culpabilidade, que faz as contas e não se encontra nelas, jamais se encontra nelas. Ele <em>se perde em suas contas</em>.” LACAN, J. R.S.I. – <em>séminaire 1974-75</em>. Edição não comercial da Association Lacanienne Internationale. Lição de 14 de janeiro de 1975 (grifos meus).</p>
<p>NOTA 14: “Comer o livro é onde tocamos com o dedo o que quer dizer Freud quando ele fala da sublimação como uma mudança não de objeto mas de objetivo [&#8230;] A fome de que se trata, a fome sublimada, cai no intervalo entre os dois, porque não é o livro que nos enche o estômago. Quando eu comi o livro eu não me tornei, no entanto, livro, o livro também não se tornou carne. O livro <em>me</em> torna, se me permitem. Mas para que essa operação possa se produzir [&#8230;] é preciso antes que eu pague algo [&#8230;]. Sublimem tudo o que vocês quiserem, é preciso pagar com alguma coisa. Esse algo se chama gozo. Essa operação mística, eu a pago com uma libra de carne.” E ele encerra a <em>Ética</em> com esta interrogação: “Daquele que comeu o livro [&#8230;] pode-se [&#8230;] fazer a pergunta – ele é bom, ele é mau? [&#8230;] O importante não é saber se o homem é bom ou mau em sua origem, o importante é saber em que dará o livro quando ele for totalmente comido”. LACAN, J. <em>O seminário, livro 7 – A ética da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, pp. 385-6 e 390.</p>
<p>NOTA 28: “A ignorância efetivamente não deve ser entendida aqui como uma ausência de saber, mas igual ao amor e ao ódio como uma <em>paixão do ser</em>; pois ela pode ser, à sua maneira, uma via onde o ser se forma.” LACAN, J. “Variantes do tratamento-padrão”. In: <em>Escritos</em>, op. cit, p. 360 (grifo meu).</p>
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		<title>Anotações de clínica social &#8211; O real é sem representação, Marcel Czermak e Louis Sciara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marcel Czermak]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2013 23:21:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos agora descer das alturas em que, esta manhã, nos mantínhamos, com o comentário de B. Balbure sobre o quadro de Füssli, para abordar nosso assunto em um outro nível: aquilo que é preciso mesmo chamar de “a pelanca” do corpo real enquanto tal. E tentarei lhes mostrar, já que insistimos em nosso título, a articulação das questões relativas ao nosso assunto de hoje com as questões sociais.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Estas Jornadas de estudo da Association freudienne internationale sobre “A representação” nos permitiram, com alguns amigos, avançar um pouco nesta questão do transexualismo, pois ela nos permitia, a partir de uma psicose amplamente manifesta, que tinha achado seu equilíbrio imaginário, refazer a pergunta: o que é essa mulher que o transexual pretende ser? Encontraremos aí diversos complementos ao que tínhamos trazido em nossas “Precisões sobre a clínica do transexualismo”.1</p>
<p>Marcel Czermak</p>
<p>Vamos agora descer das alturas em que, esta manhã, nos mantínhamos, com o comentário de B. Balbure sobre o quadro de Füssli, para abordar nosso assunto em um outro nível: aquilo que é preciso mesmo chamar de “a pelanca” do corpo real enquanto tal. E tentarei lhes mostrar, já que insistimos em nosso título, a articulação das questões relativas ao nosso assunto de hoje com as questões sociais.</p>
<p>Aqui estão representações do “Nebenmensch”: são cartões postais vindos das Canárias, endereçados a cada uma das pessoas de nosso Serviço por um transexual de quem lhes falaremos. Não vou ler para vocês os textos que estão no verso. Estes cartões postais, recebidos esta semana mesmo, representam, como vocês podem constatar, mulheres bastante desnudas, de uma maneira bastante pornográfica, muitas vezes em série no mesmo cartão postal, num tipo de reduplicação, ela própria reduplicada pelo número de cartões postais, e com um endereçamento unívoco a cada um dos destinatários, homem ou mulher, e qualquer que seja sua função no aparelho hospitalar.</p>
<p>Representação de carne crua em série, desencadeadora de sua tonalidade obscena, cuja diferença considerável todos podem sentir, imediatamente, em relação às excelentes fotografias do nº 1 do Journal Français de Psychiatrie. Lemos aí, de pronto, a distância entre a carne pornográfica e a arte. Vejam também esta fotografia: trata-se de um homem e uma mulher, desnudos, com este comentário em alemão, embora vinda das Canárias: Sein nicht einfesuchtig lieblieng, não seja ciumento, meu amor. Tipo de cartões postais que companheiros se enviam quando vão fazer turismo nas Canárias, ou quando fazem seu serviço militar.<br />
Nosso serviço será outro, sendo, no eixo deste colóquio, o de atingir com uma pedra quatro alvos:</p>
<p>– Contribuir para essa questão da representação.<br />
– Contribuir para nosso “comitê de questões clínicas”, já que evocaremos um caso de transexualização relativamente pacífica, quase sem reivindicação, insistência ou ameaça em sua relação com outrem. Um caso, portanto, que podemos chamar de autêntica cura. É a ele que devemos nossos cartões postais.<br />
– Contribuir para o problema geral do transexualismo, tema de uma reunião que estamos preparando.<br />
– Contribuir para nosso “comitê de questões perdidas” em pontos concernentes à doutrina geral das psicoses.</p>
<p>Esses aspectos se enodam precisamente na questão social, pois, se programamos para o próximo ano essa reunião sobre o transexualismo, foi justamente a partir de uma decisão jurídica de primeira grandeza, aquela da Corte Européia dos Direitos do Homem, retomada em dezembro de 1992 por nossa Corte Suprema: pela primeira vez, nossa alta jurisdição dava seu acordo a uma mudança de estado civil para um transexual operado, investindo, assim, contra o princípio fundamental da indisponibilidade do estado da pessoa. Já em 1963, em um colóquio organizado por Benjamin, um jurista formulara que, visto que estávamos em uma democracia, cada um podia perfeitamente escolher seu sexo!</p>
<p>Lacan pôde formular: a clínica, trata-se do real como impossível de suportar pela representação. Ou ainda, variante, o real é sem representação, mesmo que tenha representantes – a saber, o significante e a estrutura –, o que pode, eventualmente, torná-lo apresentável. E, no caso que vamos trazer-lhes, vocês verão operar precisamente esta função, destacada por Lacan, do ao-menos-um<br />
.<br />
Há um bom número de anos, fui alertado por esses sujeitos que queriam ser ditos “mulher”. Pergunta-se então: o que é uma mulher? Que mulher é essa? Quais são seus traços? Por que essa insistência em serem ditos mulher, que freqüentemente dispensa qualquer demanda cirúrgica?</p>
<p>Na maioria das vezes, cria-se então uma grande confusão. Dei-me conta, então, deste fato não observado, recenseado, em nossa literatura: esses sujeitos, a quem se pergunta por que eles querem ser ditos mulher, respondem freqüentemente – traço quase constante – assim: “uma mulher é mais belo”. Por que você se disfarça de mulher? “É mais belo.”</p>
<p>Assim, a própria questão da beleza, questão eminente de estética, se apresentava de pronto nesses casos e, de modo muito eletivo, em um ponto que é aquele – limite – que antecede imediatamente uma irremediável fragmentação possível. Ponto de antecedência do horror mais cru e, portanto, dessa junção íntima da beleza e do horror.</p>
<p>Este caso de que vamos falar não enfatizava especialmente a beleza: só muito lateralmente a palavra lhe vinha. Entretanto, anteontem, recebemos todos esses cartões-postais, perfeitamente congruentes com a experiência, e que dão uma idéia do que é, para nossos sujeitos, a dita beleza, certamente bem distanciada do que o quadro de Füssli mobiliza; a saber, como eu disse, a pelanca como tal.</p>
<p>Ele tem também sua pequena história técnica, a título da “transferência de trabalho”. Nós o recebemos, há alguns meses, em nosso serviço. Meus colegas mais jovens se empenhavam em decifrá-lo, ao mesmo tempo que sofriam seu efeito mais freqüente: o de um desconcerto absoluto diante de um homem que diz: “Eu sou uma mulher”. Por isso, para ajudá-los a se extrair de sua representação espontânea, isto é, dessa fresta de que falava ontem Jean-Jacques Tyszler, que é aquela do neurótico que acredita na psicogênese, entrevistei-me três vezes com esse paciente, cuidando para que meu questionamento pudesse recolocá-los nos limites do clínico.</p>
<p>Sendo o quadro de uma exemplaridade bastante sensacional, pedimos então a Charles Melman para examiná-lo, no âmbito de nosso ensino da quarta-feira à tarde. Ele o fez, o que deu, aliás, um relevo um pouco diferente, já que – evidentemente – o exame, da maneira como fizemos, de um sujeito num pequeno círculo, no meio hospitalar, que chegamos a despir, dá resultados às vezes um pouco diferentes dos obtidos quando o entrevistamos em nosso anfiteatro, em público, que foi a situação com Charles Melman.</p>
<p>Foi então que um cartel do nosso seminário, interessado por nosso caso, o retomou. Conversamos a respeito do caso, e o que vamos trazer-lhes é toda a distância entre essas fotografias e o real da clínica, esse real impossível de ser sustentado por uma representação, visto que essas fotografias são uma representação. E veremos, ao final, de que modo isso que é efetivamente apresentável para o clínico se deixa especificar topologicamente de uma maneira que tem apenas pouco a ver com, justamente, essa representação. O que veremos – eu antecipo – é de que modo esse tipo de caso faz valer claramente sua tendência a uma esfericidade que tende ao fechamento, e que se orienta na direção de um aspecto pulsionalmente mono-orificial; de que modo se opera aí uma defecção pulsional2 que o conduz, progressivamente, na direção de uma teoria cloacal de seus próprios orifícios; de que modo, se o mundo deve ser sem furo, perfeitamente pleno, temos aí uma congruência, eminentemente moderna, com nosso ideal político contemporâneo de um mundo ao qual nada faltaria: um mundo sem falta e sem falta de falta, no qual nos aproximamos do Cotard. E, mesmo que nosso paciente esteja – aparentemente – longe dele, as fórmulas negadoras não faltam, na verdade afirmativas, indicando de que modo as clínicas de um e do outro são apenas o direito e o avesso de uma mesma questão.</p>
<p>Também veremos de que modo, se é o discurso que vem ligar os órgãos em função, em tal caso não há nenhum discurso no sentido de Lacan e, portanto, de que modo se opera aí essa tendência que eu qualifiquei de mono-orificial do funcionamento: todos os órgãos tendem a se reunir num só, que asseguraria para si mesmo todas as funções.<br />
Seria também uma maneira de retomar a questão da significação do falo como operador das funções, nas quais é preciso incluir a da representação: que esse operador – esse significante que Lacan denominava cópula – venha a faltar, e será então, muito precisamente, o caso do qual acabei de, muito rapidamente, recuperar alguns traços, cuja convergência com nossa atmosfera social eu gostaria de tê-los feito sentir, inclusive em seus sonhos de um mundo imaculado e seus ideais higienistas: para ele, nada mais sujo do que o falo e os objetos relacionados a ele. Em resumo, nada moralmente mais sujo que o desejo, mas então é a obscenidade que vem prevalecer.</p>
<p>Persistimos e confirmamos então: anotações de clínica social.</p>
<p>Deixo, assim, a palavra a Louis Sciara, que se fará o porta-voz desse cartel que incluía Serge Gaudé, Claude Gavarry, Philippe Mauduit, depois que minha Assistente, Claire Sotty, e meu Residente, Jean-Marc Berthomé, se encarregaram do caso.<br />
Louis Sciara<br />
Eu me esforcei para fazer uma síntese das principais linhas de força clínicas que se destacam no caso do Sr. Marcel P. Apoiamos o nosso trabalho na transcrição da entrevista de apresentação e no prontuário da hospitalização. Marcel Czermak nos aconselhou durante toda essa reflexão sobre esse caso de transexualismo pacificado.<br />
Rica elaboração delirante centrada na certeza de ser “uma mulher”, em que a transexualização é particularmente notável por sua fixidez, seu caráter articulado e organizado, pela ficção delirante de toda a anamnese e, enfim, pelo modo pacificado que ela instaura no laço social cotidiano.</p>
<p>A contrario dos casos de transexualismo ditos “primários”, nenhuma exigência indignada de uma retificação corporal. Ele não reivindica nem castração, nem mudança do estado civil: limitou-se a colar em sua carteira de identidade sua fotografia disfarçado de mulher, com peruca. Trata-se, portanto, de um caso que tranqüilizaria os defensores de uma ética da liberdade dos transexuais em poder dispor, como quiserem, de seu corpo, mas, sobretudo, muito esclarecedor do “empuxo-à-mulher”, sua transexualização sendo a investida bem-sucedida, impondo-se a ele, da feminização estranha presente na orla de qualquer psicose. Permanece enigmática a representação que estaria em jogo para nosso sujeito. Não temos nenhuma idéia dela, do mesmo modo que ela nos é inimaginável. Sua estrutura topológica nos é espontaneamente irrepresentável.<br />
Nós nos esforçamos, portanto, em demarcar a lógica estrutural do caso, a fim de esclarecer a fórmula de Marcel Czermak, “o real é sem representação, mesmo que tenha representantes”.</p>
<p>Apresentaremos primeiramente o aspecto clínico do caso, para precisar em seguida os pontos de estrutura prevalentes.<br />
O Sr. P. nunca foi hospitalizado em psiquiatria. Ele o é, pela primeira vez, no Centro Henri-Rousselle do Hospital Sainte-Anne, há alguns meses, encaminhado por um hospital geral onde havia se consultado por problemas somáticos (essencialmente uma angina) e onde foi constatado um “delírio crônico relacionado a sua transexualidade”. Desde essa primeira estada em Sainte-Anne, foi readmitido em várias ocasiões pelos mesmos distúrbios somáticos.</p>
<p>Na apresentação em Henri-Rousselle, Charles Melman lhe pergunta seu nome. O Sr. P. responde: “Bem, eu tenho um oficial e tenho dois outros&#8230; No meu bairro, me chamam de Madame Amanda e na D.P. me chamam de Cécelle,3 meu nome oficial é Marcel, mas eu não gosto muito dele. E meu papai, que era uma ‘eminência parda’, bem, quando eu nasci em 1929 em Port Royal&#8230; bem, meu papai, que era uma ‘eminência parda’, queria que me operassem porque eu não era um menino, eu era uma menina. Sim, Professor, e hoje em dia, meu doutor particular&#8230; me disse: ‘em um mês ou dois você não terá mais pipi’ e há dois dias meu pipi entra no ventre, não tenho mais que dois centímetros de pele, então eu faço pipi por trás porque eu fui operado há 21 anos em Londres, porque meu marido é arquimiliardário. Ele é conde e eu sou condessa. Tenho um filhinho que fez 16 anos em 15 de março deste ano. Então eu peguei a Luftwaffe, o equivalente da Air France na França, e aí, é uma companhia alemã”. Um pouco depois: “O Professor P. do hospital fez todos os exames e tudo e me disse: em toda minha vida de estudante, de médico, de professor, nunca vi um ser como você. Ele me disse que eu era hermanociclo, sim. E eu lhe digo, como eu fui operado há 21 anos antes de meu casamento”.</p>
