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	<title>Jean-Jacques Tyszler &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Jean-Jacques Tyszler &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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		<title>Observações sobre situações de desespecificação pulsional em sua relação com as funções na psicose</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Aug 2015 18:33:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[Marcel Czermak, Stéphanie Hergott e Jean-Jacques Tyszler Extrato (Jean-Jacques Tyszler) Convocamos e evocamos mais frequentemente a oralidade, a analidade ou o escópico como se o objeto assim designado fosse evidente, de algum modo naturalmente especificado. Se Lacan designa muito precisamente uma série de objetos, a clínica das psicoses enfatiza a pura adequação entre um objeto,  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong><em>Marcel Czermak, Stéphanie Hergott e Jean-Jacques Tyszler</em></strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Extrato (Jean-Jacques Tyszler)</strong></p>
<p>Convocamos e evocamos mais frequentemente a oralidade, a analidade ou o escópico como se o objeto assim designado fosse evidente, de algum modo <em>naturalmente especificado</em>. Se Lacan designa muito precisamente uma série de objetos, a clínica das psicoses enfatiza a pura adequação entre um objeto, uma pulsão e uma função. E o termo <em>desespecificação </em>nos pareceria convir melhor para reunir fenômenos de outro modo descritos como regressivos e arcaicos. A oralidade psicótica obriga a definir mais seriamente o que faz furo e corte na estrutura. A desespecificação que opera nela esclarece igualmente um destino pulsional que talvez não esteja restrito às grandes loucuras.</p>
<p>Insistindo numa topologia dita de borda, Lacan não contrariou fundamentalmente os elementos principais que Freud tinha trazido para qualificar a pulsão: fonte, pressão, objeto e alvo. A essa montagem vêm se associar as quatro vicissitudes conhecidas: recalque, sublimação, inversão no oposto e retorno sobre a própria pessoa. Freud não vai encerrar a lista possível das pulsões: numa primeira aproximação, digamos que Lacan coloca em relação quatro objetos <strong><em>a</em></strong>, e, por conseguinte, quatro tipos de pulsões: oral, anal, escópica e invocante; essas duas últimas não sendo autonomizadas enquanto tais em Freud, principalmente a última. É de se notar que, em Freud, como em Lacan, a montagem pulsional necessita de certa plasticidade, seja pelo jogo gramatical, seja nas relações que o sujeito, pelo viés do significante, estabelece com o Outro.</p>
<p><strong>Do ponto de vista do objeto</strong></p>
<p>Em seu artigo de 1820, “Sobre a lipemania ou melancolia”<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>, Étienne Esquirol já nos faz apreender, para dizê-lo como Lacan no Seminário 11<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>, a libido; esse órgão, irreal, mas essencial para compreender a natureza da pulsão, pode se encontrar num estado de <em>defecção</em>: “Há os que se dilaceram as mãos, a extremidade dos dedos, e se destroem as unhas. Atormentado pela tristeza ou pelo temor, o olho e a orelha incessantemente à espreita, para o lipemaníaco o dia é sem repouso, a noite, sem sono. As secreções não se fazem mais”.</p>
<p>E, para ficar na oralidade, o relato da doença da revolucionária Téroenne ou Théroigne de Méricour, que contribuiu durante os acontecimentos de 1789 para corromper o regimento de Flandres, trazendo para suas fileiras moças de má vida; de sua hospitalização em La Salpêtrière, Esquirol relata os elementos, de resto clássicos, que permitem situar por que irreal não é imaginário e como, na falta de se articular, a libido desvela um real diferentemente cru:</p>
<p style="padding-left: 90px; font-size: 1.5rem;">Téroenne não quer tolerar nenhuma roupa, nem mesmo uma camisola. Todos os dias, de manhã e à noite, e várias vezes durante o dia, ela inunda seu leito, ou melhor, a palha de seu leito com vários baldes de água, deita-se e cobre-se com seu lençol [&#8230;]. Ela anda de quatro, deita no chão; com o olhar fixo, recolhe todos os detritos que encontra sobre o piso e os come. Eu a vi pegar e devorar palha, pluma, folhas secas, pedaços de carne arrastados na lama etc. Ela bebe a água das sarjetas enquanto lavam os pátios, embora essa água seja imunda e cheia de lixo, preferindo essa bebida a qualquer outra.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a></p>
<p>E, para dar a ouvir a infatigável pressão, o <em>Drang </em>freudiano:</p>
<p style="padding-left: 90px; font-size: 1.5rem;">Ela se aborrece, se exalta quando a contrariam, sobretudo quando querem impedi-la de pegar água. Uma vez ela mordeu uma de suas companheiras com tanta fúria que arrancou um pedaço de carne.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a></p>
<p>Esquirol ressalta que, no psicótico, as grandes funções do corpo, aquelas ditas biológicas, podem se desintrincar completamente: o calor, o frio, o molhado, o seco, o sono, a vigília&#8230; tudo isso é revirado, como lembra frequentemente M. Czermak. <em>Os orifícios do corpo se reduzem então a um só</em>, estranha boca que pode também ser a orelha, o olho, o ânus etc. A mania exemplifica esse tipo de oralidade desespecificada, mas a melancolia ou o Cotard também o demonstram à sua maneira.</p>
<p>A oralidade, não esqueçamos, convoca tanto a alimentação quanto o fôlego, a respiração ou a voz.</p>
<p style="padding-left: 90px; font-size: 1.5rem;">Desde o começo e por vezes ainda hoje, experimentei as maiores dificuldades para tomar minhas refeições. [&#8230;] Ninguém pode ter ideia dos obstáculos que eu tinha que combater; enquanto eu comia minha boca era alvo de milagres incessantes.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a></p>
<p>É Schreber que comenta assim uma função tornada bem problemática: ele devia, com efeito, falar alto com a boca cheia. Seus dentes se quebravam enquanto ele estava comendo, ou então era o milagre da mordida na língua, ou ainda os pelos do seu bigode regularmente introduzidos na sua boca. A encruzilhada da oralidade convoca outros contratempos, como o milagre do uivo apoiado nos músculos que concorrem para o mecanismo respiratório. Passo por cima dos fenômenos referentes à palavra e à voz, múltiplos e cuidadosamente detalhados nas <em>Memórias de um doente dos nervos.</em></p>
<p>Nas configurações frequentes da psicose, encontramos vestígio dessa desespecificação pulsional. Insistimos, em primeiro lugar, numa clínica do objeto caído: a intercambialidade se torna indiferenciação, o objeto, qualquer um, chama a boca. Interroguemos agora a gramática da pulsão.</p>
<p><strong>Do ponto de vista do alvo (<em>Ziel</em>)</strong></p>
<p>Os alvos pulsionais são situáveis, uns em relação aos outros, através do jogo sintático: ver/ser visto ou fazer ver/fazer-se ver. No tocante à pulsão oral, Lacan substituirá pelo fazer-se sugar o demasiado evidente fazer-se comer, para nos descolar da metáfora.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a></p>
<p>O trajeto pelo Outro, o circuito que, de uma zona erógena, vem buscar algo de uma resposta no Outro, era muito esclarecedor no caso de uma jovem paciente que apresentava a eclosão de um automatismo mental.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a> Os traços principais do quadro clínico inicial constituíam-se de um mutismo, de uma recusa alimentar e do começo de um fenômeno de automatismo mental, intuição e eco do pensamento.</p>
<p>O automatismo mental tinha começado pelo eco simples (“eu me ouço pensar”), depois o pensamento tinha se difundido (“os outros também me ouviam”) para se transformar em síndrome de influência característica (“eu sou pensada”). O mutismo vinha fazer barragem contra essa imisção, esse sentimento de preenchimento automático.</p>
<p>A paciente não podia responder a demandas simples, às interrogações mais cotidianas; de cada fala, palavras fazem xenopatia e a precipitam do lado do real do objeto; assim ela não podia mais aceitar compartilhar a refeição familiar: “Se aceito o desejo de minha mãe de comer, eu me ligo interiormente a ela; ‘minha franguinha’ (um pequeno apelido) faz relação entre mim e ela, acaba-se por acreditar que se é o outro”.</p>
<p>A “franguinha” no Outro indica bem a ligação entre os reviramentos sintáticos (comer/ser comido – falar/ser falado) e a mistura das funções: a oralidade em sua totalidade se torna fonte de perplexidade e problemática; a palavra e a alimentação tornam-se corpo estranho, e a paciente só pode lhes opor o mutismo e a recusa alimentar.</p>
<p>O automatismo mental se explicitará com muita amplitude e a paciente só achará refúgio num messianismo delirante. Parafraseando a fala de M. Czermak referente à mania, poderíamos dizer que essa jovem paciente psicótica é engolida tanto quanto falada: isso a come, isso a suga, isso a dissolve, isso a comenta etc. É, portanto, a figura do Outro que assume aqui toda a importância, mas Outro sem barra, boca que não para de falar do lugar do sujeito e em seu nome, e que tende a reintegrá-lo, mecanicamente, automaticamente.</p>
<p>Nesse ponto, a oralidade não pode mais ser considerada no registro unívoco da metáfora alimentar, pois sentimos bem que a questão pulsional nos remete também à diferenciação da imagem especular; na lição de 18 de junho de 1969 do seminário <em>De um outro ao Outro</em><a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a>, Lacan propõe relacionar a pulsão oral à<em> coisa placentária</em>. Para além do aspecto nutridor, há o lugar desse objeto-símbolo da troca simbiótica, objeto definitivamente perdido, mas cujo eco ruidoso o automatismo mental talvez sinalize. “O sujeito nasce na medida em que no campo do Outro surge o significante. Mas, por isso mesmo – quem até então não era nada senão sujeito por vir –, se fixa em significante”.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a></p>
<p>O mito de Aristófanes, a busca do complemento sexual, Lacan substitui pelo mito da lamela, a busca pelo sujeito da parte para sempre perdida de si mesmo. Esse objeto, a seu modo, o psicótico o encontra, ao preço de desespecificar precisamente o que em todo sujeito não é imortal, mas sexuado e sexual, aberto por isso à troca erótica, mas igualmente à <em>troca social</em>. Se a desespecificação da pulsão opera na psicose, podemos pensá-la em outros registros clínicos?</p>
<p><strong>Do ponto de vista das zonas erógenas ou da fonte (<em>Quelle</em>)</strong></p>
<p>No seminário de 1964, <em>Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>, J. Lacan retoma longamente a teoria da pulsão por intermédio de uma <em>topologia </em>dita<em> de borda</em>: “A lamela tem uma borda, ela vem se inserir na zona erógena, isto é, num dos orifícios do corpo, na medida em que esses orifícios estão ligados à abertura/fechamento da hiância do inconsciente”.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a> Ele precisa que, à medida que outras zonas são excluídas, as partes ditas erógenas tomam sua função, que elas se tornam “fontes especificadas para a pulsão”.</p>
<p>Trabalhamos longamente no âmbito do transexualismo uma estranha metamorfose: a esfera genital é atingida por uma rejeição, inclusive num modo hipocondríaco, ao passo que a pele em sua totalidade, enquanto invólucro, toma uma natureza erótica, uma qualidade de volúpia particular, não necessitando nem da montagem fantasmática nem da passagem pelo outro, o parceiro.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a> A toxicomania faz aparecerem, a seu modo, dificuldades próximas: a efração ritualizada da pele, os furos na pele vêm recompor o circuito pulsional do toxicômano de tal maneira que, frequentemente, como sabemos, o gozo sexual é sacrificado ou terrivelmente reduzido.</p>
<p>Isso aparentemente nos distancia da oralidade, mas eu gostaria de insistir na importância da especificação da zona erógena que, em princípio, e segundo Freud e Lacan, concerne a certas bordas do corpo em detrimento de outras partes dele, ou das zonas anexas ou conexas a essas bordas. Deveríamos assim entrever um outro tipo de desespecificação da pulsão: não cada orifício trazido a um orifício único, não uma grande goela indiferenciada na sua função, mas a busca de zonas erógenas substitutivas, de um trajeto que não seria mais marcado por esse movimento de ir e vir, mas que daria realmente acesso ao objeto curto-circuitando qualquer passagem pelo Outro. A oralidade pode convir para descrever uma apetência toxicomaníaca, mas a boca não está convocada aí como fonte da pulsão. Conjuntamente se apresenta também o desejo de fazer gozar “todo o corpo”, sem passar pela troca sexual.</p>
<p>Antes de prosseguir sobre o alcance mais geral do termo desespecificação, notemos o quanto os exemplos clínicos tomados na psicose permitem não situar a oralidade como mais arcaica que outro circuito pulsional, no sentido em que fala Karl Abraham, isto é, propondo um progresso na relação de uma pulsão parcial com a seguinte.</p>
<p>É em termos de encruzilhada topológica que a função é posta em questão; tal paciente, apresentando uma erotomania algo atípica, se vê pouco a pouco afetado por uma dificuldade que ele não compreende: “<em>bon vivant</em>” e amante de restaurantes, ele é agora obrigado a fazer “um trabalho permanente sobre a necessidade de comer”. “Tenho dificuldade para engolir, para aceitar o princípio de engolir a alimentação; algo me bloqueia na altura do tórax, dos intestinos, como se comer não fosse natural.” Passamos a uma tonalidade nitidamente hipocondríaca: “Estou apertado na altura do tórax, os intestinos estão mal colocados, as costas, travadas, devo fazer uma espécie de esforço para comer”. Esse paciente, como todo erotômano, estava cheio do outro, e também cheio no Outro; esse trabalho de unificação vem, em retorno, tornar enigmático o significante engolir e a função que aí se associa.</p>
<p>Lacan não retomará a distinção entre pulsão sexual e pulsão de autoconservação, e a clínica da oralidade nos mostra bem a dificuldade de separar, por exemplo, o registro alimentar daquele da sensualidade. A síndrome de Cotard já nos tinha guiado para esse deslizamento da boca ao trato digestivo, sensível nas observações que reuni aqui.</p>
<p>Nos últimos seminários (<em>L’insu que sait</em> <em>de l’une-bévue s’aile à mourre</em><a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a> e<em> Le moment de conclure</em>), Lacan trabalha os problemas de reviramento das superfícies e os diferentes cortes; na lição de 17 de janeiro de 1978 do seminário <em>Le moment de conclure</em>, ele volta à diferença essencial entre o toro e a esfera, em função da existência do furo na primeira figura:</p>
<p style="padding-left: 90px; font-size: 1.5rem;">O fato de que o ser vivo se defina mais ou menos como uma ereção<a href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a>, a saber, que ele tenha uma boca, até mesmo um ânus, e também algo que mobilia o interior de seu corpo, é algo que tem consequências que não são pequenas. A mim me parece que isso não é sem relação com a existência do zero e do um. Que o zero seja essencialmente esse furo, é o que vale a pena aprofundar<a href="#_ftn17" name="_ftnref17">[17]</a>.</p>
<p>A questão da especificação e da desespecificação da pulsão permite não considerar esta última unicamente no registro do arcaico, do pré-subjetivo, da fixação primordial etc. Ela mantém, de fato, com a língua, a linguagem, o significante, o mesmo tipo de inferioridade que Lacan traz com o toro. Muitos momentos de um tratamento, inclusive terminais, fazem aparecer em primeiro plano fenômenos clínicos em que a pulsão parece retomar a dianteira sobre o significante; a oralidade se presta bastante bem a essa demonstração. Essa emergência do pulsional é uma das consequências da colocação em tensão da fantasia, e indica que o objeto está bem no centro do trabalho interpretativo.</p>
<p>O mais interessante talvez esteja aqui: as psicoses nos trazem da maneira mais crua, e portanto mais clara, exemplos de cortes que operam entre o objeto e o significante, entre o objeto e a língua, para de algum modo furar uma superfície tornada compacta, isto é, sem furo verdadeiro. A oralidade psicótica, nós a consideramos como efeito desse buraco negro, engolidor de palavras; é um furo denso, lembrando certas configurações de astrofísica. O corte que opera aqui não tem nada a ver com a divisão do sujeito na fantasia, mas faz entrever toda a questão desse objeto <strong><em>a</em></strong>, colocado no centro do nó borromeano.</p>
<p>A desespecificação pode então ser pensada não como tara de origem, defeito estrutural primordial, mas como um tipo de defecção produzida, num enodamento que tem sua consistência, por esse trajeto singular, espécie de autofagia ou de autotravessia. O nó “enodado” se autodigere!&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> ESQUIROL, Étienne. “Sobre a lipemania ou melancolia”. Publicado no presente volume, pp.173-9.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> LACAN, Jacques. <em>O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> ESQUIROL, Étienne. “Sobre a lipemania ou melancolia”. Publicado no presente volume, pp.173-9.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> Ibid.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> SCHREBER, Daniel Paul. <em>Memórias de um doente dos nervos</em>. São Paulo: Paz e Terra, 2006.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> Cf. Lacan, J. <em>O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise,</em> op. cit.</p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a> Cf. TYSZLER, J-J. “Clérambault”. In: CZERMAK, M. e JESUÍNO, A. (orgs.) <em>Fenômenos elementares e automatismo mental</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2009.</p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> LACAN, J. <em>O seminário, livro 16:</em> <em>De um Outro ao outro</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.</p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> Id. <em>O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>,  op.cit., p.187.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> Ibid., p.188.</p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> Cf. TYSZLER, J-J. “A pele virada pelo avesso – Observações sobre o gozo do invólucro”.  In: <em>A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol. 3 – O corpo: hipocondria, Cotard, transexualismo</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2006.</p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a> LACAN, J. <em>L’insu que serait de l’une-bévue s’aile a mourre – séminaire 1977</em>. Edição não comercial da <em>Association lacanienne internationale</em>.</p>
<p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a> N.T. – No original, <em>trique</em>, “porrete” e também “ereção peniana”.</p>
<p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a> LACAN, J. <em>Le moment de conclure – séminaire 1978</em>. Edição não comercial da <em>Association lacanienne internationale</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sobre a sublimação</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/sobre-a-sublimacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2015 17:04:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[Sobre a sublimação]]></category>
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					<description><![CDATA[Lacan nos propõe, nos capítulos de março, abril e maio de 1969, do seminário "D'un Autre à l'autre", um retorno à questão da sublimação.

Ele faz um certo número de evocações bastante cerradas, sobretudo do seminário “A ética da psicanálise”: as coordenadas freudianas relativas à pulsão e à sublimação, o lugar do amor cortês, a obra de arte.

