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	<title>Fernanda Costa-Moura &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Fernanda Costa-Moura &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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		<title>O tratamento psicanalítico com crianças</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/o-tratamento-psicanalitico-com-criancas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Costa-Moura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2015 16:46:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[condição subjetiva]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Costa Moura]]></category>
		<category><![CDATA[O tratamento psicanalítico com crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Outro]]></category>
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		<category><![CDATA[problemática do desejo]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde seus primórdios, a psicanálise foi marcada pela experiência da psicanálise com crianças. Mas permanece um problema de difícil formalização determinar o que o psicanalista pode oferecer às crianças. A que devemos nos dedicar? Que direção privilegiar? Que elementos da prática é preciso reformular para criar as condições necessárias à psicanálise com crianças?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Fernanda Costa Moura</p>
<p>Desde seus primórdios, a psicanálise foi marcada pela experiência da psicanálise com crianças. Mas permanece um problema de difícil formalização determinar o que o psicanalista pode oferecer às crianças. A que devemos nos dedicar? Que direção privilegiar? Que elementos da prática é preciso reformular para criar as condições necessárias à psicanálise com crianças?</p>
<p>Freud considera a intervenção junto ao analisante de 5 anos chamado Hans (1909) como um tratamento psicanalítico. E um tratamento que se desenrola com o menino tomando lugar de sujeito, afetado e determinado pelos efeitos da palavra. Mesmo levando em conta as especificidades daquela experiência Freud não preconiza uma psicanálise “de crianças”, uma “psicanálise infantil”. Pelo contrário, Freud toma o menino Hans como alguém confrontado, de fato e de direito, a questões que a condição humana impõe e às quais responde com seus sintomas.</p>
<p>É verdade que o sujeito de que se trata na experiência analítica, sujeito do inconsciente, não se confunde com o individuo nem pode ser aquilatado em termos de etapas de desenvolvimento. Mas o que comparece na experiência clínica mostra que uma criança em análise não é um adulto em análise. De modo que mesmo se uma perspectiva estrutural nos permite ir além de uma visão simplesmente cronológica, seqüencial, desenvolvimentista do sujeito, esta constatação nos remete a uma dimensão temporal que exige dos analistas o trabalho de divisar em cada caso o que pode ser a singularidade da experiência analítica com aquela criança.</p>
<p>A prática clínica com crianças traz uma série de especificidades. Nomeadamente no que se refere à presença dos pais ou responsáveis no tratamento. Pois a criança, ao mesmo tempo em que se relaciona com o Outro – este Outro que é simbólico, para além daqueles que eventualmente o encarnam, entendido como o próprio campo da linguagem e suas leis –, tece esta relação fundamental e constitutiva submetida, em maior ou menor grau, à relação que estabelece com outros reais, como seus pais ou responsáveis. Há especificidades também quanto aos sintomas uma vez que as crianças ainda não estão expostas à experiência do desejo e da castração, &#8211; ou ao menos não se acham confrontados com uma experiência que teriam que “assumir em seu nome próprio” (Melman 1986) – e considerando-se que estes sintomas podem nodular questões da criança e de seus outros significativos. Por fim, especificidade em relação ao trabalho de simbolização, muitas vezes realizado através de desenhos, de jogos, brincadeiras, representações, em situações em que a fala pouco comparece ou de todo não comparece. Ao passo que outras crianças verbalizam bastante e realizam seu trabalho através de metáforas, histórias, etc. A todas estas questões e eventuais dificuldades o analista terá que responder, elaborando a cada vez as condições que permitem o trabalho. Porém a questão principal e mais delicada que a prática clínica com crianças parece impor ao psicanalista se refere à ética que conduz sua posição com relação à criança.</p>
