<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Charles Melman &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
	<atom:link href="https://tempofreudiano.com.br/author/charles-melman/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://tempofreudiano.com.br</link>
	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 16 May 2024 00:05:46 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://tempofreudiano.com.br/wp-content/uploads/cropped-favicon-tempo-freudiano-32x32.png</url>
	<title>Charles Melman &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
	<link>https://tempofreudiano.com.br</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>CONFERÊNCIA A.L.I.</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/conferencia-a-l-i/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Feb 2018 12:30:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=14737</guid>

					<description><![CDATA["ÉDIPO NÃO TINHA COMPLEXO" - CHARLES MELMAN E PATRICK GUYOMARD - 23/01/2018 Intervenção de Charles Melman   Eu fico muito agradecido a Patrick Guyomard por este verdadeiro êxito que constitui esse percurso ao mesmo tempo preciso, argumentado sobre as questões essenciais, e que nos permite efetivamente interrogar o que é da ordem da organização do  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 id="page-title" class="title" style="text-align: center;">&#8220;ÉDIPO NÃO TINHA COMPLEXO&#8221; &#8211; CHARLES MELMAN E PATRICK GUYOMARD &#8211; 23/01/2018</h4>
<p style="text-align: right;">Intervenção de Charles Melman</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu fico muito agradecido a Patrick Guyomard por este verdadeiro êxito que constitui esse percurso ao mesmo tempo preciso, argumentado sobre as questões essenciais, e que nos permite efetivamente interrogar o que é da ordem da organização do desejo e, entre outras, a questão do fim do tratamento.</p>
<p>O que eu conheci é a representação nos analistas do assassinato do pai como constituindo a maneira para o filho de aceder à responsabilidade e ao estado de adulto.</p>
<p>E eu devo dizer que a história das relações dos alunos frente a seus mestres em psicanálise me pareceu muito frequentemente dominada pelo que parecia nos alunos o dever, de alguma forma, de se libertar daquele que no tratamento eles investiam numa função paterna afim de ter o direito a uma expressão responsável, autônoma, sem que, aliás, outras vantagens além das narcísicas sejam evidentes.</p>
<p>O que me parece um ponto que é delicado abordar, e que Patrick Guyomard muito discretamente, mas precisamente nos trouxe, é aquele seguramente da relação que o próprio Freud poderia ter com a figura paterna, pois &#8211; e se trata curiosamente de uma questão da atualidade &#8211; quero dizer a relação do imigrante com a figura paterna. Qual é, para o imigrante, a figura paterna. O que sabemos de Freud é que, a fim de se fazer conhecer, a fim de estar presente no meio social, sabemos que em sua vida privada ele foi levado a se desligar de toda fidelidade à tradição de suas origens em benefício do que foi uma germanofilia clara, sem mistério, e que encontrava sua tradução em seu talento literário reconhecido como tal.</p>
<p>De tal sorte que a questão do, a ideia de um assassinato de Moisés por seu povo permite sem dúvida, eu diria, se referir ao que foi para ele mesmo a relação ambígua, ambivalente a essa figura, já que ele também se identificou a Moisés pronto a quebrar as tábuas da lei como ele mesmo, diante de seus alunos, seus alunos, eu diria, presos em paixões edipianas, diante dos quais ele também parecia pronto a quebrar o que ele tinha podido trazer no campo, no campo psicanalítico.</p>
<p>Há um outro texto e o campo a esse respeito é o do distúrbio de memória na Acrópole. É um texto hilariante, porque vocês podem procurar qual é o distúrbio de memória, não há nenhum. Não há nenhum distúrbio de memória nesse texto, mas é ainda mais interessante porque ele está lá, de alguma forma, no cume da cidade que está, ela própria, no cume, a Acrópole, e depois há essa evocação: “Ah, se meu pai visse isso, se meu pai me visse aqui, o que é que ele pensaria? Será que ele ficaria orgulhoso? Será que ele ficaria indignado?” Não há resposta no texto, mas podemos nos perguntar se o título dado a esse trabalho, <em>Distúrbio de memória na Acrópole</em>, não se refere justamente ao fato de saber se há memória ou não do nome de seu pai, não se trata do Nome-do-Pai, mas do nome de seu pai nessa situação.</p>
<p>Poderíamos também, não vou fazer todo o percurso, mas evocar o fato de que o esquecimento do nome do autor vai se reencontrar a propósito do juízo final, em Orvieto, isto é, o nome de Signorelli, Patrick, eu não sei, talvez, eu me diverti decifrando-o como <em>Sig ignore Eli</em> &#8230; Não parece evidente, hein? Ele sonharia facilmente com uma língua estrangeira.</p>
<p>O que é igualmente, o que eu evocaria igualmente é que há seguramente edipianos, são aliás aqueles que querem suprimir a figura paterna, eu digo figura para simplificar, mas há também os que querem restituí-la, restaurá-la. O que é bizarro é que essa posição não é individualizada como tal na clínica, digo isso a propósito de circunstâncias atuais que não parecem perfeitamente decifradas, mas podemos ver como justamente jovens imigrantes decidiram dar sua vida para restaurar o nome do pai, de seu pai.</p>
<p>Eu devo dizer também que, sem a maneira pela qual Lacan aborda essa questão, eu não vejo verdadeiramente como poderíamos nos virar, e eu poderia dizer que, ao longo da leitura de Freud eu fiquei sempre muito embaraçado por sua maneira de tomar posição sobre esta questão. Totem e Tabu é evidentemente um devaneio, não é um mito, é um devaneio de assassinato do pai da horta primitiva pelos irmãos unidos contra aquele que tinha todas as mulheres.</p>
<p>Então, o único ponto que eu gostaria talvez de fazer intervir, me apoiando sobre o que Patrick Guyomard nos trouxe, é quando Lacan tem essa fórmula &#8211; saber se servir, então, do nome-do-pai para poder prescindir dele -, o que é que isso quer dizer, saber se servir do nome-do-pai, bem, haveria evidentemente um desenvolvimento a fazer mas não está, não está inscrito nesse percurso imediato, quer dizer o fato de que Lacan se refere a pai como a um significante, ele diz o nome-do-pai, mas é também o nome-DOS-pais. Algo no Real, um Um no Real que vamos chamar de Pai, o que somos obrigados a chamar de Pai. Em todo caso, desse Um no Real não temos nada além de um nome, um significante. Saber servir-se dele para poder prescindir dele, saber se servir dele, eu o atribuo, eu o suponho, é por isso que Patrick dirá a respeito: para dar conta do fato de que o impossível, no sentido de ser um impossível sexual, sexualizado pela intervenção do nome-do-pai, Real que, afinal, se ele é puramente lógico, por exemplo, não tem sentido nenhum.</p>
<p>É por isso que o teorema de Gödel, que seria.., nada a fazer, se lixam completamente, e então isso não incomoda ninguém, o teorema de Gödel. Então, &#8211; para poder prescindir dele &#8211; aqui também há uma questão, por que seria necessário prescindir dele?</p>
<p>A segunda observação então, mas que me, eu diria no limite, me surpreende a mim mesmo, é que a questão da relação entre pai e filho depende de um operador lógico: ou bem vocês dizem pai <strong><em>e</em></strong> filho, como havia antigamente nas lojas, nas empresas, como sinal de honorabilidade, isso queria dizer que verdadeiramente, é interessante de todo modo que isso seja uma marca, eu diria de honestidade, de confiança. Ou seja, se há ali uma relação, se pai e filho continuam o mesmo empreendimento, é que entre os dois há honestidade, podemos confiar neles. Então, a questão da relação entre pai e filho depende de um operador lógico que é: ou bem há pai e filho, e nesse caso não se vê verdadeiramente onde haveria conflito, por que haveria conflito entre pai e filho? Ou então há pai <strong><em>ou</em></strong> filho, e nesse caso vemos bem que é ou um ou outro, o que é, eu diria, hein? isso pode ser inclusivo, bem, sim, isso pode ser inclusive, pode ser inclusive, exceto que o que é divertido é que em lógica o signo do <strong><em>e </em></strong>ou do <strong><em>ou </em></strong>pode ser o mesmo. E o punção, o famoso punção lacaniano é a reunião dos dois. Será que filho, no fundo, o Nome-do-Pai a título de metáfora, mas será que filho, será que não se trata de uma metáfora do Nome-do-Pai? A meu ver é dificilmente discutível, filho significa que houve um pai e que ele mesmo está desde então exposto a ser pai. Portanto, filho é também uma metáfora do Nome-do-Pai. Então, eu fico atormentado por essa questão do <strong><em>e</em></strong> e do <strong><em>ou</em></strong> porque verdadeiramente tudo que se joga aí, nós o vimos  durante o fim de semana a propósito de Schreber, o que vemos nos fenômenos psicóticos é que diante de suas alucinações Schreber fica constantemente confrontado ao seguinte, que se vê em todos os casos de psicose: se é ele que fala, se isso fala no outro, eu desapareço, assassinato de alma; se sou eu que falo, que tomo a palavra, é ele que desaparece e nesse momento angústia do fim do mundo. Ou seja, é na psicose em realidade que se situa essa prevalência da alternativa ou ele ou eu e assinalo isso de passagem, isso faz parte de minhas digressões&#8230;</p>
<p>Mesmo problema no caso do matriarcado, isto é, quando a relação ao privador, quando a figura do privador é assumida por um irmão, o que é o caso da organização matriarcal e onde, por toda sua vida para o sujeito, permanecerá um ou ele ou eu e o cara engajado num combate sem trégua, sem fim. Então, se nós conseguirmos nesse trabalho esta noite avançar sobre as questões levantadas por Patrick e que eu retomo da minha maneira, me parece que, bem, eu espero com certa impaciência nosso segundo encontro que acontece em maio, em 22 de maio, é isso, vocês terão tempo de digerir tudo isso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>[comentário de Patrick Guyomard]</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E então até breve, isto é, até maio.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Psicópolis*</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/psicopolis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jan 2017 21:21:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=14632</guid>

					<description><![CDATA[Charles Melman   É divertido verificar que para entender os impasses de qualquer organização social, basta observar a dos psicanalistas. O que eles querem, com efeito? Um chefe? Com certeza, mas a falha própria ao significante mestre é que ele não o é nunca totalmente, exceto em caso de fundamentalismo; e, então, arranja com o  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Charles Melman</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É divertido verificar que para entender os impasses de qualquer organização social, basta observar a dos psicanalistas.</p>
<p>O que eles querem, com efeito?</p>
<p>Um chefe? Com certeza, mas a falha própria ao significante mestre é que ele não o é nunca totalmente, exceto em caso de fundamentalismo; e, então, arranja com o lugar Outro a divisão subjetiva apropriada para alimentar a revolta daqueles a quem se acha recusado, por boas ou más razões, o reconhecimento de serem, no grupo, seus representantes modelos, supostos completos, como o carvalho o é pela glande.</p>