<p>Charles Melman lhe pede para precisar a natureza da intervenção: “Bem, quer dizer que, no interior, eu tenho todo o aparelho de uma mulher, e isso me acontecia um pouco mais freqüentemente, bem, eu fazia pipi por trás porque no interior eu tenho todo o aparelho feminino com meu ânus. Mas eu lhe digo, ahn?&#8230; Eu nunca fui um ser como todo mundo”. Terão notado, além do delírio, os encadeamentos utilizados: “porque”, “bem”, “sim”.</p>
<p>Robusto e mais para gorducho, o Sr. P. usa calça de pijama, robe, um gorro de lã pontudo (que ele mesmo tricotou), brincos e alguns anéis. Um pouco de seios. Voz neutra e gestual mais para maneiroso e equívoco. Equivocidade acentuada por falas em que a equivalência dos nomes (Marcel, Cécelle, Amanda) deixa no ar algumas dúvidas nos presentes quanto a sua verdadeira identidade sexual: ele? ela?, induzindo oscilações naqueles que o ouvem.</p>
<p>Sua insistência em se dizer mulher, em evocar uma operação que o teria tornado mulher, em ressaltar sua singularidade excepcional de “hermanófilo” ou de “hermanociclo”, segundo as palavras dos médicos que o atenderam no hospital geral, é perturbadora. A ponto de se perguntarem se não se trataria de um caso de hermafroditismo congênito. Na verdade, o exame e a avaliação somática não revelam nenhuma ambigüidade sexual, ele tem apenas um testículo e uma ginecomastia ligada a um discreto desequilíbrio endócrino. Ele nunca tomou hormônios.</p>
<p>Referindo-se o tempo todo a seus atributos femininos, exibe o tempo todo seus representantes d’“A mulher”, aquela que é toda, em todos os registros (menina, amante mulher, prostituta, mãe de família etc.), chegando mesmo a querer exibir as cicatrizes imaginárias da “operação”, bem como das cesarianas sofridas. Mas, apesar de toda essa “imponência” feminina, uma certa estética do vestir, pouco preocupado com seu figurino pouco elegante, lhe importa pouco, também, estar mal barbeado, usar um gorro pontudo ou colecionar bonés. Ele é mulher. Os traços ou insígnias de virilidade não o perturbam. A caricatura disso nos é dada em uma entrevista com Marcel Czermak, no hospital.</p>
<p>Ele o despe e constata que “os elementos” estão bem no lugar. “Você é aparelhado como um homem”. Sr. P.: “Bem, sim, mas de qualquer maneira eu sou uma mulher”. M.Cz.: “Você não ignora que é aparelhado como um homem”. Sr. P.: “Sim, mas isso não me incomoda de jeito nenhum”. M.Cz.: “Você tem uma imaginação de mulher”. Sr. P.: “Não, não é uma imaginação, é a verdade”. Ele é, portanto, mulher; sem hesitação.</p>
<p>E, com relação à beleza, dizendo-se condessa, teremos oportunidade de apreciar sua vida faustosa de castelo, à maneira de clichês caricaturais. Um outro aspecto, ao qual seremos sensíveis na escuta do caso, chama a atenção: uma inclinação a deslizar para a morte, para um aniquilamento em que ele se encarna como dejeto. Verdadeira mulher, ele pôs no mundo dois gêmeos. E conta, cruamente, que esquartejou os fetos, picou-os e jogou na privada. Ou ainda, evocando seu nascimento como um sacrifício da mãe ou do filho: “Então, sacrificou-se o bebê”. “Sim?”. “E mamãe, eu cuidei dela até sua morte.”</p>
<p>Acrescentemos duas observações quanto a seu modo de apresentação: o Sr. P. não está nem no semblant, nem na mascarada feminina. Trata-se de um “maneirismo sem semblant”, para retomar a fórmula de Henry Frignet. Com qual real ele tem a ver? “A mulher” não é nem uma imagem, nem uma representação. Trata-se de um “representante” que é o próprio real, a tal ponto que imaginário e real se colabam. O imaginário desse sujeito é seu próprio real.</p>
<p>Desse modo, percebemos melhor a importância maior que o olhar desempenha aí. O Sr. P. provoca um verdadeiro duelo escópico e verbal com Charles Melman. Sr. P.: “Por que é que o sr. pisca os olhos o tempo todo?”. Ch.M.: “É o meu olhar que o fascina?”. Sr. P.: “Eu nunca baixei os olhos, nem diante da Gestapo”. Ch.M.: “Veja, você não suporta o meu olhar”. O desafio é proporcional ao risco, a saber, um real brutal de despedaçamento do corpo. O olhar do Outro se reduz, de um lado, a um mau-olhado real, algo persecutório, representante persecutório do Outro real e, de outro lado, lhe serve de apoio e de sustentação, o conforta, lhe dá uma certa imponência. Daí seu olhar atento, sensível ao menor detalhe, que recorta, disseca. O olhar do Outro poderia contestar seu “ser mulher” ao mesmo tempo que o preserva de graves manifestações ansiosas de despedaçamento.</p>
<p>Para tornar mais precisa a observação, retomemos alguns elementos da anamnese: ela se revela totalmente delirante. Sem acontecimentos certificáveis, historicizados pelo Sr. P. Não adianta procurar uma coerência factual, uma causalidade explicativa. Essa história só tem coerência se remetida a sua estrutura delirante. Preservemos apenas que ele é condessa, casado com Helmut (Elle mute),4 que vive na Alemanha e o visita a cada noite. Ricos proprietários de fábricas, de um castelo. Seu pai, “eminência parda” de carreira, tinha bens. O Sr. P. trabalha para a Polícia Judiciária e a contra-espionagem. Vestido de mulher, ele seduz os motoristas de táxi muito paqueradores. Ator de teatro e de cinema, ele posa também “toda nua” para escultores e pintores “na casa” de sua patroa Vera. Além de Helmut, seus amantes, entre os quais Herman, o tomam, o fazem gozar em noites nas quais uma voluptuosidade intensa toma conta dele.</p>
<p>Sem crítica, nem preocupação com verossimilhanças, ele também não tem idade, está fora do tempo. “Que idade você tem?”. “Hoje é meu aniversário&#8230;”. Todos os dias é seu aniversário.</p>
<p>Seu irmão mais velho acrescentou algumas informações às declarações do Sr. P.: tendo vivido com sua mãe até sua morte, ele vive sozinho há 13 anos. Marcel era o preferido entre os irmãos e o mais novo. O Sr. P. relatou, aliás, seu devotamento absoluto a sua mãe, gravemente doente com diabetes. Uma proximidade, uma intimidade, pelo menos estranha, já que ele cuidava do corpo de sua mãe chegando a limpar sua “xoxota” (sic). O irmão confirma que ele foi mesmo carteiro e depois funcionário dos Correios. Seus pais se separaram quando era pequeno e a mãe voltou a casar-se, com um homem violento e alcoólatra.</p>
<p>Esse irmão mais velho, Lucien, informa que o Sr. P. nunca foi afeminado e que eles se perturbaram, depois da morte de sua mãe, quando o Sr. P. lhes disse que era “uma bicha”. Lucien ainda informa que, na infância, não era Marcel, mas ele, Lucien, que era vestido como mulher. Enfim, o Sr. P., embora muito isolado, ao que parece, é muito bem aceito em seu bairro. Os comerciantes o chamam de “Madame Amanda”. Ele usa uma peruca e ocasionalmente se pinta.</p>
<p>Retomemos: o Sr. P. foi tomado em uma fabulação delirante de toda sua filiação, de sua identidade, de sua identidade sexual, de sua corporeidade. Sua feminização impõe-se atualmente a ele de um modo pacificado. Tendo excelente disposição para com o outro, sua vida no bairro, onde ele é também reconhecido como “Madame Amanda”, é serena. Nenhuma vingança, virulência, reivindicação de passar por uma castração real. Não se trata de uma psicose passional, sua loucura é pacífica. Sem nada que o ofenda, sem nenhum senso de ridículo, não se queixa de nada. Além do mais, seu sexo está desaparecendo: está quase, é iminente. Ele evita a reivindicação comum aos transexuais aliviando-se, desembaraçando-se do significante fálico em cima de pequenos outros erigidos, na ocasião, como representantes da virilidade (Herman: o amante, redobramento de virilidade por seu Herr e seu Man; Helmut: o marido, elle mute&#8230;). Figuras imaginárias de homens que viriam tomar posse de seu “interior de mulher”. Nenhuma necessidade de ser castrado: a fabulação delirante faz suplência aí e induz sua “cura”.</p>
<p>Delírio notável, ao mesmo tempo por sua fixidez e por seu caráter fabulatório, imaginativo e megalomaníaco. A metáfora delirante se traduz essencialmente por essa convicção de ser “hermanociclo”, de ser “mulher”. Núcleo duro firmemente instalado com o remanejamento da anamnese e com o caráter pacificado que indicamos. Outros aspectos surgiram durante as entrevistas, não maiores, menos permanentes. Assim, uma tendência à confabulação, traduzindo uma certa extensão parafrênica. Igualmente, um pólo projetivo notável: algumas notas persecutórias, referências a um poder telepático (ele é “transmissor de pensamentos” para a Delegacia de Polícia), alusões (“dizem que&#8230;”, “ele diz que&#8230;”, “me chamam de&#8230;”) evocadoras de rumores, podem fazer presumir fenômenos alucinatórios.</p>
<p>Quando ele afirma: “eu sou hermanociclo” ou “hermanófilo”, “hermanocita”, “manófilo”, estamos diante de uma série de neologismos de significação toda pessoal, em que se entrevê, ao lado da dimensão megalomaníaca de ser uma exceção, a queda nos duplos, nos duplicados e nos dublês, reduplicados ao infinito. Não se trata de forma alguma de desconhecimento do termo médico hermafrodita; trata-se muito mais de representantes de “A mulher”, que são também Nomes-do-Pai degradados, pululando no real. Voltaremos a isso.</p>
<p>Embora o desdobramento imaginário do Sr. P. se apresente de uma forma extremamente abundante, ele se reduz – na verdade – à linha de força imposta por sua estrutura, comandada pelo significante de “A mulher”. Assim se instala um transexualismo com explosão da identidade imaginária, preso em um delírio de grandeza a título da exceção da “homenosuma”.5</p>
<p>Mais ainda, esse imaginário acha-se em continuidade com um simbólico esfacelado no encadeamento dos nomes próprios e dos Nomes-do-Pai. Enfim, última alça do nó de trevo paranóico, o Sr. P. se acha confrontado, como lhes assinalei, com um real brutal de despedaçamento do corpo, de que dão conta as irrupções surpreendentes de retalhamento do corpo na cadeia falada.<br />
Alça do imaginário<br />
Chamado de Mme. Amanda, essa imaginação tornou-se prevalente em seu laço social. Mas trata-se de uma mulher muito particular, que visa à unificação, à completude total: “A” mulher que falta aos homens. E o Sr. P. se oferece, assim, sob diferentes formas, em um caleidoscópio de imagens, que visa a apreender a mulher sob todos os seus aspectos: a mulher-mulher, a mulher sexy, a mãe, a esposa&#8230; Figura proteiforme e colagem de representantes sem representação. Se há paixão, é a de um significante: aquele de “A mulher”. A linguagem que ele emprega dá forma a essas imagens, mas se apresenta como uma concha vazia, puro envelope formal. Ela solicita o olhar sobre qualquer detalhe que pudesse representar a mulher. “Eu não era um menino, era uma menina.” Ele deveria ter sido operado, por ordem de seu pai, “eminência parda”, desde o seu nascimento, mas os cirurgiões não quiseram. Operado há 21 anos em Londres, ele se casou em seguida. Uma lógica Outra está instalada: sendo mulher, foi operado ou deveria ter sido. Desde a infância, é “uma linda menininha” e é assim que o chamam. Vestido de menino, mas com as golas bordadas, seus cabelos longos, finos, encaracolados. Inspetores na escola o importunam. Com 13 anos, ele usa uma saia para cuidar das vacas (Lucien explicou que Marcel, seu irmão Hervé, 18 meses mais velho, e a irmã Germaine foram colocados em fazendas durante a guerra). Sua mãe sempre o considerou como uma menina, ela o chamava de “Cécelle” ou de “mon bichou”6. Ele declara: “Tive minhas regras com 15 anos e meio e até 55 anos, como uma mulher”. O “como” não implica uma identidade comum, mas um “envelope” feminino que o recobre. Ele tricota, cerze, bebe leite, tem horror de álcool, detesta os homossexuais e se afirma casado. É casado com Helmut. “Me juntar com alguém, isso, nem pensar”: ou o casamento ou nada, uma “verdadeira” mulher!, uma “verdadeira” esposa! Ele tem um filho, se prepara para dar à luz, sente o bebê mexer na sua barriga. Ele conhece o gozo: “Quando Helmut faz amor comigo, bem, eu gozo. Sim. Mas ele me toma, ele me toma porque eu tenho o feminino no interior”. Ele se diz virgem. Suas volúpias noturnas, já evocadas, testemunham um gozo Outro. Fora do Gozo fálico, oferece seu corpo a esse Outro não barrado que é ele mesmo, esse corpo tomado, inscrito no significante “A mulher”. Assim, o Sr. P. seria um heterossexual puro, na medida em que tem uma relação direta, imediata, com o Outro sexo que ele encarna! Mulher sexy, sempre solicitada pelos homens que bolinam sua bunda no metrô e lhe fazem a corte na praia, que atua em filmes pornográficos. E “roupa de mulher, eu tenho tudo; tenho combinações, tenho calcinhas pretas, bordadas com renda e tudo, sim, e eu sirvo de chamariz na D.P.”. Essa “mulher toda” desafia os homens, mais fortemente que os homens da polícia, para submetê-los à lei da polícia. Mulher que não tem medo dos homens, dos revólveres, que se faz respeitar: “Bem, pra ser machão, seria preciso mais do que isso”. O desejo de um homem não lhe inspira nenhum respeito: “Herman me tomava nos braços e ficava excitado, é! E Vera [sua patroa ou cafetina] passava e clac!, dava um peteleco no membro de Herman e pluf, sumiu o membro em pé”.</p>
<p>Magnificando a imagem da “mulher”, ele não se declara nem homossexual, nem travesti, tão-somente mulher. Mulher de exceção, que faz brilhar todas as facetas femininas, com sua vida de castelo, típica das revistas especializadas, num remendo imaginário flagrante. E, no entanto, seu imaginário constitui seu real, já que ele abole qualquer acontecimento factual, como já indicamos. Aqui, no nó de trevo psicótico, o imaginário consiste com o real e faz suplência à castração simbólica, fora do campo.<br />
Alça do simbólico<br />
Essa segunda alça está em continuidade, na cadeia falada, com as duas outras alças e apresenta, todas no mesmo plano, um desfiar de significantes. Assim, podemos colocar em série seus nomes, aqueles que ele dá a seu filho, a seu marido, a seus comparsas: eles testemunham a fragmentação de sua identidade e, ao mesmo tempo, o retorno dos Nomes-do-Pai no real. Os nomes proliferam num jogo de eco, sem capitonagem, sem significação particular, por assonâncias e aliterações, de acordo com as linhas de força da estrutura de sua psicose.Assim:</p>
<p>– seu nome: Marcel (nome oficial do qual ele não gosta muito)® Marcelle (na escola)® Cécelle (por sua mãe, na D.P., &#8230;). Para ser ouvido seguramente como: c’est celle (é ela).<br />
– os de seu filho: Helmut (elle mute)® Louis (a mãe se chama Louise)® Marc (cf. Marcel).<br />
– os de seu marido: Helmut, redobramento do pai e do filho.<br />
– a série de nomes alemães (mito da potência alemã, um marido ariano, uma série de clichês): Helmut, Herman (senhor, homem), Vera, Karl&#8230;<br />
– múltiplas assonâncias e aliterações da cadeia significante, ecos sem significação: uma amiga, “Cortès de Costaljou”, “qui a quitté l’hôtel Waikiki”.7<br />