<p>Em artigo no qual chama os psicanalistas ao trabalho, para darem ao campo da psicanálise com crianças “um método e uma ordem compatíveis com a psicanálise”, Charles Melman adverte que é importante precisar o que esperamos da criança, o que queremos dela, pois neste campo, mais ainda que em outros “a normalidade é uma questão de ética”(ibid.). Pergunta-se ele: dado que não podemos dar muito mais as crianças do que normas éticas, que podem variar muito em nossa cultura, haveria uma ética psicanalítica referente às crianças?</p>
<p>É uma pergunta realmente importante, decorrente de uma questão que não é exclusiva da psicanálise, mas concerne a todos e é passível de atingir cada adulto que se dirige a uma criança. Uma questão sobre nossa posição: a partir de que posição nos dirigimos a uma criança? O que queremos dela, o que temos a lhe dizer?</p>
<p>Para o psicanalista, naturalmente, isto tem implicação imediata na clínica, pois quando se concebe a normalidade como uma questão ética, deixa-se a esfera dos padrões de comportamentos e se enfrenta a questão da possibilidade ou não da condição subjetiva – uma vez que é somente no campo do sujeito que se pode conceber um posicionamento ético.</p>
<p>E aí justamente encontramos uma dificuldade que é da nossa cultura, do nosso tempo. Vivemos hoje em um mundo que, ao mesmo tempo em que se preocupa com a criança, tematiza este tempo da infância em função de ideais e expectativas com os quais a sobrecarregamos. Ideais que querem a infância como uma espécie de Éden, paraíso da juventude e da inocência a ser desfrutado imediata e plenamente; sem esforço, sem perda, sem trabalho do lado do sujeito. Este mundo, que já não estranhamos mais é o nosso mundo. Com seus costumes e organização próprios, com seu ideal prevalente de uma estrutura familiar conjugal, que faz da criança um foco aglutinador de cuidados, de expectativas e investimentos de toda sorte. Nem sempre foi assim, mas comumente hoje, vemos as coisas através deste prisma que coloca a criança como alguém de quem se deve primeiramente cuidar, a quem se deve proteger, é certo, mas também, num giro, num relance, poupar.</p>
<p>Nestas circunstancias, podem-se tomar duas direções éticas em relação à criança. Dedicando-se ao aprimoramento, por meio de todo tipo de avanços que se possa conseguir e com os melhores instrumentos disponíveis, das condições da infância com vistas ao cumprimento mais completo possível do ideal. Ou, num corte fundamental, acolhendo e dando voz às incidências que revelam que algo nesta pretensão não se realiza e escapa. Foi esta última posição que coube ao psicanalista: recolher, revelar, tirar as conseqüências da presença do corpo estranho que é o desejo no campo do sujeito – aquilo de nós que não sabemos, não podemos saber inteiramente, que derroga, que faz limite aos ideais.</p>
<p>A criança é para a psicanálise, ou ao menos foi para Freud, este ponto a partir do qual ele pôde iniciar o processo de desmontagem de nossas pretensões de autonomia e individualismo, que eram vigentes antes dele e ainda hoje pré-freudianas em seu fundamento. O que identificamos comumente como infantil, e eventualmente, a permanência da criança no homem, é talvez uma forma de tomar este resto que sempre escapa de nossas expectativas e intenções. Resto que queremos e tendemos a recalcar, que de maneira nenhuma se conforma ao ideal. Indo um pouco mais longe pode-se dizer que a criança é o limite daquilo que Freud encontrou nas análises, fosse qual fosse o momento cronológico-biográfico do analisante. Um limite, um significante, diríamos, que em psicanálise designa o lugar das primeiras identificações do sujeito para sua constituição.</p>