<p>Assim, há regularmente nos grupos aqueles que não fazem nada<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>, enquanto esperam que seja celebrada sua folhagem (o fato de ter bom ouvido<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>, é claro) de modo a fazer sombra àqueles que ainda vegetam.</p>
<p>A solução clássica desse mal-estar é matar o chefe, quando se trata daquele de uma escola, produzindo uma teoria que o contradiga mas agrade: primado concedido à vontade de poder por Adler, ao traumatismo do nascimento por Ferenczi, a sei lá mais o que por Jung ou Reich; em todos os casos trata-se de vir ao lugar suposto de origem para derrubar o ídolo consagrado a fim de aí instalar o seu.</p>
<p>Freud só encontrou recurso para preservar o primado da sexualidade na expressão dogmática de sua teoria, condenada de antemão, pois a sexualidade nutre um desejo que é aquele de sempre outra coisa&#8230; A instituição, como a Igreja, tornar-se-á a partir de então o tribunal encarregado de descobrir qualquer heresia, qualquer progresso na elaboração do dogma, preocupado ao mesmo tempo em consagrar, senão sagrar<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>, seus membros.</p>
<p>No entanto, verifica-se que, numa disciplina em que a teoria é sempre um artefato, uma defesa ética, possa-se gostar e querer sustentar aquela que assegure fortemente o presente e o futuro: a divisão do grupo entre os que cortam e os que são cortados<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>, com promoção no final, entregue ao capricho dos que cortam – ela não é bela, a vida? Admiraremos assim que um pobre coitado, inocente ainda por cima porque não sabe o que faz, para quem o texto lacaniano funciona como um livro vermelho &#8211; mas a ser melhorado, hein? porque somos modernos e é preciso tomar lugar ao lado da estátua (nos acreditaríamos na Coréia do Norte) -, consiga criar ilusão, devoção, se faça lavar publicamente os pés com lambidas, lustrar onde quiserem, e, ao voltar pra casa, zombe de tudo isso alegando seu esgotamento em se devotar assim pelo Doutor, e como Eneias carregar nos ombros Anquise a fim de fundar o quê? nada além de uma coleção de servidores, e que não sabem que estão caindo do alto da falésia.</p>
<p>Mas deixemos essas bobagens<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>, alimentadas pelo perigo das massas sempre prontas a se deixarem embarcar, para considerar a democracia, nossa invenção menos pior.</p>
<p>Se uma sociedade é sempre organizada por um discurso, o do saber para o comunismo, da histeria para o jihadismo, o do mestre na democracia tem a particularidade de prometer a cada um que, conforme seu mérito, ele poderá aceder ao lado certo. Eu dizia um dia a M. Gauchet, para implicar com ele, que a democracia era o direito reconhecido a cada um, e não mais reservado à aristocracia, de explorar seu próximo.</p>
<p>Não seria isso que ordenaria nossa sociedade sob o primado de um sadismo generalizado, para nos fazer o bem, com doçura e humor, é claro?</p>
<p>De todo modo, o jogo democrático supõe uma báscula do poder entre possuidores e possuídos, cada um capaz de tomar o lugar do outro, quando vierem as eleições. É mesmo preciso um gozo partilhado para que uma sociedade se mantenha, com cada um alternando no papel do patrão.</p>
<p>O problema das sociedades psicanalíticas é que não há gozo a partilhar. A decepção do gozo só podendo desta vez satisfazer os masoquistas. O “a” em posição de mestria remete cada um a uma fantasia singular da qual identificamos mal o traço que ela teria em comum com a do vizinho, a verificação então de uma dissonância com ele, mais do que um acordo (um coral seria terapêutico?), na medida em que o maestro pode estar, para cada um, munido de uma batuta diferente&#8230; Lacan via os psis como ouriços infelizes por se esfregarem juntos e também por se separarem. Minha invenção foi supor que a promoção da chefia própria às eleições democráticas poderia ser temperada por um Conselho de direção constituído em dado momento por aqueles que, naquele momento, experimentam o silêncio e a vacuidade do Outro, que não há um Outro, e que se fica só.</p>
<p>O voto que teve lugar no curso da assembleia geral extraordinária de 23 de janeiro de 2016 mostrou que eu não o estava completamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>* La Revue Lacanienne n<sup>o</sup> 17 &#8211; Editorial<br />
Tradução: Juliana Castro Arantes<br />
Revisão: Sergio Rezende</p>
<hr />
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> NT – No original, “ceux qui glandent”, num jogo de palavras com glande (fruto do carvalho)<br />
<a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> NT – No original, “avoir de la feuille”, literalmente “ter folha”<br />
<a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> NT – No original, “sacrer”, que tem também o sentido de xingar, blasfemar<br />
<a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> NT – No original, “sciants et sciés”, do verbo ‘scier, que além de evocar ‘science’ (ciência) e do significado cortar, serrar, tem também o de incomodar, chatear.<br />
<a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> NT – No original, “fadaises”, que ressoa com “falaise” (falésia) na frase anterior.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pecado e Redenção no Palácio do Progresso</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/pecado-e-redencao-no-palacio-do-progresso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2016 14:51:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=14128</guid>

					<description><![CDATA[Charles Melman1   A palavra parecia ter quase desaparecido do vocabulário dos partidos políticos de esquerda, quando, nos dias 21 e 22 de novembro de 1999, em Florença, os principais responsáveis do mundo ocidental, associados ao presidente brasileiro2, se reuniram sob o signo do progressismo. Tratava-se para eles de definir as regras que corrigiriam suficientemente  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Charles Melman<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A palavra parecia ter quase desaparecido do vocabulário dos partidos políticos de esquerda, quando, nos dias 21 e 22 de novembro de 1999, em Florença, os principais responsáveis do mundo ocidental, associados ao presidente brasileiro<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a>, se reuniram sob o signo do <em>progressismo</em>. Tratava-se para eles de definir as regras que corrigiriam suficientemente a economia liberal para dar-lhe uma face humana. Redistribuição de renda, saúde, educação e aposentadoria representavam os domínios examinados, sem que se saiba <em>a priori</em> se o <em>progresso</em> deveria ser o de preservar suas conquistas, amplia-las ou então liquida-las.</p>
<p>Os historiadores das ideias lastimarão certamente que essa bela palavra não remeta atualmente senão a um prosaísmo contábil. Mas, a lembrança das paixões que ela suscita e dos cadáveres que se espalharam por seu caminho, podem, afinal, fazer com que se prefira um aburguesamento pacífico.</p>
<p>Para ir rápido, digamos que o “progresso” foi o nome dessa divindade gulosa de sacrifícios humanos cujo amor permitiu justificar os reviramentos mentais, sociais e políticos ligados ao desenvolvimento do capitalismo. A passagem de um uso filosófico do termo ao vocabulário político e jornalístico marcou o declínio da análise em proveito do <em>slogan</em> e da celebração pontual das vitórias da tecnologia. A fantasia que ele abriga, de uma humanidade liberada da maldição do trabalho e dotada de poderes multiplicados, o opôs ao Deus reputado coercitivo e interditor da religião, perfumando o “progresso” com um anticlericalismo “científico”. A grosso modo, apenas os escritores do século XIX souberam decifrar aí a promessa de uma vitória da perversão; estamos nela.</p>
<p>Os ideais progressistas propagandeados na política &#8211; enfraquecimento do Estado, sociedade sem classes, administração das coisas mais do que dos homens &#8211; passaram da especulação aos fatos. A reunião de Florença, que evocamos, parece assim ter tentado sobretudo precisar o mínimo de intervenção estatal necessária ao bom funcionamento da máquina econômica. Isso dá a cada um um lugar na medida de seu talento, bem mais do que naquela de seu nascimento ou de sua fortuna. Enfim, o Direito evolui no sentido da liberalização dos costumes, reconhecendo a primazia dos anseios do indivíduo sobre as tradições culturais e religiosas. É estranho que não se identifique essa vitória de Marx e de Freud, sem dúvida porque ela não foi alcançada pelos meios que eles propunham: luta de classes e tomada mundial do poder por um, difusão das ideias pelo outro.</p>
<p>Precisaríamos supor que seus caminhos não fizeram senão seguir o trajeto de uma toupeira muito mais subterrânea, e cuja toca agora se abre sobre o céu perdido das nossas decepções: aquela que, embora cega, ao nos guiar em direção ao controle do objeto, nos mostra que, ao consegui-lo, somos nós que caímos sob o seu golpe.</p>
<p>As maravilhosas fabricações da tecnologia preenchem o gozo dos orifícios do corpo, enquanto o sexo tem a escolha de satisfazer livremente sua fantasia ou então desaparecer, em proveito de uma reprodução clonada.</p>
<p>Os jovens, que esquecem uma tradição de revolta para aderir massivamente a um jogo social que promete a festa permanente, não se enganam, basta em seguida aguentar o tranco. Os excluídos constituem menos um fermento de oposição do que, ao bater os pés impacientemente para participar, um contraexemplo. Ainda que a promoção do gozo <em>trash</em> possa fazer disso um modelo do herói moderno: aquele que correu o risco da exclusão para ir ao termo de seu gozo, morte social que até há pouco somente a paixão amorosa justificava.</p>
<p>Mas não desprezemos nosso prazer. Como nunca – exceto em Roma, talvez &#8211;  um tal bem-estar atingiu o cidadão. O narcisismo encontra sua plenitude na possibilidade de uma troca de papel (até mesmo de identidade) sexual, e a fantasia deixa sua monotonia para se abrir, com o risco para um sujeito de se perder, ao devaneio.</p>
<p>A internet tornou-se o bazar planetário onde se pode adquirir tudo: amizades, passagens aéreas, órgão para transplantes, conselho filosófico e até mesmo “psicanalítico”, parceiros da fantasia, referência erudita, etc. O saber remetia, até há pouco, à figura de um mestre ou de um sábio respeitados. Ele se vê reduzido à realidade de um estoque disponível ofertado aos pedaços conforme a demanda para alimentar um autodidatismo cujos efeitos logo apreciaremos, o mais manifesto sendo por enquanto aquele que faz o docente parecer adequado hoje em dia para receber afrontas por usurpação de autoridade; ele ainda não compreendeu que se tornou um simples fornecedor de consumidores organizados que, por sua vez, detêm agora a autoridade,  tratando-o segundo seus méritos e faltando às aulas à vontade.</p>
<p>A pequena toupeira, que caminhava mais profundamente do que Marx e Freud imaginavam, merece seu nome: <em>progresso</em>, já que foi capaz, à nossa revelia, de extrair e propulsar sobre a cena o objeto que a civilização mantinha escondido a título de dejeto. Esta nova presentificação se chama: poluição.</p>
<p>É comum que ela provoque uma angústia coletiva &#8211;  como se vê com o alimento produzido fora dos padrões – bastante legitima para invocar e anunciar um retorno à ordem, moral e política. Ainda não chegamos aí, mesmo que se deva observar a coexistência esquizofrênica de correntes contraditórias na sociedade: paganismo desenfreado e retorno de uma religiosidade integrista.</p>