– um irmão 18 meses mais velho: Hervé, a colocar na série dos Herman, hermanociclo, hermanófilo, hermanocita, manófilo.<br />
– a mulher, com a profusão de seus representantes, de seus significantes dos Nomes-do-Pai: praticamente todos os precedentes. Assim como, evidentemente, aquele que ele se deu: Amanda, anagrama de Madame, já que, sendo carteiro, ele levava os mandados.</p>
<p>Equivalência, no Sr. P., entre ser hermanociclo e ser mulher. Degradação da mulher em hermanociclo. Na falta de um Nome-do-Pai simbolizado, e na falta de poder se inscrever em uma filiação, desenvolve um verdadeiro delírio de filiação em que ele é seu próprio referente, em que o simbólico retorna no real sob a forma de um desfile, um desfiar ininterrupto dos Nomes-do-Pai (no qual é preciso incluir “a eminência parda”, seu pai, aquele que ele qualifica como “aquele do qual não se fala, e que age”, seu próprio referente a partir do qual ele pode se contar). Criando-se múltiplos nomes, nenhum deles interrompe o desfiar.<br />
Terceira alça<br />
A de um real brutal, despedaçado, que irrompe por instantes na cadeia falada e nos interroga quanto ao que lhe faltou no momento do estádio do espelho: como o quadro do soldado morto durante a guerra – evocativo de uma Pietà: “e eles me trouxeram um subtenente alemão, eles o colocaram sobre meus joelhos e sobre minha saia, e o subtenente morreu nos meus braços”. Ele chora por isso. A exemplo de sua evocação de seu nascimento (sacrifício da mãe ou do bebê, um se incluindo no outro; maneira de ser Um com sua mãe, na falta de um terceiro separador), ele faz bloco com o soldado que morre. Sua consistência egóica imaginária se resolve em despedaçamento.</p>
<p>Essas evocações de despedaçamento são pouco numerosas, mas poderosas: carteiro, conheceu um cirurgião que lhe ensinou a retalhar cadáveres: “E durante dois anos, ou de manhã ou à tarde, eu retalhava cadáveres. Desse modo, eu conheço inteiramente o corpo humano. Sim, professor!”. Ele pôs no mundo gêmeos: “Pois bem, eu retalhei o primeiro feto. Ele tinha cinco meses. Bem, eu o cortei em pedacinhos&#8230; eu o coloquei no W.C. público que fica nas escadarias”. Do mesmo modo, ele teria feito abortos.</p>
<p>É o representante “mulher” que sustenta esse corpo despedaçado e lhe permite, não obstante e contra tudo, aceder a um modo de vida pacificado. Esse significante puro, “mulher”, tenta fazer sutura ali onde a montagem borromeana fracassou. Ele tenta manter juntas as três rodelas do nó.</p>
<p>Último ponto, com relação àquilo que provavelmente desencadeou sua psicose: por volta de seus vinte anos, Marcel conta que teve desejo por uma mulher, Jacqueline. Não tendo podido bancar o homem com essa mulher que o solicitava, restou-lhe “a solução de ser a mulher que falta a todos os homens”.8 Foi impossível para ele fazer amor com ela, embora ela o tratasse como homem. “Ela me disse, mas você não é completamente um homem&#8230; já que não pode fazer amor comigo”. Foi nesse momento, sem dúvida, que sua psicose descompensou. Podemos igualmente nos interrogar quanto aos efeitos da morte de sua mãe, considerando suas relações e a importância atribuída ao olhar do Outro. Mas, igualmente, quanto aos da aposentadoria (carteiro, ele conservava relação com a letra9 e participava do laço social). Lucien e o médico responsável assinalam que ele não era afeminado cinco anos antes. Na verdade, toda essa feminização se desenvolveu a partir de um tempo impossível de demarcar nessa anamnese delirante.</p>
<p>Enfim, para concluir, devemos dizer algumas palavras sobre a questão da representação no Sr. P., pelo viés de suas formulações relativas a seu corpo, sua anatomia enigmática, não ordenada pelo significante fálico e, portanto, não simbolizado. Ele nos diz conhecer inteiramente o corpo humano. Este é comparável a uma superfície com uma “frente” e um “atrás” que têm sua especificidade, segundo uma topologia estranha. Sobre a frente: “na frente, eu tenho um pipi pequenininho, tenho muito pouco sexo, nenhum pêlo&#8230; nem próstata, nem testículos”, e quando o médico lhe aponta seu testículo, ele se insurge: “Não, não tenho. São tripas que descem numa bolsinha”. Esse aspecto, negador, centrado nos atributos viris, se acompanha de fenômenos transformacionais, à maneira de uma constatação sem apelação. Sendo mulher, então “ele desaparece aos poucos, meu pipi entra no meu ventre; estou perdendo ele; antes eu era comprido”. Negações, transformações que testemunham uma tendência hipocondríaca sob a forma de um esboço de cotardização.</p>
<p>Quanto ao atrás, ele é o lugar das fecundações, dos partos, receptáculo de todas as penetrações, lugar de dejeção dos objetos: urina, regras, fezes; operado, fizeram nele uma entrada, “como uma vagina”, “me abriram entre as coxas&#8230; eu sou aberto mais perto do ânus” e, ainda, “eu fazia pipi por trás, porque no interior eu tenho todo o aparelho feminino ligado a meu ânus”. Estranho encanamento para onde convergem uretra, fenda, ânus, olho. Sua anatomia tende para a instalação de um orifício único que preenche todas as funções e assinala a desespecificação pulsional própria da psicose.<br />
Curiosa mulher, portanto, essa que ele representa, que explicita que os homens a “tomam entre suas coxas”. Curiosa perspectiva mono-orificial, que se articula com esses diversos representantes d’“A mulher” de exceção que seria completa, toda, e cujo envelope delirante nos era espontaneamente inimaginável, tanto quanto para o Sr. P., que não dispõe de nenhuma representação adequada, realizando-a ao converter-se nela.</p>
<p>Eu deixo aos cuidados de Marcel Czermak a tarefa de comentar para nós, mais adiante, o que tem a ver com a falicização do corpo (do pipi que desaparece ao gorro pontudo que ele exibe) e sua formulação “o real é sem representação, mesmo que tenha representantes”.<br />
Marcel Czermak<br />
Retomemos então. Em um caso assim, pudemos ver o arranjo em continuidade – nó de trevo – de R, S e I e, simultaneamente, a esfericização progressiva do corpo desse homem, apresentado como um prato raso, com uma borda, uma frente e um atrás. Frente-atrás que fazia enigma nas modalidades de sua relação com o Outro, com seu corpo e, de modo mais geral, com sua espacialidade. Prato que – topologicamente – o mínimo estiramento de suas bordas transforma em esfera furada.<br />
E é, portanto, nessa formalização que eu veria, justamente, o que é apresentável; e, por isso, a grande distância – se podemos nos expressar assim – entre essa apresentação e a representação que ele nos endereça sob a forma de cartões postais vindos das Ilhas dos Passarinhos, Cui-Cui: as Canárias.</p>
<p>Isso para detalhar essa questão insistente do frente-atrás.</p>
<p>Em um tal sujeito, pode-se perfeitamente formular a reintegração progressiva dos objetos anos orifícios, até o ponto em que eles vêm se encaixar uns nos outros, culminando nisso que se constitui como uma autêntica cloaca anatômica: um só orifício desempenharia então, por si mesmo, todas as funções de alimentação, fecundação, excreção&#8230; Desespecificação ligada diretamente àquilo que eu me permiti qualificar, na questão do transexualismo, de verdadeira hipocondria fálica – ponto de origem da hipocondria mais geral de todas as psicoses.</p>
<p>Esse termo hipocondria fálica, jamais empregado na clínica, mereceria seguramente sê-lo, na medida em que, se existe um parasita, um fânero removível, é exatamente o significante fálico. Nesses sujeitos, a partir do momento em que, a título de sua hipocondria fálica, eles puderam se colocar fora do campo fálico, vemos, então, e de uma maneira automática, os objetos a, que o falo havia feito cair, reintegrarem os orifícios primordiais. Depois, por via regressiva, eles vêm colabar-se em um único. Enfim, se tive que insistir na necessidade de, como faz o paciente, pronunciar “Helmut” e não “Helmout”, foi exatamente porque se trata aí – igualmente – do reviramento do sujeito em dedo de luva sobre si mesmo, a título das visitas noturnas efetuadas por “Elle mute”, que lhe propiciavam sua própria volúpia.10 Modo autocopulatório, por falta do significante-cópula. Autocopulação por “Elle mute” revirada como uma luva. Foraclusão perfeitamente bem-sucedida da relação com o Outro, já que, independente de qual tenha sido minha “investida” em relação a ele, até mesmo meu lado deliberadamente gozador e talvez até desagradável, ele, no entanto, me enviou um cartão extremamente afetuoso.</p>
<p>Desse caráter eminentemente acolhido, socializado, de sua pessoa, tanto em seu bairro quanto nas Canárias, ele nos dá testemunho na redação desses cartões postais em que se considera persona grata junto a nós.<br />
Tratando-se de um ao-menos-um que não conhece a castração, lamento, enfim para nosso propósito, ter esquecido de trazer duas estatuetas da Ilha de Páscoa, dois Moaï, Deuses primordiais, que me servem freqüentemente como instrumentos de demonstração.</p>
<p>Uma é a do Deus Maké-Maké, Deus pássaro, do qual tenho um exemplar que, por sua estilização, fala mais claramente que os outros exemplares que pude ver: num primeiro tempo, discerne-se mal, ao exame, a razão do efeito de angústia que ele suscita por sua fisionomia. Até que nos damos conta de que a escultura é feita de tal maneira que, de acordo com o ângulo pelo qual se olha para ela, o orifício que nos observa é tanto um olho quanto uma orelha, uma boca ou uma narina.<br />
O Deus não tem fundamentalmente senão um orifício cefálico, encimado por uma espécie de protuberância como um chifre vertical, fálico, que o recobre e que, ela própria, conforme o ângulo do qual a olhamos, pode ser, a cada vez, um bico de pássaro, uma mandíbula de sáurio ou uma tromba de elefante.</p>
<p>O outro Moaï é um pouco mais complexo: olhado lateralmente, é um falo cuja glande contém dois olhinhos, o orifício uretral se alargando em uma boquinha hilária. Colocado verticalmente, face superior do falo para a frente, essa glande assume o aspecto de um homem bigodudo sem boca e, em sua parte inferior, onde deveria estar um pênis, surge uma forma genital feminina.<br />
Se vocês olharem por trás da estatueta deixada verticalmente, a face inferior do falo tornando-se então o traseiro, vocês vêem – embaixo – um ventre grávido com um pênis pendurado, enquanto que a extremidade superior do corpo afilado termina em uma pequena glande cefálica. Assim, nesse anatropismo (mulher de um lado, homem do outro) mas com dois órgãos genitais (feminino no lado suposto homem e masculino no lado suposto mulher), observamos o corpo inteiramente falicizado do homem castrado e seu reverso em um: a mulher como um dos apogeus do homem, a mulher como futuro do homem, a mulher como um dos Nomes-do-Pai.</p>
<p>Nessa criação tudo-em-um, em que um cabalista talvez visse o Tsimtsoum divino, nos é levantada – a título do ao-menos-um – essa questão que é um dos mistérios da Ilha de Páscoa: por qual talento os pascoalinos fabricaram essas estatuetas dos ancestrais, qualificadas de bizarras, estranhas, que dão tanto pano pra manga aos etnólogos e que não são senão a indicação de que – melhor que os cartões postais que recebemos – elas se aproximam, por sua apresentação, dos Nomes-do-Pai de nossas formalizações topológicas, e do próprio caso de nosso paciente.<br />
DISCUSSÃO<br />
Prof. Delahousse: Fiquei muito interessado por sua passagem do discurso do paciente à montagem lacaniana, e o que você fez disso, Marcel Czermak, mas, enquanto psiquiatra, fiquei um pouco na vontade quanto à clínica francamente psiquiátrica. Será que não seria necessário fazer uma abordagem diagnóstica psiquiátrica um pouco mais cerrada, na medida em que nos encontramos, ao que parece, diante de um quadro evolutivo? São muitos anos de evolução e não se identificam muito bem as fases iniciais do quadro, por exemplo: o transexualismo apareceu absolutamente prevalente logo de início, ou ele foi rapidamente englobado nos outros fenômenos? Por outro lado, foram importantes suas práticas de travestismo, contemporâneas ou anteriores? Por outro lado, o que é que se passou quando da morte da mãe? Este foi um momento de báscula bem essencial para esse sujeito. Então podemos também nos dizer: há uma parte de delírio e uma parte de fabulação, como em todos esses delirantes que sentem muito prazer na expressão de seu delírio, e por outro lado você diz: está pacificado; ou será que é também porque esse paciente é muito dissociado e apragmático que o quadro se apresenta como pacificado?</p>
<p>M. Czermak: Suas questões são muito bem-vindas. Se escolhemos esse caso foi porque tínhamos em mente o seguinte: no projeto que temos, de voltar a trabalhar o conjunto da questão do transexualismo, partimos da doutrina de que isso que se chama de transexualismo puro, típico, primário, é apenas um caso localizado da questão geral do transexualismo. Por isso nos importava reunir casos que alimentassem nossa perspectiva, fazendo valer nitidamente seus traços estruturais. Ora, esse caso de psicose patente, conjugando transexualização e delírio de filiação, confabulações diversas, apresentava além disso o interesse, justamente, de que a importância dos remanejamentos retrospectivos, dos fatos imaginários, era tal que era praticamente impossível encontrar alguns elementos anamnésicos suficientemente sustentáveis. Em muitos aspectos foi, entretanto, de grande vantagem, já que ficamos aliviados da tendência psicológica habitual, na qual somos facilmente tomados logo que sabemos demais sobre a anamnese: estávamos diante de um quadro estrutural em estado bruto, ainda a formalizar.</p>
<p>Em terceiro lugar, para responder mais precisamente à sua questão, é provável que esse homem tenha conhecido duas inflexões importantes: seu encontro com essa mulher, Jacqueline, e o modo como ele respondeu exatamente nos termos do que Lacan pôde delimitar: na falta de ter podido ser o falo que faltava a sua mãe, e em sua dificuldade de ser um homem para uma mulher, restou-lhe ser a mulher que falta a todos os homens. Se tivéssemos aqui a transcrição da entrevista, você veria até que ponto é espantoso. Espero, entretanto, que possamos publicar esses diálogos, pois há aí um problema da própria tecnicidade do diálogo: fazer vir as coisas sem sugeri-las, evidentemente. É extraordinariamente eloqüente.</p>
<p>A segunda inflexão, como você observa muito justamente, deve ser relacionada à morte de sua mãe.</p>
<p>De resto, é extremamente difícil sustentar o que quer que seja. Nosso residente esteve com o irmão dele, e o que se deixa entrever é que pareceria que, na juventude deles, era este que era mais feminilizado e, no entanto, não o é mais, enquanto nosso paciente, que não era feminilizado, tornou-se.</p>