<p>Quando, portanto, a psicanálise faz falar o sujeito, tenha ele que idade for, é para levá-lo a falar da criança que ele foi e é. Não a criança ideal, mas a criança depositária de um desejo marcado pelas vicissitudes próprias dos encontros e desencontros, da incompletude, das insistências, da falta que ela experimenta na relação ao Outro. O psicanalista por sua vez, também no tratamento psicanalítico com crianças, não visa um bem fechado em si mesmo, absoluto, de antemão; nem tampouco o bom senso, a solução, o desenvolvimento adequado, a normatização – mesmo que estes interesses não estejam ausentes. A psicanálise não tem uma visão de mundo alternativa a propor, nenhuma panacéia que resolveria por um código geral os males do sujeito. O que sustenta a operação do analista com a criança é uma clínica efetiva, que aponta para o caso a caso e está concernida em atestar cada sujeito em sua singularidade e na singularidade das circunstancias em que ele se constitui e se manifesta. Numa análise o que está em jogo não é restituir a criança como ideal perfeito dos pais e adultos que demandam por ela, mas sim, uma possível realização do sujeito a partir da instancia do desejo, em toda sua complexidade.</p>
<p>Como se vê, a questão inicial não é tão simples e só pode ser enfrentada com fecundidade se aceitamos seu ponto de impossibilidade interna, vale dizer, estrutural. Este ponto de impossibilidade diz respeito a como um tratamento como a psicanálise, baseado fundamentalmente na questão de uma posição ética frente ao desejo, e que supõe portanto a responsabilidade e implicação dos sujeitos naquilo que sofrem; pode ser oferecido à criança que não é, não pode ser ainda, propriamente responsável. O interessante é que esta interrogação se apresenta geralmente acompanhada por outra, aparentemente independente, que diz respeito à questão de como a linguagem da criança pode franquear o aceso a esta prática, a esta experiência que é a psicanálise. Onde se trata de lidar com o real – o real enquanto impossível de suportar, que está no núcleo dos sintomas – através do simbólico configurado como dimensão da palavra. Em ambos os casos o que se discute é como a criança pode alcançar a experiência.</p>
<p>Lacan, ele mesmo, destacou a posição de objeto da criança como uma das suas possibilidades em relação ao Outro, introduzindo a idéia de que o primeiro estado do sujeito é ser falado no discurso do Outro. Outro que o reconhece e acolhe, que lhe dá lugar – ou não. Porém foi o mesmo Lacan quem apontou para o estatuto plenamente simbólico da relação da criança em sua relação com o Outro. Decidindo-se por um retorno a Freud, na contramão do desvio que ceifava da psicanálise a referência à função e ao campo da linguagem, Lacan destacou as “tentativas e tentações” de concepção de uma estruturação pré-verbal da experiência, provenientes da psicanálise com crianças, entre as armadilhas geradoras deste desvio (Lacan 1953:242). Mostrando inclusive que o interesse e o fascínio que alimentamos por vezes pela realidade supostamente “mais arcaica” do psiquismo infantil implicam um desconhecimento sintomático que nos isenta de responsabilidade com relação ao sujeito. Ele nos retira da nossa práxis com relação à criança e nos lança no ideal. Na tentação de tocar, pela interpretação, uma anterioridade pré-verbal que modelaria todas as relações do sujeito com o mundo. Nesta posição abrimos mão e excluímos a participação do Outro – do Outro da cultura e do Outro que somos, cada um, para a criança.</p>
<p>Por isso a psicanálise, ao contrário, vem, com Lacan afirmar na criança, por menor que seja, ainda antes do uso da palavra, a dimensão de uma experiência subjetiva por relação à linguagem uma vez que a criança experimenta o que nós – o mundo, a linguagem, cada um de nós – lhe dizemos, com ou sem palavras. Não há realidade pré-discursiva. Na efetividade de um tratamento o que a criança apresenta – ou seja, o que uma criança apresenta para a psicanálise e não do ponto de vista biológico ou sociológico – é sobretudo uma forma de estruturação e portanto de configuração clínica das questões fundamentais humanas, questões sobre a relação com o Outro e suas leis. Mais isso, que etapas de desenvolvimento.</p>
<p>O que escutamos quando escutamos uma criança – seja através da interação verbal, seja pelo desenho, pelo jogo – não é a infância ideal, intocada mas a criança que em seus sintomas testemunha o atravessamento simbólico que dá margem à constituição de um desejo com base no qual ela é concebida e tomada. Desejo que a retira da condição de infans para situá-la como sujeito dividido e enredado pela linguagem. Sujeito: não ente, coisa, objeto. Sujeito que é ele mesmo a um só tempo, tomada de posição e efeito das posições tomadas. Sujeito cujo único ser é seu ser de linguagem (Rocha 1996).</p>