<p>A economia de mercado tem interesse demais nessa <em>hubris</em> para validar um reviramento de tendência, exceto se as ações industriais engajadas contra a poluição se revelarem mais suculentas do que a sua extensão.</p>
<p>Se o “progresso” conduz atualmente à votação de leis que favorecem o direito a gozar, amanhã ele poderá parecer se sustentar então em sua restrição.</p>
<p>Enquanto esperamos verificar esta tese, tentemos respirar, com a ideia de que um tal vai e vem deveria nos permitir acrescentar um parágrafo, talvez decisivo, ao uso dessa palavra. E não seria ainda um progresso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> Traduzido do original <em>Faute et rédemption à l&#8217;Hôtel du Progrès</em> publicado na revista <em>La Célibataire</em> nº3, inverno 1999-2000, EDK, Paris.<br />
Tradução: Pedro Silveira<br />
Revisão: Sergio Rezende</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a> Fernando Henrique Cardoso</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um seguro de vida</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/sem-categoria/um-seguro-de-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2015 17:14:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=14024</guid>

					<description><![CDATA[Charles Melman Eu certamente aprecio a vida de grupo dos psicanalistas, pois vai fazer 60 anos que eu a saboreio. Temos a felicidade de ver se exaltar aí a grosso modo o conjunto das paixões próprias à nossa espécie, exceto aquelas que qualificaríamos de "nobres" se o qualificativo designa o que é suscitado pela dependência  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Charles Melman</p>
<p style="text-align: left;">Eu certamente aprecio a vida de grupo dos psicanalistas, pois vai fazer 60 anos que eu a saboreio. Temos a felicidade de ver se exaltar aí a grosso modo o conjunto das paixões próprias à nossa espécie, exceto aquelas que qualificaríamos de &#8220;nobres&#8221; se o qualificativo designa o que é suscitado pela dependência em relação a &#8220;valores&#8221;. Como se a grande revelação da cura, que o Outro não existe, liberasse as energias privadas quaisquer que elas fossem, mas sem mais nenhuma reserva nem vergonha, assim como no perverso.</p>
<p>Eu vi, assim, em tela panorâmica e a cores, como Lacan foi tratado por aqueles mesmo que tinham recebido dele o fôlego que lhes permitia insultá-lo, cuspir-lhe na cara, vendê-lo, enfiar-lhe uma faca nas costas, caluniá-lo, paro por aqui porque sou gentil.</p>
<p>Mas o que é que ele veiculava então para merecer tal acolhida, o que é que ele tinha de tão perturbador? Ele próprio recebia isso tudo, e qualquer que tenha sido seu sofrimento, com um estoicismo decidido a se servir dessas forças mesmo &#8211; pois, Senhor, elas estavam ali &#8211; a fim de fazer valer o quê? Que elas não resolviam o problema. Ele considerava, certamente, que, por causa de seu papai colaboracionista, o pessoal com quem ele lidava não era de boa qualidade. Mas foi diferente para Freud com a pequena burguesia austro-húngara?</p>
<p>Para o modesto seguidor que eu sou, a temperança, em geral, esteve sempre presente, talvez por causa, na medida, dessa própria modéstia.</p>
<p>Mas eis que, com a idade, surge um convidado de monta, que se chama a morte. E vemos canteiros se abrirem para preparar os loteamentos do futuro, sem levar em conta o sentido colegiado do trabalho até aqui partilhado.</p>
<p>Uma confissão: A arquitetura de pavilhões me desola em geral, me dá raiva quando concerne particularmente à psicanálise, pois significa então que ela fracassou em fazer valer a universalidade e a confina a ser um bazar, prometido a ser rapidamente abandonado.</p>
<p>O que é então que está em jogo? A seguir&#8230;</p>
<p style="text-align: left;">Tradução: Sergio Rezende</p>
<p style="text-align: left;">Texto original: <a title="veja aqui" href="http://freud-lacan.com/index.php/fr/92-editorial-de-charles-melman/5492-une-assurance-vie" target="_blank" rel="noopener">http://freud-lacan.com/index.php/fr/92-editorial-de-charles-melman/5492-une-assurance-vie</a></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A História da A.L.I.</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-historia-da-a-l-i/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2015 17:00:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=14019</guid>

					<description><![CDATA[Uma entrevista com Charles Melman Conduzida por Thierry Roth e Bénédicte Metz, em dezembro de 2014. Vídeo original legendado: https://www.youtube.com/watch?v=7NC3_j5YhNg Fracasso da E.F.P.? A dificuldade tem a ver com, em geral, com os próprios analistas, na medida em que sua prática os coloca forçosamente fora de prumo quanto aos valores socialmente partilhados e então a  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma entrevista com Charles Melman<br />
Conduzida por Thierry Roth e Bénédicte Metz, em dezembro de 2014.</p>
<p>Vídeo original legendado: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7NC3_j5YhNg" target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=7NC3_j5YhNg</a></p>
<p><strong>Fracasso da E.F.P.?</strong><br />
A dificuldade tem a ver com, em geral, com os próprios analistas, na medida em que sua prática os coloca forçosamente fora de prumo quanto aos valores socialmente partilhados e então a psicanálise não é, de modo algum, suposta a produzir uma promoção, nem uma vantagem nem um título. É por isso que Lacan dirá que para ser psicanalista é preciso ser um santo. Mas pior que isso, já que um santo tem ao menos o benefício ou a vantagem de fazer caridade, ao passo que, o psicanalista, ele vai <em>déchariter</em><a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>, em outras palavras, permitir a seu analisante tomar a medida do que há a pagar para poder gozar de um saber, de seu saber.<br />
Então, a dificuldade no fracasso da <em>École freudienne</em> sem dúvida teve a ver com os próprios analistas e não há nenhuma razão para não colocar em causa, certamente, a parte de Lacan. Talvez ele tenha se colocado mal, talvez ele tenha superestimado o engajamento de seus alunos, talvez ele tenha feito um exercício da transferência que possa ter sido percebido como uma forçagem, um constrangimento. Em todo caso, o que é certo é que ele tinha grandes esperanças nas consequências de seu ensino, e que a decepção que, com o passar do tempo, ele conheceu, só pôde exacerbar nele o que poderíamos chamar de seu descomedimento.<br />
O fim da <em>École freudienne</em> foi inteiramente, se fez de um modo inteiramente clássico, isto é, a vontade de captação de uma herança intelectual como se ela constituísse um bem que se tratasse de explorar. Trata-se, então, de uma modalidade por assim dizer bem tradicional que opera em todas as transmissões, quer se trate de bens móveis, imóveis ou intelectuais. Então, podemos dizer um fim absolutamente clássico e que não tem muito a ver com a própria psicanálise, exceto que, evidentemente, essa modalidade de entrada para numerosos alunos na sequência no ensino de Lacan só pode lhes transmitir, eu diria, o pecado primordial, o pecado inaugural, o que faz então com que, infelizmente, não há muita esperança a ter quanto ao êxito, mesmo se ele é, se, aparentemente, eu diria, ele é impressionante, mas não há muita esperança a ter quanto ao êxito fundamental, o êxito verdadeiro, a formação autêntica que o ensino em seguida pode ter.<br />
Agora, quanto ao que diz respeito ao servo, isto é, a esperança que foi dada a muitos, a inúmeros membros da <em>École freudienne</em>, de que os antigos eram capazes de se unirem para continuar o ensino de Lacan, é bem evidente que na realidade é a posição de cada um deles em relação a Lacan e a seu ensino que comandou suas divergências. Não foram histórias de precedência ou de consideração, mas foi exatamente sua atitude frente ao próprio Lacan que comandou a separação desse pequeno grupo que tinha sido recebido muito simpaticamente pelos membros da <em>École freudienne</em>.</p>
<p><strong>Fundamentos da <em>Association freudienne</em></strong><br />
O que comandou a formação da <em>Association freudienne</em> foi a ideia de que era possível edificar, construir um lugar capaz de receber aqueles que davam crédito ao ensino de Lacan. É evidente que esse crédito se confunde facilmente com a transferência, mas não a recobre forçosamente. Devemos pensar que há entre os alunos alguns para os quais o engajamento nesse ensino não é única ou essencialmente motivado por razões passionais. Então, criar um lugar onde fosse possível, vamos chamar isso, sei lá, mas, de boa vontade continuar a trabalhar, se fazer conhecer, se fazer reconhecer.<br />
Então, o ponto de partida foi um quarteto de psiquiatras, todos vindos de <em>Sainte Anne</em>, onde tinham tido a oportunidade de se apreciar mutuamente pelo fato de que tinham sustentado lá posições firmes e sem compromissos, sem concessões, e foi então essa atitude que os juntou, o respeito pelo ensino de Lacan a ser defendido, mesmo se o meio fosse desfavorável, foi o que os juntou, isto é, Claude Dorgeuille, Jean Bergès, Marcel Czermak e eu, que fizeram a atual, que fizeram a <em>Association freudienne</em> e hoje então nossa <em>Association lacanienne</em>.<br />
Sim, eu alertei contra os laços de amizade, eu diria porque a constituição de bandos, mesmo reunidos pela amizade, são pouco favoráveis para tratar o que é específico na psicanálise. Quero dizer que é evidente que o psicanalista sofre, eu diria, de uma falta de sustentação no seu narcisismo, e que a constituição de um bando, a partir do momento em que ele é suposto poder remediar essa insuficiência, tem efeitos de conforto narcísico que só podem mascarar a dificuldade, até mesmo pervertê-la.<br />
Para grande contrariedade de seus alunos, Lacan, aliás, sempre desconfiou da constituição de bandos em sua Escola, o que ele aliás não conseguiu impedir. Com Freud foi a mesma coisa. A história em torno de Lacan é estritamente idêntica àquela que ocorreu em torno de Freud: absolutamente as mesmas situações. Temos quase a impressão, poderíamos quase dizer que são as mesmas pessoas, os mesmos argumentos, os mesmos tipos de vindita, de denúncia, de recusa, estritamente idênticas, é bastante impressionante como repetição. Isso mostra bem que o que opera não depende das pessoas, mas de bandos, de efeitos de estrutura enquanto não analisados.<br />
É certo que eu tive mais tendência a fazer apelo ao que seria o engajamento racional dos membros da <em>Association</em>, mais do que a fazer apelo a sua reação transferencial. Isso é claro. Talvez os efeitos sejam melhores, mas eu devo dizer que a prevalência da razão em cada um não é de modo algum psicanalítica. Normalmente, psicanálise é antes crédito às forças do inconsciente do que, eu diria, à racionalidade. No entanto, foi o que eu joguei e, depois, veremos&#8230;</p>
<p><strong>Uma associação, mais que uma escola</strong><br />
Sim, é uma associação, na medida em que uma escola se coloca com a reunião em torno de um ensino, e não me pareceu que eu estivesse em condições de trazer, em relação àquele de Lacan, um ensino que seria original e novo em relação ao dele. Parece mais legítimo visar uma associação, isto é, a reunião de pessoas que se reconheciam pelo investimento que faziam no ensino de Lacan, dada a condição de que eu desempenhasse um papel de, sei lá, de coordenador, até mesmo de mais velho pura e simplesmente, o que era mesmo o meu caso, eu sou de qualquer modo o mais velho nessa situação. Então, mais esse papel do que aquele de ‘<em>Maître d’École</em>’, que Lacan era.<br />