Vou indicar os pontos que, embora retomados como eco do(s) seminário(s) anterior(es), podem trazer dificuldades, pois afinal o próprio termo sublimação, o próprio conceito, sofre uma certa inércia em sua utilização.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Jean-Jacques Tyszler<br />
&#8211; 24/10/1993</p>
<p>Lacan nos propõe, nos capítulos de março, abril e maio de 1969, do seminário <em>&#8220;D&#8217;un Autre à l&#8217;autre&#8221;</em><em>, um retorno à questão da sublimação.</em></p>
<p>Ele faz um certo número de evocações bastante cerradas, sobretudo do seminário “A ética da psicanálise”: as coordenadas freudianas relativas à pulsão e à sublimação, o lugar do amor cortês, a obra de arte.</p>
<p>Vou indicar os pontos que, embora retomados como eco do(s) seminário(s) anterior(es), podem trazer dificuldades, pois afinal o próprio termo sublimação, o próprio conceito, sofre uma certa inércia em sua utilização.</p>
<p>Digamos, de saída, que o que Lacan nos traz deveria nos impedir de confundir sublimação e fim do tratamento.</p>
<p>Por outro lado, é preciso refletir melhor sobre os efeitos coletivos, sociais, desse destino pulsional, pois um certo mito estético da sublimação, que aparece como a pretensa ultrapassagem das questões neuróticas, sua pacificação, sustenta uma espécie de hipnose favorável, a meu ver, a que se subestime os efeitos dramáticos na cidade da passagem de uma satisfação objetal a uma satisfação narcísica, egóica.</p>
<p>Tentarei também extrair, dos dois eixos clássicos – amor cortês e obra de arte – a possibilidade de uma nova posição para a sublimação, sobretudo do lado disso que ocupa, ou que desloca, pouco a pouco, a corrente ocupada por esse lugar definido como o do amor cortês.</p>
<p>Por onde passa socialmente a sublimação, fora da produção artística? O que é que se pode também avançar, fora do estudo das “formações reativas” tais como as vemos desenvolver por exemplo por um autor como Jones, mais do que pelo próprio Freud?</p>
<p>Lacan lembra os quatro elementos da pulsão: a fonte, a pressão, o objeto e o objetivo.</p>
<p>Ele não introduz aí nada de particularmente novo: o objeto é intercambiável, no limite é indiferente; os objetivos pulsionais são substituíveis em função de uma sintaxe, a fonte é marcada pela estrutura de borda das zonas erógenas.</p>
<p>É talvez à pressão, ao <em>Drang</em>, que seja preciso prestar alguma atenção; há em Freud uma medida (biológica) e há a exigência de uma certa dose de satisfação direta.</p>
<p>No capítulo de 5 de março de 1969, Lacan expõe, da maneira mais simples do mundo, a seguinte consideração: “Em nossa cultura, nossa civilização [&#8230;] o sexual é mantido num torpor sem precedentes.”</p>
<p>Essa noção de <em>Drang</em>, de pressão, está ligada à fluidez, à mobilidade dos signos e, portanto, desde o início, ao trabalho do significante como tal, mas será que a psicanálise tem a função de sustentar nossa bem generosa censura? Se nossa cultura faz com que cada um considere uma mulher como se considera um homem, teríamos simplesmente que acompanhar seus efeitos mais caricaturais?</p>
<p>Lacan repete freqüentemente: <em>a psicanálise fica na porta</em>; é também o termo que ele usa para designar a parada de Freud no que concerne à sublimação.</p>
<p><em>Lacan lembra as características da sublimação</em>:</p>
<p>&#8211; desviada, quanto ao objetivo</p>
<p>&#8211; inibida</p>
<p>&#8211; idealização do objeto</p>
<p>&#8211; operando com a pulsão e modo de satisfação desta.</p>
<p>Se a sublimação se distingue do recalque, insistir unicamente na inibição quanto ao objetivo não é suficiente.</p>
<p>É preciso trazer luz para esse laço que eu evoquei entre o <em>Drang</em>, a pressão pulsional, e a mobilidade dos significantes enquanto tais.</p>
<p>Será que a operação consiste em desenodar apoio, significante e fixação pulsional?</p>
<p>Há aí uma primeira dificuldade que freqüentemente faz misturar, confundir: operação que incide sobre a fantasia e sublimação.</p>
<p>Não esgotemos imediatamente essa dificuldade, que me parece verdadeira:</p>
<p>&#8211; Vemos com o amor cortês que há efetivamente relançamento da economia do Sujeito, ao preço de um trabalho particular que coloca significante e objeto no mesmo nível, com o detalhe de que esse objeto idealizado se torna inacessível; ou então, penso na obra de arte, o objeto é descoberta (e não redescoberta). Há então produção – e não expulsão, separação (no que concerne ao objeto).</p>
<p>Eu diria que essa operação parece, a uma primeira aproximação, passar-se num registro vizinho, separado daquele da castração.</p>
<p>Zona em que o sujeito (que é também o da psicologia coletiva) pode assim talvez se acomodar numa certa normalização edipiana, mascarando ainda assim o problema do declínio do édipo.</p>
<p><em>O gozo, a coisa, o </em>Nebenmensch</p>
<p>Lacan nos lembra que em Freud a dialética do prazer implica na centralidade de uma zona interditada: essa centralidade é o campo do gozo.</p>
<p>Há um vacúolo, esse interdito no centro que constitui o que nos é mais próximo, nos sendo exterior ao mesmo tempo: <em>seria preciso</em> diz ele, <em>criar a palavra “êxtimo”.</em></p>
<p>Depois ele lembra os termos <em>das Ding </em>e <em>Nebenmensch</em>, longamente desenvolvidos na Ética.</p>
<p>A noção de <em>das Ding</em> tem a relação mais estreita com o que Freud chama de experiência do<em>Nebenmensch</em>, que se pode traduzir por “o próximo”.</p>
<p>Divisão original com aquilo que, do interior do sujeito, se acha na origem levado a um primeiro fora, com a noção desse <em>das Ding</em> como estranho e mesmo eventualmente hostil; em torno de <em>das Ding</em> o sujeito faz a prova de algo que pode servir, servir para referi-lo a seu mundo de anseios e expectativas.</p>
<p>É também em relação a esse <em>Ding</em> original que vai girar todo o movimento da representação; quanto ao movimento do desejo, sua instauração se faz pela via da interrogação sobre o que vem do<em>Nebenmensch</em>, tanto sobre o que é fundamentalmente perdido nessa relação, quanto o que é a parte ignorada do desejo desse <em>Nebenmensch</em>.</p>
<p>Mas é preciso dizer mais com relação ao gozo e ao <em>Nebenmensch</em>: se há vacúolo, se a zona é interditada, é que, e Lacan o diz assim abruptamente, <em>é que o gozo é um mal</em>.</p>
<p>Ele é um mal porque comporta o mal do próximo; o que se coloca como o verdadeiro problema do amor; é a presença dessa maldade fundamental que habita o próximo, mas a partir de então também em mim mesmo.</p>
<p>Lacan lembra o célebre texto do <em>“Mal-estar na civilização”</em>: “O homem tenta satisfazer sua necessidade de agressão às expensas de seu próximo, explorar seu trabalho sem indenização, utiliza-lo servilmente sem seu consentimento, apropriar-se de seu bem, humilha-lo, infligir-lhe sofrimentos, martiriza-lo e mata-lo&#8230;”.</p>
<p>Nocividade fundamental no cerne do gozo; Sade está nesse limite: ele avança aí e então o corpo do próximo se despedaça.</p>
<p>Como não recuar diante do amor ao próximo prescrito?</p>
<p>Será preciso entender a sublimação como a resposta de Freud a esse problema do gozo? A sublimação como meio de reduzir a nocividade de nossa relação com o próximo?</p>
<p>Não me parece.</p>
<p>É preciso sentir todo o peso da frase : “O próximo é a iminência intolerável do gozo, o Outro é apenas seu terreno esvaziado. O Outro é um terreno esvaziado do gozo.”</p>
<p>Teríamos então essa relação de antinomia: o gozo do lado da Coisa, gozo certamente primordial, mas intensamente repetido, renovado, atual; o desejo estaria do lado do Outro enquanto terreno esvaziado.</p>
<p>Entretanto, nesse ponto é preciso refletir sobre a frase do seminário sobre a impassibilidade do desejo, completamente reduzido às formas; há aí algo como um enigma, ou antes uma dificuldade que deve poder se refletir no ponto do grafo em S(A), ou seja, é preciso interrogar aqui a precariedade da barra.</p>
<p>Como situar na palavra seu desenvolvimento, seus efeitos, o que limita ou não a onipotência do Outro.</p>
<p>Ou, para dizer de outra maneira, o problema vem do fato de que, se o gozo é interditado, ele é também, por estrutura, o <em>plano de apoio</em> em que vai constituir-se e sustentar-se o desejo.</p>
<p>Poderíamos dizer ainda : como é que se situa a operação de restituição, de <em>a </em>pequeno ao campo do Outro grande, já que parece que a organização perversa do nosso mundo impele a essa restauração?</p>
<p>A questão essencial aqui é a abordagem, a avaliação das relações do sujeito com o Outro no real.</p>
<p>Lacan nos propõe como formalização as quatro estruturas topológicas: a esfera, o toro, o <em>cross-cap</em> e a garrafa de Klein.</p>
<p>Provavelmente cada estrutura topológica não deixa o mesmo lugar para a possibilidade da sublimação, mas não basta se deter no fato de que, em geral, o neurótico tem dificuldade com a sublimação.</p>
<p>Se, em vez do toro, a estrutura é a da garrafa de Klein, o que dizer do reviramento induzido por essa superfície? O que dizer da contigüidade, nos diferentes capítulos estudados, do tema da sublimação e do tema da perversão?</p>
<p>O desejo estaria do lado do Outro como terreno esvaziado&#8230; Seria preciso ainda examinar as incidências dos significantes relativos a esse Outro em nossa cultura?</p>
<p>Crer no Outro, os cruzados, as cruzadas, eis o que nos leva à sublimação e&#8230; à destruição via amor cortês; naturalmente há muitos cruzados modernos.</p>
<p>Lacan observa que o perverso “está do lado de que o Outro existe, que é um defensor da fé”.</p>
<p>É preciso também dar seu valor às notações clínicas: tapar o buraco, restituir, suplementar o campo do Outro;</p>
<p>Esse gozo do Outro deve ser aproximado, me parece, desse gozo do corpo como invólucro, como superfície da garrafa.</p>
<p>É à encruzilhada da hipocondria e da perversão que somos conduzidos: <em>a proliferação dos objetos a, “a valsa dos objetos” como indica Lacan, implica, por reversão, na evocação do objeto inanimado, ideal do desejo perverso.</em></p>
<p>Nossas atualidades televisivas põem o tempo todo em relação essas duas bordas: proliferação dos objetos, grande mercado, competição, consumo e depois, bem longe, mas desmesuradamente próximo, a guerra, a fome; o corpo que meu olho envolve ou que me devora.</p>
<p>Sem falar das “escansões” publicitárias: tudo é posto entre parênteses, enquadrado, a marmita fechada sobre o objeto cuja produção é cuidadosamente trabalhada, paga bem caro: espuma de barbear, protetor de calcinha; circulando!</p>
<p>A criação cultural, sobretudo cinematográfica, tende a tornar transparentes os modos usuais da transgressão. Os temas não mudam fundamentalmente – o que sabemos do lado claudicante da vida dos casais ou das famílias – mas o que impressiona é a importância dada ao desvelamento.</p>
<p>Outra dimensão do reviramento: a da cumplicidade, do “certamente, você é também&#8230;”</p>
<p><em>A vertente do amor cortês</em></p>
<p>Lacan insiste muito quanto a um aspecto da sublimação: o lugar do amor cortês.</p>
<p>Idealização do objeto é também <em>inacessibilidade </em>do objeto: a mulher é isolada por trás de uma barreira (de novo a noção de limite, de não ultrapassável); o objeto se despersonaliza, se esvazia de qualquer substância, de tal modo que a tendência, nessa demanda, na poesia cortês, é de ser privado, propriamente falando, de algo de real: esse objeto, diz Lacan, enlouquecedor, esse parceiro inumano; papel de limite que, certamente, nos lembra o que dissemos antes do <em>Nebenmensch</em>.</p>
<p>Estamos aí diante de uma organização artificial do significante, que fixa a direção de uma certa ascese, dá um novo sentido na economia psíquica à conduta do volteio; volteio cuja função é fazer aparecer como tal esse domínio do vacúolo; volteio profundamente marcado pela articulação significante, pois ela contém em si mesma a possibilidade de uma tal mudança: não há novo objeto, nem reencontro com o objeto de antes, <em>mas é na própria metonímia</em> que reside a satisfação.</p>
<p>É nesse ponto que o conceito de sublimação me parece mais operante, mais interessante, pois sentimos bem que a psicanálise se sustenta aí também, nesse espaço, nessa economia do volteio na qual o que é abordado, revelado, é algo que concerne ao gozo, mas também ao desejo, desde que a própria psicanálise não aceite o deslizamento, o deslocamento operado nesse lugar do desejo: pois se Lacan insiste no amor cortês, é que ele é o <em>reliquat</em> de uma ordem antiga, testemunho de uma certa relação com o desejo, e o que é preciso lembrar agora é que, em nossa cidade, o que domina, nos cega, é o <em>amor cristão</em>; o amor cristão deslocou os lugares antigos, o desejo foi empurrado para outro lugar.</p>
<p>Assim, o que é preciso juntar à fórmula “o Outro como terreno esvaziado do gozo” são duas vertentes dessa questão: de um lado, possibilidade de emergência de um certo discurso, ali onde os soldados limparam o terreno; do outro lado, encontro do que eles estavam procurando, um alto grau de perversão, diz Lacan, e a destruição que se segue.</p>
<p>Para ser limpo, foi limpo!</p>
<p>Quero fazer sentir aqui toda a dificuldade desse conceito de sublimação, o fato de que ele nunca opera sozinho.</p>
<p>Freud, em “As relações de dependência do eu” (1923), já insistia no risco da desunião pulsional introduzida pela sublimação: “O componente erótico não tem mais, depois da sublimação, a força para manter junta a totalidade da destruição que se reunia aí, e esta se torna livre como tendência à agressão e à destruição.”</p>
<p>A outra vertente da sublimação em Freud é a obra de arte: a satisfação da pulsão numa produção. Freud insiste no aspecto mercantil da coisa, já que se trata da possibilidade de tornar comerciais os seus desejos.</p>
<p>Para ficar no fio precedente, direi simplesmente que o culto do belo, o estetismo, se acomoda na história, sem dificuldade, com a crueldade mais programada.</p>
<p>Na Ética, Lacan apontava talvez mais a dimensão do objeto <em>criado</em> como significante: a mulher como ser de significantes.</p>
<p>Este seminário insiste mais na irredutibilidade do real da pulsão e na topologia do vacúolo, e conseqüentemente é a questão da fantasia, do S◊<em>a</em>, que fornece o horizonte para os problemas da sublimação e, mais geralmente, do tratamento.</p>
<p>A fórmula de inclusão (“o objeto fricciona das Ding pelo interior”) substitui a função de cobertura, de recobrimento.</p>
<p>Na Ética, Lacan no entanto terminava com uma metonímia muito particular: falando da sublimação como criação significante: <em>comer o livro</em>.</p>
<p>Ele já dizia que o desejo não se achava aí de modo algum liberado, mas, mais sutilmente do que nos períodos precedentes, recalcado na pulsão mais cega, a do saber, e ele visava aí o livro da ciência ocidental.</p>
<p>Creio ter insistido bastante: a sublimação deve ser considerada sem idealização. Ela encontra seu limite em sua própria economia e, por certas bordas, nos desvia de uma justa avaliação do momento do Sujeito, tanto individual quanto coletivo, porque é o mesmo.</p>
<p>Seu lugar em cada estrutura me parece ainda a estabelecer.</p>
<p>Gostaria de terminar, já que é o que Lacan nos propõe, tentando acrescentar à sublimação um vetor possível bastante novo em sua extensão ao corpo social.</p>
<p>Quero falar do <em>“todo-humanitário”</em>, ingerência humanitária, medicina humanitária, direito humanitário&#8230;</p>
<p>Esse “todo humanitário” é, na queda dos ideais, o valor que cresce e <em>ocupa o campo</em>.</p>
<p>&#8211; Em primeiro lugar é um tema recorrente para muitos de nós, à nossa volta, mas quero dizer inclusive na busca do que faria, por exemplo, ponto de ato num tratamento.</p>
<p>&#8211; É um tema fantasticamente mediatizado e, conseqüentemente, glorificado, refratário a qualquer crítica.</p>
<p>&#8211; É um tema heróico (um dos últimos heroísmos nobres); o que não deixa de nos lembrar nossos cruzados, ou antes os Monges cavaleiros (da ordem de São João do hospital na Terra santa), mas também, na mesma época, o leprosário de S. Francisco de Assis.</p>
<p>Não se trata de condenar, nem mesmo de frear iniciativas necessárias, mas simplesmente de ressaltar a <em>valsa dos objetos</em>, como indica Lacan, já que somos permanentemente chamados, nesse limite: aquele em que efetivamente, diante de nossos olhos, nas telas, o corpo do próximo se desmantela.</p>
<p>O que nos traz de volta à questão do declínio do édipo, pois há em Lacan uma insistência na distinção que se deve operar entre a encenação heróica do édipo e o que há de estrutural por trás: o nó de gozo na origem de todo saber.</p>
<p>Explicito um pouco esse atalho: o humanitário é em primeiro lugar um campo que nos reconduz ao corpo, mas passamos à imagem dos corpos, imagem(s) que força(m) automaticamente nosso Imaginário: somos convocados ao lugar dessa “coisa”: campo, canteiro, ruínas, etc.</p>
<p>Naturalmente, há nesse apelo uma certa polaridade do Outro, do Outro grande, pois um valor, um preço moral é atribuído a nossas marcas de indignação, de compaixão, de solidariedade.</p>
<p>Mas nunca podemos ficar quites: a permanência das imagens, suas repetições incessantes, seu circuito desenfreado de um ponto a outro do planeta, parecem dever manter o olho nos objetos macabros. A imagem deve ser sustentada; eu quase diria de uma maneira que cria “dependência”.</p>
<p>A dificuldade é que tudo isso toma sua importância em nome da moral, da ética: você, que está adormecido em seu conforto repugnante, você deve saber! Aliás, estaríamos diante de um certo cruzamento dos discursos?</p>
<p>A ética médica serve de entroncamento, de passagem para discursos cuja autonomia não está assegurada; discurso analítico inclusive.</p>
<p><em>Que lugar dar ao que é agora nomeado “desejo de humanitário”?</em></p>
<p>Podemos dizer simplesmente que ele é o resultado desse deslizamento que evoquei antes, esse deslocamento do amor cortês, tal como Lacan o posiciona, na direção do amor cristão?</p>
<p>Muitos exemplos, muitas denegações podem dar crédito a essa proposição.</p>
<p>A tendência é entretanto que se desligue o humanitário de seu tecido de Caridade.</p>
<p>O engajamento se politizou, no sentido da crítica social e institucional, ele teria de algum modo se laicizado.</p>
<p>O “desejo de humanitário” é uma resposta no oco, no vazio deixado pelo deslizamento do discurso amoroso.</p>
<p>Eu lembrava que a sublimação nunca opera sozinha, e a emergência de um novo discurso deve ser examinada em função de suas relações com as outras vicissitudes do amor e do bem; direito do solo – direito do sangue, imigração zero, higienismo, etc.</p>
<p>A esse respeito, se a idéia naturalmente não é nova, a consagração de uma palavra nova, de um significante novo, o “humanitário”, deve nos fazer refletir sobre a dificuldade de assumir, de assegurar a consistência de nosso próprio discurso.</p>
<p><em>A laicização do discurso humanitário tem seu limite de estrutura: se somos os “uns a mais” que devemos velar pela saúde de todo o planeta, há grande chance de que a aposta numa nova aliança com o Pai seja vencedora. </em>(Podemos às vezes apreciar os excessos do grande porrete quando povos desgarrados recusam obstinadamente a festa fálica estandartizada)<em>.</em></p>
<p>Lacan tentou, eu creio, promover uma posição quanto aos discursos que nos permitiria tratar menos religiosamente nossas pretensas exceções.</p>
<p>Infelizmente, não temos os índices sensíveis da incidência dessa trilha em nossa cidade.</p>
<p>Não adianta nada criticar o Todo humanitário. É preciso compreender por que é que sua ética marca tão profundamente nosso próprio campo, pois, se a psicanálise fica na porta, ela refluirá para o discurso que substancia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/detalhe.asp?cod=76#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup> </a><a href="http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jjtyszler241093" target="_blank" rel="noopener">http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jjtyszler241093</a><br />
Tradução: Sergio Rezende.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os cruzados do universal</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/os-cruzados-do-universal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2015 16:52:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[Os cruzados do universal]]></category>
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					<description><![CDATA[Três anos foram necessários a Scipião Emiliano, helenista célebre, e a suas legiões desinibidas para dominar a cidade da bela Elissa e destruí-la completamente.

O pequeno museu de Cartago deixa no visitante a lembrança alucinada de uma epopéia que ainda fala ao montanhês do lado francês ou italiano dos Alpes. Aníbal e seus trinta e sete elefantes abrindo caminho nas sendas e desfiladeiros.

Como Scipião, o turista, um pouco estupefato, enxuga uma lágrima. Era preciso aniquilar tudo por causa de um porto, atentado sacrílego à potência comercial de Roma?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Jean-Jacques Tyszler</p>
<p><em>DELENDA EST CARTAGO.</em></p>
<p>Três anos foram necessários a Scipião Emiliano, helenista célebre, e a suas legiões desinibidas para dominar a cidade da bela Elissa e destruí-la completamente.</p>
<p>O pequeno museu de Cartago deixa no visitante a lembrança alucinada de uma epopéia que ainda fala ao montanhês do lado francês ou italiano dos Alpes. Aníbal e seus trinta e sete elefantes abrindo caminho nas sendas e desfiladeiros.</p>
<p>Como Scipião, o turista, um pouco estupefato, enxuga uma lágrima. Era preciso aniquilar tudo por causa de um porto, atentado sacrílego à potência comercial de Roma?</p>
<p><em>Bellum justum.</em></p>
<p>Sabemos o quanto a noção de guerra justa impõe novamente sua visão geopolítica ao mundo. Já ressoa a proeza dos soldados que substituem, em nossos corações e nas telas, os médicos sem fronteira. Sustentamos, para esclarecer analiticamente uma atualidade que se acelera, que está em vigor uma nova lógica, que desloca o estatuto da universalidade em relação à particularidade, a singularidade ficando fora do campo. Lacan trabalhou muito com as constantes aristotélicas para fazer surgir Outro em toda representação totalizante.</p>
<p>O “não todo” do feminino dá sua aeração ao “para tudo” do masculino.</p>
<p>O homem acredita conhecer tudo sobre o sexo, sem perceber que está no piloto automático. A mulher não pode dizer tudo, pois seu gozo escapa às vezes das categorias definidas.</p>
<p>Com relação à guerra e à paz, o conceito de prevenção – “pré-crime” como desenvolve um filme recente de político-ficção – ordena uma caça infinita. É aí que o universal, que é antes de tudo o enunciado de uma afirmação, derrapa por não mostrar mais seu limite. O eixo do Mal, caro aos estrategistas americanos, é a guerra das estrelas, o retorno ao sentimento oceânico que se escuta bem no ditado “todos os caminhos levam a Roma”.</p>
<p>Para o espírito forjado na tradição das Luzes, o universal é um progresso, pois sua natureza orienta a coletividade e não somente o indivíduo. Não se trata de modo algum de revisar essa aquisição da civilização, mas de indicar de que modo a mesma palavra pode se revirar em uma mística temível.</p>
<p><em>Bellum justum.</em></p>
<p>Ser um com o Todo, como diz Freud no <em>Mal estar na cultura</em>, é o abandono ao narcisismo ilimitado.</p>
<p>A criança, assim como a criança no adulto, retém das guerras púnicas a indomável figura do homem dos paquidermes e as sílabas que ecoam – Aníbal. Os povos guardam a marca dessas “grandes personalidades de condutor, homens de uma força de espírito aterradora”.</p>
<p>O renovado entusiasmo por Napoleão, hoje, na França, é da mesma ordem: com o tempo, a crítica, até mesmo a ambivalência, dão lugar à idealização terna.</p>
<p>As batalhas, os massacres e as conquistas são um revigorante afugentador de preocupações.</p>
<p>Tudo isto é muito bem descrito por Freud em seu impressionante <em>Mal estar</em>, mas observemos que, com relação a Gengis Khan, ele peca, no entanto, por etnocentrismo. No imenso continente eurasiano, o conquistador mongol é celebrado com um dos homens mais meritórios da história universal. Num meio de povos rudes, ele soube impor uma lei, uma disciplina, uma educação, um código civil e penal. Mostrou-se mesmo tolerante com as religiões dos povos conquistados, cristãos nestorianos, budistas chineses ou muçulmanos.</p>
<p>O unificador das estepes não é menos amável, mesmo com seus costumes, do que Bonaparte, de cuja minúscula bacia de toalete Freud se lembra com humor.</p>
<p>O sacrifício pulsional de cada sujeito instaura um direito superior. Esse longo processo deve ser temperado pela mitologia de nossos devaneios comuns e seus grandes guerreiros.</p>
<p>Quem não brincou de soldadinho quando criança? Em 1930, Freud, numa clarividência quase constrangida, se pergunta se a espécie humana conseguirá dominar a pulsão de agressão e de auto-aniquilação.</p>
<p>Quem decide a boa medida para o uso do canhão? Os mesmos que mostram os dentes no conflito israelo-palestino e pedem o boicote de produtos que se tornaram racistas por serem sionistas, se regalam no restaurante chinês.</p>
<p>Extraordinário relativismo do espírito quando ele faz ressoar as trombetas da justiça! O Tibet está bem longe e sua cultura já fagocitada, exilada na melhor das hipóteses. Entre dois rolinhos primavera, uma lágrima.</p>
<p>O cerne do <em>Mal estar na cultura</em> é ainda e sempre a sexualidade. Embora possa parecer curioso, é analiticamente difícil falar do universal sem evocar, de início, o significante fálico, o falo.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d1">*</a><a name="top1"></a>1</sup></p>
<p>Que algo seja verdadeiro para todo homem, é a lógica fálica que nos ensina: por quê?</p>
<p>Para além de seu simbolismo bem conhecido de etnólogos e antropólogos, o falo é para Freud um operador que junta com uma mão e separa com a outra; reunião do desenvolvimento libidinal em uma aventura em que a inveja do pênis domina quer se seja menina ou menino, dissimetria, no entanto, das circunstâncias do desejo e do gozo.</p>
<p>Lacan, em seu célebre artigo “A significação do falo”, estende o que está em jogo nesse conceito ao indicar que, presente por toda parte, mas velado, o falo é a condição <em>sine qua non</em> de qualquer cadeia significante, de qualquer troca verdadeira, de qualquer palavra plena.</p>
<p>O ponto umbilical da função fálica é sua relação com a questão do pai. A regra comum, o universal comum, o destino humano é para cada sujeito a aceitação de uma falta, de um limite, de um furo na onipotência fantasiada. O significante fálico sublima e subsume essa perda fundadora.</p>
<p>É verdade para cada um e cada uma, mas, como só a exceção funda a regra, Freud presentifica com o mito de <em>Totem e tabu</em> a existência do pai-gozo, chefe de horda despótico e concupiscente.</p>
<p>Mexer com o tema do universal leva a tocar na repartição dos gozos. O exemplo dos grandes ideais da Revolução francesa pode esclarecer a maneira pela qual a lógica política inclui um certo nível de renúncia pulsional.</p>
<p>Em um livro contestado em seu método, <em>Le Roman familial de la Révolution française<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d2">2</a><a name="top2"></a></sup></em>,a historiadora americana Lynn Hunt se autoriza um volteio pelo imaginário fantasmático de um período no qual irmãos executaram realmente o pai.</p>
<p>A questão simbólica da decapitação do rei não é o desenvolvimento mais original, mesmo se as observações relativas às representações da República por alegorias femininas são muito interessantes. Anunciam-se, para quem queira lê-lo assim, os futuros direitos do corpo, tão manifestos hoje em dia, no espaço outrora sacralizado do corpo do Rei-pai.</p>
<p>É antes o destino reservado a Maria Antonieta que não deixa de surpreender.</p>
<p>Nos pensamentos de cada escolar, Maria Antonieta ocupa um lugar nunca desmentido, o da mulher detestável.</p>
<p>Lynn Hunt relaciona a abundante literatura pornográfica que usa a mulher do rei como sujeito durante o fim do Antigo Regime e a Revolução. O Tribunal revolucionário não lhe poupou nada, até mesmo o crime mais vil, o incesto. A acusação foi sustentada por Hébert, o redator do <em>Père Duchesne</em>, e retomada pelos jornais, inclusive gazetas jacobinas, sem a sombra de uma interrogação.</p>
<p>Os panfletos e ensaios enfeitados com gravuras obscenas pululam a partir de 1789, declinando lubricidade e perversões. Essa dimensão de ódio contra a Estrangeira é bem conhecida, mas não seu caráter de aviltamento sexual. É mérito do livro mostrar toda sua amplidão.</p>
<p>A questão que o livro deixa adivinhar se impõe: será que liberdade, igualdade, fraternidade são convenientes para qualquer sujeito da República, sem exceção?</p>
<p>A igualdade das mulheres quanto à propriedade privada trouxe imediatamente alguns problemas. A liberdade não iria ser entendida como um afrouxamento do modelo familiar?</p>
<p>Segundo a historiadora americana, os universais do discurso revolucionário não previam nenhuma singularidade feminina além da materna. Foi provavelmente por isso que as dirigentes dos clubes de mulheres foram tratadas como Maria Antonieta, como Olympe de Gouges, guilhotinada como exemplo de “ser misto”, que subverte a ordem da natureza. Livre em sua fala, a mulher apareceu ébria de gozo: é um dos paradoxos de uma revolução tipicamente fraterna. Não se podia imaginar a mulher toda no processo revolucionário sem lhe atribuir as qualidades de um gozo desenfreado.</p>
<p>Estamos diante não somente de um atraso das consciências, uma simples questão de preconceitos, mas diante de uma verdadeira dificuldade lógica.</p>
<p>Do lado homem, ou cidadão, a exceção foi decapitada. Do lado mulher, ou cidadã, o sensual aparece em toda sua crueza, monstruoso, biface, trangressivo, como se ela fosse a encarnação da escolha forçada entre direito individual aos bens materiais, à propriedade, verdadeiro motor da Revolução, e liberdade da vida sexual.</p>
<p>No <em>Mal estar na cultura</em>, Freud fala longamente do trabalho da culpa após o assassinato do pai e o recalque sexual. Aqui se deve, contra a evidência, por na conta de um certo tratamento do universal, não religioso, mas que se soma à famosa moral civilizada. O retorno do recalcado foi maciço em nossa modernidade. O combate das mulheres foi acompanhado pela liberação de um gêmeo incômodo, o corpo. É ele que tem direitos a partir de agora, é ele que a partir de agora rejeita os limites da sexuação, da procriação, da presença da morte na vida.</p>
<p>Os homens nascem e se mantêm livres e iguais em direito&#8230;</p>
<p>Em sua aparente simplicidade, essa fórmula, freqüentemente remanejada, vem se chocar com o significante da diferença dos sexos.</p>
<p>O especialista em Aristóteles ou na lógica matemática recusará a intrusão de um objeto heterogêneo ao campo estudado. Um dos exemplos <em>princeps</em> de Aristóteles pode facilmente demonstrar a ironia do inconsciente.</p>
<p>A universal afirmativa, nos diz Aristóteles, é “todo homem é branco”, a universal negativa, “nenhum homem é branco”, a particular positiva, “algum homem é branco” e a particular negativa – que vai interessar particularmente a Lacan -, “algum homem não é branco”<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d3">3</a><a name="top3"></a></sup>.</p>
<p>Nada mais simples que o branco&#8230; e o preto. Mas aí se esquece que, para o inconsciente, dizer “todo homem é branco” já é privilegiar um traço distintivo. Todos os homens não estão em “os homens nascem livres e iguais”. <em>Quid</em> do escravo? Será preciso que ele espere ainda um pouco.</p>