<p>Por tudo isto considera-se a importância da posição de objeto da criança na estrutura, na família, na coletividade, mas não para fazer disso um elemento que dê conta de tudo o que está envolvido na chegada de cada criança a análise; não para dispensar o valor da palavra da criança. Dar a palavra – de que modo seja possível – para a criança, não contentar-se em falar sobre ela, em inventariar as suas circunstâncias e traumatismos; recusar tomar diante dela a posição modelar que incita à identificação. Eis alguns dos princípios da psicanálise para não se perder na justificação de uma psicanálise especial para crianças, sejam estas muito pequenas ou estejam marcadas pelos chamados casos graves ou difíceis. O que importa é em cada caso perceber como as questões fundamentais da existência se colocam para aquele sujeito em particular, ver como comparecem no campo da prática clínica com crianças todos os elementos fundamentais da clínica psicanalítica.</p>
<p>Enfim a responsabilidade que cabe ao psicanalista que dirige o tratamento de uma criança é também aquilo que ele pode oferecer: devolver à criança a função e o campo da palavra e da linguagem em sua vida e talvez na daqueles que se responsabilizam por ela. Nisto o desejo do analista é decisivo como ponto de Arquimedes a partir do qual sustentar, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade da incidência da palavra e suas leis no campo do sujeito – fragilidade que nos convoca ao trabalho que é o desejo e força que permite dar lugar a um sujeito que não é mais um marionete capturado na onipotência do Outro.</p>
<p>____________________________</p>
<p>Referências Bibliográficas:</p>
<p>LACAN, J. (1953) &#8220;Fonction entre champ de la parole entre du language em psychanalyse”. Em: <i>Écrits.</i>Paris: Seuil, 1966.<br />
MELMAN, C. (1986) “Sobre a infância do sintoma”. Em: <i>Neurose infantil versus neurose da criança.</i>Salvador: Agalma, 1997.<br />
ROCHA, A.C.(1996) &#8220;O impossível do desejo e o desejo do impossível&#8221;. Em: <i>Ética, psicanálise e sua transmissão.</i> Petrópolis: Vozes.</p>
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		<title>“Pai não vês que estou queimando?” – Encontro com o real entre o sonho e o despertar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Costa-Moura]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 12:38:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Sobre os Seminários de Lacan]]></category>
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					<description><![CDATA[Freud acabava de escrever A Interpretação dos Sonhos, obra que forneceria “uma base segura para a teoria do inconsciente” e poderia prover-lhe um “método de abordagem”: o sonho, a via régia. Depois de dois anos de trabalho intenso, permeado por hesitações, interrupções e dificuldades pessoais ligadas a auto-análise, o livro iria culminar, finalmente, no capítulo final sobre a psicologia dos processos oníricos – escrito “como num sonho” (2) , em apenas duas semanas do ano de 1898.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Fernanda Costa-Moura &#8211; 2000</p>
<p>Freud acabava de escrever <i>A Interpretação dos Sonhos</i>, obra que forneceria “uma base segura para a teoria do inconsciente” e poderia prover-lhe um “método de abordagem”: o sonho, a via régia. Depois de dois anos de trabalho intenso, permeado por hesitações, interrupções e dificuldades pessoais ligadas a auto-análise, o livro iria culminar, finalmente, no capítulo final sobre a psicologia dos processos oníricos – escrito “como num sonho” <a id="footup2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown2" name="footup2"><sup>(2)</sup> </a>, em apenas duas semanas do ano de 1898. E eis que, justamente neste ponto, Freud – que ao longo da obra tinha se perguntado laboriosamente sobre a natureza dos desejos manifestados no sonho e terminara por concluir pela tese famosa de que o sonho realizava um desejo inconsciente para que o sujeito pudesse continuar dormindo, – escolhe para introduzir sua “psicologia”, do modo mais enigmático, o relato indireto de um sonho de fonte desconhecida – um sonho de angústia, destinado a despertar o sonhador.</p>