O nome Escola, que ele deu a seu grupo, era perfeitamente original, nunca tinha sido utilizado antes, eram sempre apenas sociedades psicanalíticas. Eu também não quis o termo sociedade no que nos concerne, pois o funcionamento social nós sabemos que ele é corrompido de antemão. Talvez uma associação, como houve associações de trabalhadores, até mesmo associações internacionais de trabalhadores, se bem que seu resultado também não tenha sido evidente, mas talvez fosse um melhor dispositivo.<br />
Posso dizer que meu ensino foi, não uma paráfrase do de Lacan, não é verdade, mas foi um conjunto, eu diria, de excursões alimentadas pelo ensino de Lacan. Não são reditos, não são repetições, não se trata de plágio, é a continuação de um trabalho que se desenvolve a partir de seu ensino. Agora, que houve um papel agregador durante o tempo em que eu o fiz, isto é, de todo modo durante mais de 20 anos, isso é certo, é certo e eu penso que não teve um papel desfavorável: hoje seus seminários estão publicados ou sendo publicados, parece que há interesse neles.</p>
<p><strong>2002: apelo aos militantes</strong><br />
Pareceu-me sobretudo que, depois de 20 anos de seminário, era tempo que os membros da <em>Association</em> tomassem sua responsabilidade na direção de sua casa, que eles a assumissem, e que então pudesse se precisar melhor o fato de que, para um analista, o lugar da mestria é um lugar vazio. E, então, o que lhes foi proposto foi verificar se isso era compatível com o ponto em que cada um deles estava, se ele tinha aceitado que o lugar da mestria não seja sustentado por um ensino explícito, ou até mesmo por essa ou aquela pessoa, e que se encarregassem de modo plenamente responsável da direção de sua casa, pois ela é deles. Então, a questão é o futuro deles. Então, tratava-se de saber se estavam decididos a prosseguir e desenvolver esse futuro.<br />
É por isso que eu me pus de lado. E, se eu escrevi <em>O homem sem gravidade</em>, foi sem dúvida também para testemunhar que era possível interessar o meio social por dados que habitualmente ele recusa, que ele refuta e, em particular, os do ensino de Lacan. E, por esse lado, foi bem um sucesso.<br />
Eu creio que o que é sensível é que não há mais militantes, ou seja, a causa freudiana quase não suscita mais vocações. Não há mais militantes em geral, não somente entre nós. O único problema é que podemos pensar que entre nós a causa vale a pena, ao passo que ela é em geral desacreditada no campo político, no campo religioso e no campo moral, no campo filosófico. Podemos pensar que entre nós ela vale a pena. No entanto, estamos manifestamente em falta de militantes. É isso, os militantes precedentes se perderam, isso é claro, e os de hoje não se perdem porque se fazem notar por sua discrição.<br />
Na época de Lacan, eu estava o tempo todo na estrada com um bastão peregrino, eu não reclamei. Então, tratava-se, sem dúvida, da afeição por ele, mas também com uma série de sentimentos de que eu ia assim pregar no campo, valia a pena, valia a pena e tinha consequências. Sim, consequências para tentar nos defender contra a barbárie. É isso, a barbárie é clínica, a barbárie, nem que seja confiando na etimologia, quer dizer que são as falas que não provêm de um discurso. O bárbaro é aquele que não passa pelo discurso para se fazer entender, passa pela força, às vezes talvez pela sedução ou pela manipulação, o que chamamos de <em>marketing</em>: é o bárbaro. Então, é preciso saber se consideramos que é agradável viver na barbárie, e certamente consideramos que valeria mais que as leis da palavra sejam respeitadas.</p>
<p><strong>A A.L.I. e os outros</strong><br />
Nós tentamos, num determinado momento, convidar delegados de diversos grupos daqui do ensino de Lacan para virem participar conosco de colóquios que seriam especialmente dedicados a eles, dedicados a uma questão comum. E então viríamos debater juntos, com a ideia, então, de que, se todo mundo se referia a um mesmo ensino, aqui é o mesmo problema das religiões do monoteísmo, se todas provêm do mesmo texto, por que é que elas não acabariam por poder se entender?<br />
Então, nós tentamos, inclusive com a escola de Miller. Os resultados foram decepcionantes porque os convidados que nós recebemos se colocavam claramente sob o signo da desconfiança e da preocupação em desarmar a manobra, sei lá qual. Em todo caso era, isto é, mais que uma colaboração sobre o assunto proposto, foram atitudes políticas que se exprimiram. E depois, por outro lado também, eu devo dizer, carências na interpretação do ensino de Lacan ou divergências que às vezes pareciam surpreendentes.<br />
Então, com as associações certamente não há esperança, e não é por acaso que elas se separaram. Elas finalmente são organizadas em torno de princípios que, mesmo se eles não são claramente formulados, são bem reais no tratamento do ensino de Lacan. Nós somos os únicos a estudar a cada ano um seminário, somos os únicos. Somos também, há um grupo que se chama <em>École lacanienne</em>, mas a nomeação em geral nunca é explícita. Em contrapartida, há alguns que vêm dos diversos grupos, analistas, que, mais particularmente, estão perfeitamente em condições de trabalhar conosco, e é provável que um certo número virá, porque eles percebem bem que, depois de 30 anos, agora faz 30 anos que a <em>École freudienne</em> foi dissolvida, há efeitos de usura e de transmissão entre gerações que não se dão. Então há alguns que virão conosco, isso é certo.<br />
O futuro da psicanálise, eu não sou profeta, posso dizer simplesmente que com muitos missionários eu fiz o meu melhor, eu não sou o único, há outros, como vocês mesmos, que participaram disso. O futuro da psicanálise, e o temor, se não tivesse havido Lacan ela já teria sido varrida.<br />
Eu olhava, agora há pouco, um número do <em>Magazine littéraire</em> do mês de junho intitulado ‘As ficções da psicanálise’, que reune um certo número de escritores e também psicanalistas; é impressionante. É impressionante, é preciso mesmo dizê-lo assim, pela pobreza intelectual do que é ali proposto, e o caráter muito primário da maneira como a psicanálise é abordada e apresentada. Então eu aconselho, se vocês quiserem ter ideia do futuro da psicanálise, a ler esse número do <em>Magazine littéraire</em>, mês de junho de 2014, ‘As ficções da psicanálise’.<br />
Se fossem apenas os escrevinhadores e escrevinhadoras, tudo bem, mas há também alguns psicanalistas ali que tomam a pluma. Temos a impressão de que a preocupação de não sair do conforto da massa tem primazia sobre o resto.<br />
Ora, isso dito, como vocês sabem, nós continuamos, no que concerne a nossa <em>Association</em>, com a criação do comitê de Freud para que ele seja inscrito no patrimônio da memória da humanidade pela Unesco, o que nós fazemos com a <em>École pratique</em> para que estudantes completamente perdidos em psicologia, em psicopatologia e em psiquiatria possam ter um lugar onde há um ensino para eles. Nós o fazemos, e eu posso lhes dizer, já que você trabalha na <em>École pratique</em>, você também, Bénédicte, talvez?, não?, pois bem, eu posso lhes dizer que esses estudantes, que vêm de horizontes e de meios extremamente diversos, e com formações extremamente diversas, heteróclitas, pois bem, quando eles nos dizem adeus, eles agradecem a seus professores. E agradecem calorosamente, o que hoje na universidade não é o mais frequente. Então, é de qualquer maneira um índice de alguma coisa, estudantes que chegaram lá por acaso, enviados muitas vezes por organismos para virem fazer um curso apropriado para diplomá-los, portanto vindos com seus interesses práticos, comuns, eles também não são militantes. Pois bem, o que eles ouvem lá, entre nós, manifestamente isso conta para eles.<br />
Então, isso que vocês me interrogam sobre o futuro da psicanálise, temos o sentimento de que, quando ela é proposta como convém, a estudantes, isso é apreciado.<br />
Isto dito, nosso país, hoje, é o único na Europa em que a psicanálise está viva, não digo apenas existe, mas está viva, na Europa. Agora, ela resistiu na América Latina, mas sob formas que são evidentemente exóticas, como deve ser. Mas a França é o único país onde a psicanálise continua a existir e, evidentemente, por culpa de Lacan. Isso é claro. Portanto, ele é o culpado, por enquanto.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a>N.T. Neologismo usado por Lacan em <em>Télévision</em>, a partir da junção de <em>déchet</em> (dejeto) e <em>charité</em> (caridade). Na edição brasileira (Zahar) da transcrição foi traduzido por ‘fazer descaridade’, tradução em que se perde totalmente a origem do neologismo.</p>
<p>Transcrição da tradução: Sergio Rezende, com a colaboração de Luiza Ribeiro, Cláudia Malvezzi e Fernanda Oliveira.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A prática de Lacan</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-pratica-de-lacan/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2015 12:29:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=6544</guid>

					<description><![CDATA[Charles Melman PARIS, 16 DE NOVEMBRO DE 2003. ANFITEATRO SAINT-GERMAIN Creio que por ocasião dessas jornadas vocês têm a ocasião de compreender enfim quem era Lacan. Era o provocador que permitia que a babaquice de vocês se revelasse. Ele lhes permitia ter a medida dela, o que tem por efeito seja, é claro, provocar amor,  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Charles Melman</em><br />
PARIS, 16 DE NOVEMBRO DE 2003.<br />
ANFITEATRO SAINT-GERMAIN</p>
<p align="left">Creio que por ocasião dessas jornadas vocês têm a ocasião de compreender enfim quem era Lacan.</p>
<p>Era o provocador que permitia que a babaquice de vocês se revelasse. Ele lhes permitia ter a medida dela, o que tem por efeito seja, é claro, provocar amor, pois ele nos reconhecia verdadeiramente na intimidade de nosso ser, seja ódio – já que isso não é tão agradável ou apetitoso. Exemplo: vocês todos se acreditam bravos pequenos Édipos, corajosos e prontos para todos os extremos? Pois bem, vocês descobrem, graças a esse provocador, que o que vocês pedem ao Papai é que ele os ame, que vocês sejam o preferido. Para isso vocês estão dispostos a tudo, inclusive a se feminizar! Vocês acreditam que querem ser livres? Será demonstrado a vocês que, na realidade, o que vocês buscam, e do que gostam, é um mestre, alguém que lhes diga enfim aonde ir, como fazer, como se virar; em outras palavras, o voto de vocês é na realidade o da servidão. Você se acredita sábio, doutor? Você descobre, evidentemente graças a esse provocador, as dimensões de sua ignorância. Você crê ser um homem? Você descobre o quanto as suas certezas nessa matéria podem ser eventualmente frágeis. Você pensa ser uma mulher? Mas você descobre sua voracidade fálica.</p>
<p>Tudo isso é muito agradável. Muito agradável encontrar enfim alguém que, no nosso espaço, não busca a sua cura, isto é, não busca o que a cultura exige, isto é, o esquecimento, a negação, a sutura da criação – muito bom, esse lapso! –, mas que, ao contrário, essa castração, a abre para você permanentemente, indo então contra todas as regras do jogo. Pois as regras do jogo, as regras do jogo social, as regras do jogo pessoal, íntimo, privado, as regras do jogo erudito, são mesmo apagar essa castração; é isso nossa cultura. Pois bem, havia um, bizarro, que lhes dava a oportunidade de, bruscamente, descobrir todas essas qualidades que eram as de vocês e, então, se reconhecerem no âmago de si mesmos.</p>