<p>Na bela obra dialogada com o pintor Pierre Soulages, <em>Le rythme et la Lumière</em>, Henri Meschonnic relata o famoso erro de tradução que se segue. O Cântico dos cânticos faz dizer à Sulamita-Shoulamit: “negra eu sou bela de ver”.</p>
<p>Um <em>mas</em> aparece na Vulgata: “<em>nigra sum sed formosa</em>”, retomado na versão King James: “<em>I am black but beautiful</em>” e em Lutero: “<em>Ich bin braun aber gar lieblisch</em>”. A Bíblia de Jerusalém vai mais fundo: “eu sou negra e, no entanto, bela”, assim como a tradução ecumênica: “sou negra, eu, mas bonita”.</p>
<p>A tradução de Meschonnic, que apresentamos em primeiro lugar<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d4">4</a><a name="top4"></a></sup>, é a única que restitui o “e” do texto original, presente também na <em>Septante</em>.</p>
<p>Como precisa o poeta-tradutor, não se tratava da questão de uma oposição cultural comum, e mesmo Chouraqui evita a dificuldade propondo: “Eu, negra, harmoniosa”.</p>
<p>É preciso poder ouvir uma dimensão Outra: ““negra eu sou e bela de ver” [ele] diz uma unidade da beleza e do negro, seja qual for o sentido que se dá a negro”.</p>
<p>O inconsciente dos tradutores sucessivos impõe uma lógica das classes ali onde se escrevia uma singularidade.</p>
<p>O leitor lacaniano se irritará por não nos apoiarmos de saída nos avanços que Lacan trouxe nos seminários <em>Sobre um discurso que não seria do semblant</em> e <em>Mais ainda</em>. No que se convencionou chamar de matemas da sexuação, Lacan inventa uma escrita lógica que promove a função do “não todo”. Tudo não é totalizável, a identificação não é a unificação, o universal não engloba a singularidade, a clínica analítica não é uma nosografia acabada, uma mulher não está toda inteira no gozo fálico, etc.</p>
<p>A necessidade de reduzir uma visão totalizante do universal passa, para Lacan, pela clínica, mas também a teoria de dois gozos heterogêneos, um masculino limitado pelo falo, o outro feminino aberto para o Outro.</p>
<p>Será que essa hipótese, de uma audácia inacreditável na história do pensamento, consegue facilmente se confirmar nas modificações da cultura e dos costumes?</p>
<p>A difusão das idéias freudianas não produziu uma nova conjugalidade, uma singularidade desalienante, mas, muito mais, uma clivagem facilmente constatável.</p>
<p>De um lado, o casal continua sendo o terreno privilegiado das paixões clássicas, reivindicação e ciúme. Do outro lado, aparecem condutas “modernas”, vagabundagem sexual, passagem ao ato homossexual, promoção da bissexualidade, sexualidade adictiva e circuito por outras adicções.</p>
<p>A clivagem prolifera ali onde se almejava uma Outra luz.</p>
<p>Será a equivocidade do termo “gozo suplementar”? Será antes o fato de que ao amor pelo universal dificilmente um significante novo faz obstáculo?</p>
<p>Desculpamo-nos por tomar um exemplo que arrisca ser tomado como particularidade. Os acontecimentos no Oriente Médio fazem esquecer algumas lições sobre o tormento do judaísmo diante da questão do universal.</p>
<p>O povo de Israel não é apenas aquele que se tomou pelo filho preferido de Deus, como diz Freud, é também aquele que muitas vezes tentou fazer aceitar uma singularidade no campo do Outro. A <em>Histoire générale du Bund</em>, de Henri Minczeles<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d5">5</a><a name="top5"></a></sup>, conta uma página rapidamente esquecida por nossos contemporâneos. No fim do século XIX, na Rússia, na Polônia, na Lituânia&#8230;, alunos talmudistas saem das escolas rabínicas para se juntarem a um movimento de inspiração social-democrata, leigo e iídichista.</p>
<p>O primeiro grupo se formou em Vilna-Vilnius, em 1870, e esses revolucionários são, em primeiro lugar, apaixonados pela língua; o Comitê do jargão, ou seja, do iídiche, é fundado na mesma cidade em 1895. As condições sociais, a ideologia marxista, o desejo de se integrar sem se assimilar, reuniram milhares de judeus em uma União geral dos operários judeus, o <em>Bund</em>.</p>
<p>Anti-sionista, o <em>Bund</em> vai formar com confiança uma seção autônoma no seio do Partido operário social-democrata da Rússia. A revolução estava em marcha e os ideais mais nobres desvelam rapidamente sua ligação narcísica, seu apego mórbido ao Um, mesmo que aparentemente não religioso.</p>
<p>Em 1903, Lênin publica um artigo assassino denunciando a posição original do <em>Bund</em>: “Visto que é assim que se apresenta a questão judaica, assimilação ou particularismo, devemos sustentar todos aqueles que contribuem para eliminar o particularismo judeu.” Leon Trotski também rejeitou a idéia de qualquer estatuto exogâmico para o <em>Bund</em>.</p>
<p>Nenhuma outra exceção além dos universais da revolução!</p>
<p>Os judeus do <em>Bund</em> tentaram inventar uma palavra, um neologismo para melhor descrever sua dificuldade e continuar a ex-sistir.</p>
<p>A equação desses judeus, cuja lembrança se apaga, se depara com uma incógnita, a singularidade. Eles querem conservar a trama de uma cultura, mas sem nacionalismo; queriam fazer viver sua língua, um jargão, o iídiche, sua poesia, seu teatro; eles desejavam ardentemente participar do Outro, ou seja, de um século que basculava sob seus olhos, aceitando partilhar ilusões retrospectivamente fáceis de criticar.</p>
<p>Será preciso concluir que um traço de singularidade é uma utopia? A posição do <em>Bund</em> foi aniquilada por duas forças mais realistas, marxismo de um lado, sionismo de outro.</p>
<p>Ela era, no entanto, portadora de uma aposta ética – prestar homenagem à língua dos mestres, à filosofia alemã, à literatura russa &#8211; preservando ao mesmo tempo um traço de humor, de derrisão, de crítica. O impossível dessa divisão deveria interrogar o psicanalista, qualquer que seja sua origem identitária. Ela talvez o deixe pensativo, pois fabricar cordeiros é facilitar o trabalho dos lobos. E dizer que há quem considere teu <em>Mal estar</em> pessimista, caro Sigmund!</p>
<p>Se a singularidade tem dificuldade para se escrever, é preciso que estejamos atentos à maneira pela qual alguns representantes do universal, concebidos como utilitários, põem o sujeito a seu serviço, mais do que lhe servem.</p>
<p>Não falamos aqui das ideologias totalitárias, pois sua perversidade é manifesta.</p>
<p>No suplemento de Economia de um grande vespertino, o diretor de estudos econômicos de um banco que o contribuinte teve que socorrer recentemente, autorizava-se uma conclusão que faz arrepiar: “Uma guerra ganha diminuiria o prêmio de risco e, portanto, os juros, e faria subir as Bolsas. Ela introduziria também a baixa do preço do petróleo, movimento já engatilhado, que provocaria, se se confirmasse, um choque de oferta muito favorável à retomada.”</p>
<p>Parece sonho. <em>Bellum justum</em>, eu lhes digo. As relações entre as representações do falo e o dinheiro foram freqüentemente detalhadas na clínica freudiana.</p>
<p>Para o sujeito-cidadão-contribuinte, a moeda é um objeto universal, uma referência necessária e indiscutível. A criancinha aprende muito rápido que uma moeda recompensa o bom dever. A moeda partilha com o conceito do falo um poder simbólico<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d6">6</a><a name="top6"></a></sup>.</p>
<p>Apenas o soberano cunhava moeda, depois os Estados-nações regulam as trocas dentro de suas fronteiras.</p>
<p>A moeda, até o euro, é portadora de um certo número de traços, figura da Nação, evocação de um momento histórico, lembrança de um grande personagem, artista, filósofo, cientista&#8230;</p>
<p>Ela trazia também um extrato do código penal, as assinaturas dos responsáveis pela emissão e a menção do país emissor, por exemplo, República francesa. Qualquer que seja o indivíduo, ele pensa suas necessidades e paga suas dívidas na moeda que se impõe a ele. A idéia de uma moeda universal, acima dos particularismos nacionais, germinou muito cedo no espírito dos monarcas europeus.</p>
<p>Essa ambição consegue se realizar no velho continente, mas estamos pouco atentos aos efeitos concomitantes da instalação de um mercado que desloca o limite disso que doravante é necessário entender por moeda.</p>
<p>Moedas, títulos, notas, cheques, cartões de crédito, a moeda perde sua materialidade; só os analistas exigem consistência a seus pacientes intrigados por esse lado antiquado da troca.</p>
<p>Essa mudança molecular, quase invisível, tem repercussões inesperadas.</p>
<p>As trocas monetárias tornam-se, para muitos operadores, não virtuais, mas suportadas pela fluidez eletrônica; certos economistas, como o prêmio Nobel Friedrich von Hayek<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d7">7</a><a name="top7"></a></sup>, propuseram a teoria das moedas privadas, antecipando o desaparecimento de qualquer referência a uma moeda que transcenda a simples noção de mercadoria. O símbolo seria restituído a seu estatuto de objeto. É fácil adivinhar quais os grandes grupos privados que se beneficiariam do jogo imaginado por esse anarco-capitalista americano.</p>
<p>A dessacralização de um símbolo universal não visa de modo algum a inventar uma singularidade refrescante. Trata-se, bem ao contrário, de fazer de uma particularidade forte um cavalo de Tróia.</p>
<p>Os paraísos fiscais não são locais de piratas, mas o quarto dos fundos dos corsários das finanças. Ou seja, eles operam um serviço comandado. Bancos em regime jurídico vantajoso abrem suas portas na Internet. Quem impedirá amanhã que um grande servidor informático, em estado de quase monopólio, crie sua moeda? Político-ficção?</p>
<p>Tranqüilizemo-nos, o paciente, nostálgico como o analista, ainda encontra um pagamento <em>made in Vienna</em>.</p>
<p>As guerras e revoluções, e mais simplesmente as grandes mutações sociais, produzem o que se convencionou chamar de identificação de massa. Somente um paizinho dos povos pode galvanizar um exército para que ele não ceda nem mais um palmo. E é Estalingrado. Julgamos no<em> a posteriori</em> do escândalo ou do heroísmo em ação na hipnose coletiva.</p>
<p>Cada momento maior da história de um país manipula a histeria epidêmica e, como se estivesse destacada da multidão, a memória de alguns.</p>
<p>Freud não deixou receita para se manter afastado dos fenômenos de identificação mais brutais e mais miméticos.</p>
<p>Temos insistido na maneira pela qual uma visada com pretensão universal cria mecanicamente seu refugo. Os períodos caóticos deixam pouco espaço ao traço de singularidade, pois sua lógica, que não é binária, desconcerta, irrita, ofende.</p>
<p>Se vocês não são a favor da guerra, vocês são contra a Nação. Se vocês não são a favor do Partido, vocês são contra a marcha da história. Se vocês não são de esquerda, vocês são de direita.</p>
<p>Lacan almejava fazer do amor ao pai uma questão possível de trabalhar, dessacralizada, analisável como um sintoma. As formas atuais do religioso falam da urgência da tarefa, mas o cinismo dos modelos econômicos em voga joga lenha na fogueira. Por que é que o “jovem de subúrbio” recusaria o dinheiro sujo se o próprio Estado organiza um caixa dois desconectado de qualquer moral pública?</p>
<p>Dupla face dos ideais não mais republicanos, mas democráticos; cada um, se tem poder para isso, pode a partir de agora influir sobre a moeda e, como no cassino, multiplicar sua aposta. Não precisa mais ler teses de economia para saber disso. Para um jovem desgarrado, o apelo ao pai rigoroso evita a canalhice. Ele não vacina contra as loucuras identitárias.</p>
<p>A leitura dos livros escritos por juízes sobre a delinqüência financeira dá vertigem. Querem que fechemos um olho ou que fechemos os dois?</p>
<p>A doutrina dos países mais ricos do planeta pode ser declinada em duas vertentes. Regra universal: na economia de mercado, é normal que empresas morram e que outras enriqueçam; regra particular: alguns são <em>too big to fall</em> – grandes demais para ir à falência.</p>
<p>Aí, ainda, é a noção de clivagem que poderia nos ajudar a ler melhor entre as linhas.</p>
<p>O marquês de Sade publica, em 1795, um vigoroso ataque aos princípios da Revolução. A historiadora Lynn Hunt consagra um capítulo à “política familiar de Sade” decifrada n’A <em>Filosofia na Alcova</em>.</p>
<p>A noção de fraternidade, levada a seu extremo, faz Sade vislumbrar, para além da comunidade das mulheres e da celebração da homossexualidade, o próprio desaparecimento das diferenças sexuais. Essa revolução da identidade “de gênero”, como devemos dizer agora, teve que esperar os progressos médicos para conseguir ultrapassar seu estatuto fantasmático.</p>
<p>“Ao promover esses comportamentos, Sade demonstra, de fato, as contradições entre o ideal de fraternidade, levado a seu extremo lógico, e a idéia de sociedade [&#8230;] não há mais então conceito de filiação legítima, de relações de parentesco claramente definidas, de casamento enquanto instituição social, nem mesmo diferenças entre homens e mulheres<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d8">8</a><a name="top8"></a></sup>.”</p>
<p>Para a historiadora americana, Sade dá corpo à possibilidade de uma ordem social desprovida de todos os sentimentos sociais, espantoso desfecho para os ideais da Revolução.</p>
<p>Os irmãos, contrariamente à previsão de Freud, não têm nenhum sentimento de culpa em sua sociedade sem pai.</p>
<p>Essa hipótese tem o interesse de interrogar a matriz da exceção francesa em sua pretensão a encarnar o universal como tal.</p>
<p>A Declaração universal dos direitos do homem, proclamada pela Assembléia geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, retoma, é verdade, a Declaração dos direitos do homem e do cidadão, de 26 de agosto de 1789, dando a ela um alcance de ideal para o mundo inteiro e para a eternidade: “A Assembléia geral proclama a presente Declaração universal dos direitos do homem como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações&#8230;”.</p>
<p>Estamos tão habituados a essa identificação coletiva, que esquecemos dela em nossos julgamentos peremptórios sobre os conflitos que comentamos, mas o escolar francês assimila qualquer história à história única de seu país e qualquer momento ao momento único fundador dos grandes princípios. A exceção não é mais o pai do gozo ou o rei, mas o próprio acontecimento, modelo de qualquer acontecimento futuro.</p>
<p>O multiculturalismo americano é um absurdo para o estudante da <em>École normale supérieure</em>, o federalismo de alguns países da Europa, um erro ou um atraso. Será que somos sem culpa e convencidos de uma singular superioridade?</p>
<p>Atribuímos mais facilmente esse traço ao amigo americano, mas seu hegemonismo, econômico e militar, encobre a beleza de nossa exceção.</p>
<p>Para o inconsciente, a República fundada pela Revolução francesa é um mito; Para o historiador François Furet, tudo o que se seguiu na história moderna, como a revolução russa, é a repetição dessa utopia provisória e motivo para lendas. O Terror seguramente não está sem motivo na assunção desse símbolo tornado carne.</p>
<p>A fascinação do olhar e da voz foi freqüentemente evocada para explicar a conjunção de um personagem com o significante do ideal.</p>
<p>Nesse momento privilegiado, a hipnose atinge seu máximo e os livros de história guardam por muito tempo a marca de uma identificação transgeracional.</p>
<p>François Furet<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d9">9</a><a name="top9"></a></sup> explicita muito bem o trajeto do olhar, que faz de Robespierre, “homem sem interesse”, a nova vontade geral, o novo soberano. O povo recorta a identificação de massa em uma série de seções revolucionárias e outros clubes, série reduzida, ela própria, a um traço distintivo, a Convenção, depois o Comitê de salvação pública.</p>
<p>Robespierre, homem sem gravidade, e não Mirabeau, “tempestade e vulcão”, segue e encarna a junção dessas identificações, portador do objeto que o olhar da Revolução escolheu para si como estando conforme a seu ideal. Transparência do universal.</p>
<p>A confusão entre particularidade e singularidade, que evocamos a propósito do <em>Bund</em>, confusão sempre repetida pelos pensadores marxistas, fez do espírito francês um defensor apaixonado da unidade contra qualquer federalismo.</p>
<p>Não se trata aqui de voltar à aposta necessária de ultrapassar o narcisismo das pequenas diferenças. O recuo pusilânime ao nível regional ou local tem muito cheiro de direito do sangue: o primeiro turno da eleição presidencial deveria nos vacinar contra um raciocínio vicioso, mas contagioso: “prefiro minha filha a sua prima, a prima à minha vizinha, a vizinha”, etc.</p>
<p>O que aqui faz questão é o mito de um universal imortal, infinito e redondo como a famosa síndrome de Cottard das melancolias cronificadas. Para esse universal seria preciso encontrar um nome, um neologismo. Em seu tratado sobre as <em>Categorias</em>, Aristóteles diz: “Às vezes talvez seja necessário forjar uma palavra, se não existe palavra disponível que forneça uma resposta apropriada à questão do relativo, por exemplo: se para ‘timão’ damos ‘de barco’, a resposta que damos não será apropriada; com efeito, não é enquanto ele é barco que o timão é dito dele, pois existem barcos que não têm timão&#8230; Mas talvez a resposta fosse mais apropriada se déssemos mais ou menos a seguinte: que o timão é timão de um timoneado, ou algo assim – pois não existe nome disponível<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d10">10</a><a name="top10"></a></sup>.”</p>
<p>Proponhamos o universal de uma univers-ela-toda<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#d11">11</a><a name="top11"></a></sup>. Fecundando a lógica de Aristóteles, Lacan pôde escrever a singularidade de um “não todo”, mas, na falta de uma invenção significante, essa singularidade se bate ordinariamente contra a parede do universal ou dá à luz uma desagradável clivagem. A universal-toda não é a universalidade. A singularidade não pode se inventar e viver sem as palavras.</p>
<p>Talvez seja nesse lugar que o paradigma do gozo feminino, que não se pode dizer, faça enigma demais.</p>
<p>Os judeus do <em>Bund</em> inventaram um neologismo em iídiche, <em>Doykayt </em>– ou <em>Do-i-kayt</em> -, que significa “estar aí, ficar no lugar, lutar no lugar”. Eles não eram nem estrangeiros, nem exilados perpétuos, nem mendigos.</p>
<p>No primeiro número do periódico <em>Der Bund</em>, publicado em 1904, a profissão de fé de uma singularidade encastoada no universal se dizia assim: “Nós não somos estrangeiros nem convidados, mesmo que o governo nos considere como tal&#8230; A riqueza deste país está impregnada com nosso sangue. Lutamos pelo que nos pertence, pela obtenção de nossos direitos humanos, cívicos e políticos. Esse país é o nosso. Vivemos aqui há centenas de anos. Estamos ligados a ele por milhares de laços. Ele nos pertence assim como pertence aos poloneses, aos lituanos e a todos os povos que aqui habitam.”</p>
<p>Ficou difícil fazer uma criança admitir que um traço de identidade não é necessariamente religioso.</p>
<p>O neologismo forjado pelo <em>Bund</em> – a <em>Doykayt</em> – levou longe o militante das Luzes.</p>
<p>Apesar do anti-semitismo assumido da República dos coronéis, o <em>Bund</em> polonês recusou energicamente a posição dos sionistas.</p>
<p>Ele não se unirá, em 1929, aos protestos indignados da comunidade judaica quando dos ataques árabes contra as colônias judias na Palestina, designando como responsáveis os britânicos e os sionistas da diáspora. O militante das Luzes não se resignou a olhar o anti-semitismo de um ponto de vista especificamente judeu. Cada leitor da obra de Henri Minczeles fundará seu julgamento.</p>
<p>A esperança de uma singularidade é apenas ingenuidade?</p>
<p>As linhas de força que Sigmund Freud desdobra na <em>Psicologia das massas</em> e no <em>Mal estar na cultura</em>induzem uma certa perplexidade.</p>
<p>Em Praga, Varsóvia, mas também em Veneza e muitas outras cidades, o viajante apressado admira o gueto-museu sem se dar conta de que um traço realmente desapareceu de uma Europa apaixonada pela universalidade.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top1"><sup>1.</sup></a><a name="d1"></a>Em <em>Lacan lecteur d’Aristote </em>(Ed. da Association freudienne), Pierre Christophe Cathelineau mostra de modo excelente como se estabelece a conexão entre função fálica e idéia de universalidade (cf. cap. 11 e 12).<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top3"><sup>3.</sup></a><a name="d3"></a>Ver ainda, a esse respeito, o livro de P.-C. Cathelineau, cap. 11, e também Aristóteles, <em>Categories</em>, apresentação, tradução e comentários de Fredérique Ildefonse e Jean Lallot, Seuil, 2002.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top4"><sup>4.</sup></a><a name="d4"></a>“Le chant des chants”. in <em>Les Cinq Rouleaux</em>, Gallimard, 1970.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top5"><sup>5.</sup></a><a name="d5"></a>H. Minczeles, Histoire générale du Bund, Denoël.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top6"><sup>6.</sup></a><a name="d6"></a>9 M. Aglietta e A. Orlean. <em>La violence de la monnaie</em>, PUF, 1982, e também Cyril Demaria, <em>Monnaies et finances dans les ensembles géopolitiques</em>, DEA de Geopolítica, 1996-1997.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top8"><sup>8.</sup></a><a name="d8"></a><em>Le Roman familial de la Révolution française</em>. cap. 5.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top9"><sup>9.</sup></a><a name="d9"></a>Ver particularmente suas últimas obras, <em>Le Passé d’une illusion </em>e<em> Fascisme et communisme.</em><br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top10"><sup>10.</sup></a><a name="d10"></a>Cap. VII, trad. citada.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top11"><sup>11.</sup></a><a name="d11"></a>N.T. – Em francês, <em>univers-elle-toute</em>, desdobramento de <em>universelle-toute</em>, toda-universal.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/os-cruzados-do-universal?cod=63#top0">*</a><a name="d0"></a><em>Les Croisés de l’universel – </em>in <em>La Célibataire</em><em> – volume 7 – Printemps 2003</em><br />
Tradução: Sergio Rezende</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Objeto clínico não identificado</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/objeto-clinico-nao-identificado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2015 16:49:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[Objeto clínico não identificado]]></category>
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					<description><![CDATA[Nos anos 80, os estados-limites suscitavam o entusiasmo dos professores de psiquiatria, na medida em que eles encontravam aí um encorajamento para o trabalho de demolição de toda a nosografia clássica.

A apresentação de Henri Rousselle em Ste.-Anne, nessa mesma época, tomou a contramão desse desprezo de uma clínica mais detalhada e de uma troca séria com o paciente.

Sabemos que Lacan, por sua vez, quando de suas apresentações no serviço de Daumézon, nunca recorreu a essa terminologia vinda de uma corrente analítica que ele combatia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Jean-Jacques Tyszler &#8211; 04/04/2005</p>
<p>Nos anos 80, os estados-limites suscitavam o entusiasmo dos professores de psiquiatria, na medida em que eles encontravam aí um encorajamento para o trabalho de demolição de toda a nosografia clássica.</p>
<p>A apresentação de Henri Rousselle em Ste.-Anne, nessa mesma época, tomou a contramão desse desprezo de uma clínica mais detalhada e de uma troca séria com o paciente.</p>
<p>Sabemos que Lacan, por sua vez, quando de suas apresentações no serviço de Daumézon, nunca recorreu a essa terminologia vinda de uma corrente analítica que ele combatia.</p>
<p>Hoje, em nossa prática psiquiátrica, esse termo estado-limite, <em>borderline</em>, aparece com uma freqüência alarmante nas comunicações e testemunha o desamparo atual na formação dos clínicos.</p>
<p>Que objeto clínico trata-se de identificar com esse termo?</p>
<p>Tentaremos situá-lo através dos escritos de alguns de seus promotores: Otto Kernberg, Margaret Little, André Green.</p>
<p>Essa noção de estados-limites vem da corrente psicanalítica americana e remete às dificuldades encontradas no tratamento de alguns pacientes, principalmente nas manifestações da transferência.</p>
<p>Para O. Kernberg (Os distúrbios limites da personalidade, As personalidades narcísicas), existe realmente uma organização psíquica estável, específica, que responde a essa terminologia. Suas referências são as da psicologia do eu e da teoria da Relação de objeto, próprias da corrente anglo-saxã. No plano clínico, ele observa com esses pacientes uma <em>psicose de transferência</em>, que se distingue nitidamente da transferência na neurose.</p>
<p>No plano sintomático, esses pacientes apresentam uma angústia flutuante, difusa, um conjunto de sintomas neuróticos: fobias múltiplas, particularmente sociais, sintomas de conversão, fugas histéricas, amnésias e distúrbios do comportamento, especialmente alimentar e sexual.</p>
<p>Além das personalidades impulsivas, toxicômanas e das estruturas depressivas sadomasoquistas, observa-se ainda traços de personalidade que remetem a estruturas pré-psicóticas clássicas, como personalidades paranóides ou esquizóides e organizações ciclotímicas.</p>
<p>Enfim, o estudo da personalidade conhecerá um desenvolvimento mais particular nesses distúrbios sob o conceito de <em>personalidade narcísica</em>.</p>
<p>O autor se referirá também a um ponto de vista estrutural, mas no sentido de Rapaport e de suas concepções sobre o eu, considerado como uma associação de estruturas e processos mentais. A importância é dada aqui às estruturas cognitivas e defensivas da personalidade. É considerada a fraqueza do eu, traduzida por uma falta de tolerância à angústia e de controle pulsional. O privilégio é dado então, na constituição identificatória dessa instância, às imagens precoces.</p>
<p>O principal mecanismo defensivo próprio dessa estrutura será o de clivagem, clivagem do objeto em bom e mau. Serão realçados também outros mecanismos de defesa específicos, tais como a idealização primitiva, a identificação projetiva e o desmentido.</p>
<p>Enfim, no tratamento desses pacientes, é do ponto de vista da transferência e sobretudo da contra-transferência que se revelarão as particularidades dessa população. Para</p>
<p>O. Kernberg, no encontro com um paciente desses, o eu do analista é remanejado. De um lado, pelo menos, ele sofre uma regressão que pode levar a identificações projetivas. Face a essa intromissão de um eu sobre o outro, seria preciso então enfocar uma terapia interpretante, terapia em que tudo seria interpretado sem equivocidade.</p>
<p>Do lado do paciente, a psicose de transferência se traduziria por uma perda da prova de realidade e idéias delirantes que incluem o terapeuta.</p>
<p>Essa concepção da transferência é dominada por aquela de um processo identificatório, ele próprio fundado exclusivamente numa relação imaginária do eu ao outro, o semelhante. Na transferência, é então a realidade da personalidade do analista que vai determinar o universo inteiro do paciente (referência aqui a H. Searles). Insiste-se então aqui não na assimetria na transferência, mas numa relação dual eu a eu.</p>
<p>Na prática, é então o apelo à consciência que vai dominar o debate analítico, na medida em que esse eu é exclusivamente considerado como uma instância adaptativa</p>
<p>à realidade (Psicologia do Ego) desembaraçada de sua referência, no entanto essencial, ao narcisismo, em Freud. Privilégio dado então à dimensão imaginária da transferência, característica nessa concepção dos estados-limites.</p>
<p>Margaret Little ( A transferência nos estados <em>borderline</em>), que se inscreve na filiação de Winnicott, em face das dificuldades encontradas no tratamento desses pacientes, propõe-se a por em ato o “holding”, ou seja, restituir, por certos gestos, uma dimensão da maternagem que pode ter faltado ao paciente na sua tenra idade. Tais intervenções na realidade seriam um pré-requisito para esses pacientes, antes de utilizar as interpretações verbais, em face das manifestações de angústia psicóticas e das idéias delirantes que aparecem na transferência.</p>
<p>Enfim, André Green (A loucura privada, Psicanálise dos casos limites) propõe uma via mediana, entre as concepções de Searles ou de Kernberg e a de Lacan, referindo-se a um debate que foi inaugurado já no tempo de Freud com Ferenczi.</p>
<p>A importância dada aos traumatismos da primeira infância leva a considerar que os pacientes marcados por eles são estruturados por conflitos bem diferentes daqueles dos neuróticos habituais. Seria preciso então atribuir, no tratamento, a preeminência ao vivido ou se manter fiel às regras da interpretação? É a questão dessas categorias ditas limites.</p>
<p>Referindo-se ao caso do Homem dos lobos, Green isola um certo número de mecanismos específicos, em cujo primeiro plano se encontra, aí também, a clivagem. Clivagem psíquica entre o domínio do afetivo e o do pensamento. Oscilação, nesses sujeitos, entre comoções intensas que traduzem a manutenção dos mais variados e mais contraditórios investimentos libidinais e, por outro lado, uma lógica impecável de pensamento.</p>
<p>Além dessa clivagem, outros mecanismos de defesa vão especificar esse estado: uma defesa pela somatização (que não é conversão), a expulsão pelo ato e pelo desinvestimento como expressão primária. Lembremos, em Green, sua noção de “psicose branca”: “Hipocondria negativa do corpo e mais particularmente da cabeça, impressão de cabeça vazia, de buraco na atividade mental&#8230; assim como ruminações, pensamentos compulsivos, divagações sub-delirantes”.</p>
<p>Mas finalmente chegaremos, também com esse autor, às noções de fusão primária e indistinção entre sujeito e objeto. Ele insistirá na importância do limite para todo sujeito, evocando diferentes formas de limites mais ou menos permeáveis como o medo, o tecido cutâneo, ou tudo o que pode fazer superfície, envoltório psíquico, para um sujeito, e organizar sua relação ao objeto.</p>
<p>Em conclusão, o conceito de estado limite representa bem uma seqüência clínica lógica das concepções veiculadas pela Psicologia do Ego, de um eu forte, e das teorias da transferência-contra-transferência, reduzidas a uma relação dual de eu a eu, concepções que vieram desviar o aporte freudiano, bem antes de contestar as elaborações de Lacan, que na maioria das vezes eles ignoram. A proliferação dos estados-limites hoje em dia nos demonstra os limites de uma certa orientação, tanto prática quanto teórica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/detalhe.asp?cod=77#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup> </a>NT – Para ler o texto original, em francês:<br />
<a href="http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jtyszler040405" target="_blank" rel="noopener">www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jtyszler040405</a><br />
Tradução: Sergio Rezende</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Um e o objeto na psicose</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/o-um-e-o-objeto-na-psicose/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2015 16:48:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[O Um e o objeto na psicose]]></category>
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					<description><![CDATA[A coagulação e a fragmentação são dois termos utilizados em probabilidades; a palavra muitas vezes usada ao invés de coagulação é coalescência.