<p>Último ponto, quanto à questão estritamente nosográfica: um caso assim escapa efetivamente à nossa nosografia habitual. Ele tem 64 anos, nunca consultou psiquiatra. Se o recebemos, foi por indicação dos médicos do Hospital Boucicaut, onde tinha sido admitido por um problema cardíaco, que, ao ouvi-lo dizer “eu sou uma mulher”, disseram a si mesmos: trata-se de um caso para psiquiatras. Asseguramos os cuidados médicos, quanto ao delírio nos limitamos a nos instruir, a ligá-lo a nós e a cuidar dele. Esse paciente, portanto, nunca esteve ao alcance de um psiquiatra. Ele não era apragmático: sempre se virou sozinho e se envolvia, até se preocupava, muito bem, com a vida do serviço. A dificuldade eventual do enquadramento nosográfico deve-se ao fato de que ele tinha seguramente reconstituído um campo de realidade que lhe permitia uma relação bastante serena, amistosa mesmo, com seus interlocutores. Aliás, desde nossa primeira entrevista, eu disse: trata-se do estágio terminal, de equilíbrio, de “cura”, de uma psicose.</p>
<p>Um aspecto topológico que poderíamos desenvolver, mas que Louis Sciara acentuou, é o seguinte: à medida que o sujeito toma essa tendência a uma completude, uma repleção obturante (inclusive na gravidez: “isso mexe em mim”), ela se resolve em passagens ao ato imaginárias. Desse modo, abortos iterativos, fetos picados, jogados nos W.Cs.<br />
Trata-se, certamente, de um caso que precisaremos retomar. Nossos documentos são abundantes. É seguramente um verdadeiro aporte à clínica da representação, do transexualismo, e da doutrina geral das psicoses, como o que determina nossos embaraços e nossas capturas ordinárias a partir de nossa fantasia de neuróticos: pois esse paciente, fantasia, ele não tem. Ele delira.</p>
<p>J. Bergès: O que me interessou muito foi o que você disse, em resumo, ao dizer que o imaginário é o próprio real. Quando, para a mãe, o imaginário de seu corpo e o real do filho estão assim em continuidade, ela o deixa numa dificuldade particular: como permitir que o simbólico entre no circuito, e você disse, ele entra de maneira fragmentada, e como?, substituindo a série dos Nomes-do-Pai por objetos a. Quando imaginário e real estão assim em continuidade, a mãe não pode simbolizar, isto é, falicizar o filho, o que se traduz pelo que você descreveu. Corolário: o imaginário se torna, para o psicótico, o próprio real, por intermédio do significante da mulher.</p>
<p>M. Czermak: Em todo caso, esse significante d’“A mulher” é, como vimos claramente, topologicamente especificado. Ou seja, ele se deixa apresentar. Ele nos é irrepresentável espontaneamente, nós não temos nenhuma representação dele senão nossas próprias imaginações, mas podemos desenhá-lo e escrevê-lo no quadro, e o resultado não tem nada a ver com nossas imaginações habituais. Ele se oferece, por exemplo, por seus nomes, no estabelecimento de um grafo que vocês podem arriscar. Um de nós, durante o trabalho sobre esse caso, lembrou esta fórmula de Lacan: “Um furo, o que é que isso expele? Expele o pai como nome”. Em nosso caso, a ilustração disso é nítida, pois à medida que os objetos reintegram, obturando-os, os orifícios, o que se expele na fala são nomes: quer se trate da “eminência parda” que é o pai, que aciona, que está aí, que está presente, quer se trate de Amanda, esse nome que ele se deu, ou Cécelle, quer se trate dos Helmut e Herman etc. O Sr. P. fez-se o Nome de todos os nomes, ao passo que os pais rejeitados, expelidos, se põem a pulular e os objetos reintegram o lugar de onde eles foram produzidos, de onde eles caíram: há aí, portanto, algo muito claro, nítido e demonstrativo, eloqüente no plano clínico, pois isso vale para toda a doutrina geral das psicoses. Assim, por exemplo, poderíamos tomar, rapidamente, a questão evocada ontem, do Cotard – que nos diz: “Eu não tenho nome” – pelo mesmo ângulo. Com essa nuance que nos interessa, de que há uma clínica das mulheres e uma clínica dos homens: o Cotard afeta sobretudo as mulheres, o transexualismo, sobretudo os homens, mas, in fine, a formalização topológica parece ser de uma proximidade perturbadora, por assim dizer. Já que seria quase a mesma, formulada diferentemente no discurso, e que uma seria apenas o reverso da outra. O caso Areski, que publicamos por sua eloqüência,11 situava-se justamente no ponto de reviramento de um no outro.<br />
Enfim, só posso aquiescer ao seu enfoque segundo o qual o imaginário do ascendente pode – na psicose – tornar-se o real do descendente: é uma conjuntura que mereceria por si mesma amplos desdobramentos.</p>
<p>P. Arel: Em relação ao fato de que você se apoiou, em sua clínica, no exame do paciente despido, parece-me que isso levanta a questão do referente, da denotação, a saber, aquilo que serve para o estado civil: aquilo que estabelece nosso estado civil, ao mesmo tempo o nome próprio e, de outro lado, o sexo, já que o nome nos sexua, o estado civil o especifica. Como é que você se serviu dessa referência para estabelecer esse delírio?, e ao mesmo tempo&#8230; Isso foi precisado, mas o que me parece importante é&#8230; o que você traz em relação à desamarração do nome próprio, quer dizer que isso levanta a questão do referente, da denotação e do nome próprio.</p>
<p>M. Czermak: É uma questão fundamental e eu gostaria que, de uma vez por todas, ela seja resolvida, pelo menos nos meios analíticos. Por quê? De longa data, e inclusive em razão do enfoque errôneo dos psicanalistas, dos lógicos, dos lingüistas e dos filósofos, se desejaria que o nome próprio fosse um referente. Ora, o nome próprio, enquanto um dos veículos essenciais do Nome-do-Pai, e produtor, quando é pronunciado, da operação de delineamento de $, não é um referente: é aquilo a partir do que pode haver referência. Em outros termos, o nome próprio tem por função, em uma de suas vertentes, contar-se, também, como (-1).12 Nesse plano, ele não é, enquanto tal, um referente, pois ele permite sua instalação: é nesse sentido que o nome próprio é um ponto de ancoragem.13 E é certamente porque um tal sujeito – desprovido da duplicidade constitutiva do neurótico – não tem Nome-do-Pai a partir do qual possa se descontar e se contar, que, em seu delírio de filiação, ele se torna aquilo a partir de que ele é a referência de todos. Ele só pode fazer UM. Ponto capital em toda a teoria das psicoses. Nos neuróticos, gente conivente, diz-se: “eu me chamo fulano”. Bom!, é sua referência, dirão em uma apreciação sumária. É também a posição espontânea dos lógicos, quando tratam das questões da identidade e da referência, apesar da sofisticação de suas reflexões lógicas. Ora, toda a questão do patronímico se lê claramente nas psicoses e especialmente às claras nos delírios de filiações: esse sujeito se tornou aquele que nomeia todos os outros, que é portador de todos os nomes, que deu o nome a todos, produziu todas as obras do universo etc. etc. Ele é desde então o referente por excelência e por isso são os outros que contam a partir dele, já que, ele, não pôde se contar a partir dessa falta desse patronímico que só conta como subtração e falta. Nosso paciente é aquele que dá os nomes: é a referência dos nomes. Creio que é exatamente isso que começamos a evocar em antigas jornadas sobre a patronimia,14 e que ficou em suspenso. Hoje é a ocasião de retomar o fio.</p>
<p>Quanto ao fato de que o tenhamos despido: não foi de modo algum para estabelecer o delírio. Um delírio se estabelece a partir do que realçamos como arquitetura e coordenação positiva, sem que haja necessidade de verificação anatômica. Se o despimos foi porque, além do fato de que se criticava, com razão, o médico do hospital pela ausência de exame somático, esse exame permitia fazer valer sua negação sistemática de sua conformação física, a ser integrada na articulação dos fatos clínicos. Se um paciente delirante me diz: “eu não tenho coração” ou “pulmões”, eu não vou usar um estetoscópio nele senão para lhe fazer valer que seu coração real, eu o escuto muito bem. Por outro lado, lembrarei a alguns que estão aqui de que maneira, este ano, examinamos um deprimido cotardiforme (a metade inferior de seu corpo se esfericizava em uma enorme redondez) que apresentava a particularidade – jamais valorizada, fato espantoso, por seus médicos anteriores – de uma má-formação congênita: uma interrupção de sua embriogênese lhe tinha deixado uma microvagina, sem que a rafe mediana de suas bolsas, que continham testículos, tivesse sinfisado completamente, enquanto essa vagina era encimada por um também micropênis erétil. A ecografia abdominal era, entretanto, normal, sem útero residual. Nesse caso, ficaríamos muito contentes em saber o que se produziu para seus ascendentes na descoberta dessa anomalia de nascença. Aí também, a anamnese era impossível de obter, mas sabemos de que maneira ele respondeu depois: por uma esfericização delirante do abdômen e da pelve. Trata-se aí, portanto, verdadeiramente, de questões que têm a ver com o real do corpo, enquanto desconhecido pelo metabolismo da negação e da afirmação; anatomia, portanto, que deve tudo à linguagem, e que o Rouvière15 de nossa juventude não podia descrever.</p>
<p>P. Mauduit: Só para ilustrar a questão da referência: trata-se de um momento da entrevista com Marcel Czermak no hospital. O paciente diz: “Eu sou condessa” e Marcel Czermak lhe responde sem pestanejar: “Então, eu sou conde”, e o paciente lhe retruca: “Não, porque você não fez amor comigo”. Creio que isso ilustra bastante bem o fato de que ele é sua própria referência.</p>
<p>G. Balbo: Gostaria de retomar o que disse Bergès. Ele falava de prolongamento; quanto a mim, eu diria que há algo de unilateral, justamente, entre a mãe e o filho. E que se reencontra seguramente em seu irmão, do qual você falou: a única vez em que me deparei, em minha vida de clínico, com um quadro como esse, a mesma coisa se produziu, e o irmão, nesse momento em que, com efeito, o outro se tornou mais viril, pois bem, na verdade, esse outro também não estava tão bem assim. E eu creio que, nesse momento, a questão é efetivamente entre a mãe e o filho: essa relação, esse jogo, essa sucessão unilateral do imaginário ao real, que faz com que os objetos vão circular, mas a tal ponto que, efetivamente, os objetos nunca serão perdidos nem para um nem para outro. Quer dizer que o corte, que poderia ser produzido por uma perda, aqui não se produz ou pode não se produzir, o que é interessante.</p>
<p>E para retornar ao que você acabou de dizer do zero. Você sabe de que modo Lacan, em Sobre um discurso que não seria do semblant,16 diz que, graças a esse zero, imediatamente, do lado do homem a coisa se completa, enquanto que esse inumerável do lado da mulher&#8230; e eu acho que o caso que você levanta é absolutamente notável no tocante a essa inumerabilidade. Algo no que ele lhe diz aparece como inumerável, não inominável, mas inumerável.</p>
<p>C. Veken: Gostaria de dizer uma palavra quanto à questão do método que presidiu o que é apresentado aqui, que me parece essencial. Pois é a partir dessa posição no exame clínico que todas as questões que são retomadas agora se tornam possíveis: o embaraço que surge, freqüentemente, em uma discussão clínica, é o da confiabilidade do que é trazido, que requer, preferencialmente, a confiança na interpretação clínica do clínico que nos apresenta as coisas; enquanto aqui, permito-me insistir nisso, o fato é que a exatidão da anamnese é perfeitamente secundária: nos interessamos pela estrutura, por seus traços objetiváveis que permitem que se discuta verdadeiramente sobre estrutura clínica. E creio que no que você apresentou, da maneira como você apresentou, há para mim uma lição que nos prepara verdadeiramente para entrar numa nova clínica, numa nova maneira de comunicar a respeito da clínica. Obrigado.*</p>
<p>____________________________________________________________________</p>
<p>* Notules de clinique sociale – Le réel est sans représentation, même s’il a des répresentants: le cas Amanda. Em Le Trimestre Psychanalytique nº 4 – La représentation. Association freudienne internationale, Paris, 1995.<br />
1 CZERMAK, M. “Precisões sobre a clínica do transexualismo”. Paixões do objeto: Estudo psicanalítico das psicoses. Artmed Editora, Porto Alegre, 1991.<br />
2 Quanto a esse ponto, referir-se, para maiores desenvolvimentos, a nossas observações, com Denise Sainte Fare Garnot, em “L’oralité, dans la psychose, est-elle spécifique?”, em Le Trimestre Psychanalytique nº 1, 1990, pp. 137-48.<br />
3 N.T. – Diminutivo de Marcelle.<br />
4 N.T. – Elle mute (“Ela muda”) faz homofonia com a pronúncia francesa do nome alemão Helmut.<br />
5 N.T. – No original, “hommoinzune” – jogo de palavras cuja pronúncia, em francês, une homme (homem) e au-moins-une (ao-menos-uma).<br />
6 N.T. – Forma de tratamento afetivo usada com crianças, animais de estimação e entre amantes; equivalente masculino de ma biche (minha cabritinha).<br />
7 N.T. – “que deixou o hotel Waikiki” – a ênfase não é no significado, mas na aliteração: qui a quitté l’hôtel Waikiki.<br />
8 LACAN, J. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. Em Escritos. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, p. 572.<br />
9 N.T. – No original, lettre, que significa tanto carta quanto letra.<br />
10 N.T. – No francês, a pronúncia de “Helmut” faz homofonia com “Elle mute” (“Ela muda”), e a de “Helmout”, não.<br />
11 Cf. “A propósito da impressão de ser imortal”, por Denise Sainte Fare Garnot, e “Observações sobre ‘A propósito da impressão de ser imortal’ ”. Em CZERMAK, M. Paixões do objeto: Estudo psicanalítico das psicoses. Artmed Editora, Porto Alegre, 1991.<br />
12 Lacan dizia que $ só pode ser “um traço que se traça por seu círculo, sem poder ser incluído nele. Simbolizável pela inerência de um (-1) no conjunto dos significantes. Como tal, ele é impronunciável, porém não sua operação, pois ela é o que se produz toda vez que um nome próprio é pronunciado”. LACAN, J. “Subversão do sujeito e dialética do desejo”. Em Escritos. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, p. 833.<br />
13 N.T. – No original, point de capiton.<br />
14 Jornadas de estudos da Association freudienne internationale [atual Association lacanienne internationale], publicadas em Le Trimestre Psychanalytique n.º 1, 1992.<br />
15 N.T. – Compêndio clássico de anatomia.<br />
16 LACAN, J. Le Séminaire, livre XVIII, D’un discours qui ne serait pas du semblant (1970-1971) (inédito).<br />
* Tradução: Sergio Rezende. Revisão da tradução: Patricia Reuillard.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Um laço conjugal bem sucedido*</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/um-laco-conjugal-bem-sucedido-uma-psicose-uniana-o-puro-samblant-1-marcel-czermak/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcel Czermak]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Sep 2013 21:45:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[No seminário Mais, Ainda (4) , Lacan evoca novamente a pergunta de Freud: "o que quer a mulher?", como sendo aquela que ele quer resolver naquele ano. É na medida em que ele instala essa mulher no que ele chama de um estrabismo, uma duplicidade da relação com o falo, por um lado, e com S(A barrado), por outro, que ele faz surgir em que ela é não toda, de um lado ou do outro.