<p>É certo que Lacan, com essa energia singular que era a sua, pois ele era fanático, ele era completamente arrebatado pelo campo em que tinha entrado, com a certeza de ter evidenciado, graças a essa prática tão reduzida, sucinta, que é o tratamento analítico, de ter evidenciado estruturas que se mostravam essencialmente subversivas em relação a nosso conforto e a nosso sono intelectual – com todas as conseqüências sociais que conhecemos, seja na escala nacional ou internacional. Ele tinha essa certeza. E é claro que ele queria que seus alunos, quanto a isso, fossem “militantes”. É um termo que não é mais muito corrente, ou que não vale tanto, pois quase não há militância que não tenha sido recompensada como merecia, por todas as decepções que podemos saber. Ele esperava de seus alunos que eles fossem militantes desse procedimento extraordinário que ele evidenciava assim, e que eles o apoiassem, é claro, nessa subversão que ele sustentava com uma intrepidez e uma coragem, uma solidão, absolutamente notáveis. Não podemos esquecer que Lacan operou no momento em que, em todos os nossos meios intelectuais, triunfavam o marxismo e o existencialismo, que denúncias públicas da psicanálise eram corriqueiras, banais, nessas duas correntes, nesses dois meios, e que, por outro lado, certamente, não seria a Igreja que ia sustentá-lo, mesmo que seu discurso inaugural tenha vindo de Roma (outra provocação). Foi, portanto, verdadeiramente num estado de solidão intelectual e moral, e um pouco contra todos, que ele se engajou nessa história maluca.</p>
<p>Então, esperando de seus alunos que eles funcionassem assim para ele, como militantes, será que ele vinha redobrar a alie-nação deles, até mesmo fixá-la de uma vez por todas? O que pude, de minha parte, verificar ao longo do caminho – não sou o único a tê-lo experimentado – foi o abandono: pelos primeiros e pelos melhores de seus alunos, alguns de quem ele mais esperava, e que, com uma argumentação que afinal nunca foi perfeitamente definida, se desligaram dele. E devo dizer-lhes que isso se prolongou o tempo todo! Eu acho, pessoalmente, que era normal. Normal porque, afinal, não se vê por que os alunos teriam automaticamente compartilhado esse tipo de vontade subversiva, com os riscos que isso podia acarretar para as diversas situações sociais que podiam legitimamente ser almejadas… Resta que, entre esses próprios alunos, se recolhe hoje facilmente uma nostalgia por tê-lo deixado, referências que são freqüentes, e o mínimo que se pode dizer é que se trata de uma transferência que certamente não foi resolvida e na qual a complexidade dos sentimentos parece predominar. Em todo caso, ao vir assim tomar para seus alunos o lugar do que seria igualmente o mestre, o ideal, o professor, o pai, ele não deixava por isso mesmo de suscitar neles a interroga-ção íntima sobre o que era a relação de cada um com essas diversas instâncias; e, afinal, ter que se decidir como bem entendesse, o que as pessoas não deixaram de fazer. Em outras palavras, posso, por exemplo, testemunhar que “o pai, afinal eu o odeio”. Certo, muito bem! E então, agora, o que é que isso lhe dá, o que é que você tem, o que é que isso abre para você? Isso o es-clarece de que maneira? Isso movimenta seu pensamento de que maneira? “O mestre, insuportável! Quero minha liberdade de pensar! Não quero que me doutrinem assim.” Muito bem! Você é inteiramente livre para pensar o que quiser. Aliás, o que é que você pensa? É interessante? Pode efetivamente não ser completamente idiota. Mas é verdadeiramente interessante? Então ele levava, assim, cada um, querendo ou não, a tomar efetivamente suas decisões, até mesmo seus atos. Muitas vezes ele lamentava que elas fossem tomadas dessa maneira. Mas de todo modo hoje é preciso constatar que, quanto aos que se engajaram assim nessa ruptura, não se pode dizer finalmente que tenham tirado dela o melhor benefício. Quanto a mim, eu estava perfeitamente atento a isso. Como é sabido, um grande número desses irmãos mais velhos, de quem gostávamos muito, em quem confiávamos, com quem eventualmente eu podia manter relações de intimidade, a quem éramos apegados, eu esperava muito ver em que é que daria a ruptura deles. Mas quando eles ficaram enfim livres, não doutrinados, será que isso trouxe ao ensino de Lacan, em algum ponto, seja uma contradição válida, seja uma contribuição interessante? Seria difícil, eu acho, notar, constatar, isso.</p>
<p>É certo que ele pensava que um ensino era necessário aos seus analisantes. Assim, Adnan Houbballah lembrou: por ocasião de sua supervisão, Lacan começou lhe dizendo: “<em>no começo</em>, serei didático”. Um ensino é necessário, nem que seja para testemunhar aquilo de nosso inconsciente que não funciona de modo algum no sentido regular. Um ensino é necessário para vir inscrever para o sujeito essa dimensão perfeitamente nova que é a do você pode saber. Pois é bem isto que a menor experiência analítica demonstra: nós não queremos saber, e o obstáculo é de estrutura: esse objeto a é aquilo que nos detém, é o que nos provoca repugnância, é o limite insuportável e intolerável. Será que vamos, verdadeiramente, nós que nos acreditamos homens ou mulheres, revelar a nós mesmos que temos, como ser, um puro objeto, um nada, um excremento, um dejeto? É isso aí que me causa? Eu me acredito o filho de Deus, e eis aí o que me causa! É isso? Confessem de qualquer modo que, em se tratando de ser subversivo, não se pode dizer que isso não era! E não apenas é isso que me causa, esse objeto, mas além disso ele me causa para nada, porque o Outro, ele se lixa completamente para isso, e o que há no Outro é o puro nada!</p>
<p>Houve recentemente um colóquio sobre isso com os responsáveis da IPA, para tentar justamente ver se, sobre esse ponto, podíamos nos entender. Porque, quando Lacan diz que é freudiano, ele de todo modo especifica: o pensamento de Freud é o que estipula que aquilo que organiza a relação do indivíduo com o mundo é uma perda fundamental, fundadora, essencial, organizadora, definitiva, irrecuperável, que é uma falta que organiza nossa relação com o mundo, e que origina um sujeito que no mínimo não sabe o que quer, não sabe o que faz, não sabe o que diz! É aí que ele é freudiano, fundamentalmente freudiano, e é bem isso o que ele retoma em Freud, o que o autoriza. Freud buscava obstinadamente um predecessor, ele buscava alguém, um mestre, ele não ousava se apresentar assim como fundador, é uma posição um pouco miserável. Então, ele evoca o tempo todo Breuer, seus mestres… Quanto a Lacan, ele está fundamentado ao dizer que é freudiano e que é disso que é essencial em Freud que ele se vale.</p>
<p>Não há motivo para prolongar isso tudo excessivamente. Eu gostaria apenas de chamar sua atenção para mais um ponto. Esta formulação de Lacan: resolução da transferência pela transferência de trabalho; pois é verdade de todo modo que o neurótico, é bem isso que o caracteriza como tal, ele não tem nenhuma vontade de largar esse objeto. Ele fica aí, pois o Outro quer assim, pelo menos é o que ele crê, é o que faria as delícias do Outro se lhe fosse dado. Então, nada de ceder uma coisa assim tão preciosa, esse <em>agalma</em>. Se no Outro não há ninguém, e creio que Lacan era suficientemente excessivo em relação a seus analisantes para que eles pudessem ter verdadeiramente a medida disso, se no Outro não há ninguém, seguramente a transferência de trabalho é o trabalho, a aceitação, o engajamento em, esse objeto a, fazê-lo circular, com a possibilidade de situar todas essas organizações formais que comandam o processo – eu os remeto, como de costume, à introdução dos <em>Escritos</em>, esse texto sobre a <em>carta roubada</em>: não há ali pai que exija que você ceda o que quer que seja, é o jogo do significante que faz com que haja perda, que haja furo. A partir daí, vocês têm evidentemente que tentar se organizar.</p>
<p>Desde meu início nesse meio, que era ainda, em 1960, o meio muito simpático e agradável da Sociedade Francesa de Psicanálise, um meio bem liberal em que, com Lacan e Dolto, se encontravam universitários entre os quais Lagache, Anzieu, Favez-Boutonnier etc., meio que eu achava bem simpático, eu pude bem rapidamente – infelizmente! – constatar que, a despeito dos engajamentos de uns e outros em relação à análise, o que acabava contando na instituição era saber se a prevalência seria dos universitários ou então de Lacan e Dolto. No final das contas era isso que estava em jogo, era assim para um jovem que chega e evidentemente podia ficar surpreso ao ver que os servidores dessa disciplina, aqueles que tinham recebido a tonsura, não deixavam de ter, no final das contas, de reduzir tudo isso aos seus pequenos desejos privados e narcísicos em particular. Então, isso foi evidentemente o primeiro choque, o primeiro aprendizado, afinal é assim que se aprende. Muito rapidamente, no que me diz respeito, meus caros colegas não deixaram de vir observar que minha militância, verdadeiramente, que isso não era sério, que eu estava completamente <em>vendido</em> a Lacan. Enfim vejamos! Tudo isso era meu inconsciente, eu estava ali sendo a vítima, não é mesmo?, de um tratamento que Lacan explorava em seu proveito, ele precisava de soldadinhos; tudo ia bem se ele os tivesse, e quanto ao resto que cada um se virasse! Acontece, de qualquer modo, que nesse dispositivo eu pude, como muitos, apreciar sua extraordinária honestidade intelectual, sua maneira de não ceder, sua maneira de não se comprometer, sua maneira de não trapacear, e depois essa aceitação de uma posição na qual ele recebeu todos os golpes, inclusive dos mais próximos. Mas parece que ele se segurava no que essa prática lhe permitia descobrir e que ele achava que valia a pena tentar transmitir. Eu ouvi de sua boca o lamento de que isso afinal se tenha dado pelo viés da psicanálise, isto é, com todas as escórias justamente transferenciais que isso implica, e que ele não tivesse procedido como os mestres tradicionais, isto é, pelo viés da filosofia, por exemplo, e que sua ação talvez pudesse ter sido mais pública e eficaz se ele tivesse seguido esse viés. Difícil, é claro, responder…</p>