<p>Trata-se do sonho que ficou conhecido pela frase cortante que ele faz ressoar – “Pai, não vês que estou queimando?” <a id="footup3" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown3" name="footup3"><sup>(3)</sup> </a>Com este sonho – “cujo sentido” para Freud “está dado sem disfarce” <a id="footup4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown4" name="footup4"><sup>(4)</sup> </a>, mas o qual, ele reconhece, “conserva as características essenciais pelas quais os sonhos diferem notavelmente dos pensamentos de vigília e engendram em nós a necessidade de explica-los” – Freud passa além dos problemas da interpretação que até então tinham sido seu objeto, e chega mesmo a advertir o leitor: aqui acaba o caminho fácil.</p>
<p>“[&#8230;] por todos os caminhos que empreendemos até agora, chegamos à luz, ao esclarecimento, à compreensão [&#8230;] a partir deste momento (em que pretendemos penetrar mais a fundo nos processos anímicos envolvidos no sonho) todas as sendas desembocam na obscuridade. Tropeçamos na impossibilidade de esclarecer o sonho como fato psíquico, [&#8230;] pois não há nenhum conhecimento psicológico a que pudéssemos subordinar o que cabe distinguir [&#8230;] a partir do exame psicológico dos sonhos.” FREUD, S., 1900 <i>A Interpretação dos sonhos</i>; p.506 <i>AE</i> – interpolação e grifo do autor.</p>
<p>Apesar da engenhosa interpretação que corrobora e coroa sua tese – a de que mesmo um sonho como este, essencialmente traumático realizava afinal o desejo do sonhador de prolongar, ainda que por um breve momento, a vida do filho que o pai não pode salvar – Freud deixa no ar um mistério: por que, ele pergunta, sobreveio o sonho como resultado da percepção do clarão da luz das chamas – que efetivamente consumiam já o corpo do jovem morto no quarto ao lado – quando o mais indicado teria sido o despertar?</p>
<p>A partir deste ponto que restou em suspenso no texto de Freud – e já ali relacionado à defasagem entre “a vida conscientemente percebida do dia” e uma “atividade psíquica que permanece inconsciente” e que só pode se fazer notar durante o sonho – Lacan retoma o relato do sonho para falar da relação do sujeito a esta defasagem que lhe afeta, mas de que ele não se apropria e para ressaltar o encontro com o real que se dá como o átimo que quase não há entre o sonho e o despertar.</p>
<p>Procuro repousar, conta-nos Lacan (e aqui ele fala em primeira pessoa), batem à porta, com as batidas faço um sonho, um sonho que manifesta outra coisa que não essas batidas, outra cena, da qual desperto de modo a reconstituir “em torno” das batidas na porta, diz Lacan, a rotina das representações – e sei que estou <i>Knocked;</i> enfim, desperto. Porém, pergunta Lacan: O que sou eu <a id="footup5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown5" name="footup5"><sup>(5)</sup> </a>antes que eu [não] desperte? O que se passa neste momento que ele nota, <i>é imediatamente anterior e tão afastado</i>, daquele em que finalmente volto à rede, ao <i>automaton</i> das representações?</p>
<p>Lacan faz depender o próprio surgimento da realidade representada “ao fenômeno, à distância, à hiância mesma que constitui o despertar”. No só-depois da batida do despertar – na medida em que minha consciência se reconstitui em torno das batidas na porta e que, num “reflexo involutivo” só encontro lá minha própria representação (“é apenas minha representação que eu apreendo”) – e passo a só poder me sustentar numa relação com a representação. O despertar faz de mim, aparentemente, apenas consciência.</p>
<p>Antes porém que eu [não] desperte, meu próprio modo de presença é este <i>não</i> – que Lacan diz que não é expletivo – que é antes um excesso na linguagem, excesso negativizado, elemento dispensável à comunicação, e que por isso mesmo, traduz, indica a implicação, a paradoxal presença do sujeito na sua fala.</p>
<p>É assim com o sonho do pai infeliz que dorme no quarto ao lado do filho morto. Lacan diz que se trata de um encontro do sujeito com aquilo que faz a sua condição. Tropeço, encontrão, fisgamento “entre aquele que dorme ainda e cujo sonho não conheceremos e aquele que só sonhou para não despertar”.</p>
<p>Entre o sonho e o despertar é o desejo como hiância que se presentifica para este pai através do encontro inesperado com o que mal chega a ser percebido, com este ponto que é ao mesmo tempo evanescente e o mais real (“ponto mais cruel do objeto”), com uma realidade que “permanece sempre em seu lugar”, sob o giro, o <i>automaton</i> dos significantes.</p>