A dificuldade para dar conta da clínica e da prática no campo das psicoses deve-se a um problema que pode ser pensado a partir desses dois termos extraídos do universo das matemáticas.

É estruturalmente impossível, em nossa apreensão do fato clínico, identificar ao mesmo tempo o processo de unificação próprio à psicose, o processo tão característico do 1 preenchedor e totalizante, tão perceptível, por exemplo, no que chamamos desde De Clérembault de ‘psicoses passionais’ e, mais geralmente, de passional na psicose – fazer Um no lugar do Outro, Um no Outro – é impossível identificar esse fato maior ao mesmo tempo que o trabalho hipocondríaco do objeto, na língua, no corpo e nas passagens ao ato do paciente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p align="left">Jean-Jacques Tyszler</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A coagulação e a fragmentação são dois termos utilizados em probabilidades; a palavra muitas vezes usada ao invés de coagulação é coalescência.</p>
<p>A dificuldade para dar conta da clínica e da prática no campo das psicoses deve-se a um problema que pode ser pensado a partir desses dois termos extraídos do universo das matemáticas.</p>
<p>É estruturalmente impossível, em nossa apreensão do fato clínico, identificar ao mesmo tempo o processo de unificação próprio à psicose, o processo tão característico do 1 preenchedor e totalizante, tão perceptível, por exemplo, no que chamamos desde De Clérembault de ‘psicoses passionais’ e, mais geralmente, de passional na psicose – fazer Um no lugar do Outro, Um no Outro – é impossível identificar esse fato maior ao mesmo tempo que o trabalho hipocondríaco do objeto, na língua, no corpo e nas passagens ao ato do paciente.</p>
<p>Naturalmente, quando falamos de nossos acompanhamentos, e num louvável esforço de sistemática, estamos no reconhecimento: ordenamos os elementos linguageiros como fenômenos elementares da psicose, esses últimos com a produção delirante, enfim essa ‘tentativa de cura’, como dizia Freud, com o conjunto dos distúrbios do agir. Reencontramos com satisfação, capítulo a capítulo, o seminário sobre as estruturas freudianas das psicoses mas, acreditando reconhecer, não identificamos mais nenhum impossível em nosso saber e em nossa leitura; não nos deixamos guiar por nenhum traço propriamente falando novo, inaudito, inusitado. Nada se inventa mais, tudo só faz se verificar, fantasia de uma clínica acabada e claramente visível.</p>
<p>Essa dificuldade de uma clínica que é, como a luz, onda e corpúsculo, e que, por isso, desafia nossa apreensão redutora do olhar, é observável nos grandes debates e disputas sobre a nomeação da casuística e da nosografia. Quando De Clérambault nomeia a erotomania dando-lhe a força da escrita, seus colegas e amigos se insurgem, querendo reduzir a ‘descoberta’ ao saco bem conhecido dos amores delirantes.</p>
<p>Quando Cotard descreve sua famosa síndrome, será necessária a autoridade de Seglas para dar valor a essa forma de negação jamais repertoriada como tal até então. Quando Lacan fala em sua tese de paranóia de autopunição, ele não hesita em fundar uma tipologia cuja pertinência não se deve à estatística.</p>
<p>A nomeação clínica é um tempo de coagulação, ali mesmo onde a fragmentação e a atipicidade são sempre a regra.</p>
<p>Trata-se a cada vez das ‘ficções’, no sentido forte de J. Bentham, ou seja, uma maneira de ligar um real, eminentemente instável e difratado, a uma escrita.</p>
<p>Essa clínica das psicoses, para sempre dividida entre onda e corpúsculo, é, ao mesmo tempo, a decomposição em espectro da própria transferência. Eu os remeto aos dois trabalhos, já ‘clássicos’, de Marcel Czermak, que analisa, através de histórias clínicas cuidadosamente desdobradas, a maneira pela qual os elementos comumente enodados na transferência se decompõem, cada qual por sua própria conta.</p>
<p>Bem esperto, em todo caso, o clínico que pode dizer quando é que se trata de uma mania ou de uma paranóia; seguindo o significante, ele ignora forçosamente a imagem; apoiando-se no especular, ele libera o eco parasitário; convocando o nome, ele desencadeia a sua revelia o objeto&#8230;</p>
<p>Coagulado em relação a uma transferência, o paciente é ao mesmo tempo fragmentado em lugares, cada um Outro para o Outro.</p>
<p>Deve-se, no entanto, renunciar, baixar os braços diante de formas tão desconcertantes da transferência?</p>
<p>A hipótese de trabalho que proporei é paradoxalmente a seguinte : no acompanhamento dos psicóticos, cada termo da teoria analítica – que antes de tudo é <em>práxis</em> – pode ser um operador.</p>
<p>A condição é dar a essa palavra operador a riqueza que lhe dá Lacan quando se apóia nas três dimensões do Real, do Simbólico e do Imaginário.</p>
<p>Um operador é um significante que abre à triplicidade – Real, Simbólico, Imaginário – única garantia de uma transmissão que não seja puramente intuitiva.</p>
<p>Essa questão está presente no início das discussões entre Freud e Karl Abraham.</p>
<p>Freud critica amistosamente, mas firmemente, a tendência explicativa demais de Abraham :</p>
<p>“O erotismo anal, o complexo de castração&#8230; são fontes de excitação ubiqüitárias e assim fazem parte integrante de qualquer síndrome patológica. Elas dão ora nisso, ora naquilo; &#8230; a explicação da afecção não pode ser dada senão por seu mecanismo considerado de um ponto de vista dinâmico, tópico e econômico.”</p>
<p>Tomemos alguns operadores :</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">A pulsão </span></p>
<p>O caso mais exemplar recentemente para mim, não se trata de um acompanhamento de consultório, mas de um acompanhamento de CMPP, Centro médico psicopedagógico; eu substituí, quando cheguei ao CMPP, uma colega que dava suporte, desde a infância, a um rapaz que tinha agora 19 anos e que estava no ano do vestibular com dois anos de atraso. Este jovem apresentava uma psicose infantil cujo relevo tinha se atenuado durante os anos de apoio encontrado, tanto do lado psicológico, quanto do pedagógico, mas sua relação com o Outro e com os outros era marcada por uma ambitendência nítida, uma depressividade às vezes alarmante e um negativismo total diante de certas matérias escolares, em particular a matemática; ele esquecia quase tão rápido quanto aprendia, para grande desespero de sua avó professora de matemática.</p>
<p>Contra ventos e marés, a colega responsável por seu acompanhamento lutou para manter essa criança já crescida no quadro escolar, já que as ‘suplências’ familiares o autorizavam.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ao assumir a responsabilidade do caso, fui igualmente informado de um fato que se passara em silêncio, até então, com esse jovem: ele tinha desenvolvido, sozinho e em segredo, há alguns anos, um talento para a fotografia que lhe tinha permitido fazer, com brilhantismo, concurso em duas escolas especializadas de Paris.</p>
<p>A qualidade de seu trabalho era tal – ele tinha ‘<em>press-books</em>’ – que, a princípio, os júris das escolas suspeitaram de uma montagem, de uma ajuda profissional, e tentaram pegá-lo&#8230;</p>
<p>Ele se tornou a coqueluche de sua escola, cujo diretor foi parabenizado por ter protegido um talento freado por uma clínica bastante adversa. (Na verdade, a cada ano, o CMPP tinha que batalhar com a instituição escolar para que esse jovem não fosse mandado embora&#8230;). É certo que aqui a função do olhar assume, de maneira quase isolada, uma ‘super-especificação’ que vai permitir uma saída imprevisível quanto à orientação escolar e à entrada na vida ativa; e quanto à transferência? Nem déficit, nem desespecificação, ou antes, resposta inesperada ao que se passa em outros registros no modo átono e desafetado tão próprio à psicose.</p>
<p>Eu me recordarei por muito tempo de seu sorriso brilhante quando ele tirava de sua pasta as fotos encomendadas por uma grande marca de alimentos: tornar vivos/desejantes os objetos de consumo mais comuns é uma experiência que eu não pensava estar disposto a aceitar. Aqui o caso é favorável, mas esse pode também ser o caso da psicótica relatada por Marcel Czermak, cuja suplência é um voyeurismo perverso.</p>
<p>Posso aproximar desse exemplo o jovem cujo distúrbio característico da identidade sexual eu evoquei durante as jornadas da <em>Association</em> sobre o tempo. Vivendo-se desde sempre do lado das meninas, e ‘enjoado’ de sua imagem no espelho, esse jovem paciente cristalizou uma identificação imaginária a uma atriz; por volta dos 12 anos, ele se detém diante da beleza dessa atriz mestiça de olhos cativantes e voz inesquecível.</p>
<p>Colapso da voz e do olhar, talvez também do nome próprio, tudo bascula e nosso paciente se sonhará, a partir de então, na pele dessa mulher.</p>
<p>« Sinto-me mais à vontade no seu corpo; sinto-me bem <span style="text-decoration: underline;">em sua pele de ela</span> ».</p>
<p>Não é simplesmente a tendência feminizante que eu gostaria de ressaltar, mas, assim como para o primeiro paciente, a impossível entrada no símbolo, em francês e em matemática; o raciocínio lógico que o colocava em dificuldades na escola. Eu o confiei a uma foniatra que trabalhou muito com ele as questões de ortografia, de gramática e mesmo da grafia das letras.</p>
<p>Esse duplo acompanhamento aliviou muito sua tendência à sensitividade e ao derrotismo com fundo de impasse subjetivo: não tenho lugar, sou sem lugar&#8230;</p>
<p>Forma do trabalho destacado da letra, por sua própria conta, de algum modo, nas avenidas da linguagem estruturada.</p>
<p>A tendência transexualista desse jovem paciente tomou uma tonalidade de latência.</p>
<p>Provavelmente ela retomará seu curso, pois ninguém pode, artificialmente, suturar a imagem e o objeto.</p>
<p>Em compensação, a vertente sensitiva, paranóica, pôde se aliviar, o que não é nada, quando se conhece a tendência regularmente passional do transexualismo psicótico cristalizado.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">O significante</span>: nas psicoses, enfatizamos, com razão, a redução do significante ao signo, da equivocidade à univocidade mortífera.</p>
<p>Mas para alguns pacientes, os casos mais favoráveis, uma certa disponibilidade é incontestável no trabalho do significante (cf. Joyce em <em>Le sinthome</em>). Eu evoquei amplamente, para o colegiado de formação dos analistas, o acompanhamento dessa paciente filósofa, especialista em fenomenologia alemã, crítica de arte e de literatura. Sua psicose interpretativa, inserida na paranóia de um pai, não deixa nenhuma dúvida, mas esta jovem mulher pode escrever, até certo ponto, sobre Kertesz, preparar um ensaio sobre os <em>Tags</em>, produzir artigos sobre o escultor Zadkine&#8230;, nada de delirante nisso tudo e, muito ao contrário, toda uma série de questões surpreendentes sobre a arte moderna, “a ideologia do extremo contemporâneo” dos artistas de hoje, ou esses intrigantes “procedimentos de avaliação”, que exigem a presença de público no momento em que a obra artística é fabricada.</p>
<p>Criação participativa; forma de transitivismo que J. Bergès não realçou e sobre as quais ela reflete. Não posso descrever em detalhe as pistas através das quais essa paciente me conduz; a direção da cura não deixa nenhuma dúvida, mas não no sentido em que entendemos habitualmente.</p>
<p>Ela interroga amplos aspectos da arte que se faz nos países recentemente liberados do totalitarismo, com uma pertinência e uma perseverança incríveis: de que maneira os artistas codificaram suas obras por ocasião das monstruosidades do século XX? O que é que a entrada a passos largos na dita democracia e na economia liberal produz?</p>
<p>Estaríamos numa fantástica amnésia de identidade, disfarçada em uma “arte renovada”, que não se volta nem para a contemplação nem para a abstração?</p>
<p>Ela compartilha o gosto do autor de « Ser sem destino<em> »</em> quanto aos autores/leitores da <em>Mitteleuropa</em>.</p>
<p>« De um lado o poder inapreensível, irônico, átono, indecifrável ; de outro, a pusilanimidade, o conformismo, a tragédia grotesca e visível que enclausura as pessoas”.</p>
<p>Eu não diria a seu respeito, por outro lado, que ela « quebra pelo interior os limites da língua”, pois essa invenção não está disponível para ela; ela chega ao limite de sua estrutura, cavando as metáforas e os neologismos poéticos ao ponto de se quebrar a si mesma. Então, tratar-se-ia de milagre? Enodamento pela escrita, muito, e transferência, um pouco, de uma psicose evidente?</p>
<p>Pois bem, não, pois pelas razões evocadas como preâmbulo, quando essa paciente está no meio de sua produção de idéias, e bem paralelamente, o Um e o objeto prosseguem seu “Ser sem destino”: episódio erotomaníaco em determinado momento, desmoronamento persecutório em outro.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">O <em>topos</em>, o lugar </span></p>
<p>Georges Perec expôs em <em>Récits d’Ellis Island</em> a maneira como ele vê a relação com sua filiação, com sua identidade: “Em algum lugar eu sou estrangeiro em relação a algo de mim mesmo; em algum lugar eu sou “diferente”, mas não diferente dos outros, diferente dos “meus”. Eu não falo a língua que meus pais falavam, eu não compartilho nenhuma das lembranças que eles puderam ter, algo que era deles, que fazia com que eles fossem eles, sua história, sua cultura, suas esperanças, não me foi transmitido”. Ele vai inventar, como sabemos. Mas o que pode fazer o psicótico com uma questão assim? Fui levado, em várias ocasiões, a acompanhar paranóias que colocavam seu lugar impossível, sua ausência de<em>Heim</em>, como cerne de seu questionamento. O dilema ‘um ou outro’, ou eu ou o outro, matriz mínima da paranóia, pode, ainda aí em casos favoráveis – está longe de ser a maioria – abrir uma forma de interrogação: se é o outro que parece viver e não eu mesmo, será por uma falta de um verdadeiro encontro?</p>
<p>Marcel Czermak muitas vezes nos alertou quando ao valor dos encontros « bem sucedidos » !</p>
<p>Mas há, no questionamento proposto, uma transferência, um espaço complexo, ao mesmo tempo aberto e fechado, limitado e infinito, cujo desdobramento merece interesse e prudência. Assim, essa jovem mulher, com uma vertente passional evidente, que demonstrava de maneira experimental o interesse pela triplicidade trabalhada, o nome, a imagem, o objeto.</p>
<p>Ela tinha me alertado, ao me contar o episódio erotomaníaco face a seu professor de filosofia, com essa frase banal, mas que soava curiosamente: “eu o amo com todo meu coração”.</p>
<p>O que me intrigou é que, ao lado dos caminhos da paixão (trabalho do Um unificador), ela se entregava de um modo errático a encontros pela Internet, entregando-se em seguida, sexualmente, ao medo e à busca de ser contaminada pela Aids (trabalho do objeto de dejeto que marcava uma vertente melancolizada).</p>
<p>Depois, um dia, a meu ver pelo fato da ligação transferencial : « eu, os homens que eu prefiro são os árabes, pois eles respeitam as mulheres&#8230;”, forma de postulado difícil de esclarecer com ela nas questões do momento de sua vida, mas que conduziu, quase imediatamente, a um encontro bem sucedido com um rapaz judeu, praticante&#8230;</p>
<p>Ela aceitava, pela primeira vez, um certo « semblant » de vida com esse rapaz, uma maneira de sustentar a imagem e o objeto ao preço da escolha de um nome que colocava, de saída, as questões do tudo ou nada: será que ele poderia se casar com uma não-judia? Será que ela devia se converter? Ela estava imediatamente pronta para isso, será que ela devia lhe fazer um filho pelas costas?</p>
<p>Quanto a isso, notemos que é a força real do clínico que é solicitada para dizer um Não que corta um pouco o gozo do passional em jogo na psicose.</p>
<p>A pulsão, o significante, a metáfora, a imagem, a letra, o gozo&#8230; cada uma dessas palavras pode ser um operador, uma via para o que pode ser praticado.</p>
<p>É a estrutura clínica que determina, a cada vez, a aresta, o traço sobre o qual podemos trabalhar.</p>
<p>Terminemos pelo belo termo ética. Como proteger sem infantilizar, interditar sem humilhar, dirigir sem se erigir em guardião dos costumes e do bom gosto? Há um trabalho de enodamento pela dignidade.</p>
<p>É no momento em que se verifica a possibilidade de uma redução lógica do sujeito a seu objeto, o que a psicose mostra com toda clareza, que a questão da dignidade toma sua urgente atualidade.</p>
<p>O destino reservado ao cadáver de Heitor na Ilíada é uma lição que a Grécia antiga nos permite ouvir. Os deuses de Homero são de um arbitrário absoluto; o destino ‘é a estrutura’. Mas o próprio Zeus intervém para limitar o furor de Aquiles: consideração, respeito, dignidade, devem ser dispensados a um homem que não é mais nada; argila e nada.</p>
<p>Como diz Jacqueline de Romilly, nossa moderna crueldade ultrapassa em muito a de Aquiles.<br />
<a id="_ftn1" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/detalhe.asp?cod=66#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a><em>Le Un et l’objet dans la psichose</em> – trabalho apresentado na <em>École de Ville Evrard</em>, na Jornada de Estudo de 16/06/2006 &#8211; <a href="http://ecoledevilleevrard.free.fr/Interventions/Tyszler16062006.htm" target="_blank" rel="noopener">http://ecoledevilleevrard.free.fr/Interventions/Tyszler16062006.htm</a><br />
Tradução: Sergio Rezende</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Comment peut-on parler du réel du corps?</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/comment-peut-on-parler-du-reel-du-corps/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 13:58:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Comment peut-on parler du réel du corps?]]></category>
		<category><![CDATA[corpo]]></category>
		<category><![CDATA[discurso científico]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Pourquoi peut-on dire en même temps que pour l’Ics le corps occupe le registre de ce que Lacan a appelé le Réel, l’impossible à symboliser et à imaginariser et que notre modernité, le forçage scientifique accélère le fait que dans la clinique c’est le versant réel du corps qui occupe le devant de la scène, l’imaginaire ne faisant que coller à ce Réel.