<p>Para concluir minha fala, quanto a mim, retorno a uma questão que hoje permanece atual. Em 53, a cisão entre o grupo que incluía Lacan e a Sociedade Psicanalítica de Paris se deu a propósito de uma regulamentação da psicanálise; tratava-se, para a Sociedade parisiense, de estabelecer um instituto de formação de psicanalistas que seriam reconhecidos por um diploma médico; não universitário, mas médico. Foi em relação a esse projeto que Lacan, Dolto e Lagache e Favez e os principais alunos da Sociedade parisiense, e quando Lacan era o seu presidente, foi em relação a essa questão que eles foram embora, que eles se separaram. Em todo caso, eu, no que me concerne, posso atestar que, no momento crítico que foi o do fim de seu percurso – momento evidentemente particularmente doloroso, difícil e completamente inesperado, certamente, completamente imprevisto –, posso dizer que, a esse respeito, agi me autorizando por mim mesmo. Ao fazer isso, eu afinal estava apenas resolvendo o sintoma bem bobo pelo qual eu tinha ido procurá-lo. Era uma circunstância banal de exame, chamava-se internato de Paris, e eu ficara surpreso ao constatar em mim algo que eu não conhecia até então: o que se chama de câimbra dos escritores. Eu tinha que fazer uma dissertação sobre um assunto que eu conhecia perfeitamente, mas havia um inconveniente: eu me vi obrigado a eu mesmo redigi-la, criar minha própria questão (chamávamos isso de “questões” na época) de fisiologia, era uma questão de endocrinologia, pois todas que eu tinha encontrado não tinham me parecido adequadas. Portanto, eu achara que devia me autorizar apenas por mim mesmo, por meu próprio saber, e a surpresa de constatar que era isso que tinha sido sorteado no internato, e me achar na maior dificuldade para redigir uma questão que, por causa da câimbra, foi bem curta… e na qual eu tirei dezoito sobre vinte! O que mostrava bem que, efetivamente, eu não tinha me enganado na redação dessa questão, mas que eu não tinha podido me autorizar por mim mesmo. Posso dizer apenas que nessa circunstância – em que, aliás devo dizer, havia pouca escolha – eu podia verificar que esse tratamento com Lacan, em que, devido ao lugar que eu ocupava junto a ele, eu tinha tido o “privilégio” de ser objeto de recomendações e de sentimentos que não eram forçosamente amenos (que, em todo caso, me condenavam a nunca, nunca poder compreender o que quer que seja na análise, nem poder sair dela etc.), eu podia em todo caso verificar que isso não tinha me prejudicado muito.</p>
<p>Aí estão essas poucas observações sobre a extravagância que nos habita, a nossa, e das quais Lacan aqui é apenas a ocasião, o pretexto. Pois afinal, para retomar um exemplo que foi dado, se sou sensível a sua piscadela, não é sua piscadela que está em questão, é simplesmente que eu sou sensível a isso, que isso me importa, que isso me ocupa, é bem disso que se trata. Se ele marca encontro às seis da manhã, e se o outro vem correndo, como todos vínhamos, o que está em questão não é o que era o trabalho, efetivamente longo, importante, de Lacan, mas é o fato de que se venha correndo, contente por estar assim, embora ainda seja noite, entre os primeiros, aqueles por quem aparentemente ele se interessa tanto que os coloca assim em posição de exceção. Se ele telefona às duas da manhã, acordando a família toda em sobressalto, qual o problema? Você grita dizendo: “Mas espere! Deixe-me dormir!”? Ou então você está lá do outro lado da linha pensando: “Ah ! ele é mesmo…! Você percebe, e depois é a mim que ele…”. Você ainda está no seu sonho, e depois nesse sonho, há o telefonema de Lacan, às duas da matina… etc.</p>
<p>Pois bem, eu posso dizer uma única coisa: foi uma aventura excepcional. E se hoje ela é capaz de continuar, eu digo: bravo!, e digo: melhor assim!</p>
<p>É isso, obrigado!</p>
<p>_____________________________________________________</p>
<p>In: MELMAN C. <em>A PRÁTICA PSICANALÍTICA HOJE &#8211; Rio de Janeiro: Tempo Freudiano,2008, p.37<br />
Conferência pronunciada nas jornadas da <em>Fondation Européenne pour la Psychanalyse</em> intituladas <em>A prática de Lacan</em>.</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um psicanalista seria progressista?</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/um-psicanalista-seria-progressista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2015 12:27:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=6542</guid>

					<description><![CDATA[Charles Melman   O respeito pelas tradições é a regra das sociedades constituídas. Arcaicas ou refinadas, limitadas ou então poderosas como a chinesa, a japonesa até a era Meiji, a muçulmana ainda hoje, elas ignoram a noção de progresso ou a recusam. Este fato ilustra a prevalência do carácter cíclico do pensamento, cujo giro em  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Charles Melman</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p align="left">O respeito pelas tradições é a regra das sociedades constituídas. Arcaicas ou refinadas, limitadas ou então poderosas como a chinesa, a japonesa até a era Meiji, a muçulmana ainda hoje, elas ignoram a noção de progresso ou a recusam. Este fato ilustra a prevalência do carácter cíclico do pensamento, cujo giro em círculos cuida de garantir o retorno ao idêntico, ao mesmo. Concordamos facilmente que esta delimitação parece a condição para a estabilidade do poder e a permanência do sexo, a homenagem prestada aos ancestrais. Em que condições o Ocidente pôde se engajar e suportar uma ruptura?</p>
<p>Admite-se que o desenvolvimento das técnicas de produção, ele próprio ligado ao da ciência, foi a fonte do capitalismo.</p>
<p>Sobre as ruínas do feudalismo, adversários e partidários do novo sistema foram igualmente, fato marcante, os cavaleiros do “progresso”, que se tornou o álibi ou a esperança das penosas transformações mentais e sociais sofridas: mas que se tornou igualmente o argumento de um pensamento cíclico animado pelo projeto de um retorno à idade do ouro, de uma restauração da humanidade em seus privilégios anteriores à maldição divina.</p>
<p>Tradição ou progresso, o objeto visado por suas vertigens seria, no entanto, o mesmo? Certamente ele é o mesmo se admitimos que a exigência de ambos é a sustentação do gozo. E ela nutre a resistência à mudança, no temor de que ela poderia aboli-lo ou travesti-lo, ao preço de uma despersonalização coletiva. Mas ele é também diferente a partir do momento que o “progresso” se justifica por prometer um mais-gozar, um retorno aos jardins do Éden, antes que as palavras se tornassem enganadoras e o trabalho fosse necessário para a subsistência.</p>
<p>O triunfo do progresso marca assim nossa época. Os partidários da tradição são regularmente levados a bater em retirada diante do sucesso em salvas da ciência e das reviravoltas éticas que ela induz; como se aquilo que subitamente se tornou possível parecesse agora obrigatório.</p>
<p>As ilhas de resistência, religiosas ou nacionalistas, podem certamente se manifestar aqui ou ali, mas seu integrismo (idêntico no seu fundamento àquele dos cientistas, mas desconsiderado por ser privado de uma vocação universal) sofre de um léxico arcaico. Malgrado sua coerência, os julgamentos ou interditos da Igreja são pouco escutados. As guerras locais, por mais dolorosas que sejam, são combates de retaguarda, nos quais as duas partes são perdedoras, pois estão descoladas da competição econômica internacional.</p>
<p>A ciência piloto se tornou a biologia, que anuncia a mestria perfeita sobre o corpo, já quase realizada para o sexo e a fecundação. Pela primeira vez em seu percurso, o homem não tem mais que remeter sua perpetuação ao capricho de uma força à qual, divina ou não, era necessário oferecer sacrifícios. Resulta daí, entre outros efeitos, uma dessacralização das relações com o poder (político, professoral ou mesmo religioso&#8230;) junto com uma transformação inédita da economia da troca. A gratuidade da produção do equipamento poderia assim tornar-se uma figura banal do convite a participar, favorecendo uma postura social paranoica. A família renuncia a um exercício simbólico da autoridade em prol de uma codificação jurídica próxima dos papeis: pai e mãe serão um dia os funcionários retribuídos pelo dever de cuidar, assistir e vigiar. O hedonismo prima enfim sobre as obrigações às quais convidam a linguagem, a memória, a história, a identidade sexual, a preservação do corpo, as participações familiares e sociais. Resulta daí um estilo que não é essencialmente moderno, pois remete a uma figura cuja garantia, por se autorizar na ciência, poderia dispensar provas, a do libertino. A novidade é que ele agora participa de uma libertinagem de massa.</p>
<p>Um psicanalista é parte envolvida numa evolução cultural da qual ele percebe mal o que ela deve ao sucesso da sua própria teoria. Pode-se ainda falar de mal-estar na cultura, quando Freud foi suficientemente escutado para que ela suspendesse toda repressão sexual? A liquidação da transferência, da qual ele fazia um signo do fim do tratamento, é hoje em dia um <i>must</i> geral; quem ainda dá crédito ao saber, se ele não se faz absolver por aplicações técnicas? Édipo hoje está bem morto, mas é por falta de poder encontrar um pai com o qual ele se chocaria.</p>
<p>O próprio processo do recalque traz problema quando a nova liberdade de expressão autoriza a articulação direta das fantasias libidinais ou agressivas. O que seria de um inconsciente cujos elementos não teriam mais um sentido sexual, a partir do momento em que sua produção se originaria no jogo puramente mecânico de uma linguagem que, aliás, não se recusaria nada? Nenhum retorno do recalcado então, pois não haveria mais recalcado. Nem, tampouco, sujeito da fantasia, a não ser tomando-o emprestado, de uma forma histérica, àqueles que são realmente privados.</p>
<p>A recusa de qualquer parceiro terceiro regulador entrega a troca dual às habilidades de uma competição e de uma agressividade que não tem outro limite senão jurídico.</p>
<p>E sobretudo o sexo deixa de ser o enquadre universal significado pelo jogo do significante, em benefício de gozos orificiais e narcísicos, técnica, industrial e comercialmente muito mais fáceis e interessantes de se satisfazerem.</p>
<p>No sexo havia um fora-do-comércio, um bem do qual eu tenho o usufruto e que não poderei colocar no mercado, que se acha enfim posto na vitrine.</p>
<p>Equivale a dizer que o tempo dos psicanalistas estaria contado?</p>
<p>Alguns deles defendem um retorno da ordem patriarcal, alegando sua oportunidade para o acesso a uma norma. Sua oposição às medidas legais liberais do governo, porque elas contribuem para a degradação da função paterna, os leva a serem considerados “reacionários”. Um testemunho disso foi um virulento artigo ocupando uma página inteira no “<i>Monde</i>”, pregando na cruz do “progresso” significantes introduzidos por Lacan, como os Nomes-do-Pai. Seu autor manifestamente não compreendeu que esses significantes não servem para celebrar a missa, mas para discutir os efeitos de prescindir dela. (cf. o seminário O <i>Sinthome</i>, anos 1975-1976). Ultrapassar “os limites judaizantes” do pensamento de Freud interrogando o fato de saber se a castração é necessária ou contingente, eis um aspecto do “progresso” pretendido por Lacan. Mas a rabugice do autor tranquiliza, mostrando, à sua revelia, que a psicanálise é sempre chave de legibilidade quando Lacan parece ser o último “pai” que se sustenta e portanto bom para ser pregado.</p>
<p>Outros psicanalistas acolhem com simpatia a liberalização em curso, dentro da tradição já antiga de Ferenczi ou Reich, e tomam partido pelo direito de cada um a assumir publicamente seu gozo. Não é também seguir Freud quando ele denuncia a covardia que há em não reconhecer seus votos, ou Lacan quando ele incita em sua <i>Ética da psicanálise</i> a “não ceder do seu desejo”?</p>
<p>Como seu nome sinaliza suficientemente, <i>La célibataire</i> não partilha inteiramente destes pontos de vista. Seu estado civil já indica que ela não se preocupa em se perfilar sob o estandarte paterno; mas que ela não pretende tampouco celebrar o culto do objeto. Digamos que, por não ser devota, ela não pratica o culto do bezerro&#8230;</p>
<p>Foi preciso a adivinhação dos pré-socráticos para estabelecer o papel determinante do <i>logos</i> no destino do animal humano. Se é ele que agencia para nós o sintoma – para Lacan, falta de relação sexual; o fato de que um homem e uma mulher não conseguem se encontrar, comentaremos nós -, talvez fosse um progresso &#8211; pelo menos local &#8211; deslocar seu efeito. É nisso que Lacan trabalhava antes de entregar o jogo. Seremos os únicos a retomá-lo?</p>