<p>É por essa apreensão de algo fugidio que no entanto aguarda <i>en souffrance</i> e só se mostra à consciência <i>a posteriori</i>, como representação, que o sujeito desperta. E é por isso que Freud tem problemas com este sonho – porque ele desperta o sonhador, ele não satisfaz a tese do sonho guardião do sono.</p>
<p>Antes que ele [não] desperte – aí neste [não] que não se diz, que é apenas pontilhado, aí mesmo se encontra o sonhador. E se ele finalmente desperta, faz ver Lacan, não é pelo barulho, pelo choque, o<i>knocking</i> de um clarão feito para chamá-lo ao real. Antes é este barulho que traduz (dá palavra, imagem, representação) algo que se passa e desperta, não o sujeito, mas uma outra realidade que se mostra no sonho – a realidade que se introduz com a frase eloqüente: “Pai, não vês, que estou queimando?”</p>
<p>Lacan indica que há mais realidade nesta mensagem que o sonho é – (que ele veicula, imaginariza, encena) – do que no barulho pelo qual o pai, então desperto, afinal identifica o que se passa no quarto ao lado. É portanto esta outra realidade – uma realidade que se passa na ruptura entre percepção e consciência, que constitui o inconsciente – essa Outra cena é que desperta o sujeito.</p>
<p>E que realidade é esta, mais real que o barulho ou o clarão das chamas? Lacan responde dizendo que é uma realidade que queima – a partir da frase que a introduz e que é “ela própria uma tocha” ateando fogo no que está <i>en souffrance</i> aguardando “por baixo” (<i>Unterlegt, Untertragen</i>), “no real”. O sonho queima – trata-se de um sonho de angústia – por fornecer a esta outra realidade, ao real foracluído do simbólico uma imagem: “perda imajada no ponto mais cruel”. Por homenagear a realidade faltosa que causou a morte da criança ao repetir, retomando, em relação ao que se passa ao lado, este inevitável “tarde demais” que acompanha a ação do pai em direção a seu filho. E pela falha do pai se paga com angústia.</p>
<p>“A ação por mais pressurosa [pressante – (também rápida, urgente)] que ela seja, conforme toda verossimilhança, de acudir o que se passa na peça vizinha – não é ela talvez também sentida como de todo modo, agora, tarde demais – em relação ao de que se trata, à realidade psíquica que se manifesta na frase pronun­ciada? O sonho prosseguido, não é ele a homenagem à realidade faltosa – a realidade que não pode mais se dar a não ser repetindo-se infinitamente, num infinitamente jamais atingido despertar?”</p>
<p>“Ninguém pode dizer o que seja a morte de um filho – senão o pai enquanto pai”, diz Lacan, e completa: “isto é, nenhum ser consciente” <a id="footup6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown6" name="footup6"><sup>(6)</sup> </a></p>
<p>Entendo que este “pai enquanto pai” não se confunde com nenhum ser consciente porque “enquanto pai” ele opera uma transmissão, ele é efetivamente <i>relais.</i> A representação do sujeito na maquinaria do sonho, podemos dize-lo com Lacan, está na imagem da criança – que pede, que puxa, que fustiga o pai. Do outro lado o que há é, não um outro sujeito (o pai como o ser consciente que cumpre esta função), mas os objetos que podem causá-lo,– o olhar e a voz emoldurados pela porta do quarto contíguo deixada aberta. A criança tem seu lugar na transmissão, mas neste sonho trágico o que desperta, o que se faz ouvir é o fracasso do pai – no ponto mesmo em que esta transmissão é interrompida pelo irredutível do real da morte. “Deus é inconsciente” afirma Lacan, neste ponto, corrigindo Freud – que protege o pai, a ponto de sonhar que “ele estava morto e não sabia”. A defasagem que há aí é inassimilável.</p>
<p>No sonho se vê que todas as lembranças e associações que Freud especula que poderiam estar ligadas a ele, todas as imagens sobredeterminadas, todas as cadeias significantes que compõem o sonho – como diz Freud – numa árvore genealógica apontam, repetem a realidade deste ponto não simbolizável. “Umbigo” para onde os sonhos convergem – e que neste sonho representa-se na morte como limite que só pode ser concebido no campo da fala e na linguagem através de repetições que desfazem insistentemente o tecido da cadeia dos significantes.</p>
<p>Essa realidade que se repete, que permanece “por baixo”, <i>en souffrance</i> é o que faz deste sonho o “avesso da representação” de que fala Lacan. O sonho não é apenas uma fantasia preenchendo um voto, uma aspiração. Antes ele dá lugar ao real nesse encontro vivo, necessariamente faltoso, com o filho morto. Real que se deu unicamente na medida em que a chama, a angústia, vindo como por acaso (tiquê) a se juntar ao corpo inerte do filho morto causou o sonho que testemunhou pelo sujeito – “neste mundo sonolento” – que a voz, se fez ouvir na invocação do olhar do pai (“Pai, não vês?” Estou queimando).</p>