Je souhaite partir d’une présentation clinique récente faite à l’hôpital de Ville Evrard qui m’a permis de rencontrer un patient, névrosé obsessionnel « grave» qui avait atterri en psychiatrie parce que depuis plusieurs mois il ne soignait pas un ulcère de la jambe qui s’était sérieusement infecté.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>Jean-Jacques Tyszler</p>
<p>Pourquoi peut-on dire en même temps que pour l’Ics le corps occupe le registre de ce que Lacan a appelé le Réel, l’impossible à symboliser et à imaginariser et que notre modernité, le forçage scientifique accélère le fait que dans la clinique c’est le versant réel du corps qui occupe le devant de la scène, l’imaginaire ne faisant que coller à ce Réel.</p>
<p>Je souhaite partir d’une présentation clinique récente faite à l’hôpital de Ville Evrard qui m’a permis de rencontrer un patient, névrosé obsessionnel « grave» qui avait atterri en psychiatrie parce que depuis plusieurs mois il ne soignait pas un ulcère de la jambe qui s’était sérieusement infecté.</p>
<p>Le raisonnement de cet homme intelligent et cultivé, technicien au PTT, spécialiste de la facturation détaillée, était parfaitement paralogique : son appartement était encombré de sacs et détritus au point qu’il ne pouvait plus s’allonger, il dormait assis, écoutant « radio courtoisie », s’étant ainsi fabriqué des oedèmes des jambes. L’étroitesse des passages dans la maison était telle qu’il se blessait régulièrement contre tel carton ou tel déchet, d’où l’ulcère qu’il a soigné à l’eau claire durant quelques semaines renonçant ensuite car l’évier n’était plus atteignable.</p>
<p>Il ne s’agit pas d’un patient psychotique mais bien d’un névrosé poussant loin ce qu’on peut appeler un déni de l’impossible ( le corps allait-il guérir par miracle ?) voir une quasi-forclusion de la catégorie que Lacan nomme Réel.</p>
<p>Paradoxalement ce qu’incarne ce patient est une vraie question : nous ne savons pas ce qui correspond au signifiant <i>le corps</i> . La réalité physiologique et l’imaginaire du schéma corporel ne disent rien de ce qu’est un corps pour tel ou tel sujet.</p>
<p>Le corps est radicalement étranger à la prise subjective, à la symbolisation ; il vient à ce titre occuper ce registre du Réel et notre malade le dit à sa façon : seuls les trouages du corps donnent à la chair sa tenue, sa fonctionnalité, son érotisation.</p>
<p>Chez le petit d’homme le trouage du corps par les signifiants maternels permettent une disponibilité de l’appareillage pulsionnel ; sinon la « déspecification» pulsionnelle est à l’œuvre.</p>
<p>C’est l’odeur de putréfaction qui obligera la fille du patient à l’hospitalisation « la mort entre nous deux» disait notre patient en racontant un souvenir d’enfance.</p>
<p>Que le corps ne soit plus attrapable par l’ordre du signifiant n’est pas une démonstration que la psychose et la névrose obsessionnelle partagent seules. L’homme moderne dans sa volonté de traiter le corps comme un meuble, un objet, le support de jouissances nouvelles voit le bord du Réel de ce denier saturer tout l’espace.</p>
<p>C’est une première approche de la question du corps et de l’Ics : là où Freud et le Lacan de la première époque, celui du stade du miroir, privilégiait le corps comme surface de projection, comme imaginaire, comme d’ailleurs le faisait l’hystérie – écriture sur le corps &#8211; nous devons constater un déplacement que la Science et les techniques produisent et accélèrent : c’est le versant réel du corps qui désormais occupe notre clinique.</p>
<p>Au tiraillement de l’imaginaire et du réel, Lacan place dans le nœud borroméen, la Jouissance Autre, de l’Autre du corps, non pas de l’Autre du signifiant, dit-il.</p>
<p>Vous avez remarqué comme beaucoup de praticiens le changement de symptomatologie de l’Hystérie.</p>
<p>Les formes classiques, toutes en leur fond réponse insurrectionnelle contre la prévalence du phallus &#8211; même si c’est le pour le présentifier &#8211; ont quasi disparu.</p>
<p>Le fait que le référent phallique cède du terrain, cède la place à l’Autre jouissance s’explique par le forçage que nous évoquons : la division imaginaire classique entre soma et psyché, le fait que le corps n’est jamais réductible à sa désignation est battu en brèche par un discours refoulant toujours l’impossible.</p>
<p>La dépression remplace algies et paralysies mais la chimie rend inutile toute lecture, toute interprétation.</p>
<p>La chirurgie esthétique déjà plutôt «transformatrice» (cf. Brésil) vient suturer tout défaut, toute marque d’une castration devenue « vieux jeu »</p>
<p>La dimension sexuée elle-même a été abolie par les prouesses des techniques opératoires et la résignation des hommes de Loi.</p>
<p>Que dire alors de la dimension du sujet ( $ ) si la notion même de coupure se trouve ainsi durablement déplacée ?</p>
<p>Nous avons grâce à Marcel Czermak travaillé depuis longtemps sur la question du corps prise dans les problématiques hors castration, dans le champs des psychoses.</p>
<p>Les travaux, que certains connaissent, sur le syndrome de Cotard, le transsexualisme et d’autres bords encore de la psychose où l’image et l’objet divergent ont permis d’insister sur un point majeur : méfions nous d’une vision spontanée et intuitive de la représentation du corps car ces psychoses échappent radicalement à toute représentation . Leur abord est fondamentalement topologique.</p>
<p>Nous avons attiré l’attention sur les délires de jouissances, de surface dans des typologies parfois complexes mais riches d’enseignement sur la façon dont la forclusion phallique fait retour.</p>
<p>J’avais évoqué dans un article intitulé « remarques sur la jouissance d’enveloppe» (dans l’un des 2 tommes sur l’identité sexuée) une curieuse dysmorphobie chez un jeune patient qui mettait en relation de voisinage la peau du visage, le vêtement et le sol ; son visage lui paraissait souillé en permanence ; quelque chose collait à la peau malgré les lavages répétés et les vérifications dans la glace.</p>
<p>Les entretiens ont fait apparaître une relation originale avec l’espace ambiant par l’intermédiaire de la surface constituée par le vêtement et les semelles de ses chaussures : lorsqu’il portait un « survêtement» c’est à dire comme il disait « quelque chose qui formait un tout, le bas allant avec le haut, le bas continuant avec le haut » et que ses semelles n’étaient pas trop usées, alors il observait une sédation des phénomènes parasitaires sur son visage.</p>
<p>Etrange représentation si c’en est une du corps et de la surface, permettant d’amener le mot<i>hypocondrie</i> en tant que nécessaire à toute avancée sur les questions du corps.</p>
<p>Rappelons nous au passage l’inquiétude de « l’homme aux loups», la crainte là aussi étrange pour une représentation spontanée, que le «trou sur sonnez » ne se comble pas.</p>
<p>Quelque chose fait irruption dans le champ spéculaire sous la forme d’un objet ou d’un trou aussi bien interne qu’externe. «Imperfection» qui contamine peu à peu le « champ de réalité» d’un réel qu’il nous faut nommer hypocondrie.</p>
<p>Ce jeune patient s’était peu à peu amélioré du point de vue de la dysmorphobie mais un cancer cutané fulgurant a brisé les efforts et l’espoir.</p>
<p>Peut être est-ce cette expérience prise dans le champ de la psychose qui nous a rendu particulièrement sensible à l’arrivée de pathologies que l’on dit « nouvelles» et qui concernent aussi les marques sur le corps d’une bonne fraction de la jeunesse. « Nouveaux marqueurs identitaires », disent les sociologues.</p>
<p>Que viennent révéler ces coupures, ces trouages du corps ? Peut-on encore parler de trait au sens de l’identification ?</p>
<p>Que tirer comme conclusion concernant le lieu de la division subjective ?</p>
<p>D’un point de vue historique ou journalistique ces pratiques sont issues de trois mouvements :</p>
<p>-Les punks et leurs fameuses épingles à nourrice<br />
-Les « primitifs modernes» communauté hippie de Californie qui au milieu des années 70 se passionna pour la symbolique des pratiques rituelles de marquage de la peau.<br />
-Les milieux sadomasochistes et leur influence sur la mode.</p>
<p>Cet abord permet de corriger l’aspect par trop médical du fantasme à l’œuvre : si le corps est devenu la propriété de celui qui l’habite c’est du fait de l’essor d’un langage techno-scientifique mais aussi des inventions de l’Art charnel ou Body Art et également de l’aspiration à une liberté enfin Toute, coté féminin.</p>
<p>C’est à dire que les prouesses et réponses médicales ne sont qu’un cas local de la logique du fantasme à l’œuvre dans une société où le corps devient d’avantage marchandise, objet à jouir, que corps « glorieux» ou sublimé.</p>
<p>J’ai suivi récemment deux jeunes filles appartenant à ce qu’on appelle des « tribus d’ados» en référence à des modes vestimentaires et à des quartiers de prédilection à Paris ( toujours des questions de surface et d’espace)</p>
<p>Il s’agissait de la tribu «Gothiques», collier clouté, débardeur noir, les ongles peints en rouge très sombre, goût pour la provocation, beaucoup d’alcool pour des jeunes de cet âge, des expériences avec des drogues aussi.</p>
<p>Mais ce qui avait suscité l’inquiétude des parents c’est la nécessité pour ces jeunes filles de se couper la peau, de « se mutiler» comme on dit, sur les bras, les cuisses aussi.</p>
<p>Ces gestes répondaient à une pulsionnalité, une demande impérative du corps dont elles étaient incapables de rendre compte ; ce n’était pas dépressif au sens commun, aucunement suicidaire.</p>
<p>Le corps nécessite alors un type de coupure « faut que ça saigne» comme disait la chanson de Boris Vian.</p>
<p>La pulsion n’apparaît plus alors spécifiée par un bord anatomique appellant la fonctionnalité d’où le terme de « déspécification» qui semble valoir ici aussi.</p>
<p>Clinique du coté acéphale et déspécifié de la pulsion qui n’est pas interrogeable ni travaillable comme un symptôme . C’est au prix d’un parcours dans lequel j’ai moi-même convoqué un autre imaginaire du corps &#8211; le corps pris dans l’esthétique, la séduction, la féminité etc. &#8230; c’est à dire pris dans un regard signifiant parce que désirant &#8211; que la pratique de ces coupures a cessé (on pourrait parler d’une pratique du sinthome)</p>
<p>Autre imaginaire du corps car celui que la clinique de ces patients présentifie n’est pas le corps dénaturé ou modelé par le signifiant.</p>
<p>C’est un corps qui répond au forçage du discours ambiant sur l’objet, la publicité, les échanges, la libre circulation du commerce, la globalisation. C’est un corps qui vient dire la face sombre d’une marchandisation des esprits. C’est aussi un corps qui épouse mais dans l’automaticité, le versant désymbolisé du discours de la Science. Tout est affaire d’expérimentation, d’expérience, drogues, alcool, effraction des limites du corps&#8230;</p>
<p>C’est un imaginaire qui colle au corps réel : « Ça saigne donc je suis »</p>
<p>Nous devons faire confiance à cette clinique un peu déconcertante car ne s’appuyant pas sur la problématique classique du refoulement du sexuel et du symptôme.</p>
<p>Le corps, le réel du corps vient produire un essai de coupure, une mutilation, car la dimension de subjectivité qui accompagne la longue maturation dans la culture du discours de la science trouve actuellement sa limite.</p>
<p>Le sujet de la psychanalyse c’est le sujet de la science, a pu dire Lacan, car dans l’opération cartésienne, la laïcisation du Réel laisse une place à une causalité matérialiste y compris dans l’Ics.</p>
<p>Mais la promotion du discours scientifique pousse depuis une génération plus loin l’effacement du référent phallique et du même coup ce qui pour chacun fait trait, fait singularité ( le phallus est un opérateur qui conjoint pour disjoindre)</p>
<p>La singularité du désir la science ne s’y intéresse pas ; par contre elle pense pouvoir répondre à toute demande sociale ; les réponses sont conformes à l’intuition freudienne : n’importe quel objet peut être proposé à l’économie pulsionnelle ; les jouissances « partielles» du regard, de l’oreille, du corps sont décrites à loisir.</p>
<p>Nous pouvons alors comprendre les nouvelles formes de coupures sur deux versants :</p>
<p>D’un côté production d’une jouissance du corps propre autoérotique, court circuit de la pulsion, substitut à la jouissance sexuelle en tant que phalliquement entretenue.</p>
<p>D’un autre côté recherche à l’aveuglette d’un autre lieu pour la décision subjective dès lors que cette dernière emprunte les voies et les impasses du forçage scientifique.</p>
<p>Le réel du corps, le versant du corps comme réel vient proposer des nouages cliniques qui ne sont pas psychotiques ; ils ne peuvent être dit pervers même si le masochisme sert de bordure ; nous sommes en plus, ici, dans des cas féminins.</p>
<p>Nous ne retrouvons pas aisément l’insatisfaction fondatrice de l’hystérique et le sujet souffrant, toutes les jouissances sollicitées sont comblantes .</p>
<p>On peut dire, c’est une clinique du nœud dans laquelle l’intervention du praticien vise à séparer des champs au départ confondus comme j’ai pu le souligner pour les imaginaires aussi bien Jouissance phallique et Jouissance Autre.</p>
<p>C’est une clinique qui s’élabore, soumission des catégories habituelles de la clinique – névrose, psychose et perversion- à ce que Marcel Czermak appelle psychose sociale depuis de longues années.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Clérambault</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/clerambault/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 13:56:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Clérambault]]></category>
		<category><![CDATA[esquema ótico]]></category>
		<category><![CDATA[estrutura]]></category>
		<category><![CDATA[imaginário]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[psicose]]></category>
		<category><![CDATA[psiquiatria]]></category>
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					<description><![CDATA[Todo mundo pode constatar o divórcio que se acelera entre a psicanálise e a psiquiatria; esta última, ocupada completamente com as neurociências, com a genética e com a farmacologia, parece considerar pouco freqüentável uma disciplina que não adquiriu cientificidade.

Alguns entre nós se felicitam igualmente por uma separação há muito tempo esperada e perseguem o sonho de um discurso analítico enfim desembaraçado das más fadas que rodearam seu nascimento. Não compartilho do projeto de uma psicanálise de mãos brancas. A paixão da ignorância fez regredir os estudos psiquiátricos até o ponto em que se acha recalcada toda a excelente tradição clínica habitualmente chamada franco-alemã.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">
<p>Jean Jacques Tyszler</p>
<p><b>Introdução </b></p>
<p>Todo mundo pode constatar o divórcio que se acelera entre a psicanálise e a psiquiatria; esta última, ocupada completamente com as neurociências, com a genética e com a farmacologia, parece considerar pouco freqüentável uma disciplina que não adquiriu cientificidade.</p>
<p>Alguns entre nós se felicitam igualmente por uma separação há muito tempo esperada e perseguem o sonho de um discurso analítico enfim desembaraçado das más fadas que rodearam seu nascimento. Não compartilho do projeto de uma psicanálise de mãos brancas. A paixão da ignorância fez regredir os estudos psiquiátricos até o ponto em que se acha recalcada toda a excelente tradição clínica habitualmente chamada franco-alemã.</p>
<p>Não há necessidade de evocar o trajeto de Lacan no campo das psicoses e a cultura que o acompanha. As escolas analíticas, na maior parte, começaram, cada uma à sua maneira, a testemunhar essa preocupação. Podemos citar a tradução recente do livro de Bleuler, <i>Demência precoce ou grupo das esquizofrenias</i>.</p>
<p>Devemos à obstinação de Marcel Czermak a realização do colóquio sobre a síndrome de Cotard e a formidável demonstração de seu interesse atual no enquadramento da melancolia e da paranóia.</p>
<p>Com Clérambault, almejamos prolongar o debate sobre as psicoses passionais e retomar aquele, tão controvertido, da alucinação. Assim, o texto que se segue não é apenas uma homenagem aos avanços do Mestre: é um verdadeiro convite ao trabalho.</p>
<p align="left">* * *</p>
<p>O Mestre da Enfermaria nos deixa, a meu ver, em dívida. Não se trata apenas de seu reconhecimento tardio e discutido; foi necessário mesmo, para Lacan, um tempo lógico para prestar homenagem àquele do qual ele fala tão calorosamente no Seminário III: “Em uma palavra, na ordem das psicoses, Clérambault permanece, absolutamente, indispensável”.</p>
<p>Clérambault nos coloca em dívida do lado de nossa própria inventividade clínica. Seu trabalho de decompor em equações, de formalização, de épura, nos deixa uma quantidade de descobertas sindrômicas, de referências estruturais originais, em um sentido, de objetos novos. O legado de Clérambault é, com certeza, mais ou menos corretamente, integrado ao patrimônio do campo das psicoses, mas nós ficamos quites com essa formidável renovação saudando o autor por isso?</p>
<p>A atopia do Mestre, seu anacrônico organicismo, não devem mascarar os espantosos primeiros passos de uma leitura estrutural, de uma leitura traço a traço. A apresentação de pacientes por Lacan em Daumezon, operava, senão na mesma perspectiva, pelo menos na mesma visada: a esperança de uma dimensão semiológica original. A filiação, nós sabemos, causa horror a alguns. É esse laço entre tradição e invenção que queremos explorar.</p>
<p>A paixão do clínico coloca em tensão o monólogo que o anima, mas a mecanicidade o deixa cego a respeito dos enodamentos novos: automatismo mental, erotomania, psicoses passionais, para citarmos os mais conhecidos. Seria necessário um sagrado desejo de saber. Estudaremos como a clínica opera em Clérambault sob o modo espectral, estrutural. Apontaremos a dimensão de filiação do trabalho que almejamos perseguir para além das implicações psiquiátricas. Esclareceremos, longamente, através de dois casos clínicos, a riqueza sempre renovada do fenômeno alucinatório como enodado a algumas vertentes da estrutura que aprendemos a reconhecer e a colocar em série: episódios de morte do sujeito, elementos especulares, disjunções entre voz e palavra, para ficarmos com os principais.<br />
Chamado ao trabalho e não canonização do Mestre, pois nós podemos, certamente, prosseguir.</p>
<p><b>A clínica em operação </b></p>
<p>“Não basta mais dizer: é o paciente que faz o caso – o que é fundamentalmente exato – para pensar que se está quite, porque, sem o questionamento desse outro, o psicanalista, que faz parte do conceito do inconsciente, não há caso analítico.” (Marcel Czermark, <i>Paixões do objeto</i>) <a id="_ftnref2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>(1)</sup> </a></p>
<p>Clérambault é um dos raros clínicos que nos permitem captar o ir e vir permanente entre o traço de estrutura, o achado semiológico e a elaboração teórica. Várias razões podem ser associadas:</p>
<p>– um ensino essencialmente oral a partir da casuística; dos relatos e das conferências que conservam o caráter vivo, aberto e, até mesmo, controvertido que os manuais e outras obras de referência não permitem;</p>
<p>– os laudos que Clérambault redigiu, uma dezena por dia na Enfermaria Especial, nos quais se pode seguir, passo a passo, o aparecimento de novos termos e depois sua transformação em conceito em um estilo extraordinariamente pessoal para as observações clínicas. <i>Imperatoria brevitas</i>, como dirá Guiraud no prefácio das <i>Obras psiquiátricas, </i>laconismo inimitável destacando, em cada entrevista, o que faz traço do caso;</p>
<p>– uma posição de Mestre que seria necessário precisar melhor; Clérambault se instala mal em uma filiação de idéias; ele recusa apaixonadamente a proximidade dos trabalhos de seus predecessores desde que sinta em perigo a paternidade de suas teorias. Vivido como quase anacrônico, ele não chegará a transmitir os temas principais de suas pesquisas senão ao preço de mal-entendidos e de desprezos capitais. Clérambault é, desse ponto de vista, atópico.</p>
<p>Essa atopia não está apenas ligada às especificidades do modo de exercício, esse lugar de observação e de poder que constitui a Enfermaria Especial, o campo médico-legal; ela está ligada ao formidável passo dado por Clérambault para destacar as regras estruturais que nos aparecem agora, nos fenômenos descritos, como os efeitos da estrutura significante da linguagem.</p>
<p>Daremos disso alguns exemplos.</p>
<p><b>Três <i>traços do caso</i>: as estruturas delirantes decompostas em equações</b></p>
<p>Em uma comunicação de 1933 (<i>Sobre um mecanismo automático fundamental de alguns delírios interpretativos</i>), Clérambault isola no quadro clínico de um paciente um mecanismo singular que ele nomeia de pseudoconstatação espontânea incoercível:</p>
<p>Aos 35 anos, aparecimento de uma pseudoconstatação perpétua: desconhecidos fazem, de passagem, um movimento com a mão, de uma forma estereotipada, nada mais. Sem outro gesto, sem roçadura, sem mímica, sem palavras e sem ruídos de garganta. Os figurantes são incontáveis, eles se sucedem sempre novos e se antecipam ao sujeito em todo lugar&#8230;</p>
<p>Esse processo, precisa Clérambault, pode existir em estado puro, sobretudo no início da psicose, e persistir assim por muito tempo. “No caso citado, o gesto da mão pôde, antes, ser uma alusão tanto ao estado de flacidez quanto ao ato masturbatório. Mais tarde, o gesto persecutório seria simbólico e, por essa razão, os perseguidores se limitariam a ser manifestantes”.</p>
<p>Clérambault aborda aqui o tema maior do desencadeamento das psicoses por esse traço distinto nesse paciente: a pseudoconstatação como alusão.</p>
<p>O esquema L dá uma ilustração esclarecedora dessa referência clínica. O sujeito S é indicado sob a forma de alusão, é a “pseudoconstatação perpétua”<i>.</i></p>
<p>O circuito se fecha nos inumeráveis pequenos outros que são a marionete frente ao paciente: os “manifestantes” ou os “figurantes”. A mensagem volta assim ao paciente quando ele fala de si mesmo como sujeito, mas sem saber o que ele diz;</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clerei0021.jpg"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-3466" src="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clerei0021.jpg" alt="clerei002" width="294" height="78" /></a></p>
<div align="center"></div>
<p align="left">Notemos que, do ponto de vista da temporalidade, os “manifestantes” chegam antes do sujeito em todo lugar. Na alucinação bem conhecida do seminário sobre as psicoses, a alocução “eu venho do salsicheiro” pressupõe a resposta “porca”.</p>
<p>A formalização do automatismo mental leva G. de Clérambault a pontos de abstração que só aparecem apreensíveis com os instrumentos atuais:</p>
<p>as alucinações pensam&#8230; já no eco puro e simples, a transposição sintática de “eu” e “ele” é o trabalho pessoal da alucinação&#8230; cada fórmula lançada fica adquirida e o trabalho de ideação continuando, as fórmulas vão se completando de um dia para o outro; assim se forja todo um romance de origem extrapessoal: é o delírio autoconstrutivo. O delírio autoconstrutivo é mais absurdo que o delírio pessoal do sujeito. As próprias noções explicativas são freqüentemente fornecidas pelas vozes. Os neologismos são, o mais freqüente, obra das vozes. O sujeito a quem perguntamos de onde vem a palavra, e o que ela significa, nos responderá quase sempre: pergunte a elas&#8230; <a id="_ftnref3" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>(2)</sup> </a></p>
<p>O que Clérambault mostra aqui, com tanta precisão, é, na psicose, esse movimento assintótico que captura o sujeito. A palavra, o significante, não se fecha por retroação em sua significação, mas permanece em suspenso, se neologiza, se enriquece, completando-se dia a dia. Sujeito e Outro são remetidos ao infinito, em um movimento combinado. Clérambault nos faz, perfeitamente, tocar com o dedo nesse trabalho do significante como trabalho xenopático, parasitário. Do outro lado da parede, a alucinação prossegue seu trabalho em nome e em lugar do sujeito, enquanto este último vê dissolver seu “eu”, degradado a um simples eco.</p>
<p>“Pergunte a elas!” indica uma topologia bem descrita pelo fenômeno da parede contígua. O falador, o perseguidor, está o mais próximo possível, infinitamente próximo e, ao mesmo tempo, inacessível. Os fundamentos da clínica não são, para Clérambault, estabelecidos de uma vez por todas, como uma base sobre a qual viriam se ajuntar variações e confirmações; ele os reinventa a cada vez que um novo fenômeno “aparece”. A comunicação <i>Psicose</i><i>alucinatória e práticas espíritas</i> (1930) nos faz apreciar essa inventividade permanente. Essa comunicação continua, nas <i>Obras psiquiátricas</i>, o longo comentário de uma apresentação de doente – <i>O fim de uma vidente</i> (1920).</p>
<p>Clérambault terminava sua exposição do caso declarando: “Nossa doente oferece um campo de estudos inesgotável”<i>. </i>Ele propõe, dez anos depois, uma reflexão sobre esses delírios de início espírita em sua relação com as alucinações psicogênicas. O que faz, aqui, traço de estrutura e invenção semiológica é o termo iminência alucinatória ou alucinabilidade.</p>
<p>No estudo das alucinações, negligenciaram, até aqui, um fator que eu creio poder isolar sem que se possa, até nova ordem, defini-lo: é a alucinabilidade. Nenhuma alucinação, temática ou atemática, pode se produzir sem uma condição prévia, que é a iminência alucinatória. É esse estado que se intercala entre a idéia prévia, quando ela existe, e sua transposição em alucinação. Essa verdade parece ingênua; no entanto, ela é desconhecida cotidianamente. De outro lado, os dois estados da alucinação (estado virtual e estado efetivo) são, em certos doentes, distintos e estudáveis separadamente. <a id="_ftnref4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>(3)</sup> </a></p>
<p>Vemos quanto o material significante de Clérambault é rico e complexo: alucinabilidade, eco, automatismo mental, síndrome mecânica, delírio autoconstrutivo etc. Clérambault se interessa, ainda e sempre, pelo desencadeamento das psicoses; ele busca as leis gerais. Quer aproximar esse sentimento particular do limite do sentimento de realidade e do sentimento de irrealidade, sentimento de algo prestes a surgir fazendo irrupção no real.</p>
<p>O reagrupamento das psicoses passionais é o fruto de uma longa coleta de dados, de observações e de polêmicas teóricas que ainda não foram concluídas.</p>