A psicose dos homens os mostra a nós no empuxo à mulher. E quanto às mulheres? Pois não se pode sobrepor completamente as psicoses femininas às psicoses masculinas, e, de outra parte, as neuroses femininas se oferecem mais facilmente à loucura do que as neuroses masculinas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Uma psicose uniana, o puro <em>s&#8217;amblant </em><a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a></h2>
<p style="text-align: right;">Marcel Czermak</p>
<h5 style="padding-left: 180px; text-align: right;">Eu me permiti dizer que o sinthoma é muito precisamente o sexo ao qual não pertenço, isto é, uma mulher. Se uma mulher é um sinthoma para todo homem, é evidente que é preciso encontrar um outro nome para o que o homem é para uma mulher.<br />
J. Lacan, O <em>sinthoma</em></h5>
<p style="text-align: left;">No seminário <em>Mais, ainda</em><a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> , Lacan evoca novamente a pergunta de Freud: &#8220;O que quer a mulher?&#8221;, como sendo aquela que ele quer resolver naquele ano. É na medida em que ele instala essa mulher no que chama de uma vesguice, numa duplicidade da relação com o falo, por um lado, e com S(<span class="lacan">A</span>), por outro, que ele faz surgir em que sentido ela é <em>não toda</em>, de um lado ou do outro.</p>
<p>A psicose dos homens os mostra no empuxo à mulher. E quanto às mulheres? Pois não se pode sobrepor completamente as psicoses femininas às psicoses masculinas, e, por outro lado, as neuroses femininas se oferecem mais facilmente à loucura do que as neuroses masculinas.</p>
<p>De início, gostaria de lembrar esse ponto que é motivado na estrutura, por exemplo, que a erotomania ou a síndrome de Cotard sejam com bastante frequência eletivamente femininas, enquanto o transexualismo é eletivamente masculino.</p>
<p>Examinaremos uma psicose particular, a de uma mulher que tinha como fenômeno elementar essencial fazer Um com quem estivesse ao seu alcance, mas que também apresentava particularidades da linguagem com as quais esse fenômeno elementar era inteiramente homogêneo. Tratando-se de uma mulher fora da relação com o falo, isto é, fora do sentido, esse caso centra toda a sua questão sobre a relação de uma mulher louca com o Outro. Ele indica como, por estar inteiramente suspensa a um gozo Outro, ela reabsorve o Um no Outro.</p>
<p>É apenas nas mulheres que encontramos esse tipo de psicose. Aliás, se já o encontramos, nunca lemos nenhuma publicação que o isolasse como tal. Trata-se, pois, de um caso <em>princeps</em>.</p>
<p>Vamos chamá-lo o caso da Senhora Útil, que tem a maior relação com o seu nome verídico. Esse nome põe também em relevo a distância entre valor de uso e valor de troca que a posição da paciente explicita cruamente.</p>
<p>Para estabelecer esquematicamente nosso ponto de partida, lembremos que na erotomania é o Outro que faz signo, que elege: &#8220;Ele me ama&#8221;. Ele diz &#8220;Você é a pedra sobre a qual edificarei a minha igreja&#8221;, &#8220;Eu farei Um com você&#8221;. Ela é o objeto, mas a promessa não se realiza. Na síndrome de Cotard, ao contrário, ela se tornou esse Outro, ela faz Um, Universo, ela absorve tudo na sua asfera<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>. Em nossa psicose, que qualificaremos de &#8220;psicose uniana&#8221;, quando ela encontra o Outro, faz Um com ele (sem, nem por isso, fazer universo. O Um não é o Outro, mas é porque o Outro, rejeitado, lhe falta, que ela faz Um, isto é, sua solidão se mantém). Ao falar de A mulher, não barrada, trataremos de esclarecer o que é isso, pois a psicose faz agir a céu aberto aquilo que habitualmente está recoberto, oculto.</p>
<p>A Sra. Útil só nos fala disto: do gozo suplementar, que nela é único e mesmo, sem metáfora, &#8220;túnico&#8221;<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>.</p>
<p>Divorciando-se, depois de ter deixado seu marido, ela vive há dois anos sozinha num conjugado. Vinha de um hospital que ela frequentava havia muitos anos, de onde queria sair, pois se sentia &#8220;tornar-se o outro demais&#8221;.</p>
<p>Minhas primeiras notas: 45 anos de idade. Distúrbios começaram na Inglaterra, aos 22 anos. Na verdade, estava fugindo de sua mãe e de sua tia. Vai para uma família trabalhar como <em>au pair</em><a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>. Se toma pelo pai (<em>père</em>). Foge para uma família &#8220;normal&#8221; e, lá, desencadeamento de um episódio de crepúsculo do mundo, que se renovará frequentemente na sequência. Casa-se aos 26 anos com o amigo de infância que conheceu aos 13. Não tem filhos. Em processo de divórcio. Trabalhos ocasionais como recepcionista, escritório, vendas. Pais divorciados quando estava com quatro anos. Filhos entregues à guarda do pai. A mãe foge com eles. Atribulações. A mãe se casa de novo, logo fica viúva. Vida desregrada. Pai também se casa de novo. Também viúvo. Não o via fazia muito tempo. Irmã mais nova um ano e meio. Cuidava dela como uma &#8220;mãezinha&#8221;.</p>
<p>&#8220;Sempre vivi no provisório, aí não me instalava em lugar nenhum, eu acampo, física e psicologicamente&#8221;. Isso poderia ser tomado como efeito das atribulações maternas. Na verdade, não era nada disso. &#8220;Fiz um desdobramento de personalidade com minha mãe&#8221;, &#8220;sentia-me acuada por minha mãe&#8221;. O que ela chama de desdobramento de personalidade é: &#8220;eu me sentia&#8230; sentia meu corpo, minhas impressões, minha pele, meu cérebro, minha reação, sua respiração, eu a sentia à flor de mim mesma, como uma luva que se calça, uma pele que não é a sua, veste-se uma pele que é nova&#8221;. Em outros termos, não há nenhum desdobramento, nenhuma divisão do sujeito em relação ao seu Outro primordial; ela faz Um com ele e trata de fugir dele. Ela faz um Um que não é de contagem. É para poder se contar que ela foge, mas fracassa.</p>
<p>&#8220;Quanto mais eu reagia, mais isso ocorria.&#8221; Nós: &#8220;Quer dizer que, quanto mais você queria se afastar de sua mãe, mais tinha a impressão de que você e ela faziam&#8230;&#8221; Ela: &#8220;Um só&#8221;. Um só solitário. Foi para não mais fazer Um só que ela partiu <em>au pair</em>. Mas, desde sempre: &#8220;Eu mimetizo facilmente; quando chego muito perto de alguém, eu me fundo e viro apenas um e sofro com isso&#8230; Por exemplo, quando me entendo bem com alguém, é doloroso, porque fico acamada, durmo, às vezes fico prostrada até que tudo esteja terminado. É por isso que ela luta e eu também para que isso não aconteça com muita gente&#8230; Não tenho defesa.  Esse trabalho de aproximação dos outros, do outro, é penoso e não tenho defesa. Não me deram a regra do jogo&#8230; Tive uma vida superposta. É superposta, a minha vida. Eu tomo cuidado, mas não tenho escolha. Então, o trabalho consiste em ver as pessoas&#8221;.</p>
<p>Assim, então, em primeiro lugar mimetismo: &#8220;Desencadeia-se sozinho. Começa sozinho, mas eu não desconfiava. Eu sofria, mas pensava que para todo mundo era parecido&#8221;. Em seguida, o sentimento de ser duplo: &#8220;ela e eu&#8221;. Enfim, captação no outro para fazer Um. Oscilação do dois, do desdobramento que não o é, ao Um. A cada vez que ela quer deixar a mãe, tia, que decide &#8220;sair&#8221;, ela reintegra a mãe. Não tem vida própria, mas a vida dos outros. Assim, tem uma vida superposta, o que chamo de espaço folhado dos psicóticos, também ilustrado pelo enxame S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub> →S<sub>2</sub>)))<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a>. Quanto ao difícil trabalho de aproximação dos outros, trata-se justamente de carência de limite, de série, de contagem, por não ter um lugar no lugar do Outro. Ela está no escópico: &#8220;Então, o trabalho consiste em ver as pessoas&#8221;.</p>
<p>O que acontece na Inglaterra? Ela chega a uma família composta por um pai de 55 anos, uma esposa bem mais jovem e o filho de ambos. Chega um rapaz, filho de um primeiro casamento do pai. Ela supõe, com ou sem razão, que a moça se interessa pelo rapaz e engana o marido, <em>toma o partido</em> do pai e da criança, ela se torna o pai, começa, imaginariamente, a alimentar ciúme e hostilidade em relação à moça. Em resumo, a situação se inverteu em relação à da França: mudando de conjuntura, ela adere ao partido do pai. Ela fugirá desse lar quando o menino, depois de uma breve ausência, &#8220;ela não o reconhece&#8230; ele se tornou malvado&#8230; ele morde&#8221;. Deve-se notar que não há nela nenhuma elaboração da posição dos seus pais, nem da sua entre seus pais; ela repete os discursos deles quando eles estão ao seu alcance. Então, ao mudar de lugar, de família, ela muda realmente, ela muda realmente de lugar. Foge, então, para &#8220;uma família normal&#8221;: pai, mãe e filhos, estáveis. É ali que o crepúsculo psicótico eclode. Desencadeamento do mimetismo com o pai: &#8220;Eu fazia mimetismo com o homem para a criança. Foi ele que familiarizou a criança comigo, enfim, seu primeiro banho, nós o tomamos todos os três. Ele colocou a criança nas minhas mãos. E foi o pai que fez isso.&#8221;</p>
<p>Desencadeamento da psicose: ela faz um com o pai, em relação ao trio criança/mãe/rapaz. Ela desenvolve suspeitas. Mãe/rapaz/criança <em>partem </em>por alguns dias para a família da mãe (partida da sua própria mãe). Quando voltam, a criança está mudada, morde, tornou-se malvada. Então, ela foge para uma família &#8220;normal&#8221;. Mas ela &#8220;não tem essa regra do jogo&#8221;. Ela fica louca diante da regra do jogo. Até então, ela conhecia a música. Até então, &#8220;sempre se sentira junto às mulheres contra o homem&#8221;, vivendo o falo como traumático. Até então, fazia Um com as mulheres e as crianças. É quando é levada a fazer Um com um homem, um pai, em relação às mulheres e a uma criança, que a psicose se desestabiliza, e depois, num segundo tempo, eclode amplamente quando ela encontra um pai. A psicose se desestabiliza (primeiro momento) quando ela toma o partido de um pai, um pai no real que surge em oposição a esse sujeito que é a sua mulher. Esse homem, por quem ela se toma, por falha simbólica, vem em oposição imaginária à sua mulher e, como se trata de um pai real, ela se torna louca. Ela faz Um no real com esse pai, em oposição imaginária à sua mulher. No segundo tempo, depois dessa desestabilização, a psicose se desencadeia francamente quando ela encontra uma família &#8220;normal&#8221;, isto é, um pai real que vem, nesse caso, em oposição a ela própria. Num primeiro tempo, ela se desestabiliza ao tomar-se pelo pai. Num segundo tempo, um pai real desencadeia a psicose declarada. Quando faz o pai, o homem, ela não se torna histérica, torna-se louca diante desse <span class="lacan">S</span> que o falo porta, por não poder se dividir, e mais ainda porque, em seguida, encontra a regra do jogo de uma família &#8220;normal&#8221;. Ela vive (vivendo a vida dos outros) o desdobramento real entre, por um lado, a vida do Outro não barrado &#8211; não é S(<span class="lacan">A</span>) &#8211; e, por outro lado, o falo como excluído e traumático, devastador quando se manifesta, mesmo velado. Tomando o partido de um pai, ela se rejeita da função fálica e bascula no Outro. Quando se interessa por alguém (nem que seja quando o seu olhar se interessa), ela cai aí, faz Um com ele e, quando se solta, sente-se &#8220;órfã&#8221;, desdobrada: &#8220;De fato, é para preencher uma lacuna&#8230; é para preencher algo no interior, uma falta&#8230; faltou-me a imagem de um homem, de um pai&#8221;.</p>
<p>Um dia, seu pai foi vê-la em casa, &#8220;e comecei a ter uma espécie de demência, a andar completamente nua, a viver a vida de minha mãe, a viver a minha, todo o passado das pessoas que eu conhecia voltou à superfície. Tenho ausências, tenho buracos de memória, porque há coisas de que não me lembro muito bem&#8221;. Caráter arrombador do pai, do falo que a rejeita para o lado de seu Outro. Ou ela se toma pelo pai e se torna louca, ou um pai se produz e a rejeita para o lado Outro, com quem ela faz Um. Ao contrário do que ela imagina, não foi imagem que lhe faltou: ela a tem demais. É do significante paterno e da significância fálica que ela é carente.</p>
<p>Desde o seu episódio psicótico agudo, ela nunca delirou propriamente falando (nem antes, aliás). Não é um delírio clássico. Mas, a partir desse momento, &#8220;as pessoas me atraíam, umas depois das outras&#8221; e, principalmente, foi depois que sua mãe tentou fazê-la divorciar-se, quando ela tinha encontrado uma certa estabilidade no casamento, que ela deslizou do Um ocasional com o marido para o Um com cada um, sucessivamente, sem poder contá-los. Notemos, de saída, que ela encontrava estabilidade em sua relação com o marido, pois tinha encontrado ali um lugar no Outro sem que a parte fálica estivesse demasiadamente em jogo, sem que ela fosse prevalente.</p>
<p>Esse fenômeno de captação, essencialmente escópico, no Um, é qualificado de &#8220;cinema&#8221;: &#8220;Meu cinema é só meu&#8221;. &#8220;Apesar disso, você chama isso de seu cinema&#8221;. &#8220;Sim, meu cinema, na medida em que uma pessoa normal pode ter esse tipo de fenômenos e canalizá-los. Ter condutas diferentes. Não mistura sua vida privada com sua vida de trabalho, com sua vida interior, com seus colegas, seus filhos, seus netos.&#8221; (Suas &#8220;vidas superpostas&#8221; é que lhe dão esse sentimento de mistura.) É que, na verdade, ela é sem laço, sem articulação, sem cópula, na medida em que o falo é o significante da cópula. Seu problema é manter a separação, mas ela oscila instavelmente entre conjunção e disjunção. Nunca está em uma ou na outra. O fenômeno tem seu ciclo, &#8220;uma espécie de disparo que se põe a funcionar, e que termina e recomeça&#8221;. &#8220;Quanto mais eu vou, quanto mais mais envelheço, mais mais me dou conta de que a coisa se organizou&#8221;. Desde sempre: &#8220;Penso que nasci assim&#8221;, bem pequena ela já tinha essas &#8220;perdas de memória&#8221;, essas &#8220;ausências&#8221;, que é essa unificação. Desde sempre, fez um com mãe, irmã, com as pessoas. Então, &#8220;eu não podia aprender na escola&#8221;. Desde bem pequena, vivia a vida de sua mãe, fazendo-se de mãe com sua irmã mais nova, e aí &#8220;ninguém devia tocar na minha irmã, era eu&#8221;. Esse fenômeno de unificação lhe é cotidiano, comum, normal, ela pensa que é assim com todo mundo, mas os outros controlam melhor, e os psiquiatras controlam ainda melhor por disciplina profissional. Ele se produz ora com um outro relativamente estável, ora com vários outros sucessivamente. É um tipo de amnésia de identidade bem diferente das amnésias de identidade neuróticas; quando ela vive a vida dos outros, não sabe seu próprio nome, nem quem ela é, ao passo que o neurótico que tem amnésia de identidade quer viver enfim sua verdadeira vida, sua própria vida, coisa que ela não pede. Veremos que esse fenômeno de unificação está sob a dependência do gozo do Outro. Na amnésia de identidade neurótica, um gozo fálico está em jogo. Dessa existência de ausência de semblância (puro <em>semblant</em> por isso), da qual ela não tem noção, ela diz: &#8220;Eu não faço <em>semblant</em> de nada, não quero ser <em>voyeur</em> para os outros&#8221;. Portanto, ela se defende um pouco dessa apetência pelo olhar. Entretanto, vê um filme sobre Drácula e toma seu marido por Drácula vivendo no filme. Vive seu parto narrado por sua mãe, depois &#8220;eu vivia com a peruca dela&#8221;. Contam-lhe as histórias de Bécassine, os contos de Perrault, ela está neles. Está fora de sentido, por falta de Falo e de S(<span class="lacan">A</span>). &#8220;É uma vida incoerente, não tem sentido&#8221;. &#8220;Faço uma pequena bulimia de alguém e, três voltinhas<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>, e aí recomeça. É preciso que isso se estabilize.&#8221; Ela está na perdição da atopia. Com relação àqueles que a cercam, ela considera essas relações sob a forma de um colapso controlado de um no outro. Aliás, é assim que ela considera as relações sexuais. No que lhe diz respeito, é o mesmo, com a diferença de que o colapso não é controlado. Esse fenômeno tem outras características: &#8220;Há uma poesia no fato de sentir-se aspirada, atraída pelos outros&#8221;. Não se trata de gozo do corpo do Outro, pois é essencialmente escópico, é o olhar que capta, ela cai nele. Essa poesia &#8220;é um desejo de ir para o desconhecido, mas é atraente apesar de tudo, é uma aventura&#8221;. &#8220;Você fala disso como se houvesse aí, como chamá-lo?, um prazer?&#8221; Ela: &#8220;Se fazemos isso à toa, não vale a pena. É perda de tempo&#8230; Podemos&#8230; É preciso fazer isso toda a vida&#8221;. Isso tem então sua utilidade, mas qual? Insistimos: &#8220;É no terreno do sonho, talvez?&#8221;. &#8220;Do sonho na meu tipo de comunhão, meu tipo de atração pelos outros, aceitar compartilhar, misturar um pouco as ideias, a personalidade, enfim, fazendo sempre esse tipo de coisa, nos damos conta de que isso pode ser feito de uma maneira ordenada por especialistas, não por qualquer um. Senão fazemos isso durante toda a vida. É negativo e doloroso. Muitas vezes acaba em separações e revoltas, não se pode ir até o fim, ou entã, de qualquer modo é doloroso, não é&#8230; eu sei que não é controlado&#8230;&#8221; Então, ouve muito o rádio (como muitos psicóticos &#8211; notemos a difusão do <em>walkman </em>entre eles): &#8220;É um pequeno recuo estratégico para não se deixar ir&#8221;. &#8220;Sempre tive medo, justamente, de cair sob o domínio dos outros&#8230; Agora, sei claramente que é sempre assim. Num dado momento, eu me solto e, quando eu me solto&#8230; É mais ou menos como um esgarçamento&#8221;. Dor do esgarçamento. Nós: &#8220;Como é que se chega a se soltar?&#8221;. &#8220;É a independência que volta a prevalecer. Senão seria insuportável, mas, quanto a mim, não é um mal proposital, eu não sugo voluntariamente, não é uma colheita&#8221;. Entretanto, ela suga os outros. Abelha, ela vai de flor em flor para se alimentar de suas vidas. &#8220;Eu me solto porque tenho medo de que a pessoa me deixe sob seu domínio. Então, dou um coice que&#8230;&#8221;</p>