<p>_____________________________________________________</p>
<p>Método de tratamento, a psicanálise se inscreve na ideologia que quer que o conhecimento dos fenômenos prometa a mestria sobre eles. Não se pode dizer, entretanto, que ela constitua um progresso na medida em que ela deve sua emergência à “poluição” cultural, à promoção do mais-gozar própria ao desenvolvimento do capitalismo. Como ele não pertence a uma classe lógica, “o” psicanalista no entanto não pode ser interrogado sobre a questão; mas, como aqui, “um” psicanalista pode ser levado a se pronunciar.</p>
<p>Artigo Publicado na revista La célibataire, nº 3, inverno de 1999-2000.</p>
<p>Tradução: Pedro Duarte Silveira</p>
<p>Revisão: Sergio Rezende</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A racionalidade como sintoma</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-racionalidade-como-sintoma-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 18:17:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[A racionalidade como sintoma]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Melman]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=6460</guid>

					<description><![CDATA[Para concluir essas Jornadas que, eu acho, testemunham que no nosso grupo a questão da neurose obsessiva está inserida num movimento, num processo de interrogação bem interessante, bem favorável e talvez promissor, vou lhes fazer algumas observações rápidas, como minha contribuição sob a forma de agradecimento àqueles que se expuseram.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Charles Melman &#8211; 07/06/1998</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Hospital Sainte-Anne, Conclusão das Jornadas: &#8220;Atualidade da neurose obsessiva&#8221;</b></p>
<p align="left">Para concluir essas Jornadas que, eu acho, testemunham que no nosso grupo a questão da neurose obsessiva está inserida num movimento, num processo de interrogação bem interessante, bem favorável e talvez promissor, vou lhes fazer algumas observações rápidas, como minha contribuição sob a forma de agradecimento àqueles que se expuseram.</p>
<p>A dificuldade para estudar a neurose obsessiva é evidentemente a questão do lugar onde nos colocamos para estudá-la.</p>
<p>Se nos achamos numa posição obsessiva, caso mais freqüente e mais comum para aqueles que se prevalecem da racionalidade, pode-se dizer, pode-se pensar que será um fracasso: pois enquanto sujeito se está implicado demais no movimento próprio da neurose para ter o tipo de recuo, o tipo de retraimento que permitiria observar seu movimento.</p>
<p>Se estamos na posição histérica, a dificuldade está ligada à antipatia capaz de vir separar, opor histérica e obsessivo. É raro que a histérica, a posição histérica considere com uma “neutralidade benevolente” a posição do obsessivo.</p>
<p>Há, então, uma primeira dificuldade que explica, sem dúvida, por que é que essa neurose, na qual Freud via o futuro da pesquisa da formalização analítica, continua estagnada quanto a seu estudo: a posição na qual nos encontramos para estudá-la. Eu não vou lhes dizer qual é a que é preciso adotar, vocês certamente a encontrarão por si mesmos. Mas em todo caso, isso não se mostra impossível, não se mostra impraticável.</p>
<p>Uma segunda dificuldade me parece ligada ao seguinte: a neurose obsessiva se apresenta como uma esfera, o que faz com que vocês não achem plano de clivagem pelo qual possam abordá-la. E se vocês tentarem achar um, virá se opor a vocês uma espécie de crispação dos orifícios (me expresso elegantemente) ou então será levantada a questão do que é que justifica o próprio questionamento de vocês, por que é que vocês questionam: Vocês serão remetidos ao problema do que antecede, disso que serve de antecedente a sua própria questão, e vocês não conseguirão escapar.</p>
<p>O risco é, evidentemente, se vocês tiverem uma abordagem da neurose obsessiva menos infeliz do que a habitual, vocês mesmos produzirem, para dar conta dela, uma outra esfera, ou seja, cair no entrave que vocês estudam e se revelarem, afinal, não menos obsessivos; na medida em que a neurose obsessiva faz parte, poderíamos dizer, de nossa normalidade.</p>
<p>Isso quer dizer o quê? Que nós não podemos, espontaneamente, pensar o mundo senão como fechado, como pleno e como completo. Trata-se de um pensamento que deve tudo à dimensão do imaginário, sem dúvida imposto por nossa primeira apreensão da imagem do corpo. Em todo caso, não conseguimos pensar a organização do nosso mundo de outra forma: nosso mundo enquanto trancado, enquanto fechado.</p>
<p>Com isso, em nossa cultura, tudo que vem se inscrever no registro da defecção é imediatamente interpretado e analisado como puro acidente, ou seja, como algo a que bastará responder “de modo politicamente correto” para que essa defecção se veja corrigida, apesar de uma experiência histórica já bastante longa que mostra que não existe nenhuma correção para essa defecção. Mas nunca! Nunca, por exemplo, nossa vida social ou mesmo conjugal será pensada, será apresentada como sendo organizada por essa própria defecção, como o fato de que a defecção venha a se mostrar no centro do que faz laço entre falasseres. Esta maneira de pensar está reservada, até hoje, aos analistas, quando eles aceitam trabalhar um pouco, ou seja, sair dessa “normalidade”.</p>
<p>A questão, se de saída lhes apresento as coisas desse modo, talvez nos ajude a compreender o problema da escolha da neurose. Pois, com efeito, há, de saída, uma escolha a fazer:</p>
<p>&#8211; ou a escolha histérica – afirmação de que há, introduzida pela sexualidade, uma ferida no campo do Outro e, então, protesto histérico contra o que há pouco chamei de defecção.</p>
<p>&#8211; e depois a outra possibilidade: engajar-se num processo que consistiria em tentar controlar ou camuflar o que seria essa sexualidade, afim de restaurar o que seria a integridade do Outro.</p>
<p>Há, efetivamente, de saída, uma espécie de escolha possível entre a posição histérica e a posição obsessiva, ambas sendo articuladas em torno da mesma impossibilidade e da tentativa de responder a ela com os meios arcaicos e primitivos, ingênuos e estúpidos, os meios normativos que são os nossos. Freud insiste no fato de que haveria, para a menina, uma falta de gozo quando ela advém ao sexo e, para o menino, um excesso de gozo. O que, de minha parte, me permito entender como lembrança do seguinte: a relação à castração gostaria de que esse pedacinho que está presente lá no menino não estivesse ali, que esse pedacinho se apresentasse nele, de saída, como da ordem de um excesso, daquilo que não deveria; e a correção narcísica (eu o entendo como correção) que ele vem trazer para essa posse é um tipo de defesa, a meus olhos pelo menos, contra o fato de que, na realidade, ele teria que renunciar a ele. É o que Lacan vai figurar na representação da imagem no espelho, marcando esse pontilhado em torno da região sexual, ou seja, em torno disso que deve ser abandonado na relação ao grande Φ, na relação ao falo, o fato de que isso não deve estar ali. E Lacan também insiste muito sobre o que será o embaraço do menino quando isso que ele tem ali começa a querer falar sozinho, ou seja, a se manifestar: isso é capaz de lhe provocar alguma angústia, alguma dificuldade.</p>
<p>Portanto, isso em torno de que, parece, nós ficamos, nós giramos, são as duas grandes modalidades culturais para responder àquilo que parece ser nossa recusa mental, nossa recusa a admitir no mental que haveria uma falta no grande Outro, que haveria uma falta no mundo que habitamos – pouco importam as boas ou más razões para isso! – e as duas grandes respostas que temos para tentar remediar isso são, então, em épocas bastante próximas, o racionalismo e a religião, ambos constituindo, evidentemente, tentativas de simbolizar o real, ou seja, de dar conta do real pelo simbólico, de assegurar, sobre esse real, uma apreensão perfeita do simbólico.</p>
<p>O que, no mesmo movimento, mergulha o religioso a uma só vez na aflição: essa interrogação que ele terá, de saber se agindo assim ele não causa a perda de Deus. Já que, de algum modo, ele o desloca do real – que é seu lugar, sua casa, seu domicílio, e que lhe dá sua qualidade – para o campo do simbólico, daquilo que então seria suposto não só controlável, mas passível de ele próprio ser castrado. O que é que se poderia cometer de pior em relação a Deus do que pretender expô-lo assim à castração? Então, esse grande movimento tipicamente obsessivo do religioso, que consiste em tentar manter Deus à distância e, ao mesmo tempo, recusar, no entanto, que Deus se ache exilado num espaço que o colocaria, diante de sua criatura, num estado de alteridade irredutível. Então, especulação do teólogo: de que modo, de uma só vez, respeitar Deus e, ao mesmo tempo, remediar essa alteridade temível?</p>
<p>Chamo sua atenção, quanto a isso, mais uma vez, para o fato de que o trabalho de Freud sobre Moisés trata exatamente (enfim, exatamente&#8230;) da mesma questão que Lacan vai levantar com o nó borromeano no fim de seu percurso: Podemos prescindir de Deus como Nome-do-Pai? Vocês podem ler Moisés assim, como afirmação da alteridade do pai originário, alteridade irredutível, e vocês vêem como é que Lacan, no fim de seu percurso, vem colocar o que seria menos a questão de sua alteridade do que a questão de saber, ao mesmo tempo, mas ele segue o movimento freudiano: podemos, poderíamos prescindir dele? O problema é que essa tentativa obsessiva gira evidentemente em torno da evacuação – sirvo-me deste termo por enquanto – da instância representativa do desejo, ou seja, disso que se acha recomendado pelo Nome-do-Pai e se acha, evidentemente, responsável por essa falta no Outro: de que maneira dar cabo dessa instância fálica?</p>
<p>E se eu evoquei, a propósito da neurose obsessiva, o processo de foraclusão, é para chamar a atenção para duas coisas: em primeiro lugar, o recalque não consiste numa negação. Pois o que é recalcado não vai deixar de retornar, enquanto aqui se trata de expulsar, ou seja, de foracluir. O problema que Cyril Veken evocou em seu trabalho é que a verdadeira negação, a única que é autêntica, a foraclusão, essa não deixa vestígio. No enunciado não há nenhum vestígio restante da operação na qual se empenhou a foraclusão. Como concluíram muito bem Damourette e Pichon, não há negação em francês. Eu não posso negar: uma vez que uma asserção é colocada, não adianta enfeitá-la com o sinal da negação, isso não muda fundamentalmente nada! Eles escreveram isso ao mesmo tempo, é claro, que Freud! do qual Pichon tinha noção bem precisa.</p>
<p>Mas a única negação efetiva é a da foraclusão.</p>
<p>O problema, me parece, é que o obsessivo tenta em vão foracluir; como ele operou uma simbolização do real, ele não tem mais lugar que possa servir como local de despejo. É essa a dificuldade. E é por isso que nos interrogamos: será que no obsessivo se trata do recalque ou de uma foraclusão, e nesse caso como é que ele não é psicótico? E é verdade que alguns obsessivos dão perfeitamente o sentimento de serem psicóticos – ao passo que não o são, já que o Nome-do-Pai é, neles, o que funcionou devidamente, talvez até, por assim dizer, um pouco demais! E é na medida em que eles estão num estado de defesa, de reação a esse efeito, que eles estão engajados no processo de foraclusão da instância fálica que instala a dimensão do real. Portanto, a dificuldade do obsessivo é que para ele os canos de evacuação das águas usadas (sirvo-me freqüentemente dessa imagem extremamente graciosa) estão sempre entupidos. Então forçosamente isso retorna, reflui, é assim que seria preciso dizê-lo, o que evidentemente provoca uma séria desordem.</p>