<p>O descentramento da erotomania não deve ocultar a constatação principal: em um sentido, Clérambault fixa definitivamente para nós o quadro dessa paixão. Deste quadro, ele dá o ciframento, as constantes de estrutura. Força a pureza dele e depois declina as variantes. A leitura dos laudos e as observações clínicas deveriam aqui nos ensinar de forma útil sobre essa capacidade de tornar objetos “novos” acessíveis à análise.</p>
<p>Podemos ver operar, em uma observação de 21 de junho de 1921, esse incessante ir e vir entre o estabelecimento de uma ficção, o quadro puro da erotomania, e as contradições fecundas trazidas pela clínica:</p>
<p>Nosso caso apresenta vários traços inusitados. Antes de tudo, o objeto é uma mulher que o sujeito possuiu. Esse fato se choca com as noções clássicas do platonismo e da desigualdade social. (&#8230;)Nós demonstramos que o platonismo é um dado sem importância no quadro da erotomania&#8230; Uma coabitação de longa duração, certamente, despojou a mulher do atrativo global do mistério, mas suas recusas lhe apresentam, atualmente, uma novidade – o afastamento a repoetisa; isso é da psicologia normal. Por outro lado, a mulher ainda pode inflar o orgulho de nosso sujeito e esse é o ponto mais importante. Em segundo lugar, essa mulher é do mesmo nível social. Esse fato não impede de ter, para nosso doente, além de seu atrativo, prestígio&#8230; Ela pertence, virtualmente, à casta burguesa e lhe permitiu entrar aí pelo casamento; seu marido sente nitidamente suas inferioridades: ele não a imagina casada de novo senão com um homem rico, o homem de mãos brancas&#8230; Nosso caso entra na regra, pelo menos no espírito da regra&#8230; <a id="_ftnref5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>(4)</sup> </a></p>
<p>Os particularismos, localizados e discutidos, não invalidam o trabalho de “decomposição em equações” das formações delirantes:</p>
<p>essas particularidades resultam apenas das circunstâncias e delas resultam logicamente. Elas mudam a expressão do delírio, mas deixam intacta e completa a condição, tanto suficiente quanto necessária, de um delírio erotomaníaco: a convicção de polarizar em seu proveito a ideação sexual do objeto. <a id="_ftnref6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>(5)</sup> </a></p>
<p><b>Filiação e ruptura</b></p>
<p>É surpreendente que, quando eu fiz esse trabalho que foi publicado em 1932, eu tinha portanto 30 anos, tenha utilizado um método que não é sensivelmente distinto do que fiz depois. Se relerem minha tese, verão essa espécie de atenção dada a isso que foi o trabalho, o discurso da paciente; a atenção que eu lhe dei é algo que não se distingue daquilo que pude fazer depois. (J. Lacan, <i>Contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica</i> <a id="_ftnref7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>(6)</sup> </a>).</p>
<p>A disciplina do <i>Traço do caso</i>, iniciada por M. Czermak há alguns anos, faz eco com essa reflexão de Lacan referente a seu método, à sua maneira de se orientar com os pacientes, à continuidade que lhe parece localizável desde sua tese de psiquiatria.</p>
<p>As apresentações de pacientes, em Daumezon, proporcionavam uma busca, anotações, observações, achados referentes à semiologia, “dimensão semiológica original”, dizia Lacan, “nesse sentido que é completamente da mesma ordem que um ou outro traço que eu pude isolar e que mereceria ocupar seu lugar na semiologia psiquiátrica, em minha tese sobre o caso Aimée”.</p>
<p>Nossa insistência em Clérambault se refere a essa dimensão semiológica original. De forma alguma analítica, nem mesmo psicodinâmica, mas seu modo de orientação permite, parece-nos, destacar em um paciente o que faz traço. Por que Clérambault permite essa decomposição espectral e essa análise estrutural do fenômeno psicótico?</p>
<p>Arrisquemo-nos às comparações provocadoras, de preferência a escolher a amnésia. O sintoma psiquiátrico tem, para nós, uma diferença radical em relação ao sintoma analítico, já que este último é entendido como metáfora de um significante inconsciente. Nossa época vê, por outro lado, acentuar-se o declínio operado na disciplina psiquiátrica; podemos pretender que as regras mínimas da observação clínica ainda sejam garantidas, permitindo nesse campo a renovação e a invenção? Não mais se encostar nessa parede contígua? Ela já está furada.</p>
<p><b>Clérambault e a técnica da entrevista: “a manobra”</b></p>
<p>“Como falamos de nos interpor, ela parece recusar, mas ao sair, como repetimos para ela nossa oferta, ela nos lança um agradecimento alegre”. (Clérambault, <i>Apresentação de doente</i>, 1921).</p>
<p>Essa notação se refere a uma paciente erotomaníaca e vemos o quanto Clérambault toma uma posição que poderia hoje parecer um empuxo ao delírio. A leitura dos artigos referentes às psicoses passionais dá indicações precisas sobre a técnica das entrevistas:</p>
<p>Diante de um interrogatório, podemos raramente esperar obter uma confissão formal da paixão. Não devemos mesmo pedi-la. Não devemos interrogar um delirante como sabatinamos um candidato a um diploma, pois o procedimento por perguntas e respostas tem por efeito ditar as respostas racionais e fazer o sujeito pressentir quais respostas ele deve evitar (&#8230;)</p>
<p>Através de um diálogo, aparentemente difuso, mas semeado de centros de atrações para as idéias, devemos conduzir o sujeito a um estado de espírito no qual ele estará prestes a monologar e a discutir; a partir daí nossa tática será de nos calar, ou de contradizer o bastante para parecer não compreender tudo (&#8230;)</p>
<p>Tais doentes não devem ser interrogados mas manobrados e, para manobrá-los, há apenas um único meio: emocioná-los. (<i>Apresentação de doente</i>, 1921, 2º caso).</p>
<p>Clérambault passava horas a fio a “manobrar” esses pacientes passionais, incluindo-se, assim, no quadro clínico, mas de um modo que seu olhar, seu ouvido lhe parecessem, entretanto, exteriores ao dispositivo. Ele está atrás da lupa, verdadeiro detetive do fenômeno ou do sintoma, levando o outro ao erro ou à contradição para, enfim, fazer confessar:</p>
<p>A erotomania consiste em uma perturbação:</p>
<p>1º afetiva</p>
<p>2º renitente</p>
<p>3º ligada essencialmente à atividade</p>
<p>Ora, nos interrogatórios, que gêneros de provas se buscam?</p>
<p>Provas:</p>
<p>1º intelectuais</p>
<p>2º contínuas</p>
<p>3º estáticas</p>
<p>Para conhecer tais doentes, é preciso não interrogá-los, mas manobrá-los e, para isso, agitá-los. Pode mesmo ser bom, por vezes, irritá-los&#8230; (<i>Apresentação de doente</i>, 1923).</p>
<p>Ficamos muito desconfiados ao nos surpreender diante disso que podemos entender como uma clínica de tubo de ensaio. À sua maneira, Clérambault insiste na dificuldade primeira de toda entrevista: como decompor o circuito da palavra, sobretudo quando esta tem estrutura de alucinação. Lacan obtém com dificuldade e, como uma confissão, a famosa alucinação “porca”, longamente comentada no seminário sobre as psicoses. O precipitado químico pesquisado por Clérambault me faz associar do lado do modelo eletrônico aquele do tríodo, em que Lacan convida a refletir sobre o dispositivo que permite ampliar o discurso inconsciente:</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-3467" src="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clere0041.jpg" alt="clere004" width="250" height="152" /></p>
<p align="left">A técnica descrita por Clérambault referente aos pacientes passionais não resume a extraordinária capacidade de se tornar transparente o bastante e de uma sensibilidade tão fina à questão da voz. “Deus sabe como ele encontrou isso”, exclama Lacan no final do Seminário <i>L’insu que sait de l’une-bévue s’aile a mourre</i>, falando do automatismo mental. A questão do objeto determina com força o conjunto das pesquisas clínicas de G. de Clérambault. O artigo freqüentemente citado sobre a <i>Paixão erótica</i><i>dos drapeados</i> (1908) é disso um dos testemunhos perturbadores. O autor nos desvela uma voluptuosidade pouco conhecida em uma impressionante descrição das qualidades do objeto como único leme da existência e interessando, por essência, à esfera sexual.</p>
<p><b>Perseguir</b></p>
<p>No seminário citado anteriormente, <i>L’insu que sait&#8230;</i>, Lacan, comentando a presença de um automatismo mental em um paciente japonês, visto em apresentação, toma a seguinte posição, <i>a priori</i>surpreendente: “aconselhei que lhe permitissem ficar em liberdade e que não se detivessem nisso que Clérambault inventou, um dia, um truque que se chama o automatismo mental. Isso é normal, o automatismo mental”<i>. </i>Nesse caso presente, Lacan insistia no gosto desse paciente pela “metalíngua”: “ou seja, que ele gozava por ter aprendido o inglês e, depois, o francês. Será que não é aí que houve o deslizamento?”</p>
<p>O termo deslizamento é, certamente, para ser colocado em relação com o momento da elaboração de Lacan; a insistência de que o automatismo mental desmascara nossa relação com a linguagem, sua tonalidade parasitária, essa insistência está presa no manejo dos enodamentos, no funcionamento, também, do real. “O doente fala?” – interrogava Lacan no seminário sobre as psicoses<i>.</i> A pergunta não cessou de persegui-lo: como a linguagem se liga ao real? Não é a primeira vez que Lacan recorre a essa via para nos chamar a atenção de que não há nada de mais natural que o automatismo mental. No seminário sobre <i>Le Sinthome</i>, Lacan comenta o encontro com um outro paciente, aquele “das palavras impostas”. <a id="_ftnref8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn8" name="_ftnref8"><sup>(7)</sup> </a></p>
<p>Lacan questiona:</p>
<p>como é que nós todos não sentimos que as palavras das quais dependemos nos são de algum modo impostas? A questão é, antes de tudo, saber por que é que o homem normal não se apercebe de que a palavra é um parasita.</p>
<p>Lacan ainda se situa na borda do automatismo mental, não naquilo que ele revela e ensina da psicose, mas naquilo que ele desmascara do câncer do qual o ser humano é afligido: a palavra. No comentário desse caso clínico, visto em apresentação, Lacan nota uma distinção, uma gradação também:</p>
<p>Após ter tido o sentimento, um sentimento que eu considero, quanto a mim, sensato, o sentimento de palavras que lhe eram impostas, as coisas se agravaram.</p>
<p>E que teve o sentimento, não apenas de que as palavras lhe eram impostas, mas de que ele era afetado por aquilo que ele próprio chamava telepatia.</p>
<p>O paciente revela, então, uma estrutura de exposição no sentido de que todo mundo estava advertido do que ele próprio se formulava:</p>
<p>e o que o tornava completamente enlouquecido era o pensamento de que o que ele se fazia como reflexão a mais, a mais do que ele considerava como palavras que lhe eram impostas, era isso que era também conhecido de todos os outros.</p>
<p>Há, aí, também uma espécie de deslizamento. Isso tem a ver com uma revisão doutrinal? Creio, antes, que Lacan continua a interrogar as dificuldades apontadas desde o seminário sobre as psicoses referentes à alucinação, dificuldades em suma raramente trabalhadas e, no entanto, tão insistentes na clínica, aquelas mesmas que Schreber tenta teorizar em seu <i>Complemento sobre as alucinações</i>, distinguindo as vozes interiores do resto dos fenômenos acústicos. Tudo tem estrutura significante, mas tudo vem do mesmo lugar?</p>
<p>Clérambault detalhou admiravelmente esses dois grandes tipos de alucinações insistindo não apenas em sua diferença sensorial, mas também em sua diferença de relação delirante. Mas essa disjunção é para se entender em uma mesma textura, o que causa seu extremo interesse em toda a questão no tocante à localização das psicoses. Para continuarmos na clínica, tomemos o notável termo de “Eco antecipado” (<i>Psicoses à base de automatismo</i>, 2º artigo, 1926): “Eles encontraram antes de mim o nome das coisas”.</p>
<p>Parece-me suficientemente perceptível aqui essa operação referente ao simbólico presentificando esse “eles” do lado do real; vemos igualmente quanto o esquema ótico permitiria desdobrar uma subjetividade imediatamente desconcertante.</p>
<p>Lembremos que, para que o sujeito tenha acesso ao imaginário seguindo a ilusão do vaso invertido, é preciso que o olho que o simbolizaesteja situado no cone (ß, B’ Y ) do esquema seguinte:</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clere0061.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-3468" src="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clere0061.jpg" alt="clere006" width="294" height="242" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se for do exterior, “ele tem a ver com o real nu, ele está em outro lugar”. <a id="_ftnref9" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn9" name="_ftnref9"><sup>(8)</sup> </a></p>
<p>Com o automatismo mental, estamos sobre a borda desse campo exterior do cone que faz aparecer então uma “deformação” lógica de outra forma invisível. Cito uma breve passagem da experiência do buquê invertido no livro do professor H. Bouasse, <i>Óptica e fotometria ditas geométricas</i>:</p>
<p>na verdade, as condições do estigmatismo para a superfície total do espelho estão longe de ser realizadas. Mas pouco importa, porque o olho diafragma os feixes utilizados. Para cada posição do olho, cada ponto do objeto não envia ao olho senão um fino raio que fornece uma imagem nítida, mas deformada. O inconveniente da deformação é mínimo, um buquê não tendo uma forma <i>a priori</i>.</p>
<p>A forma duplicada ou multiplicada do objeto-voz é uma resposta na estrutura ao que é escutado sem <i>a priori</i>. É uma outra forma para nós de interpretar as famosas leis da cronaxia tão caras a Clérambault; a duplicação que constitui o eco é para ser situada nos espaços heterogêneos.</p>
<p>Esclareçamos isso pelo exemplo clínico que se segue.</p>
<p><b>Exemplo clínico</b></p>
<p>Gostaríamos de deixar em alguns traços um enodamento clínico particular, interessante, o mais próximo das indicações precedentes.</p>
<p>Trata-se de uma paciente, de aproximadamente 40 anos, apresentando há muitos anos, por toda cristalização psicótica, uma fundamental inadequação à linguagem assim descrita: “Sempre os mesmos sintomas: fugas, perdas, tudo se desagrega, eu regrido na linguagem intelectual&#8230; Como falar? Com qual voz?” Ou ainda: “Comigo, tudo é um problema de linguagem; eu tenho medo de que minha voz desapareça. Eu me pergunto se a voz que eu tenho é uma voz que eu me dou para imitar as vozes inteligentes”. Esses fenômenos são quase permanentes, mais ou menos acentuados, jamais ausentes.</p>
<p>O sujeito se eclipsa, se dissolve; a voz, objeto totalmente reestruturante; mas é sob a forma do automatismo mental que encontra resposta essa fenda no simbólico: “Eu tenho sentimentos que me falam e que me guiam: faça isso, faça aquilo&#8230; que gerem tudo e que estão ligados a essas coisas: faça isso, faça aquilo&#8230;” Elementos de saída discretos, próximos de um pensamento obsedante: “é preciso que eu me diga três vezes a mesma coisa; duvide de cada ação”. Mas é toda a marcha do discurso em direção à xenopatia que está operando: “Eu tirei o meu pulôver, de uma só vez em minha cabeça, a linguagem que eu mantinha com X, isso escapou. Eu me disse: é tornando a vestir meu colete que isso vai reaparecer”. “Paradas do pensamento, paradas da linguagem, buraco negro”.</p>
<p>No que se refere à experiência do buquê invertido, notamos que todos os fenômenos anteriormente descritos se aceleram, se acentuam quando o paciente é interpelado, ou simplesmente está em uma relação de palavra, de comunicação: “Eu ficava em pânico ao telefone com a idéia de que eu tinha caído na linguagem e que eu não pudesse mais falar<i>.</i>” Ela se isola, interrompendo todo esforço de reinserção. Isso é a voz, como lembra Marcel Czermak em <i>Paixões do objeto</i>, que por sua posição de comando arrasta os outros fenômenos que lhe são secundários: “não ver mais as pessoas tais quais elas são: não ver mais seus traços, o que as personaliza”.</p>
<p>Relação disjunta entre olhar e significação. “Eu me sinto diminuir, ficar muito pequenininha, meu físico diminui assim como eu mesma”. Ou antes: “Muitas vezes tenho a impressão de que eu vou me tornar uma mulher velha com uma voz velha”. Transformação da visão mental: “Eu não vejo mais a realidade, isso está sem brilho; isso tem menos sentido, eu tenho os olhos perdidos no vazio.”</p>
<p>Não estamos no pólo em que prevalece a dimensão egóica do imaginário. Aqui, fundamentalmente, falta ao eu consistência, e a luta é cotidiana para se preservar de uma dissolução terrivelmente angustiante: “Eu me defendo, mas isso se desagrega pouco a pouco”. “Eu tenho a impressão de que me dissolvo e de que desapareço”. “Eu só me mantenho em pedaços, meu ego, isso está partido”. “Como se constituiu minha cabeça, de repente isso se desconstitui e parte”.</p>
<p>O abismo devorador de palavras faz bascular e explodir o espelho plano. É fácil compreender as hospitalizações repetidas em um contexto descrito como “ansio-dissociativo”. Trata-se antes de verdadeiros momentos de morte do sujeito; o automatismo mental, a dissolução egóica, a ruptura do espelho plano cristalizam a forma melancólica bem conhecida: “Eu me sinto destruída; eu me sinto seja o que for tanto de corpo quanto de linguagem, isso degringola, isso desaparece, isso não existe mais”.</p>
<p>Neutralização concluída do sujeito que culmina em um fora da humanidade bem próximo do Cotard: “Eu não me considero mais como um ser vivo. Eu sou uma coisa esquisita. Eu me sinto um cadáver. Não há mais a noção do ser humano, para além da noção do indivíduo”<i>.</i> Espaço reclamando proteção para toda resposta. Zona que nos mostra um dos aspectos mais puros desse quadro clínico; não é aqui o supereu devorador que precipita essa paciente em uma morte preferida a um vivido desarticulado; é um parasita familiar, estranhamente atópico aqui: a palavra. Vozes e palavras estão disjuntas, oferecendo sua força a um enodamento clínico mais freqüente do que se possa acreditar. Não há cristalização delirante schreberiana. Nem tampouco o real do corpo se apodera de uma evanescência simbólica. Encontramo-nos, como sempre, em uma dificuldade de nomeação? Poderíamos dizer simplesmente “psicose à base de automatismo”, mas como qualificar melhor essa relação entre a voz e o eu, e como aí ligar essas precipitações cotardizadas? Nosso <i>corpus</i> clínico está longe de estar concluído, de estar fechado. Se Clérambault nos abre uma via, é antes esta: há que se designar outros pólos, outras arestas, outras interseções e outras configurações.</p>
<p>Deixei de lado, de propósito, os elementos biográficos e as notas de evolução do caso. Este trabalho faz, conseqüentemente, “traço do caso”<i>.</i> Deixa, no entanto, suficientemente, entender o quanto o manejo, a abordagem transferencial, as responsabilidades terapêuticas estão presos, e eticamente, à localização na estrutura.</p>
<p>Perseguimos ainda esse outro caso clínico que explicita toda a riqueza das concepções sobre o automatismo mental, desde os fenômenos discretos até o momento fecundo alucinatório. Ele apresenta a particularidade clássica, mas perturbadora, por não apresentar uma verdadeira arquitetura delirante. Esclarece a relação entre o olhar e a voz na irrupção dos mecanismos xenopáticos. Permite, enfim, compreender melhor como o esquema L abala e reordena as concepções da alucinação psíquica, da alucinação verbal motora e do automatismo.</p>
<p>Dominique é uma jovem de 23 anos, de aspecto adolescente. Ela é enviada por um apragmatismo quase total, períodos de mutismo cada vez mais longos, uma recusa a se alimentar. Apresenta-se fixada em um tipo de olhar interior, em uma lentidão impressionante dos gestos e da palavra, de momentos de <i>fading:</i> “A posição intimidada do peixe”, da qual falarei mais adiante. Boa escolaridade até o bacharelado “D”. Um segundo ano de arquitetura, que ela abandona. Inscrição em medicina, depois um ano na casa das irmãs, seis meses numa comunidade de Aulnay, seis meses em Roma. Inscrição no <i>Conservatoire des Arts et Métiers</i>, ela tem 21 anos: abandono. Encontra, nesse mesmo ano, uma seita ortodoxa. 22 anos: concurso de enfermeira. Um ano de estudos descrito como muito ruim.</p>
<p><b>Quadro clínico inicial</b></p>
<p>Esse período dura aproximadamente três meses.</p>
<p>Durante as primeiras semanas, Dominique, hospitalizada, manterá um mutismo quase absoluto fora das situações de entrevista. Aí, ao contrário, expressa-se com muita precisão e dor. Aborda abundantemente os temas referentes à identidade, aos pensamentos, à palavra e sua relação com Deus.</p>
<p>A “intuição” que a guia é o primeiro traço característico de um automatismo que se busca ainda. “No metrô, eu fiquei aturdida com os pensamentos de outro, são energias; o pensamento, isso torna uma pessoa pesada; o fato de ter uma intuição, isso a pneumatiza”.</p>
<p>A propósito de uma seita religiosa, da qual ela faz parte, Dominique diz: “Eu senti que eu devia entrar para ela; é uma visão global do mundo&#8230; Combater é obedecer a uma intuição, um trabalho de discernimento”<i>. </i>Toda melhora de sua formidável astenia psíquica é vivida por Dominique como a possibilidade decorrente desse trabalho sobre a intuição. Esse fenômeno deve ser considerado como o avesso ou a outra face da sensação de ser agida ou pensada:</p>
<p>“Viver nos automatismos, se lavar, comer, passear, comer, dormir: eu estou num estado soporífico&#8230; É a queda; eu não tenho mais força. As pessoas, quando elas os olham, elas lhes falam automaticamente; elas não podem se impedir de falar&#8230; Automático, é algo de universal, a fraqueza do ser. O menos pleno vai em direção ao pleno: uma relação de plenitude; eu falo pouco para conservar minha identidade.”</p>
<p>Essa “imiscuição dos sujeitos”, esses <i>entre-eu</i> onde aparecem as palavras explicitam o laço entre impasse, perplexidade, mutismo e preenchimento automático. A paciente acrescenta:</p>
<p>“Eu me sinto desenraizada de lá onde eu estava&#8230; As raízes, isso é construir um certo número de estruturas fixas que me ajudam e me sustentam. Por exemplo, eu devo absolutamente me lavar em uma determinada hora, isso me permite chegar justo na hora; é um quadro no qual eu evoluo. Quando não se tem estrutura fixa no interior, é preciso construir no exterior para se autodisciplinar.”</p>
<p>A esta barreira contra um preenchimento de um lado e a dissolução do outro, é preciso acrescentar os seguintes fenômenos: “uma emoção me toma quando me dirigem a palavra, o olhar me trespassa; é meu lado sexual que é descoberto&#8230; Eu não ouso mais olhar as pessoas; elas o sabem&#8230;”. Assim se desenha a dupla vertente do automatismo: estrutura de exposição em que a paciente é lida numa borda, enquanto na outra flutua contra o sentimento mortal de desumanização.</p>
<p>“A única forma de reagir que possa religá-lo à humanização que ele tende a perder é se apresentar perpetuamente no mesmo comentário do cotidiano da vida”, diz Lacan, no seminário sobre <i>As psicoses</i>.</p>
<p>A “intuição” inicia e envolve aqui o início dos fenômenos de automatismo mental:</p>
<p>“nesse momento, eu me escuto pensar. Eu tenho a impressão de que isso é uma voz, os outros também a escutavam. Há também as imagens que são transmitidas: da mesma forma que eu as percebia, os outros também as percebiam. Eu tomo consciência: eu me dou conta de que eu sou pensada.”</p>
<p>Vemos como os fenômenos passam do eco simples (eu me escuto pensar), ao pensamento difuso (os outros também&#8230;), à síndrome de influência (eu sou pensada). Puxada pela direção à característica do momento psicótico. Notamos também o quanto esse sentimento de realidade (eu tomo consciência) está de acordo com essa aparição no real dos fenômenos elementares.</p>
<p>Continuemos com o automatismo:</p>
<p>“Andando e escutando meus passos eu me fio nos barulhos, eu fixo meu pensamento no som e eu obtenho um resultado. Andando ou escutando o tiquetaque do despertador ou escutando as pessoas falarem. Eu fico perdida se me impedem de escutar: eu fico sem nada, eu não sei mais o que fazer, nem o que dizer, nem o que pensar. Eu sou escrava desses meios. A intuição me tranqüiliza, ela me reforça, torna-se como um automatismo natural. Eu coloco meu pensamento no som e isso dá um resultado positivo ou negativo. Quando se saboreia <a id="_ftnref10" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn10" name="_ftnref10"><sup>(9)</sup> </a>o pensamento, isso é positivo.”</p>
<p>Essa relação enigmática entre o pensamento e o gosto transita pelo olhar: “A prova eu a vejo no olhar: o olhar é translúcido quando uma pessoa é espiritual. Eu olho sistematicamente depois de cada ação o resultado alcançado”.</p>
<p>Resumamos essas formulações:</p>
<p>&#8211; o pensamento se coloca no som.</p>
<p>&#8211; o som indica um valor.</p>
<p>&#8211; esse valor leva ou não à ação.</p>
<p>&#8211; dessa ação, o olhar se acha transformado se essa ação for positiva, exata, correta.</p>
<p>Lacan afirmava no <i>Seminário I</i>:</p>
<p>O ser humano não vê sua forma total realizada, a miragem de si mesmo&#8230; para que vocês vejam mais ou menos perfeitamente a imagem depende da inclinação do espelho plano&#8230; Nós podemos supor que a inclinação do espelho plano é comandada pela voz do outro&#8230; <a id="_ftnref11" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn11" name="_ftnref11"><sup>(10)</sup> </a></p>
<p>Essa relação entre o especular e a voz no sentido de uma dependência do especular em relação à voz toma aqui a seguinte forma: o som e as palavras se conjugam em uma redução neológica, saborear. O olhar torna-se então transparente, o espelho é vertical. Dominique encontra seu reflexo e nele se sustenta. Se o som e as palavras discordarem, o reflexo é perturbado, o olhar torna-se opaco. Dominique não tem mais de onde se dirigir, ela não tem mais para onde se dirigir. O automatismo idéico ou ideativo de Clérambault comporta essa captura do pensamento, perturbação do curso do pensamento compreendendo as variantes sutilmente descritas: pensamento estrangeiro, pensamento imposto, pensamento antecipado, pensamento pressentido, pensamento adventício&#8230; Essa captura do pensamento adquire forma desenvolvida no eco do pensamento, dobradiça entre o <i>pequeno</i> e o <i>grande automatismo</i>. O pensamento se duplicou no tempo e no espaço, a exteriorização não está longe; mas nesse tempo preciso o paciente não se sente afetado por esses fenômenos, inicialmente, não persecutórios. Para aperfeiçoar a descrição desse quadro inicial, observemos a ausência de delírio. Os temas místicos existem, mas sem arquitetura delirante.</p>