<p>É pois o encontro do barulho/clarão, eventos em si mesmos contingentes e banais, com um significante que faz o sonho – o “queimando” que evoca a Freud a febre da criança – que adquire<i> a posteriori</i> valor traumático. O traumatismo indicando que se trata, neste encontro com o real, de desejo. Encontro faltoso sem sentido imanente.</p>
<p>O desejo portanto emerge no sonho não pelo breve prolongamento da vida do filho na fantasia, no voto do pai; mas por esta “perda imajada” – por este gesto com o qual o filho, pegando seu pai pelo braço, designa um real que se faz ouvir no sonho <a id="footup7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown7" name="footup7"><sup>(7)</sup> </a>.</p>
<p>Mas se o sonho como rito significante pode promover este encontro com o que está mais-além da representação – o desejo, o real – é inevitável, por outro lado, a constatação de Lacan de que despertamos dele para continuar dormindo. <i>Somos todos feitos do que é feito o sonho </i>– diz uma quadrinha de Shakespeare <a id="footup8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footdown8" name="footup8"><sup>(8)</sup> </a>. E despertamos para evitar o encontro com aquilo que nos causa e reencontrar na realidade a fantasia que vela o choque do real. Escapulimos, deixamos, nos esquivamos de nosso lugar na transmissão – lugar do sujeito diante do que lhe causa, lugar que é defasagem, angústia – até que a repetição de uma vela pondo fogo no corpo nos lance no desejo de que somos feitos.</p>
<p>Notas</p>
<p><a id="footdown1" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup1" name="footdown1">1. </a>Trabalho que terminou por se constituir na abertura propriamente dita da Jornada do <i>Tempo Freudiano </i>sobre o Seminário <i>Os quatro conceitos</i>, pois foi apresentado, em outubro de 2000, como trabalho preparatório para o encontro com o Cartel para a América Latina, da <i>Association freudienne internationale</i>, que se realizou em novembro de 2000, no Rio de Janeiro, na sede do <i>Tempo Freudiano</i>.<br />
<a id="footdown2" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup2" name="footdown2">2. </a>FREUD,S. em carta a Fliess, 20/06/1898.<br />
<a id="footdown1" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup3" name="footdown3">3. </a>Cf. o relato do sonho na introdução ao Capítulo VII de <i>A Interpretação dos Sonhos</i> (1900); <i>ESB vol. V</i>e <i>AE. vol. V</i> p. 504.<br />
<a id="footdown4" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup4" name="footdown4">4. </a>Ibid. p. 505 <i>AE </i><br />
<a id="footdown5" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup5" name="footdown5">5. </a>LACAN,J. (1964) Seminário <i>Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</i>, p.58; Ed. Zahar. [“<i>il me faut bien m’interroger sur ce que je suis à ce moment-lá”</i> (p. 67 ed. de bolso Seuil– grifo meu). Este “<i>ce que je suis”</i> foi traduzido em português por “como eu estou”.<br />
<a id="footdown6" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup6" name="footdown6">6. </a>LACAN,J. Op. Cit. p. 60.<br />
<a id="footdown7" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup7" name="footdown7">7. </a>E é neste sentido, aponta Lacan, que Freud pode encontrar aí uma confirmação da sua teoria do desejo, mesmo que o sonho traumático contradiga a tese mais evidente do sonho como garante do desejo de dormir.<br />
<a id="footdown8" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/pai-nao-ves-que-estou-queimando-encontro-com-o-real-entre-o-sonho-e-o-despertar?cod=34#footup8" name="footdown8">8. </a>Trata-se de uma quadrinha da peça <i>A Tempestade</i>: <i>“We are made of such stuff / as dreams are made of / and our little life / is rounded with a sleep.” </i></p>
<p align="right">Trabalho publicado na <a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/teste/"><span class="texto"><b>Revista Tempo Freudiano No 1</b></span></a>, maio de 2002:<br />
<i>O Seminário de Lacan: travessia – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. </i></p>
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