<p>Mas não é só ela que ela pensa que pode se coaptar no outro, <em>s&#8217;ambler</em> no outro<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a>. Vê também todos coaptados uns nos outros, no limite poderia ser sempre o mesmo, no outro (síndrome de Frégoli): &#8220;Uma vez, me aconteceu ver passar uma pessoa com um casaco de peles. Achei que era minha tia, era uma outra, pensei na minha tia.&#8221; Fenômeno que, às vezes, se produz em certos neuróticos, mas que nela assume um peso de certeza iterativa. Ela vê uma roupa passar e cai aí: não é identificação, mas unificação. O fenômeno pode ir bem longe no seu caráter confusional: &#8220;Lembro-me de que uma vez estava num salão de cabeleireiro, era muito engraçado, e meu trabalho consistia, num salão muito pequeno mas de alta classe, em pegar as roupas das mulheres, das pessoas, e colocá-las num cabide e dar-lhes um número. Eles pegavam o casaco de volta, eu o segurava para que o vestissem e era isso. Até logo, obrigado. E eu era incapaz de fazer um gesto, nem mesmo de guardar, ao menos por dois segundos, o número do vestiário. Ficava incomodada com os outros porque era num território muito pequeno. Pois bem, eu não sabia onde me colocar. Uma vez até mesmo distribuindo folhetos, no entanto parece estúpido ver essas pessoas que constantemente vinham a mim, pegavam a coisa, vinham a mim assim, eu tinha a impressão de girar em todos os sentidos, de&#8230; parece que não é nada, penso em todas essas pessoas que têm um trabalho público e aí assim, saber falar, ter contatos com as mãos ou de pessoa a pessoa, isso produz um pouco de&#8230; como é que se chama isso&#8230; sintomas no comportamento, mas eu tenho distúrbios de comportamento também. Eu manipulava os outros com as mãos também, eu não gostava muito das mãos&#8230; inconscientemente, eu faço&#8221;. O que então? &#8220;Sempre assim de longe, ou no metrô, vemos gente que rói as unhas. É uma coisa que tinha partido de mim. Mas o mais importante&#8230; não voltar às lembranças ou pessoas que me forçam a lembrar&#8221;. Não é lembrança, é coaptação. Ela parte e ela volta. Ela lida com superfícies. Tudo se apresenta como uma folha de madeira numa existência de compensado. As pessoas, as lembranças, é tudo assim.</p>
<p>Os sonhos continuam com o despertar e ela não tem vontade de sair deles. É isso a sua realidade, da qual Lacan diz que ela só é abordada com os aparelhos do gozo. Isso a impede de sair da cama, onde ela continua a devanear e, se ela sai, o sonho, no entanto (a não ser por um constrangimento), prossegue. A partir de então, &#8220;não há mais limites&#8230; Fiz isso, fiz aquilo, estive ali, então a vida é ditada, feita, artificial, sob comando&#8221;.</p>
<p>Sabemos agora que tipo de Outro é o seu; é apenas uma forma, uma pura forma, uma superfície bem fechada sem furo, com a qual ela só tem relação enquanto olhar, enquanto ela a olha. Mais exatamente, é essa forma que a olha, que a come com o olhar e que a engole, num gozo escópico. Desse Outro, ela não sabe nada, mas esse Outro também não sabe nada e ao engoli-la, se interverte nela. Quando ela o deixa, a menos que haja outra forma, um outro Outro, ela desaba, se deprime, &#8220;fica no luto&#8221;. &#8220;Também tenho vontades suicidas ao mesmo tempo quando se produzem esses&#8230;&#8221; O inconfessável aparece, a unificação. &#8220;Mas, ainda assim, eu desposo uma forma e faço o luto dela&#8221;. Quando deixa seu Outro, ela cai e deve se agarrar num Outro. Quando ela é o Outro, ela se prostra, desaparece, morta como sujeito. &#8220;Desposo uma forma&#8221;, diz ela. De seu marido, dirá: &#8220;Desposei a coisa&#8221;. À pergunta sobre o que ela quer mesmo dizer com &#8220;fico de luto&#8221;: &#8220;Então, tenho vontade de me suicidar&#8230; uma vontade de não aguentar mais a vida, o mundo, as pessoas, as coisas, de romper. Existe mesmo assim a vontade de se suicidar, sempre a tive, mesmo quando era mais jovem, quando era criança&#8221;. Notemos bem essa &#8220;vontade de não aguentar mais a vida&#8221;, na qual se indica seu sentimento de uma vida sem fim, sem limite espacial nem temporal, uma vida em que ela não pode verdadeiramente romper, soltar-se, a não ser caindo realmente depois do corte, como objeto <em>a</em>. Modo pelo qual ela indica, então, em estado de esboço, um dos elementos da síndrome de Cotard com seu sentimento de eternidade, de imortalidade. Ela não pode não aguentar mais a vida, ela não pode dizer: &#8220;Chega, basta&#8221;. Só pode ser uma vontade. O luto que ela carrega é o luto dessa vida. Ela vive uma vida em luto da vida. Mas é um luto interminável. Não é nem mesmo um luto. Seu ciclo recomeça perpetuamente. É apenas uma vontade de luto, pois ela confina com a melancolia. O que acontece quando ela está sozinha, sem Outro que a sugue? &#8220;Pouco a pouco, as pessoas que estavam embaixo avançavam sobre o meu terreno, ou queriam me fazer partir. Ficavam presentes demais para mim mesma&#8221;. Voz da zeladora, cujas dores da artrose ela pegou, e que a insulta: &#8220;Ah, Chantal fez isso, fez aquilo, abaixo Chantal, vamos pôr Chantal na rua, é uma preguiçosa, é uma imprestável, e além disso fica na cama o tempo todo&#8230;&#8221; Ela ouve &#8220;palavras vexatórias, ofensivas, humilhantes&#8221;. Em resumo, ou ela bascula no Outro com quem ela faz Um ou, sozinha, é o Outro que faz intrusão sob a forma de automatismo mental. Ou ela os vê e é engolida. Ou ela não os vê e é ouvida, escutada, espionada, comentada. Ou ela vê. Ou ela ouve suas vozes. Ela é engolida pelo olhar, ou ela é engolida pelas vozes.</p>
<p>Ela teme &#8220;cair no delírio&#8221;, &#8220;exteriorizar-se em psiquiatria, completamente&#8221;, quando justamente é ela que fica exterior a tudo. Fora do falo, fora do sexo, fora do sentido, o que ela teme igualmente: &#8220;é uma questão de afloramento e é uma armadilha&#8221;. Ela nos falou de seus problemas de mãos. &#8220;Manipulava os cabides com as mãos, eu não gostava muito das mãos&#8221;. E do que acontecia no salão de alta classe&#8221;. O perigo é também cutâneo. A mão, essa mão que penteia, que arruma os rostos, que pinta, que maquia, essa mão faz você entrar no Outro (&#8220;o que me atrai é a estética&#8221;). O outro engole você por afloramento do olhar, e seu olho é apenas uma mão com a qual ela se apalpa antes de se engolir, sua pele é apenas o invólucro misterioso que guarda o estranho desejo do Outro. Nessa vida sem experiência, na qual ela não aprende nada, na qual ela só está para ser pega &#8211; &#8220;não sei se é possível que um dia eu possa viver sozinha, ou viver com alguém, ou viver em comunidade&#8221; -, ela não tem lugar. Em comunidade, no hospital, ela se torna os outros. &#8220;Mas sei que o que me atrai é a estética&#8221;. É atraída pelo que a dissolve e só pode, em seu anseio de &#8220;sair fora&#8221;, reiterar aquilo mesmo do que padece: a aparência, o belo. &#8220;Será que sou bastante forte para poder dar isso que eu não soube que tenho? Só se adquire esse tipo de conhecimentos pela experiência, então isso pode durar muito tempo&#8221;. O que é que ela não soube desse &#8220;isso&#8221; que tinha, em relação ao qual ela precisava ser bastante forte para poder dá-lo? Ela se dá como pele, invólucro, roupa. É disso que ela tem que ela não pode mais se livrar, prescindir, ela não é &#8220;bastante forte&#8221; para controlar. Ela é até forte demais. É forte demais esse gozo. E se o amor é dar o que não se tem, ela &#8211; dando esse &#8220;isso&#8221; que ela tem &#8211; está dentro, por dentro do amor. &#8220;Eu lhe peço que recuse o que lhe ofereço porque não é isso&#8221;, dizia Lacan. Quanto a ela, &#8220;isso&#8221;, ela o dá. Ela dá sua alma, sua alma esférica. O amor, ela chega lá. Ela é o objeto <em>a</em> que reintegra o Outro, esse Outro que se apresentou como pura imagem e com o qual ela reconstitui <em>i(a)</em>, a imagem que veste o objeto. Antes, esse Outro, pura imagem, e ela, puro objeto, estavam separados. A imagem e o objeto estavam disjuntos. Agora eles se encontram. Compreendemos então que &#8220;a armadilha é tornar-se dependente, completamente, dos outros&#8221;. Mas já é o caso. A armadilha denunciada é aquela em que ela está &#8220;encurralada&#8221;. Está &#8220;encurralada&#8221; por sersem curral. Ela erra. Não cristalizada, não focalizada, ela é apenas um cabide ou uma roupa. Ela é <em>fictitious</em>, para retomar o termo de Bentham. Exatamente como aqueles nos quais ela se interverte: seus cabides e roupas. Parece que apenas com o marido as coisas tiveram uma certa estabilidade. Tentaremos ver por quê. Sem consistência, não se pode diferenciar o que vem dela e o que vem dos outros, exceto num ponto: seus distúrbios de linguagem pertencem propriamente a ela. Poderíamos ler seus fragmentos notáveis, estudá-los; eles testemunham sua exterioridade, ela tenta transmitir sua experiência, mas o que se transmite por sua palavra é o saber da língua. Como Deus, que é incapaz, em sua exterioridade, de compreender algo dos homens dos quais ele só conhece a fachada, de avaliar a posição de alguém, ela é incapaz de dizer se é amada ou odiada, ela não sabe nada. Deus também não sabe nada. Mas seu saber, como o da sra. Útil, é bem útil; ele anda sozinho, é o saber autônomo da língua, que se revela quando castração e falo faltaram com o Nome-do-Pai. Sua &#8220;linguagem é uma elucubração do saber sobre <em>lalangue</em>&#8220;, diria Lacan. Ela se serve da linguagem como de uma roupa que não caísse bem. Ela fica desengonçada nela, presa, desconfortável, como se a roupa estivesse mal cortada. Nunca bem entrada na linguagem, é <em>lalangue </em>que a captura. Ela é esse círculo solitário cujo centro não está em lugar nenhum e a circunferência por toda parte. O espaço é estruturado como o inconsciente, isto é, como uma linguagem. Aliás, ela nos diz: &#8220;Há uma diferença entre o primeiro dia em que cheguei e agora, e estou enquadrada sem me dar conta&#8230;&#8221; Enquadramento? &#8220;É muito importante, não se joga as pessoas assim, com outras pessoas, sem estarem enquadradas&#8221;. Ela é um projétil lançado no quadro. De fora, se vê dentro; de dentro, se vê de fora.</p>
<p>O que acontece com sua relação com os homens? Ela &#8220;faz esforços, há anos, para suportar os homens&#8221;. Ela se &#8220;sentiu sempre junto das mulheres contra os homens&#8221;. Ela própria está no empuxo à mulher. Colocamos sempre a questão: nos homens, a psicose empuxa à mulher, mas e nas mulheres? Pois bem, é parecido, mas o empuxo é em direção À mulher não barrada: Virgem, Maria, Puta. &#8220;Fui criada por mulheres que tinham que se defender dos homens, e me dei conta de que eu desposei um pouco a causa delas&#8221;: ter sido criada por mulheres nunca impediu de se defender dos homens. Conheci mulheres que argumentavam só ter vivido com mulheres para nunca se defenderem dos homens. Será que ela desposou a causa das mulheres do mesmo modo que os transexuais estão do lado da &#8220;causa das mulheres&#8221;, querendo se livrar do falo, recusando-se a serem ditos fálicos, isto é, querendo serem ditos A Mulher? Eles sabem bem que são homens. Querendo serem <em>ditos mulheres</em>, é a &#8220;beleza&#8221; que eles querem, pois &#8220;as mulheres, é mais bonito&#8221;. Então, que causa a sra. Útil desposou, efetivamente? Veremos, pois seu marido é o único homem do qual ela pôde se aproximar (os outros eram apenas esses safados, amantes da mamãe, que ainda por cima a desejavam, a ela), esse marido que, por tanto tempo, sustentou uma psicose &#8220;gentilmente&#8221;. Conheceram-se aos treze anos, casaram-se aos 26. &#8220;Com ele tenho a impressão de estar <em>num terreno</em> que conheço&#8221;. Sempre suas questões de território, de invasão, de superfície&#8230; &#8220;Um terreno que não me é desconhecido, um terreno no qual posso existir, viver&#8230; há uma sensibilidade exacerbada entre nós dois, que faz com que ele tenha medo das mulheres &#8211; ele é um pouco afeminado&#8221;. Dirá mesmo que ele é um pouco homossexual. &#8220;E eu, no geral, tenho medo dos homens. E nós dois nos completamos&#8230; Depois, bem, <em>eu desposei a coisa</em>. É por isso que meu casamento teve muita importância para mim&#8221;. Eis a causa que ela desposou: <em>a coisa</em>, a ser entendida, sem dúvida, como o Seminário de Lacan sobre <em>A ética</em><a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a> a retoma freudianamente: <em>das Ding</em>. Mas ela o desposou através de um quadro, uma tela e um filtro: o de um homem não exatamente semelhante que, assumindo o lugar de <em>Heim</em>, território conhecido, território Outro, a deixava em paz com seus desejos, de um homem cujo nome ela tomou. O que é que eles têm em comum? Vivem em duplo, ela sonha com um gozo complementar, quando está apenas no gozo suplementar; ela &#8220;sai&#8221; com ele, &#8220;vai ver coisas, filmes&#8221;. &#8220;Ele sempre esteve ali durante toda a minha vida&#8221;, sempre ali, como A Coisa. &#8220;É o único valor para mim que&#8230; representei quando me casei, ou o único valor que tinha para mim um homem. Ele é tudo. Constante, presente, meu marido nunca me deixou em meu espírito&#8221;. Habitada: &#8220;Ele se tornou meu marido, mas tornou-se a consagração, a maneira como realizei minha vida com ele, ele foi apenas a continuidade, não é casamento por interesse, não é casamento para eu me instalar, é um casamento de amor&#8221;. Em resumo, ela não se casou para se instalar, pois ela já tinha encontrado junto a ele sua casa de sempre, um homem, uma Coisa que sempre esteve ali, uma continuidade de presença, um homem que fazia um todo com ela. Observem que os psicóticos falam frequentemente disto, do contínuo que lhes cabe. É isso o casamento de amor. Isto é, sem amor nem ódio, um casamento com um homem sem ser, enquanto ela, ser, tem até demais. Sua alma ama a alma. É uma psicose passional sem paixão.</p>