<p>A captura no outro sob o efeito de diálogo ou da interrogação é muito bem descrita por Dominique. Darei apenas um exemplo suficientemente esclarecedor. Dominique não pode responder às perguntas simples, às interrogações habituais e cotidianas. Da linguagem, as palavras transbordam, precipitando-a do lado do real das coisas. Essa ponte entre simbólico e real parece aqui, conforme à fragilidade de um Eu, reduzido a um lugar parasitário.</p>
<p>“Se eu aceito o desejo de minha mãe de comer, o perigo é neutro, eu me ligo interiormente a ela; ‘minha franguinha’ faz relação entre mim e ela, acaba-se por acreditar que se é o outro”. Esse “Eu” que tem uma natureza essencialmente fugidia encontra aqui uma dissolução paroxística. Esse “você quer comer?”, que convoca um mutismo protetor, lembra o exemplo de Lacan do capítulo “Tu és” no Seminário sobre as psicoses:</p>
<p>Tu és aquele que me seguirás (1)</p>
<p>Tu és aquele que me seguirá (2)</p>
<p>Os elementos não são homólogos, não é do mesmo aquele de que se trata:</p>
<p>(2) – implica um caráter “<i>infalível”</i>, uma constatação<i> (</i>“<i>o desejo neutro</i>?”)</p>
<p>(1) – implica um mandato, uma delegação. Supõe na presença do outro algo de desenvolvido que supõe a presença.</p>
<p>Esse exemplo demonstra</p>
<p>que há outra coisa para além do Tu, que é o Ego, que sustenta o discurso daquele que me segue quando ele segue, por exemplo, minha palavra. Isso é precisamente o mais ou o menos de intensidade, o mais ou o menos de presença desse ego que decide entre as duas formas. (&#8230;) Vocês acabam de ver o quanto o Tu depende do significante como tal. A natureza e a qualidade do Tu que é chamado a responder dependem do nível do significante vociferado. É do nível do significante vociferado que depende a natureza e a qualidade do Tu que é chamado a responder. <a id="_ftnref12" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftn12" name="_ftnref12"><sup>(11)</sup> </a></p>
<p>A partir desse momento, quando o significante que traz a frase falta àquela, o <i>eu o sou </i>que responde a vocês não pode parecer senão com uma interrogação eterna. “Tu és aquele que me&#8230; o quê? No limite, é a redução ao nível precedente: tu és aquele que me&#8230; tu é aquele que me&#8230; matas”.</p>
<p>Em nosso caso clínico, o <i>Tu queres comer </i>toma como <i>alvo</i> o Eu, a qualidade do Ego, as categorias do desejo e da necessidade. A redução intensificada à pura relação imaginária é indicada por “franguinha”; ela é a franguinha / no outro.</p>
<p>Mais tarde, Dominique dirá: “Se minha mãe me chama meu pãozinho ou minha cervinha (<i>bichette</i>), isso me bloqueia; se eu aceito, eu regrido ao plano de uma cervinha; eu me tomo por uma criança e ajo como tal”.</p>
<p><b>A evolução do automatismo mental</b></p>
<p>Os elementos que eu ordeno e preciso aqui foram constituídos em pouco mais de um ano desde a entrada no quadro descrito como inicial.</p>
<p>O termo <i>“intuição”</i> que Dominique utiliza envolve todos os fenômenos de eco, de automatismo e de comentários. Esse termo conota igualmente esse conhecimento direto, fora do raciocínio, fora da dialética. “Eu devo me agarrar ao menor barulho para saber onde eu estou: para comer, me é necessário o rádio, porque isso cria vozes; eu devo saber quando comer, quando não comer&#8230; Se eu perco a intuição, eu me torno alguém que não sabe aonde ir”.</p>
<p>À relação entre o pensamento, o som e o sabor acrescentam-se uma relação entre a cor e o som:</p>
<p>“há alguns dias, um novo modo de seleção dos pensamentos se instalou: é como se os pensamentos tivessem uma cor; pensamentos que dão uma impressão, é do domínio visual; eles todos têm um tom. Por exemplo ‘MAMÃE tu queres fazer isso, ou tu queres fazer aquilo&#8230;’ Eu escolho mentalmente depois eu olho se isso corresponde a meu critério de seleção. Eu a coloco no som e olho o que ela dá.”</p>
<p>Não se trata como tal de alucinação no sentido da alucinação psíquica ou das pseudo-alucinações de Séglas.</p>
<p>Essa captura do pensamento entre som e cor exprime bem esse sentimento sutil de privação (<i>dépossession</i>) – que antecipa o pensamento imposto, pressentido, estrangeiro. Notemos, antes de evocar o passo seguinte, que esses primeiros fenômenos são antes de tudo de procedimentos, procedimentos aos quais a paciente recorre para tentar manter sua humanidade. Se a intuição desaparece ou se embaralha, o menu de comentário dos pensamentos correntes falta: “Eu não escuto mais as diferenças de som e, sobretudo meu olhar se apaga. Eu não posso mais me dirigir. Eu me deixo morrer; eu não luto mais”.</p>
<p>A intuição, primeiro fenômeno do automatismo, faz barreira à dissolução. Mas notemos que esses fenômenos, em um primeiro tempo, a paciente, em um sentido, os conhece bem, no sentido do familiar. Eles fazem parte de sua existência, de seus hábitos, de suas coordenadas habituais. Eles não têm o caráter enigmático de inquietante estranheza. Dominique presta atenção a esses fenômenos, pois eles lhe são vitais; ela sabe, por outro lado, que eles lhe são absolutamente particulares. Eles seriam quase favoráveis ou, em todo caso, neutros no sentido do obrigatório (neutralidade evocada por Clérambault).</p>
<p>Retomemos agora o passo seguinte, aquele do automatismo idéico, do pensamento como estrangeiro. A exposição dissocia a ordem dos fenômenos, mas, para a paciente, todos esses fenômenos estão em uma mesma série, em um mesmo registro. Eles se respondem e se coordenam uns aos outros. Fato de estrutura e não compilação fenomenológica. Nós não observamos a ordem dos fenômenos; é a própria paciente que os isola e os reagrupa.</p>
<p>“Eu sou angustiada pela auto-sugestão que ordena meu coração a parar de bater. A cada vez, eu sou obrigada a dar contra-ordens. É do gênero ‘detenha-te meu coração&#8230; Eu quero que te detenhas&#8230;’. Como vindo do exterior de mim. É uma voz bem clara. Muitas vezes, é como se eu falasse e eu não tivesse voz.”</p>
<p>Evocação característica diante da televisão: “O apresentador da tv, eu lhe envio imagens de santos e de sexos; eu não estava segura, mas ele ficava perturbado, eu tenho o sentimento de me duplicar”. O pensamento se exterioriza, se desdobra, se difunde. A sensação de não-pertencimento experimentada pelo sujeito é nítida. A tonalidade se torna mais persecutória. Notemos, aliás, que se conjugam fenômenos visuais que parecem tomados sob o comando depreciativo dos fenômenos idéicos: “Muitas vezes, eu vejo uma mão segurando uma faca e que vai cravá-la em meu coração; como uma imagem transparente, que vai embora quando eu digo ‘Retira-te Satanás&#8230;’.” Assim como as ordens e as contra-ordens sobre o coração podem permitir evocar aqui o estatuto da alucinação verbal motora, tanto quanto os longos períodos de preces, aos quais Dominique se impõe, precipitam freqüentemente os fenômenos; ela articula provavelmente, escuta como eco pensamentos parasitas, enuncia fórmulas ritualizadas. Seu pensamento a tiraniza, ela é mais falada do que fala, é mais pensada do que pensa. Baillarger já tinha constatado que alguns pacientes não pretendiam realmente ouvir vozes, mas antes sentir falar uma voz. Lacan insiste muito na descoberta de Séglas, reconhecendo que, por vezes, é o próprio paciente que fala na alucinação, ele mexe os lábios.</p>
<p>Séglas liga, logicamente, o sentimento de duplicação ao colapso emissor-receptor do esquema linear da comunicação. Uma observação muito simples domina, nos diz Lacan, toda a questão da alucinação piscomotora verbal: “parecem se esquecer de que na palavra humana o emissor é ao mesmo tempo um receptor&#8230;”</p>
<p>O famoso esquema L se opõe ao esquema linear, lingüístico, aliás, da comunicação. É o esquema L que faz valer que é o eu do sujeito que fala normalmente a um outro e do sujeito, do sujeito S, na terceira pessoa.</p>
<p><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clere0081.jpg"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-3469" src="http://www.tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/clere0081.jpg" alt="clere008" width="252" height="85" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aristóteles dizia: “O homem pensa com sua alma”. Para Lacan, o sujeito<i> se </i>fala com seu eu. A explicitação desse fenômeno tornou-se possível precisamente pela<i> alucinação verbal</i>: “O sujeito fala literalmente com seu eu e é como se um terceiro, seu duplo, falasse, comentasse sua atividade”.</p>
<p>É preciso notar aqui que essa configuração, que nos mostra um sujeito completamente identificado a seu eu com o qual ele fala, não implica a idéia de um Outro excluído como tal (fórmula freqüentemente caricatural que damos dessa regressão tópica sobre o eixo imaginário). A relação ao Outro não pode ser declarada recoberta unicamente pelo processo da relação imaginária sob as formas da alusão, de intrusão, de comentário, de difusão.</p>
<p>Dominique mantém uma atividade de pintura, e sustenta também uma demanda de reconhecimento quanto a essa atividade: ela quer ser julgada como todo mundo. A oportunidade de um exame em que ela apresenta seus trabalhos a coloca em posição de responder, de dar provas, de ter peso e diante de um professor, de um juiz, de um grande Outro.</p>
<p>Sob o olhar e o questionamento do grande Outro, Dominique se reduz, se sidera; e um sentimento mortal a invade; ela é aspirada pelos vagões do metrô, pensa várias vezes em se atirar debaixo dele. Ela é fascinada pela idéia de furar os olhos.</p>
<p>Diante da pergunta do grande Outro emerge algo que remete à neutralização do sujeito (lembremo-nos também do mutismo inaugural). Eu creio que os registros são diferenciáveis, embora, evidentemente, ligados: aniquilamento produzido pela forçagem do grande Outro, fenômenos familiares, quer dizer, aniquilantes do automatismo – dois registros complementares articulando uma degradação narcísica permanente.</p>
<p>Antes de abordar o momento fecundo dessa evolução, vejamos como a própria paciente distingue os diferentes fenômenos sob a denominação geral de <i>pensamentos</i>:</p>
<p>&#8211; há a <i>inspiração</i>, pensamento simples, doce e luminoso.</p>
<p>&#8211; a <i>intuição</i>, algo que me guia em tudo o que eu faço, que me diz as palavras que eu devo dizer.</p>
<p>&#8211; as palavras interiores: “vozes exteriores a mim que me falam, visivelmente não minha voz. Palavras distintas que eu não posso censurar”.</p>
<p>Aos fenômenos acima citados, acrescentem-se aí os esclarecimentos e luminosidade do “sentido visual” e visões das quais falaremos mais adiante, a sensação de uma presença.</p>
<p>Concluirei rapidamente pelo momento fecundo que necessitaria de desenvolvimentos históricos e biográficos importantes. Indicarei, no entanto, o futuro das linhas de forças anteriormente citadas e que encontram então seu extremo desenrolar. Conjugam-se nesse momento fecundo diálogos alucinatórios, fenômenos visuais e eclosão delirante mística, sobre a qual eu farei pouco comentário. Nos diálogos alucinatórios, durante, aproximadamente, quatro semanas com a mesma intensidade, nós pudemos localizar:</p>
<p>Do lado das vozes:</p>
<p>&#8211; a voz de Jesus, muito profunda, ressonante e grave,</p>
<p>&#8211; uma voz interior que canta, atribuída ao Espírito Santo,</p>
<p>&#8211; uma voz feminina, a de Maria,</p>
<p>&#8211; a voz de Laurent, o primo morto, do qual ela reconhece o sotaque, voz se exprimindo, alternadamente, em inglês e em francês,</p>
<p>&#8211; risos satânicos em certos cômodos no momento da prece: “impressão insegura de um riso obscuro e vertiginoso”, ela diz.</p>
<p>Os fenômenos automáticos permanecem durante essa invasão alucinatória e são distintos como tais: “vozes interiores, frases impulsivas”, diz a paciente, ou ainda “pensamentos saltitantes”. As preces a falam: “uma Ave Maria – voz interior que pronuncia sem a ajuda da vontade – vem das profundezas”, “voz interior verificada como, sobretudo, do coração”, “uma voz parece dizer a hora de Satanás”.</p>
<p>Os fenômenos visuais, os fenômenos de olhar são múltiplos, sempre associados aos fenômenos de palavras: rosto do Santo Sudário, visões de pombas, rosto de Santa Teresa, cabeça de Jesus coroada de espinhos etc., “um olhar azul me olha&#8230; impressão de um vazio obscuro&#8230; visão de um sexo de homem”.</p>
<p>A sensação de uma presença se liga aos fenômenos cenestésicos: “sensação de uma presença que sai de mim, depois, de dois olhos, de um olhar e de um olhar de fogo”. “Calor no coração, ardente, que se espalha por todo o corpo”. “Uma presença parece sair de mim como um duplicação que se assenta em cima da escrivaninha diante de mim.”</p>
<p>Séglas já notava como a alucinação era, ela própria, um verdadeiro delírio. Lacan retomou essa concepção homogênea do fenômeno alucinatório como um fenômeno delirante. Nessa eclosão alucinatória se acha, certamente, colocada toda a proximidade de estrutura entre alucinação e delírio. Dominique, simplesmente, se deu conta disso, dizendo que se tratava de uma provação, provação indicando que ela estava designada para uma santificação, ou, antes, uma verdadeira canonização.</p>
<p>Assim, pode-se melhor ouvir a homofonia com loucura racional (<i>folie raisonnante</i>); os fenômenos alucinatórios já têm toda a estrutura irredutível do delírio. O momento fecundo se dissipará em algumas semanas, dando lugar aos fenômenos a partir desse momento estáveis e permanentes do automatismo. A riqueza e a progressão dos mecanismos xenopáticos permitem também captar a categoria da voz tomada como objeto, objeto <b><i>a</i></b>, objeto caído do órgão da palavra. Uma partição dos fenômenos seria possível a partir dessa disjunção entre voz e palavras:</p>
<p>&#8211; em um pólo fenômenos de palavras, fenômenos articulados, mas no limite sem voz: as ordens dirigidas ao coração.</p>
<p>&#8211; em outro, uma ausência de palavras, mas uma encarnação da voz: o riso satânico, o canto do Espírito Santo.</p>
<p>Se retornarmos ao esquema L, precisaria fazer valer as categorias diferentes evocadas:</p>
<p>&#8211; alucinações <i>envozadas</i>: alucinações acústico-verbais clássicas do momento fecundo, recaindo nelas toda estrutura do delírio,</p>
<p>&#8211; alucinações <i>não envozadas</i> recobrindo a alucinação psíquica e os fenômenos do automatismo. A mensagem não parece ser ouvida na mesma relação com a presença egóica, a intensidade do Ego. Uma forma aparentemente direta assinala a alucinação nesse sentimento de uma realidade nova fazendo irrupção no mundo exterior.</p>
<p>A segunda forma é mais problemática, primeira na evolução, onde a difração perpétua do pensamento põe o sujeito à prova de sua consistência egóica e de sua inclusão no discurso (corpo opaco do objeto).</p>
<p>Nossos dois exemplos clínicos têm o mérito de indicar o quanto podemos prosseguir com Clérambault e após Clérambault.</p>
<p>O que Marcel Czermak chama de “desdobramento da estrutura” é particularmente esclarecedor através desses casos em que se deixam captar os fenômenos de conjunção e de disjunção entre voz e palavra, alucinação e fenômenos escópicos, voz pura e comentários etc. Escolhemos esclarecer o automatismo mental. Do lado das psicoses passionais, as descobertas estão ao alcance da mão e, da erotomania ao transexualismo, uma leitura renovada se impõe, interrogando o lugar do postulado da inércia do discurso, das especificidades segundo os sexos, das particularidades da transferência.</p>
<p><b>Para concluir </b></p>
<p>“Atualmente, é possível que o que eu sei por um saber geral, eu não saiba em sua aplicação particular&#8230; Por exemplo:</p>
<p>Eu sei curar absolutamente todo homem que tem febre.</p>
<p>Mas eu ignoro se esse homem tem febre.”</p>
<p align="left">(Aristóteles, <i>A grande moral</i>)</p>
<p>Nós não falamos de Clérambault para inscrevê-lo na história do movimento das idéias ou dos conceitos psiquiátricos.</p>
<p>O essencial dessa pretensa história a cada vez escapa: os quarto de giros, as ultrapassagens, as reversões topológicas, e, mais ainda, os objetos novos recortados em um real de outra forma desesperadamente estéril.</p>
<p>Pensamos que a psicanálise não pode virar as costas para a exigência de uma clínica tão resoluta, partindo certamente da Alíngua e dos instrumentos deixados por Lacan, mas revisitando as elaborações daqueles que não se furtaram ao seu dever de transmissão.</p>
<p>_____________________________________-</p>
<p><a id="_ftn1" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref1" name="_ftn1">* </a>Publicado em <i>Le Discours Psychanalytique</i> nº 11, fevereiro de 1994 – <i>Revue de l’Association freudienne internationale</i>, Paris.<br />
<a id="_ftn2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref2" name="_ftn2">1 </a><i>Paixões do objeto</i>. São Paulo, Artmed, 1991.<br />
<a id="_ftn3" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref3" name="_ftn3">2 </a>CLÉRAMBAULT, <i>O delírio auto-construtivo</i>, 1934.<br />
<a id="_ftn4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref4" name="_ftn4">3</a> CLÉRAMBAULT, <i>Psicose alucinatória e práticas espíritas</i>, 1930.<br />
<a id="_ftn5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref5" name="_ftn5">4</a> CLÉRAMBAULT, <i>Apresentação de doente</i>, 1921.<br />
<a id="_ftn6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref6" name="_ftn6">5</a> Ibid.<br />
<a id="_ftn7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref7" name="_ftn7">6</a> Boletim da Associação Freudiana n o 21.<br />
<a id="_ftn8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref8" name="_ftn8">7</a> Publicado em <i>Discours Psychanalytique</i> nº 7, “O homem das palavras impostas”, com comentários de Marcel Czermak.<br />
<a id="_ftn9" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref9" name="_ftn9">8</a> Cf. <i>Ensaios sobre a topologia lacaniana</i>, de Marc Darmon.<br />
<a id="_ftn10" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref10" name="_ftn10">9</a> N.T. – “Quando se saboreia o pensamento”: O verbo empregado pela paciente é <i>goûter à</i>, que significa provar algum alimento, experimentar uma comida ou uma bebida pela primeira vez ou para verificar se está em bom estado etc.<br />
<a id="_ftn11" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref11" name="_ftn11">10</a> LACAN, J. <i>Os escritos técnicos de Freud</i>, Jorge Zahar Editor.<br />
<a id="_ftn12" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/clerambault?cod=19#_ftnref12" name="_ftn12">11</a> LACAN, J. Seminário <i>As psicoses</i>, lição de 13/06/1956.</p>
<p align="right">Tradução de Luíza Ribeiro<br />
Revisão de Anna Carolina Lo Bianco</p>
<div align="right">Trabalho publicado no <a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-clinica-da-psicose-lacan-e-a-psiquiatria-volume-1-fenomenos-elementares-e-automatismo-mental-marcel-czermak-e-angela-jesuino-organizadores/" target="_blank"><span class="texto"><b>Volume 1 da Coleção A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria: Fenômenos elementares e automatismo mental</b></span></a></div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A pele virada pelo avesso, observações sobre o gozo do invólucro</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 13:08:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[A pele virada pelo avesso]]></category>
		<category><![CDATA[A pele virada pelo avesso observações sobre o gozo do invólucro]]></category>
		<category><![CDATA[Jean-Jacques Tyszler]]></category>
		<category><![CDATA[observações sobre o gozo do invólucro]]></category>
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					<description><![CDATA[Lacan se espantava, ao ler o livro de Stoller, Sex and gender, com o fato de que a face psicótica desses casos fosse completamente eludida.

O manual de psiquiatria de Henry Ey, em sua quarta edição, evoca o transexualismo em dois trechos: primeiro, no capítulo sobre o homossexualismo, depois, em uma passagem sobre as síndromes particulares a certas culturas em que o transexualismo é associado a poderes xamânicos, ritualizados, quase religiosos.

Perversão, psicose ou fato cultural, o enquadramento, ao deixar de ser clínico, derrapa logicamente na direção do bom direito e da medicina reparadora.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Jean-Jacques Tyszler</p>
<p>Lacan se espantava, ao ler o livro de Stoller, <em>Sex and gender</em>,<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d1"><sup>1</sup></a><a name="t1"></a> com o fato de que a face psicótica desses casos fosse completamente eludida.</p>
<p>O manual de psiquiatria de Henry Ey, em sua quarta edição,<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d2">2</a></sup> <a id="t2" name="t2"></a>evoca o transexualismo em dois trechos: primeiro, no capítulo sobre o homossexualismo, depois, em uma passagem sobre as síndromes particulares a certas culturas em que o transexualismo é associado a poderes xamânicos, ritualizados, quase religiosos.</p>
<p>Perversão, psicose ou fato cultural, o enquadramento, ao deixar de ser clínico, derrapa logicamente na direção do bom direito e da medicina reparadora.</p>
<p>Lacan nos legou uma poderosa ferramenta de análise relativa às psicoses: o conceito de foraclusão. Que um sujeito recuse radicalmente seu lugar na divisão produzida pela anatomia sexuada – aí está algo que não parece mais delirante o bastante para ser chamado de psicótico.</p>
<p>Será que estamos tão bem informados quanto às conseqüências do principal aporte do seminário sobre as psicoses?</p>
<p>Lembremos de início que o conceito de foraclusão do Nome-do-Pai não é apenas aquele que nos permite sair das dificuldades freudianas relativas à distinção entre neurose e psicose, o que vem sendo pouco a pouco reconhecido por todos, mas também nos afasta de uma clínica reduzida aos fenômenos ou aos temas, ao aspecto imaginário da produção, como a narração, ao romance familiar ou social, como a empatia eventual que o acompanha, para nos concentrar primordialmente nos elementos estruturais: a foraclusão é reconhecida por seus efeitos clínicos, sintomáticos, em sua ligação ao discurso do sujeito, pelo remanejamento do próprio tecido da linguagem.</p>
<p>Isso nos obriga, assim, a admitir que um significante aparentemente comum e evidente (homem, mulher&#8230;) pode ser reduzido a um uso quase neológico, isto é, sem nenhum relançamento subjetivo, apenas sob o ângulo da aparência e do <em>como se</em>.</p>
<p>O cirurgião e o jurista estão menos habituados do que o psiquiatra ao manejo das entrevistas, mas não deixarão de se ser sensíveis a este fato, legível em cada relatório mais ou menos completo: nada indica que saibamos espontaneamente o que um paciente evoca quando se nomeia homem ou mulher, não mais do quando um melancólico se declara danado, ou um perseguido, possuído.</p>
<p>Ignoramos <em>a priori</em>, para um paciente assim, o que quer dizer a identidade ou o desejo, ignoramos também seu tipo de relação com o prazer, com o gozo e com a própria natureza deste, que está longe de ser sempre sexual, no sentido que costumamos entender.<br />
O fio que escolhemos não é o estabelecimento do quadro completo do transexualismo, nem o estudo das variações desse tema na maior parte das psicoses produtivas.</p>
<p>Centramo-nos no estudo de um gozo próprio ao transexual, da pele e da vestimenta, gozo que faz redobrar o significante <em>invólucro</em>.</p>
<p>Tentaremos mostrar que esse gozo é realmente Outro, desespecificando o prazer de órgão; tentaremos também compreender o que é que, para esses pacientes, faz superfície.</p>
<p>O termo gozo Outro não deve ser aceito sem prudência, mas ele nos oferece, ao mesmo tempo, a solidez de uma referência já clássica, pois é o termo que Lacan nos propõe para descrever modos de gozo liberados do imperativo fálico que vertebra a neurose, e nos autoriza uma certa invenção; é por isso que propomos, de saída, essa relação entre modo de gozo, definição estrutural do gozo e interrogação sobre o lugar da pele e da vestimenta como <em>superfície</em>.</p>
<p>Essa conjunção está presente em todas as observações disponíveis sobre a questão, basta simplesmente segui-la ao pé da letra.</p>
<p>Precisemos, para terminar, que o essencial do material que reunimos concerne ao transexualismo masculino, mas que nossas observações não o separam <em>a priori</em>, em nada, do transexualismo feminino, embora outros comentários e precisões sejam necessários.</p>
<p><b>A vestimenta, a luva e o corpo estranho</b></p>
<p>No artigo “Contribuições à psicanálise do transexualismo”,<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d3">3</a><a name="t3"></a></sup> Mustapha Safouan extrai essa observação de três casos clínicos descritos por Stoller:</p>
<p>esses três meninos eram impermeáveis ao medo, <em>physically fearless</em> diz Stoller, acrescentando que certamente isso acontecia porque cada uma dessas crianças sentia que podia fazer tudo o que sua mãe podia, sendo apenas uma extensão dela; essas crianças viviam, em suma, envolvidas pela Providência&#8230;</p>
<p>Mais adiante, Safouan observa o interesse particular de uma das mães pela vestimenta e pelo tecido, “interesse que seria errôneo assimilar ao fetichismo”, diz Stoller, e a lembrança das excelentes anotações clínicas de Clérambault vem a propósito; voltaremos a elas.</p>
<p>Poderíamos, antes de mais nada, dizer sobre o transexual (masculino): <em>a vestimenta feminina lhe cai como uma luva</em>, acrescentando que, diante da profunda aversão, da repugnância que comumente lhe inspiram seus atributos masculinos, ele tem essa faculdade de escotomizar, de colocar entre parênteses, certas partes eletivas do corpo, o pênis em primeiro lugar, como se se tratasse <em>de um corpo estranho.</em></p>
<p>Notemos também que as intervenções cirúrgicas e seus resultados incertos são encarados com uma indiferença manifesta no que concerne à relação com o incômodo, a dor, a disfunção, as cicatrizes e seqüelas.</p>
<p>Uma parte do corpo é assim tratada com um singular desprendimento, enquanto o conjunto do corpo, por sua pele, se enluva na vestimenta.</p>
<p>Essas indicações não deixam de lembrar as observações de Lacan a respeito de Joyce em sua relação com Nora (seminário sobre <em>O sinthoma</em>): “a luva virada pelo avesso, é Nora, é sua maneira de considerar que ela lhe cai como uma luva&#8230;”.</p>
<p>“Ela está sempre no mesmo modelo e ele só se enluva nela com a mais viva repugnância.”</p>
<p>E ainda esta observação relativa ao corpo: “há algo que só pede para ir embora, para soltar-se, como uma casca&#8230; O desprendimento de algo como se fosse uma casca&#8230; Como possibilidade de relação com seu próprio corpo enquanto estranho”.<sup><a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d4">4</a></sup><a name="d4"></a></p>