<p>É isso que a move, ela que nada afirma, que &#8220;nunca pôde se afirmar&#8221;, ela que &#8220;não tem algo que possa realmente afirmar&#8221;, &#8220;a única coisa que me afirmou, foi o casamento&#8221;. Em suma, sua única <em>Bejahung</em>, sua única afirmação confirmativa, foi para a Coisa, mas no que se refere ao marido, para uma <em>acoisa </em>de completude relativamente pacificada. Por que isso? Evidentemente, ela terá algumas dificuldades com esse marido, fará eventualmente Um com ele, se prostrará quando ele tentar excessivamente supri-la, mas o equilíbrio persistirá até o dia em que sua mãe, que tem a profissão de separar, ou até de divorciar os outros, a levará ao divórcio, acusando o marido de torná-la doente. Com isso, Senhora Útil reencontrará <em>acoisa</em>, não temperada, mas devastadora, privada de seu quadro pacificador.</p>
<p>Seu marido &#8220;é um amor real, completo, porque crescemos juntos. Ele faz parte da minha vida&#8230; Não falo apenas dos valores do casamento, mas falo de toda a minha adolescência, que passei com ele. Não tinha pressa de me casar, esperava meu marido&#8221;. Ela o escolhera, desde pequena: &#8220;quando estava na escola, eu treinava a <em>minha assinatura com seu nome</em>&#8220;. Desde pequena, ela, que é fundamentalmente anônima, sem nome, sem identidade, encontrara uma <em>nele </em>e no seu <em>nome</em>. Instalou-se no seu nome, tornou-se ele, <em>Útil</em>, reduzindo-o ao seu valor útil, de uso, utilitário, mas sem valor de troca. Talvez não se tenha instalado, mas de qualquer forma ela fez uma operação útil tomando seu bem, sua coisa: <em>minha assinatura com o seu nome</em>. É isso que a mantém em equilíbrio e foi isso que sua mãe quis lhe tirar. É um esboço do Nome-do-Pai. Foi isso que lhe deu um <em>semblant</em> de amarração, um <em>semblant</em> de S(<span class="lacan">A</span>): carregar o nome de um outro. Ela sabia tão bem disso que &#8220;ela elegeu e isso nunca deu problema&#8221;. Eleito como coisa, nome e lugar de acolhimento. Além do mais, sem conflitos, sem questões do lado do disfuncionamento do desejo, sem filhos e, ela própria, não tomada como objeto, causa do desejo. Ela absolutamente não ligava para isso.</p>
<p>Sempre se recusou a ser tomada como esse objeto chamado <em>a</em> por Lacan. Mas essa recusa se traduziu por sua queda no Outro. Ela se beneficiou, por seu casamento, no nome, de uma suplência do ponto de amarração, pois o nome próprio é um deles. S(<span class="lacan">A</span>), dizia Lacan, quer dizer: isso não responde. Mas, para ela, isso responde. Ela está fora do sexo e isso lhe basta assim. Em resumo, é um caso único de conjúgio bem-sucedido. Se é exato que a mulher só encontra o homem na psicose, na única vez em que tinha chance de ser favorável à paz nos casais, sua mãe pôs tudo por terra. Quando ela tinha encontrado sua túnica no nome, ela a devolveu a seu único<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a>.</p>
<p>Então, seu casamento com o marido, seria Um (<em>est-ce Un</em>)? Teria ela se instalado em S<sub>1</sub>?<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a> Nessa vida sem sociedade, sem laço social, em que ela toma a idade e a vida daquele com quem ela faz Um, patologia do imaginário sem eu, por que é o fato de ser mulher que a põe nessa patologia do Um? De qualquer forma, é justamente porque <em>tudo </em>começa com a mulher, mas, se ela não se torna não-toda, estirada, vesga entre falo e S(<span class="lacan">A</span>), é então que, excluída do Outro, ela passará sua vida a solicitá-lo para reencontrar a fusão primordial, esse Um que suporta o Outro sem atingi-lo: esse Um, esse S<sub>1</sub> esboçado (<em>minha assinatura</em>), que tenta alcançar o Outro (<em>com seu nome</em>) para extrair dele o saber que ele não sabe e que só responde por seu gozo. Nome e assinatura se invertem. Minha assinatura com seu nome; não é &#8220;em&#8221; seu nome. É assim que falaria quem está na ordem fálica, na ordem de um gozo por procuração, que faz obstáculo, cortina, <em>amuro</em><a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a>, ao Um. Quanto a ela, é &#8220;com&#8221; seu nome, nome de Deus, do qual ela própria é uma das faces ocultas. O único ponto cristalizável nessa mulher amorfa é o que aconteceu em torno do marido, da coisa e do nome; é uma indicação quanto à manobra terapêutica. Aí está, então, com relação à psicose passional sem paixão. A sra. Útil é calma, não é do tipo que ameaça seus amores.</p>
<p>Muitas vezes é mais difícil avaliar o que desencadeia a loucura numa mulher do que num homem, assim como o que pode desencadear numa mulher &#8211; fora da estrutura psicótica &#8211; um momento delirante, até francamente psicótico (conhecemos bem as dificuldades e a frequência com que esses estados se apresentam). Creio que é preciso procurar então em diversas direções: em particular do lado em que, privada de falo que também vale para <em>Heim</em>, privada de S<sub>1</sub>, ela é rejeitada brutalmente para o outro lado, S(<span class="lacan">A</span>) que se põe a responder e, ao responder, se revela um lugar pleno, sem falta, em que ela só pode se inscrever como sra. Útil, até mesmo Fútil, como utilitária e utilizada (Henry Ey chamava isso de síndrome S.V.P., quando as vozes diziam Safada, Vaca, Puta<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a>). Mas, a partir daí, produz-se a desamarração; passa-se de S(<span class="lacan">A</span>) para A e <em>isso </em> começa a responder com as vozes alucinatórias. Enfim, consideremos que esse nome, Útil, certamente não é fortuito que ela o tenha escolhido tão cedo como seu nome próprio e sua assinatura, e o tenha escolhido como <em>sinthoma</em>. Quando seu divórcio foi pronunciado, quando ela perdeu o nome, eu o vejo voltar retornar de forma alucinatória: &#8220;Útil&#8230;, Útil&#8230;&#8221;, chamavam as vozes.</p>
<p>Em algum lugar, Lacan dizia: &#8220;Para nós, trata-se de obter o modelo da formalização matemática. A formalização não é nada além da substituição de um número qualquer de uns pelo que se chama a letra&#8221;. Pouco antes, ele formulara:</p>
<p>&#8220;Basta que uma (letra) não se mantenha, para que todas não só não constituam nada de válido para seu agenciamento, mas se dispersem. É nisso que o nó borromeano é a melhor metáfora do fato de que nós só possuímos o Um. O um engendra a ciência. Não no sentido da medida. Não é o que se mede na ciência, contrariamente ao que se crê, que é importante. O que distingue a ciência moderna da ciência antiga, que se funda na reciprocidade entre o νους e o mundo, entre o que pensa e o que é pensado, é justamente a função do Um. Do Um na medida em que ele só está ali para representar a solidão. O fato de que o Um não se enoda verdadeiramente com nada do que <em>s&#8217;amble</em> com o Outro sexual. Exatamente ao contrário da cadeia cujos Uns são todos feitos da mesma maneira, por não serem nada além do Um.&#8221;<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a></p>
<p>O que ocorre com a sra. Útil? O que ela nos ensina? Ela só sabe dizer que não, exceto a Фx. É algo que para ela nunca se escreveu. É o que não cessa de não se escrever para ela. A partir daí, ela não diz não a nada, isto é, ela é sem limites. Ela não tem ex-sistência na medida em que não se excetua, não tem ao-menos-um que diga não ao todo. Então, ela não pode contar. Só tem relação com o Outro enquanto esfericidade fechada, plena e fora do sexo. Por não poder dizer Um &#8211; ∃x &#8211; e não tendo negação, ela cai no real do Um.</p>
<p>Útil nos diz, já que o falo está fora do campo: só há Um. Não &#8216;Há Um&#8217;, mas só Um. Eis uma primeira abordagem da formalização da psicose em questão: para todo x, há Outro não barrado. Como não há Ф, não há <span class="lacan">S</span>, não há <em>a</em> oculto. ∀x Фx: é isso a sua negação como foraclusão. Ela produz um todo em sua cegueira, ela não se excetuou. Ela é sem consistência, pois é sem S<sub>1</sub>. Ela é e só conhece A mulher (e é por isso que ela imputa a efeminação homossexual a seu marido). A mulher em relação, em ligação direta com o Outro. Os transexuais exigem que o <em>Outro lhes diga</em> &#8211; depois que eles tenham dito: já tenho tudo de uma verdadeira mulher &#8211; <em>é isso mesmo, minha querida</em>. A sra. Útil não pede para ser dita mulher. Ela é e só conhece A mulher, projetivamente, no Outro. Ela não se adiciona ao Outro; aliás ninguém se adiciona ao Outro. Ela se torna esse Outro, em que tudo se instala. Topologia e estrutura são aí idênticas. O que se escreve aí são as condições do gozo da sra. Útil, mas de muitas mulheres loucas. Gozo não sexual, mas Outro. Esse gozo no qual vêm bascular muitas mulheres neuróticas, desde que em um dado momento sejam rejeitadas do falo. Dizer que, rejeitada do falo, a mulher se torna louca não quer dizer que sempre ela se torne psicótica, mas bascula no <em>acting-out</em>, na passagem ao ato, em equivalentes psicóticos e, às vezes, num episódio delirante, francamente psicótico.</p>
<p>Não podendo se excetuar, não fazendo exceção a nada, ela é sem ao-menos-um, escrevíamos, e como é ∀x. Фx, que só há para ela para-tudo; ela é então sem necessidade e sem necessário, sem impossível e <em>sem real</em>, isto é, <em>tudo se torna real</em>. E ela não está nem mesmo na imaginarização desse real. Se o paranóico não quer contingência, para ela tudo é apenas contingência. Esse ∀x da sra. Útil é uma universal sem não-todo. É uma universal sem limite. Mas isso ela não pode dizer. Isso &#8220;se&#8221; diz sozinho, no colapso dos corpos. No limite, a sra. Útil diz não a Фx, mas ela o ignora, não por recusa, mas por foraclusão.</p>
<p>Se a ex-sistência só tira a sua consistência de sua semblância, para a sra. Útil não há <em>semblant </em>e, logo, não há consistência. Como para ela tudo é real, ela não conhece nenhum <em>semblant</em>, o que ela nos diz claramente, isto é, tudo é <em>semblant</em>, mas deve ser escrito igualmente <em>s&#8217;amblant</em>.</p>
<p>Não sendo em nada lado homem, mas toda lado Mulher, ela é mulher em estado puro. A mulher não barrada, fora do sexo. Ela está do lado da inexistência, no lugar do vazio. É uma fumaça, uma <em>fictitious </em>real. Sem sintomas, pois sem S<sub>1</sub>, não produz nenhum S<sub>2</sub>, nenhum saber, a não ser aquele no qual se enodam topologia e estrutura de <em>lalangue</em>. Ela indica bem que não há metalinguagem, uma linguagem sobre sua loucura; sua linguagem é aquela mesma do seu inconsciente completamente a céu aberto e ela não está em nenhum discurso.</p>
<p>Mulher livre, livre do encadeamento borromeano. O que ela chama desdobramento, dois [<em>deux</em>], deles[<em>d&#8217;eux</em>], é um colapso, porque o Um não lhe foi dado, então ela se torna Um. Na falta de traço unário, ela se torna um Um real, o que indica sua arrimagem protética na assinatura. O traço unário sendo aquilo com que se marca a repetição enquanto tal, Útil não está na repetição nem no traço unário, está no Um, distinto do traço unário. Ela não faz cadeia, não faz laço, ela é um círculo isolado. Ela é o Um originário do qual procedemos.</p>
<p>Lacan acrescentava:</p>
<p>&#8220;Quando eu disse Há Um&#8230; vocês vêem a que eu os introduzia&#8230; Como situar então a função do Outro? Como se, até certo ponto, fosse simplesmente nos nós do Um que se suporta o que resta de toda linguagem quando ela se escreve. Como introduzir uma diferença? Pois é claro que o Outro não se adiciona ao Um. O Outro apenas se diferencia dele. Se há alguma coisa pela qual ele participa do Um, não é por se adicionar. Pois o Outro&#8230; é o um-a-menos. É por isso que, em toda relação do homem com uma mulher &#8211; aquela que está em causa -, é sob o ângulo da Uma-a-menos que ela deve ser tomada. Eu lhes indiquei isso a propósito de Don Juan&#8230;&#8221; <a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a></p>
<p>Dissemos que a sra. Útil era sem um-a-menos. Entretanto, ela experimenta essa aspiração para o outro. É desejo? Certamente não. É um deslizamento automático. Uma captura <em>sem limites</em>, na medida em que o desejo é ele próprio um limite e uma inibição, que eles se instalam no mesmo lugar. Sua angústia é a da plenitude e do todo.</p>
<p>Lacan prosseguia: &#8220;O que se escreve, em suma, o que seria? As condições do gozo&#8221;<a href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a>. É o que tentamos mostrar. &#8220;O que conta, o que seria? Os resíduos do gozo&#8221;. O que conta, aos nossos olhos, para a sra. Útil, é que ela resta &#8211; <em>in fine</em> &#8211; como resíduo desse gozo Outro que a cativa, para depois rejeitá-la como peixe lançado na areia.</p>
<p>Pois esse a-sexuado, não é conjugá-lo com o que ela tem de mais-gozar, sendo o Outro &#8211; só podendo ser dita Outro &#8211; que a mulher oferece ao homem sob a espécie do objeto <em>a</em>? O homem crê criar&#8230; ele cria a mulher. Na realidade&#8230; ele a põe no trabalho&#8230; do Um. É bem nisso que esse Outro&#8230; na medida em que aí se inscreve a articulação da linguagem, isto é, a verdade, o Outro deve ser barrado, barrado pelo Um-a-menos. O S(<span class="lacan">A</span>) quer dizer isso. É nisso que chegamos a introduzir a questão de fazer do Um algo que se mantenha, isto é, que se conte sem ser.&#8221;<a href="#_ftn17" name="_ftnref17">[17]</a></p>
<p>Mas Útil é um ser que não se conta. Dizer assim que o homem põe a mulher no trabalho do Um quando a toma como objeto <em>a </em>significa, muito cruamente, que ele a empurra para a loucura. Que é quase sempre por sua relação com um homem que uma mulher se torna louca. E é o que nos dizia a sra. Útil de sua relação com os homens, e é por isso que ela escolhera seu marido; ele ao menos não a punha demais no trabalho do Um, como também &#8211; através do <em>a </em>&#8211; ele não a tomava como Outro. O que Lacan ainda indica aqui é que, quanto menos ele a toma como Outro, menos ele a barra, menos ele exalta sua aspiração a ser a face feminina de Deus, menos ele a <em>erotomaniza</em>, por assim dizer, e mais ele faz dela alguém que se sustenta, isto é, que não se toma por uma entidade esférica. Isso faz compreender também por que é que se fala do platonismo tão frequente da erotomania; o interesse do homem a relança para o lado do Outro, na falta da vesguice fálica. Mas a erotomania feminina, às vezes, é neurótica, e até ao delírio.</p>
<p>Quanto à nossa paciente, por falta de um Um (S<sub>1</sub>) não podendo ser colocado ao trabalho sob pena de loucura (o falo como desencadeador, também como o objeto a: dois desencadeadores), ela não conta, mas faz retorno real a esse um-a-menos, sendo ela mesma esse Um encarnado; então ela está em um impasse. Não está no impasse desse &#8220;estrabismo&#8221;, essa duplicidade desorientada d&#8217;A mulher entre falo e S(<span class="lacan">A</span>). Ela está no impasse da prisão no Outro como corpo real.</p>
<p>Sua mãe fazia como os homens; contava-os, tomava-os um por um, seu &#8220;enxame&#8221; é o &#8220;batalhão&#8221; de homens: &#8220;Minha mãe substituiu um que ela amava por um batalhão&#8221;. Havia sempre para ela um um-a-menos numa série enumerável, mas interminável, por efeito do Nome-do-Pai, precipitando-a no gozo fálico como limite imediato. Portanto, o falo como obstáculo. Quanto a ela, está num contínuo não enumerável pelo efeito de um Um real como limite imediato jogando-a no gozo Outro.</p>
<p>Ainda, é ela que se oferece sob forma de um-a-mais que &#8220;se subtrai&#8221; no Outro. Ilustração desta observação de Lacan: &#8220;Para voltar ao espaço, ele parece mesmo fazer parte do inconsciente, estruturado como uma linguagem&#8221;<a href="#_ftn20" name="_ftnref20">[20]</a>.</p>
<p>Continuemos: &#8220;Falei um pouco de amor. Mas o ponto pivô, a chave daquilo que avancei este ano, diz respeito àquilo que se refere ao saber, do qual enfatizei que o exercício só podia representar um gozo&#8221;.<a href="#_ftn21" name="_ftnref21">[21]</a> Já observamos o que se refere à Sra Útil e à relação do seu saber com o gozo. Vamos amplificar, com ajuda de Lacan, esse ponto&#8230;</p>
<p>&#8220;o saber é um enigma. Esse enigma nos é presentificado pelo inconsciente&#8230; Ele se enuncia assim para o ser falante, o saber é o que se articula, chamo isso S2. É preciso saber escutá-lo &#8211; É mesmo deles que isso fala?<a href="#_ftn22" name="_ftnref22">[22]</a> É geralmente enunciado que a linguagem serve para a comunicação. Comunicação a propósito de que, é preciso se perguntar, a propósito de quais eles?&#8230; A linguagem é apenas o que o discurso científico elabora para dar conta daquilo que chamo alíngua. Alíngua serve para algo completamente diferente da comunicação. Se a comunicação se aproxima daquilo que se exerce efetivamente no gozo de alíngua, é que ela implica, em outros termos, o diálogo. Mas alíngua serve primeiro ao diálogo?&#8230; nada é menos certo.&#8221;<a href="#_ftn23" name="_ftnref23">[23]</a></p>
<p>O que é certo é que, para Sra Útil, alíngua serve primeiro ao gozo do Outro; nele, ela se banha totalmente, sufoca-se, afoga-se. Ela goza de um saber sem dois (isto é, sem três), sem eles, e sua linguagem é apenas testemunho, relato da maneira pela qual alíngua a goza, a joga. A maneira pela qual ela é jogada pela alíngua. Alíngua não lhe serve para o diálogo.</p>
<p>Ainda:</p>
<p>&#8220;O diálogo, o diálogo clássico cujo mais belo exemplo é representado pelo legado platônico, demonstra-se não ser um diálogo. Se eu disse que a linguagem é aquilo como que o inconsciente é estruturado, é porque a linguagem, primeiro, não existe. A linguagem é aquilo que se tenta saber quanto à função de alíngua&#8230; O inconsciente é o testemunho de um saber porque ele escapa, em grande parte, ao ser falante. Esse ser dá oportunidade de perceber até onde vão os efeitos de alíngua por apresentar todo tipo de relações que permanecem enigmáticas. Esses afetos são o que resulta da presença de alíngua na medida em que, por saber, ela articula coisas que vão muito mais longe do que aquilo que o ser falante suporta saber enunciado. A linguagem, sem dúvida, é feita de alíngua. É uma elucubração do saber sobre alíngua. Mas o inconsciente é um saber, saber-fazer com alíngua. E o que se sabe fazer com alíngua supera em muito aquilo que se pode explicar a título de linguagem. Alíngua nos afeta, primeiro, por tudo o que ela conta como efeitos que são afetos. Se se pode dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é pelo fato de que os afetos de alíngua, já presentes como saber, vão bem além de tudo o que o ser que fala é suscetível de enunciar&#8230; Alíngua foi o que me permitiu, há pouco, fazer do meu S2 uma questão, e uma pergunta: é mesmo &#8220;deles&#8221; que se trata na linguagem?&#8221;<a href="#_ftn24" name="_ftnref24">[24]</a></p>
<p>Em alíngua, não há nenhum Outro, nenhum falo, nenhum objeto a. É apenas enquanto a inserção da fala na linguagem nela inscreve o Outro, o falo, o objeto a (pois é isso a inserção) que a brutalidade de alíngua vem amortecer-se, atenuar-se, mas às custas da não-relação sexual. Ali onde a inserção da fala na linguagem eclipsa o sujeito, produz o seu fading, em alíngua, nesse ponto, esse sujeito desaparece propriamente.</p>
<p>Quando Lacan interroga:</p>
<p>&#8220;O que é o corpo? É ou não é o saber do um? O saber do um se revela não vir do corpo. O saber do um&#8230; vinha do significante Um. O significante Um vem do fato de que o significante como tal nunca seja mais do que o-um-entre-outros, referido a esses outros, sendo apenas a diferença dos outros? A questão está tão pouco resolvida até o momento, que fiz todo o meu seminário do ano passado para enfatizar esse Há Um. O que quer dizer Há Um? Do um-entre-outros e trata-se de saber se é tal como seja, que se levanta S<sub>1</sub>, um enxame significante, um enxame murmurante.<a href="#_ftn25" name="_ftnref25">[25]</a> Esse S<sub>1</sub> de cada significante, se faço a pergunta é deles que falo?, escreverei primeiro sobre sua relação com S<sub>2</sub>. E vocês podem acrescentar tanto quanto quiserem. É o enxame de que falo S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub>(S<sub>1</sub>→S<sub>2</sub>))). O S<sub>1</sub>, o enxame, significante-mestre, é o que garante a unidade, a unidade da cópula do sujeito com o saber. É em alíngua, e não em outro lugar, enquanto ela é interrogada como linguagem, que se conclui a existência daquilo que uma lingüística primitiva designou com o termo de &#8220;elemento&#8221;, e isso não é por nada. O significante Um não é um significante qualquer. É a ordem significante na medida em que ele se instaura do envolvimento por onde toda a cadeia subsiste.&#8221;<a href="#_ftn26" name="_ftnref26">[26]</a></p>
<p>E Sra Útil é esse envolvimento que faz subsistir nela, virtualmente, toda a cadeia. Esse S<sub>1</sub> de cada significante, &#8220;se faço a pergunta: é &#8220;deles&#8221; que falo?&#8221;, a resposta da Sra Útil é clara: não há S<sub>1</sub>, mas significantes quaisquer. E logo, não há S2, não há é deles?<a href="#_ftn27" name="_ftnref27">[27]</a> Não há série para ela, a não ser significantes sempre os mesmos, quaisquer, intercambiáveis, que não contam, que não se contam. Então, todo significante se torna S<sub>1</sub> no real, significante-mestre garantindo uma copulação direta com o saber de alíngua, seu gozo, e fora do sexual. É então o supereu, que diz goza!, que fala&#8230; &#8220;O Um encarnado na alíngua é algo que fica indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, ou mesmo todo o pensamento, é aquilo de que se trata no que chamo de significante-mestre. É o significante Um e não é à toa que, no penúltimo dos nossos encontros, trouxe aqui, para ilustrá-lo, o pedaço de barbante, enquanto ele faz essa rodinha, da qual comecei a interrogar o nó possível com um outro&#8221;. Em todo caso, vê-se como, a partir de Lacan, pode-se identificar o supereu com um S<sub>1</sub> real, isto é, identificar o supereu com o real do Um.</p>
<p>Nossa paciente é, ela própria, essa rodinha que não pode fazer nó com um outro; capturada realmente pelo Um de alíngua, ela se torna ele. Sem identificação, cai na unificação dos significantes, sejam eles homens, mulheres ou crianças. É uma psicose uniana. Fundamentalmente, alíngua a ama com um amor especial, o da alíngua pelo corpo que ela absorve.</p>
<p>Sra Útil não se engana; ela não imagina que o gozo do Outro tomado como corpo seria adequado. Ela evita o corpo a corpo. Ela sabe, de saída, que não há relação sexual, mas ela está em ligação direta com o gozo do Outro, pelo olhar, umbilicado no Outro como imagem. É sempre o seu próprio corpo que ela vê fora dela, é ela mesma, como Outro que ela vê vindo ao seu encontro e ao qual ela se junta numa copulação tão enigmática quanto louca, pois essa copulação nem por isso é relação dos corpos, relação sexual, é uma copulação que, como essa relação que não há, não cessa de não se escrever, é a relação do Um com o Outro, que entretanto não cessa de inscrever-se sem com isso deixar vestígios.</p>
<p>Retomemos. Quando Lacan formula: &#8220;nada força ninguém a gozar, exceto o supereu. O supereu é o imperativo do gozo. Goza! É o comando que parte de onde? É bem ali que se encontra o comando que o discurso analítico interroga&#8221;<a href="#_ftn28" name="_ftnref28">[28]</a>. Na ocasião, para Sra Útil esse comando parte do Outro primordial. Ele é irredutível. É o Outro que a obriga a gozar nele mesmo, nesse Outro que é ela mesma. É um S<sub>1</sub> real. Ela goza no real do Um.</p>
<p>Para ela, nada tem valor de troca e tudo se reduz ao uso: marido, profissionais de saúde, próximos, etc&#8230; De que uso? O uso do gozo. Esse gozo de uso mas sem utilidade, que nem mesmo alivia, bruto e obtuso, fechado e pleno, petrificado e imóvel, onde se manifesta em estado puro o instinto de morte com o qual nenhuma troca se mantém. Ela é a propriedade de um gozo do qual não tem o usufruto. Nesse ser de puro semblant, seu semblant não induz gozo no campo do Outro, não há S<sub>1</sub> que organize o saber no lugar do Outro: sendo esse S<sub>1</sub> real, semblant e gozo se colabam. É isso o supereu primordial que diz: goza!</p>
<p>&#8220;O gozo é marcado, por um lado, por esse furo que não o garante por outra via a não ser a do gozo fálico. Será que, do outro lado, algo não pode se atingir que nos diga agora, é apenas falha, abertura no gozo, seria realizado? (&#8230;) Ponto que cobre a impossibilidade da relação sexual como tal. O gozo enquanto sexual é fálico, isto é, não se relaciona com o Outro como tal.&#8221;<a href="#_ftn29" name="_ftnref29">[29]</a></p>
<p>É isso o que mostra Sra Útil: seu gozo, que não é sexual, que não é fálico, só se relaciona com o Outro como tal. Esse Outro, é apenas uma roupa, é uma roupa que a ama, não como a periquita de Picasso, mas como &#8220;habeille&#8221;<a href="#_ftn30" name="_ftnref30">[30]</a> e que a suga. É isso que ela ama e &#8220;quando se ama, não se trata de sexo&#8221;<a href="#_ftn31" name="_ftnref31">[31]</a>. Útil só tem relação com o significante em estado puro S<sub>1</sub>. Ela, que ama com amor o seu marido, é na verdade a única a fazer Um, isto é, a única que aquilo que ela chama de amor, ou seja, gozo Outro, faz sair dela mesma, mas para reencontrar o Outro na chegada. Vimos Sra Útil nada ocupada com o seu homem, nem com os seus, mas toda ocupada com o Outro no sentido literal, o Outro porque é disso que ela trata. Reintegrar esse lugar que lhe faltou.</p>
<p>Se Lacan insistia tanto para que a linguagem fosse abordada em sua gramática, caso em que ela depende de uma topologia, se, em O saber do psicanalista, dizia querer propor algo que se liga à origem puramente topológica da linguagem, origem ligada à sexualidade, foi exatamente o que tentamos mostrar nesse caso. Se Sra Útil está fora do sentido, é porque ali se demonstra que sua vida só tem sentido matemático. Isso tem a ver com o número, nas superfícies. São eles que tramam alíngua. E isso é tudo. Somos apenas os seus fantoches. Ela dizia &#8220;minha vida é a pedido&#8221;. Fantoches inaptos para a sobrevivência, aliás. A menos que haja a castração, e ainda assim&#8230; pois o gozo do sujeito está, qualquer que seja o caso, a serviço de Thanatos e de S<sub>1</sub>, real. É isso a sobredeterminação última.</p>
<p>Tentamos pegar essa paciente pelo lado de uma mulher sem estrabismo, pelo lado de uma mulher toda. Isso apenas esclarece a não-toda, mas não a explicita. Indica, entretanto, uma parte do que, nela, está em jogo. Como ela se orienta nisso? Sem dúvida ela não se orienta. Então, ela se entrega a Deus. É ela que diz: só Deus sabe, e ela o ajuda, para saber. O que a faz face feminina de Deus.</p>
<p>____________________________</p>
<p>* Trabalho apresentado no Seminário de Verão da <em>Association freudienne internationale</em> sobre o seminário <em>Encore</em> (<em>Mais, ainda</em>), de Lacan, em 1º de setembro de 1988, em Bruxelas, Bélgica.<br />
<a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a>N.E. &#8211; Jogo de palavras entre <em>semblant</em> e <em>amble</em>: passo em que o cavalo levanta ao mesmo tempo as duas patas do mesmo lado.<br />
<a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a>LACAN, J. <em>O seminário, livro 20 &#8211; Mais, ainda</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<br />
<a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a>N.T. &#8211; <em>Asphère</em>, no original.<br />
<a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a>N.T. &#8211; Jogo de palavras entre <em>tunique </em>(túnica) e <em>unique </em>(única), prejudicado na tradução pelo fato de que, em português, o substantivo gozo é masculino, enquanto o francês <em>jouissance </em>é feminino.<br />
<a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a>N.E. &#8211; <em>au pair</em>: trabalho em casa de família em troca de hospedagem e alimentação. Observar a homofonia entre <em>pair </em>(par) e <em>père </em>(pai).<br />
<a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a>N.T. &#8211; Em francês, &#8220;enxame&#8221; (<em>essaim</em>) faz homofonia com S<sub>1</sub>.<br />
<a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a>N.T. &#8211; Alusão a uma canção infantil francesa que fala de marionetes: <em>Ainsi font les petites marionettes, trois petits tours e puis s&#8217;en vont</em> (&#8220;assim fazem as marionetes, três voltinhas e aí vão embora&#8221;).<br />
<a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a>N.T. &#8211; <em>s&#8217;ambler</em>, ver nota 1.<br />
<a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> LACAN. J. <em>O seminário, livro 7 &#8211; A ética da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988<br />
<a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a>N.T. &#8211; <em>Tunique/unique</em>: ver nota 4..<br />
<a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a>N.T. &#8211; No original: &#8220;&#8230; ce mariage avec le mari, en <em>est-ce Un</em>? S&#8217;est-elle logée dans S<sub>1</sub>?&#8221;. A parte grifada em itálico &#8211; <em>est-ce Un</em> &#8211; faz homofonia com S<sub>1</sub>.<br />
<a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a>N.T. &#8211; <em>Amur</em>, no original, jogando com <em>amour </em>(amor) e <em>mur </em>(muro). Jogo de palavras feito por Lacan no Seminário <em>Mais, ainda</em> (Op. cit.).<br />
<a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a>N.T. &#8211; Em francês, <em>Salope, Vache, Putain</em>.<br />
<a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a>LACAN, J. <em>O Seminário, livro 20 &#8211; Mais, Ainda</em>. Op. cit., p. 174.<br />
<a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a>Ibid, p. 174-5.<br />
<a href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a>Ibid, p. 177.<br />
<a href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a>Ibid, p. 177-8.<br />
<a href="#_ftnref18" name="_ftn18">[18]</a>Ibid, p. 118.<br />
<a href="#_ftnref19" name="_ftn19">[19]</a>Ibid, p. 118.<br />
<a href="#_ftnref20" name="_ftn20">[20]</a>Ibid p. 122.<br />
<a href="#_ftnref21" name="_ftn21">[21]</a>Ibid p. 125.<br />
<a href="#_ftnref22" name="_ftn22">[22]</a>N.T. &#8211; No original, S2, mencionado antes, faz homofonia com &#8220;est-ce deux&#8221; (é deles?), que aparece na frase: &#8220;est-ce bien d&#8217;eux que ça parle?&#8221;<br />
<a href="#_ftnref23" name="_ftn23">[23]</a>Ibid, pp. 125-126.<br />
<a href="#_ftnref24" name="_ftn24">[24]</a>Ibid, p. 126.<br />
<a href="#_ftnref25" name="_ftn25">[25]</a>N.T. &#8211; cf. nota 8, p. 96: homofonia de essaim (enxame) com S<sub>1</sub>.<br />
<a href="#_ftnref26" name="_ftn26">[26]</a>Ibid, pp. 130-131.<br />
<a href="#_ftnref27" name="_ftn27">[27]</a>N.T. &#8211; cf. nota 22, p. 115: homofonia entre S2 e &#8220;est-ce d&#8217;eux?&#8221;<br />
<a href="#_ftnref28" name="_ftn28">[28]</a>Ibid, p. 10.<br />
<a href="#_ftnref29" name="_ftn29">[29]</a>Ibid, p. 15.<br />
<a href="#_ftnref30" name="_ftn30">[30]</a>N.T. &#8211; Jogo de palavras entre abeille (abelha) e habiller (vestir, trajar).<br />
<a href="#_ftnref31" name="_ftn31">[31]</a>Ibid, p. 27.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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