<p>Essa aproximação com o Seminário <em>O sinthoma</em>, em que Lacan estuda a possibilidade, para um sujeito (no caso, genial, mas suas conseqüências são gerais), de cicatrizar de algum modo sua psicose se fazendo um nome, criando uma obra, é fatalmente alusiva demais, mas a idéia diretriz me parece extraordinariamente fecunda: será que é possível para um paciente ter uma relação com o seu próprio corpo que seja uma relação marcada por uma negação especial e, ao mesmo tempo, conseguir enodar um tipo de troca forçosamente específica, eventualmente protética? Lacan descreve com Joyce esse tipo de possibilidade e nós nos perguntamos se, a seu modo e ao preço de um certo trabalho de elaboração, os transexuais também não o conseguem; caso em que a opção cirúrgica aparece como um “atalho” ainda mais discutível.</p>
<p><b>Um caso particular porém esclarecedor</b></p>
<p>Numa primeira observação de Krafft Ebing, a autobiografia do paciente começa assim:</p>
<p>Vou mencionar uma lembrança obscura e quase apagada, que data da época de minha mais tenra infância. Era uma sensação esquisita, uma espécie de obsessão, eu me imaginava completamente enrolado e enfaixado, em todo caso num estado de impossibilidade completa de me defender, e, no entanto, eu experimentava, na minha sensibilidade infantil, um tipo de inebriamento agradável.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d5"><sup>5</sup></a><a name="t5"></a></p>
<p>Vêm em seguida as observações usuais referentes ao gosto precoce pelas vestimentas de menina. No momento da puberdade, o paciente assinala um fenômeno bizarro, seus mamilos ficam grandes, duros e sensíveis, e o contato com as roupas ocasiona dores violentas; ele evoca, aliás, sua barba nascente como uma coisa estranha, que ele não desejava.</p>
<p>Trata-se da observação 129, considerada como única em seu gênero por Krafft Ebing, que nos dá, pela riqueza do documento, elementos de estrutura que podemos seriar assim<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d6">:<sup>6</sup></a> <a name="t6"></a></p>
<p>– Descrição da primeira infância insistindo na beleza e na docilidade: “parece que eu era bonito, tinha cachos louros e a pele transparente&#8230; Eu era muito obediente, silencioso, modesto”.</p>
<p>– Queda precoce pelas belas vestimentas e em particular pelas luvas de mulher.</p>
<p>– A pele é investida em sua dimensão de prova quanto à feminilidade, por causa de sua suavidade muito particular e de sua sensibilidade.</p>
<p>– Distúrbios hipocondríacos se resumem a uma identificação com as dores do parto.</p>
<p>– Um gozo plenificante é observado num momento em que usa haxixe: “eu experimentava em mim a sensação de ser uma mulher dos pés à cabeça. Minhas partes genitais se contraíram, minha bacia se alargou, meus seios ficaram salientes e uma volúpia indizível tomou conta de mim.”</p>
<p>– O remanejamento imaginário do corpo é importante; o paciente compara seu pênis ao clitóris, a uretra lhe parece ser a entrada da vagina e o escroto, os grandes lábios. A pele de todo o corpo é feminilizada, sentindo as impressões de uma mulher, seja pelo toque, seja pelo calor, seja pelo perigo.</p>
<p>– Essa transformação corporal não é sem incidência sobre sua posição de médico, na medida em que o saber também se feminiliza: “tive que reaprender tudo de novo, os bisturis, os aparelhos, tudo me dava ao toque uma impressão totalmente diferente&#8230; Em função da modificação de minha sensação muscular, tive que aprender tudo de novo”.</p>
<p>A questão do invólucro é trazida, nos dizeres do próprio paciente, como superfície de alguma forma suplementar e organizadora; sua própria pele lhe foi arrebatada para colocá-lo na pele de uma mulher, pele que se adapta perfeitamente, mas “que sente tudo como se envolvesse realmente uma mulher e como se todas essas sensações percorressem todo o corpo masculino que ela encerra e do qual ela tivesse expulsado as sensações masculinas”.</p>
<p>Esse trecho é essencial na demonstração dessa <em>função da pele como invólucro autônomo, destacado, móvel.</em> Essa dimensão é central em numerosas outras referências e situa a pele, o que não é comum, no lugar do objeto chamado por Lacan de <strong><em>a</em></strong>.</p>
<p>É preciso notar ainda a marca da <em>negação</em>, paralela à idéia da transformação em mulher e relativa aos sinais ou atributos sexuais masculinos: “os testículos, embora não estando atrofiados ou degenerados, não são mais testículos propriamente ditos”.</p>
<p>O coito é sentido como uma mulher, e o paciente resume, ao final de sua observação, os elementos de sua completa “efeminação”. Os termos empregados, sensação e aspecto, fazem refletir sobre uma necessária definição mais estrita do transexualismo, pois, evidentemente, não há crença fixa de pertencer ao outro sexo, como propõe Stoller.</p>
<p>Aparecem assim, perfeitamente observados, mas insuficientemente coordenados, os elementos estruturais fundamentais tais como explicitados por Marcel Czermak, em seu artigo nas <em>Paixões do objeto</em>, “Precisões sobre a clínica do transexualismo”:<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d7"><sup>7</sup></a><a name="t7"></a></p>
<p>– Báscula indiscutível quando o paciente está vestido de mulher e assume, sob seu próprio olhar e sob o olhar de outrem, a aparência feminina.</p>
<p>– Primado do prazer cutâneo sobre o prazer de órgão, mesmo se, no caso de Krafft Ebing, a ereção e a ejaculação não causam horror.</p>
<p>– Neutralização pelo invólucro, pela vestimenta, do objeto masculino.</p>
<p>– Incômodo doloroso das partes masculinas.</p>
<p>– Colabamento do corpo e da vestimenta, homogêneo à preocupação de aderir às aparências.</p>
<p>Podemos admitir, com certa segurança, essa dominância do caráter erógeno do cutâneo e a presença secundária do prazer genital.</p>
<p>O termo prazer cutâneo é também empregado para o fato de usar vestido ou tecidos; um paciente falava da vestimenta feminina como de um “veículo”, indicando bem, por meio dessa fórmula, o quanto é a própria vestimenta que garante ao sujeito o seu equilíbrio e a sua direção.</p>
<p>É a pele em sua totalidade, em toda a sua superfície, que é investida: “toda a pele”, fórmula aliás bastante enigmática. O tema da beleza, ser uma bela mulher, está constantemente ligado, nas observações, à questão da vestimenta. Essa problemática da beleza e da harmonia como recobrimento imaginário da categoria da feminilidade era particularmente audível num paciente que tivemos a oportunidade de encontrar: o ideal da feminilidade e o enfoque de toda identificação se distribuíam em torno das seguintes variações: a fineza, o gosto, as artes, a vivacidade de espírito, a sonoridade musical, as roupas, as cores&#8230; espectro imaginário, assim, da realização feminina.</p>
<p>Esse tipo de recobrimento deve ser correlacionado com o invólucro constituído pela vestimenta e pela pele. Temos, assim, como que dois invólucros, um que se oferece ao real do fenômeno de volúpia, outro que pode ser considerado como seu arcabouço imaginário.</p>
<p>Precisamos voltar, através do caso de um paciente examinado em 1983, ao termo “hipocondria fálica”, que devemos ao Dr. Czermak, termo que funda a possibilidade de uma foraclusão de uma parte simbólica do corpo e o retorno, como puramente instrumental, do órgão considerado.</p>
<p>A questão pode ser formulada assim: se a pele é essa superfície totalizante e lisa, invólucro de volúpia colabada pelo tecido na vestimenta, o que é que acontece com os atributos sexuais usuais ao olhar do paciente e na representação do seu próprio corpo?</p>
<p>A uma observação relativa a seu pênis, o paciente responde: “é, uma pequena&#8230; uma bem pequenininha, ela está diminuindo, vai acontecer&#8230; O clitóris das mulheres também é um pau&#8230; Soube da anatomia desde que comecei o tratamento hormonal, o pênis fica pequeno, o pênis se torna um clitóris, a gente bota ele pra dentro&#8230;”.</p>
<p>Esse mecanismo particularmente poderoso, nós encontraremos seu vestígio já na <em>Verleugnung</em>freudiana, mas apoiado na foraclusão e tangenciando a diferença dos sexos. É provável que uma tal recusa escópica tenha sua fonte já no estádio do espelho.</p>
<p>Em outros transexuais, a convicção de ser, no entanto, homem demais, morfologicamente, desvia das soluções cirúrgicas.</p>
<p>Não se trata, para esses pacientes, de se crer mulher, mas, muito mais, de colar-se à imagem de uma feminilidade abstrata e de ser dito mulher, mesmo que seja evidente, e para eles também, que a metamorfose é apenas aproximação.</p>
<p><b>Um gozo “Outro” em Clérambault</b></p>
<p>O artigo “Paixão erótica pelos tecidos na mulher”é uma contribuição de 1908, portanto bastante precoce, e no entanto Clérambault já demonstra a fulgurância clínica que faz sua modernidade.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d8"><sup>8</sup></a><a name="t8"></a></p>
<p>Não retomaremos em detalhe a observação das três pacientes, mas desejamos assinalar alguns pontos úteis ao nosso desenvolvimento sobre a problemática da pele e da vestimenta.</p>
<p>Na primeira observação, Clérambault acentua um traço especial, a algofilia: “o sujeito inflige a si próprio uma picada&#8230; A algofilia é esquemática na origem, bem diferente, por conseguinte, das algofilias masoquistas, complexas desde o início”. A volúpia responde a roçamentos com ajuda do veludo ou da seda e se opõe à intromissão peniana, que não é mais desejada.</p>
<p>Na segunda e na terceira observações, é particularmente bem descrito esse gozo singular do toque, a volúpia do amarfanhar, a embriaguez do ciciar do tecido.</p>
<p>Em seu resumo final, Clérambault insiste em certos pontos: em duas das pacientes, a volúpia descrita data da infância ou da juventude; sensações epidérmicas são “necessárias e decisivas”; nos três casos, ele nos esclarece que “o tecido não intervém como substituto do corpo masculino”, não possui nenhuma de suas qualidades, não serve para evocá-lo e há ausência de contribuição imaginativa: “o tecido parece agir por suas qualidades intrínsecas (consistência, brilho, odor, ruído), em sua maioria secundárias diante das qualidades táteis”.</p>
<p>Clérambault distingue, assim – e insistimos nesse esforço –, o que é do campo do fetichismo, da perversão, e o que é da ordem de um gozo Outro, difícil de repertoriar, para ele, senão por analogias e diferenças:</p>
<p>Parece-nos que ele deve figurar um pouco à parte e ser gratificado com um nome. Para designar essa busca especial de um contato dotado de uma virtude afrodisíaca, duas palavras nos parecem necessárias; o termo hifofilia designaria a busca do tecido, a locução hifofilia erótica daria conta do processo sinestésico.</p>
<p>Clérambault conclui seu artigo com a lembrança de certos casos masculinos de Krafft Ebing (observações 113, 114, 116, 118, 119, 120); apenas o último caso é, para Clérambault, homogêneo aos que ele trabalhou, isto é, com indiferença pela forma e pelo valor evocativo do tecido, papel muito apagado da imaginação, ausência de apego ao objeto após o uso e ausência comum de evocação do sexo adverso.</p>
<p>Nem fingimento nem montagem, deparamo-nos aí com uma dimensão essencial do enquadramento do transexualismo: a vestimenta, aqui o tecido, é dotada de qualidades próprias, específicas, e é ela que organiza, não somente a volúpia do sujeito, mas garante também um <em>semblant</em> de vetorização, fora de uma ancoragem fantasmática usual ou perversa.</p>
<p>A modernidade do artigo de Clérambault, completado pelo de 1910<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d9"><sup>9</sup></a><a name="t9"></a>, é nos colocar na via dessa <em>relação singular de uma superfície com uma outra superfície.</em></p>
<p>Remetemos a todo o seu trabalho de pesquisa sobre o <em>drapeado</em>.</p>
<p>Qualificação do gozo por um lado, abordagem quase topológica do corpo por outro, Clérambault nos obriga a uma leitura estrutural mais estrita e convoca ferramentas que a psicanálise utiliza há pouco tempo.</p>
<p><b>Sobre a alteridade: a figura do duplo</b></p>
<p>Se a vestimenta lhes cola à pele, como observa Marcel Czermak, indicando assim uma dimensão auto-erótica manifesta e esse caráter de recentramento do Sujeito nesse próprio invólucro, o que dizer dos laços afetivos e amorosos estabelecidos pelo transexual?</p>
<p>Já sabemos que, no mais das vezes, as relações sexuais desempenham um papel nulo ou secundário.</p>
<p>Em outros casos, é relatado um tipo de relação sexual marcada <em>pela textura do duplo</em>.</p>
<p>Assim, um só gozava com dor, em relações sexuais com uma mulher, vestido de mulher, após masturbação pela mulher: dois seres adornados como mulheres, face a face, ligados por um pênis “umbilical” que não saberão mais a qual dos dois pertence.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d10"><sup>10</sup></a><a name="t10"></a></p>
<p>Essa cópula com o duplo é bem próxima da questão da luva e de seu reviramento, evocada por Lacan.</p>
<p>Um outro paciente pôde dizer: “Não preciso da penetração, preciso ser amado como uma mulher&#8230; Eu gostaria de <em>bancar </em>amulher de um homem e de me dedicar à casa&#8230;”.</p>
<p>O caso relatado por Stoller, de uma mulher que pensava que um pênis tinha crescido em seu abdômen, é da mesma ordem; essa mulher se serve desse pênis esfregando uma parte do seu ventre no sexo de sua parceira, provocando o orgasmo nas duas mulheres. Que a presença desse “pênis” seja depois explicitada como a descoberta de um fibroma não infirma em nada esse dispositivo do pênis umbilical, segundo o próprio termo do paciente de Marcel Czermak.</p>
<p>Essa observação tem também o mérito de não excluir sistematicamente os casos femininos do quadro geral do transexualismo.</p>
<p>A psicose feminina parece sempre mais difícil de estabelecer e numerosas observações de transexuais femininas são orientadas rapidamente demais na direção do fetichismo e da perversão.</p>
<p>Esse tipo de esteio no duplo parece igualmente sensível em certos casos femininos, e a grade da homossexualidade não basta de modo algum para dar todo seu alcance a esse fenômeno.</p>
<p>Lacan nos dá, com Joyce, a possibilidade de refletir sobre esse tipo de esteio com, numa borda, a eleição especular em sua estrutura de modelo; em outra borda e redobrando a primeira, o enluvamento, o envolvimento como uma luva.</p>
<p>Esse enquadramento preciso da captura amorosa e do gozo fora do sexo que a alimenta deve ser reconhecido em sua elaboração tipológica.</p>
<p><b>Uma clínica das superfícies</b></p>
<p>Optamos por insistir no primado do invólucro, indicando-o como mecanismo central em qualquer exame do transexualismo.</p>
<p>Notemos também o quanto esse tipo de abordagem não é estranho ao campo geral da psicose, desde que estejamos atentos a seu relevo no próprio discurso dos pacientes.</p>
<p>Um paciente, que apresentava uma psicose passional sob a forma de uma erotomania atípica, já que submetida à presença de dois objetos simultâneos, relatava um momento para ele crucial em seu itinerário: “Uma relação sexual degradante&#8230; de manhã, eu tive a impressão de ter perdido todos os meus músculos, como um coelho de quem se tira a pele&#8230;”.</p>
<p>Esse fenômeno o instalou num apragmatismo quase completo, inabitual num quadro clínico em que o ativismo é a regra.</p>
<p>Um outro paciente se queixava de uma dismorfofobia particular que colocava em relação a sua pele, a vestimenta e o solo; seu rosto lhe parecia permanentemente sujo, algo grudava em sua pele apesar das lavagens repetidas e das verificações no espelho; seu rosto continuava desesperadamente emporcalhado, encardido.</p>
<p>Este último se encontrava numa relação original com o espaço por intermédio do invólucro constituído pela vestimenta e pelas solas dos seus sapatos: quando esse paciente usava um conjunto – isto é, como ele indicava, algo que forma um todo –, a parte de baixo combinando com a de cima, a parte de baixo continuando com a de cima, e as solas não estavam gastas demais, então ele observava uma nítida sedação dos fenômenos parasitários sobre seu rosto.</p>
<p>Essa representação estranha do corpo, da superfície e do espaço valoriza também para nós um tipo de coordenação entre o contínuo e o invólucro, aqui numa cristalização psicótica diferente.</p>
<p>O Cotard também nos habituou a uma topologia da psicose em que, estando tampadas todas as aberturas, o corpo fica sem furo, podendo se revirar no invólucro do próprio mundo.</p>
<p>Todos esses sujeitos estão concernidos por superfícies que não podemos abordar facilmente em nossa geometria usual.</p>
<p>Que o imaginário possa remanejar o corpo numa dimensão delirante é uma obviedade, pois o imaginário é justamente o que faz corpo.</p>
<p>Que o estágio do espelho esteja aqui implicado também não surpreende em nada, uma vez que é a imagem que garante ao pequeno homem a unidade do seu corpo.</p>
<p>Mais problemático, em contrapartida, é <em>o estatuto do objeto</em> dito pequeno <strong><em>a</em></strong>.</p>
<p><b>Do objeto: proposições hipotéticas</b></p>
<p>Consideramos geralmente, com Lacan, que tudo que faz borda sobre o corpo pode estar na origem da “irrupção” pulsional e os objetos <strong><em>a</em></strong> identificados são, como sabemos, o seio, as fezes, o olhar e a voz.</p>
<p>A pele não é <em>a priori</em> destacável sem dificuldade maior, mas podemos nos perguntar se essa <em>superfície com dois folhetos</em> que a pele e a vestimenta representam não teria esta propriedade específica de origem da pulsão nesses casos de transexualismo.</p>
<p>Nos seminários mais topológicos, a partir de RSI,<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d11"><sup>11</sup></a><a name="t11"></a> Lacan nos diz que o objeto <strong><em>a</em></strong>, preso no centro da cadeia borromeana, não tem outra forma particular senão sua dimensão esferoidal.</p>
<p>Admitamos, por ora, a possibilidade de um tipo de objeto, de um invólucro, com as seguintes propriedades:</p>
<p>– Desdobrado ou folheado.</p>
<p>– Destacável graças a esse desdobramento.</p>
<p>– Organizando o circuito da pulsão de um modo auto-</p>
<p>erótico.</p>
<p>– Marcado com um vazio particular, um furo reabsorvível pela via da denegação delirante ou da mutilação.</p>
<p>Essa geometria, certamente louca do ponto de vista de nosso espaço habitual, o da neurose, não é em nada inomogênea àquela que já encontramos na clínica do Cotard. O apagamento do corte se faz aqui no campo da diferença dos sexos e não é da ordem de uma superfície lisa e fechada, mas percebemos o quanto essas duas arquiteturas podem ser aproximadas, mesmo se aparentemente, clinicamente e nosograficamente distanciadas.</p>
<p>Nos artigos dedicados ao transexualismo, há a dificuldade, freqüentemente reencontrada, da distinção entre perversão e psicose.</p>
<p>Já estabelecemos suficientemente, creio, que o invólucro não é o véu.</p>
<p>Não estamos aqui na ordem da montagem e do falso <em>semblant</em>.</p>
<p>É curioso notar que, no comentário de Joyce, permanecemos no mesmo questionamento incansável: Joyce era um perverso, um masoquista, Joyce era louco?</p>
<p>O tema do masoquismo, presente na escrita, nas obras e na correspondência, e esclarecedor da relação com a sua mulher Nora, não pode ser elucidado sem que se acentuem duas dimensões estruturais, a de um corpo tratado como um corpo estranho e a de uma mulher divinizada, espécie de mandorla na qual ele se envolve com repugnância.</p>
<p>Certos transexuais se apresentam com uma elaboração francamente delirante, outros conservam uma<em>discursividade </em>aparentemente usual, e foram esses casos que fundamentaram o uso do termo “transexualismo verdadeiro” ou “primário”.</p>
<p>Essa distinção, por si só, justificou a validade da demanda cirúrgica e os procedimentos jurídicos relacionados à mudança de registro civil.</p>
<p>Estamos, entretanto, habituados a mais circunspecção na análise do discurso, e a psicose não está em contradição com a razão, com a lógica, com uma certa força de persuasão e até mesmo com a genialidade.</p>
<p>Para mantermos nosso propósito e continuarmos a interrogar a singular capacidade de colocar um corpo ou uma parte do corpo entre parênteses, lembremos simplesmente o espantoso percurso de um Jean-Jacques Rousseau.</p>
<p>Seu acesso à sexualidade é inegavelmente marcado por essa colocação entre parênteses do órgão sexual, e pelo retorno do mesmo órgão de um modo instrumental, com as conseqüências médicas e psicossomáticas que conhecemos.</p>
<p>O valor simbólico e o uso do órgão sexual são ambos colocados num desconhecimento que explica os imprevistos de seu posicionamento diante das mulheres e o aparecimento de elementos nitidamente interpretativos quando se faz uma forçagem na direção dessa forma de renúncia.</p>
<p>A dimensão dita de foraclusão do Nome-do-Pai é aqui bem nítida por termos outras coordenadas dela operando em suas teorias sobre a educação e a pedagogia.</p>
<p>Lembremos, enfim, que nessa psicose também está presente esse caráter de vontade, de engajamento, de obstinação que encontramos na vertente passional do transexualismo.</p>
<p>Rousseau compartilha esse traço clínico estrutural com o transexual: o gozo de órgão, o gozo fálico, é rejeitado, e é um tipo de gozo Outro que passa ao primeiro plano; mais no campo escópico para o primeiro, no campo cutâneo e tátil para o segundo, mas a dimensão do olhar, pela beleza, está associada aí.</p>
<p>O transexual visa menos, contudo, ao gozo <em>do Outro</em> do que a esse gozo <em>Outro</em>, do invólucro, com forte polaridade auto-erótica.</p>
<p><b>CONCLUSÃO E QUESTÕES</b></p>
<p>Dedicamo-nos à análise do gozo dito por nós do invólucro, tentando demonstrar sua presença específica no campo do transexualismo, tanto masculino quanto feminino, mesmo se nesse caso os documentos clínicos pareçam menos explorados.</p>
<p>Esse gozo, singularmente Outro, parece-nos desconstruir e refutar as distinções entre transexualismo primário e secundário, ou ainda transexualismo verdadeiro e transexualismo delirante.</p>
<p>A questão da nomeação permanece central num quadro em que o paciente deseja, antes de mais nada, ser <em>dito</em>, ser chamado, do sexo oposto ao seu sexo anatômico, tornando por isso mesmo a saída cirúrgica uma solução não somente custosa por sua desmesura, mas também eticamente duvidosa em seu lado demiúrgico.</p>
<p>Resta compreender melhor o lugar e o estatuto do objeto nesses quadros clínicos e explicar a divisão identificada entre o olhar e a pele.</p>
<p>Será que poderemos dizer que o objeto aqui não está diferenciado a esse ponto e que, por conseguinte, se trata do mesmo objeto?</p>
<p>O olhar veria o que não pode ser visto ordinariamente: o um é o outro; o outro sexo <em>é O sexo</em>&#8230; Toda a montagem do esquema ótico está aqui remanejada num transitivismo que tangencia radicalmente a diferença dos sexos.</p>
<p>Diremos que o objeto e a imagem, estruturalmente disjuntos, se conjugam no lugar da vestimenta que enfim dá fé do sujeito?</p>
<p>Podemos notar quanto a isso que, nas raras observações de crianças que pudemos ouvir, está bem indicado que a angústia ligada à questão da identidade sexuada se reabsorve, quase automaticamente, assim que o sujeito se adorna com a vestimenta de eleição.</p>
<p>Muitas interrogações ficam assim para prosseguir, porém o mais surpreendente ao final do percurso é mesmo este fato novo: graças à medicina, um novo “Sujeito” vem à luz, aquele com a pele virada pelo avesso.<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#d12">*</a><a name="t12"></a></p>
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<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t0">*</a> <em><a id="d0" name="d0"></a>La peau retournée – Remarques sur la jouissance d’enveloppe</em>. Em <em>Sur l’identité sexuelle: à propos du transsexualisme. </em><em>Ouvrage collectif. Collection Le Discours Psychanalytique.</em> <em>Éditions de l’Association freudienne internationale</em>, Paris, 1996.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t1">1</a><a id="d1" name="d1"></a> STOLLER, R. <em>The transsexual experiment</em>. Vol. II: <em>Sex and gender</em>. Aronson, New York, 1975.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t2">2</a><a id="d2" name="d2"></a> EY, H., BERNARD, P. e BRISSET, C. <em>Manuel de Psychiatrie</em>. 4a edição. Masson Éditeur, 1974.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t3">3</a><a id="d3" name="d3"></a> SAPHOUAN, M. “Contribution à la psychanalyse du transsexualisme”. Em <em>Études sur l’Oedipe – Introduction à une théorie du sujet. </em>Éditions du Seuil, Paris, <em>1974.</em><br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t4">4</a><a id="d4" name="d4"></a> LACAN J. <em>Le Séminaire, livre XXIII: Le sinthome </em>(1975-1976). Seuil, Paris, 2005.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t5">5</a> <a id="d5" name="d5"></a>KRAFFT-EBING. <em>Psychopahtia sexualis. Étude médico-légale a l´usage des medecins et des juristes (1896).</em> Payot, Paris, 1963.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t6">6</a> <a id="d6" name="d6"></a>KRAFFT-EBING. <em>Psychopahtia sexualis. Observation 129</em>. Op.cit. Também em <em>Sur l’identité sexuelle: à propos du transsexualisme. Ouvrage collectif. Éditions de l’Association freudienne internationale</em>, Paris, 1996. As citações que se seguem, nesta página e na seguinte, são da mesma observação de caso.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t7">7</a><a id="d7" name="d7"></a> CZERMAK, M. “Precisões sobre a clínica do transexualismo”. Em <em>Paixões do objeto: Estudo psicanalítico das psicoses</em>. Artmed Editora, Porto Alegre, 1991.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t8">8</a><a id="d8" name="d8"></a> <em>Archives d’Anthropologie Criminelle</em> nº 174, junho de 1908. Também publicado em CLÉRAMBAULT, G. G. <em>Oeuvre psychiatrique.</em> Presses Universitaires de France, Paris, 1942.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t9">9</a><a id="d9" name="d9"></a> N.E. – O artigo de 1910 está publicado adiante, neste volume: “Paixão erótica pelos tecidos na mulher”, pp. 211-217. Contém uma quarta observação de caso, que reforça as conclusões do primeiro trabalho.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t10">10</a><a id="d10" name="d10"></a> CZERMAK, M. “Precisões sobre a clínica do transexualismo”. Op. Cit.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t11">11</a><a id="d11" name="d11"></a> LACAN J. <em>Le Séminaire, livre XXII: R.S.I. </em>(1974-1975) (inédito).<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-pele-virada-pelo-avesso-observacoes-sobre-o-gozo-do-involucro?cod=59#t12">*</a><a id="d12" name="d12"></a> Tradução: Paula Glenadel. Revisão da tradução: Patricia Reuillard.</p>
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