<p>Será que temos um testemunho clínico disso? De que maneira isso retorna?</p>
<p>Pois bem, sabemos que o obsessivo tem, justamente pelas razões que acabo de dizer, muita antipatia pelo significante-mestre!</p>
<p>O obsessivo, por definição, é aquele para quem é insuportável que um enunciado ou uma enunciação queiram se colocar de forma imediata, é algo que o eriça, que o atiça. E ele terá então tendência a querer homogeneizar os significantes.</p>
<p>Mas isso lhe retorna da seguinte forma: esse significante que ele teria assim decapitado (se ouso me exprimir assim para não me servir de outros cortes que se evocam), esse significante lhe retorna sob a forma do imperativo, sob a forma da injunção.</p>
<p>E com esse estatuto muito particular da injunção, também tentei chamar a atenção para ele: não se trata de uma percepção comum, não se trata da percepção ordinária disso que se destaca sobre o fundo cinzento e uniforme do mundo de nossas percepções, não tem de modo nenhum essa qualidade. Não tem a qualidade alucinatória, mas tem uma espécie de relevo, de vigor, de nitidez que, no mundo de nossas percepções, é muito particular, que não é individualizada como tal, mas que vocês vão encontrar num sonho de Freud, que ele relata num breve artigo, Sobre a lembrança encobridora. Ele relata sua presença num prado, com duas mulheres idosas que estão no alto desse prado; e no sonho há a percepção das flores, em francês isso se traduz por “<em>pissenlits</em>”, mas em alemão é “dente de leão”. É muito bem registrado por ele, há na percepção uma espécie de relevo, de brilho muito particular desses “dentes de leão” no prado. É um sonho muito bonito sob vários aspectos.</p>
<p>Então, a injunção que retorna ao obsessivo merece esse tipo de aproximação, em todo caso merece ser isolada como individualizando uma qualidade perceptiva bem particular, na qual em seu duplo caráter injuntivo, ao mesmo tempo positivo e negativo, nós podemos reconhecer de forma despida, se ouso me exprimir assim, isso que é a qualidade própria a todo significante, que é, ao mesmo tempo, afirmar, se colocar em sua afirmação – “esse sou eu” – e ao mesmo tempo se negar: “ esse sou eu, essa afirmação só vale a partir do que eu não sou”. A propriedade de cada significante é de se impor por essa dupla valência, a um só tempo afirmação e negação, e que vemos desestruturada no caso da neurose obsessiva graças ao seguinte: pelo viés dessa foraclusão da instância fálica e da apreensão, pelo simbólico, do real, não há mais nada a que se possa dar crédito e que possa ser garantia da verdade. Não há mais! E a dúvida própria do obsessivo é evidentemente uma conseqüência de seu encaminhamento.</p>
<p>No mesmo momento, ele matou a relação possível com a verdade, essa verdade que é precisamente isso de que ele tem horror, essa verdade que o zero vem simbolizar bastante bem, e então ele vai procurá-la na cadeia simbólica e num nível, é claro, antecedente. E ele está sempre em busca do antecedente que, ele mesmo, tem um antecedente, que também tem, etc., entregando-se a essa atividade extenuante, sem nunca estar seguro de seu resultado, e tendo nitidamente o sentimento de que cometeu algum assassinato, que é sempre o que se poderia chamar de assassinato do pai, mas o assassinato do pai na medida em que ele é o que a simbolização, na medida em que ela fosse perfeita, viria consumar. Pois o pai morto só toma sua autoridade ao se manter no real, ao se manter nessa posição de alteridade e nessa condição de irredutibilidade da relação. Não adianta implorar, não adianta rezar, ele não tem absolutamente condição de me ouvir. Mas a operação própria da religião sendo a de assegurar, supor que a filiação venha resolver essa alteridade essencial, ao mesmo tempo poderíamos dizer que a filiação, a afirmação da filiação é igualmente o que vem, de alguma forma, matar esse pai – mas esse pai enquanto pai morto.</p>
<p>Em outras palavras, fazê-lo sair de sua tumba, fazer dele um fantasma, fazer dele um espectro, como pudemos ver.</p>
<p>Marcel evocava há pouco a questão do ato no obsessivo: nas injunções que ele recebe há, é o que é admirável, há essa injunção primordial, própria do significante, feita ao sujeito, que é uma dupla injunção: de um lado ir até o fim, ou seja, efetivamente não respeitar o que é da ordem do real. Mas esse “até o fim” pode também ser entendido como implicando o respeito pela castração. Esse “ir até o fim” gira muito facilmente em torno do fato de ter que renunciar (o Édipo está bem aí, de qualquer modo) ao que há de mais caro, ou seja, e é aí que uma equivalência absolutamente absurda se impõe a seus olhos, de ter que matá-lo. Ou seja, tudo o que se põe na conta da analidade. A analidade é evidentemente central, mas fazer a agressividade remontar ao que seria a expressão de uma economia anal é ir um pouco rápido! Essa agressividade do obsessivo está ligada a um efeito dessas próprias injunções, que são de ir até o fim. É preciso ir ao termo – subentendido o fato de que, com sua neurose, apesar de tudo, seu negócio fracassou e ele a tem fracassada, não vou retomar aqui o porquê.</p>
<p>Então é banal em nossa clínica encontrar o seguinte: quando você tem um ser que lhe é particularmente caro – o mais querido de todos os queridos! – formula-se bizarramente em sua mente, que bizarrice! a idéia de que o melhor talvez fosse que ele viesse a desaparecer e que esse desaparecimento, afinal, é que viria fundá-lo definitivamente nesse investimento e ligaria você a ele de uma maneira irredutível.</p>
<p>Quantas mães conhecem esse tipo de tormento em relação a seu filho! Elas ficam eminentemente chocadas e surpresas de poderem ter a idéia de jogá-lo pela janela e podem vir à consulta dizendo: “como é que eu poderia ter a certeza de que não o faria?”. O que é que aí vai fazer obstáculo? O que é que aí vai fazer impedimento, na medida em que, se a cadeia dos significantes faz círculo desse modo – eu insisto, cadeia metonímica, pois a apreensão do real pelo simbólico vem contrariar o jogo da metáfora, então a cadeia se organiza como sendo metonímica – portanto, como ter certeza de que eu não vou ser capturada por isso que emerge aí como impulso?</p>
<p>Bom! Eu não quero me estender demais a esse respeito! Seria preciso retomar um pouco o que foi lembrado por Darmon e também por Élie Doumit, ou seja, o caráter fascinante que pode ter para nós a lógica formal, bivalente em sua aurora. Na medida em que ela mostra que, a partir do momento em que passamos a uma busca da verdade, o que é que quer dizer “a verdade”? É extremamente simples! A verdade é que os marrecos, isso não tem três patas; quando é dia, fica claro; os cavalos são quadrúpedes, o homem é um bípede. Isto, isto são verdades, é assim e pronto! E, se nesse domínio, vocês dizem outra coisa, é falso! A verdade consiste numa <em>adaequatio</em> do intelecto e da coisa. Está posto, de início, assim. E é falso que os cisnes são brancos? Mas não importa! A partir do momento em que você viu cisnes brancos, todos os cisnes são brancos e se você disser que eles são verdes, palmas pra você! você está no erro.</p>
<p>Façam a questão, será que o pai se implica por si mesmo? Será que basta que ele diga “Eu! Eu sou pai” e pronto, está posto, p =&gt; p? Pois bem, justamente, de modo nenhum! Pois para poder se colocar como pai ele precisa de um conseqüente, ele precisa de um filho; acontece que, no caso, isso se chama um q, mas é assim! Senão, se não houver, não há pai, aí está!</p>
<p>Eu lhes faço essa observação, evidentemente esquisita, para lhes fazer valer o seguinte: o significante não pode se implicar a si mesmo, contrariamente àquele da injunção do obsessivo, pois eu chego a pensar que esse fenômeno da injunção, muito particular do obsessivo, está ligado ao que se passa quando o significante só toma seu poder, só toma sua autoridade de si mesmo e não está, de algum modo, freado por nada e menos ainda pela relação a um outro significante.</p>
<p>Então o que é que vocês vêem nesse caso? Vocês vêem que, se nesse jogo que eu lhes proponho e no qual o conseqüente, o sucessor vem se inscrever como estando ligado ao antecedente, a única maneira, para o sucessor, de invalidar o pai, acha-se inscrita na segunda fórmula: Vocês sabem, é estranho, nós poderíamos nos divertir verificando toda uma clínica com esse tipo de escrita! Basta que o filho torne falsa a função paterna, mostrando-se, ele mesmo, “desprovido de qualquer conseqüência”, se posso me exprimir assim, sendo completamente inconseqüente. No mesmo movimento, ele vem invalidar a posição paterna, mesmo se a posição paterna, por outro lado, é o que ela é, se mantém, se sustenta. E esse é evidentemente um dos grandes esportes do obsessivo, operar dessa maneira.</p>
<p>Há uma maneira de falar do obsessivo, suponhamos, como Ferenczi: o obsessivo, não é complicado, é alguém que permanece para sempre o menininho de sua mamãe. Ou seja, ele não quer privar sua mamãe do menininho que ela tanto amou por um monte de razões e se um dia ele se casa, ele vai arranjar para se casar uma outra mamãe e vai se empenhar, é claro! em procurar recompensá-la e fazer sua felicidade – pois é evidente que Mamãe, ela nunca foi muito feliz com Papai, isso é bem conhecido. Então, aí há uma vocação, um lugar a ocupar, e um dos encantos do obsessivo é, evidentemente, querer desse modo não fundar o pai em sua paternidade, mas fundar a mãe em sua paternidade, vamos dizer assim. Isso poderia ser uma maneira à Ferenczi, muito crua, assim, mas não falsa.</p>
<p>Haveria uma maneira que seria kleiniana (aí vamos, evidentemente, mergulhar no horror). O obsessivo, dissemos há pouco que retínhamos sobretudo a dimensão cômica em nossa encantadora assembléia, e é verdade que isso tem um lado forçosamente cômico, na medida em que, a instância fálica, ele se empenha em fazê-la cair – essa é a definição do cômico dada por Lacan. Mas trata-se de um cômico, é preciso dizê-lo, bem horrível. Há horrível e há horror porque ele é obrigado constantemente a se lavar as mãos. É evidentemente tão próximo do objeto, pelo fato de não ter sido marcado pela cesura que o obsessivo não consentiu, como esse objeto está na cadeia que é uma cadeia metonímica, ou seja, uma cadeia sem corte, que o objeto pode sempre, há sempre o risco de chegar lá e se achar então com as mãos um pouco emporcalhadas, isso! Então há esse lado horrível.</p>
<p>Melanie Klein adoraria isso, ou seja, estar-se-ia constantemente, para falar do obsessivo, estudando, evidentemente, o que se organiza em torno do orifício anal, evidentemente com razão já que ele se acha eminentemente investido pelo fato de ser erotizado. Pois se é o que o Outro quer, como não fazer confusão com o que o Outro deseja, e isso se torna então o objeto supremo. E o problema do Homem dos ratos, vocês conhecem bem o Homem dos ratos, não se trata do “Homem do cavalo”. Existe um “Homem do cavalo” nas observações de Freud, é o pequeno Hans. E vocês vêem logo que esses dois animais não funcionam de modo algum no mesmo registro: um é representativo da instância fálica, enquanto o rato é antes aquele que vem se nutrir com as dejeções do cavalo, não se trata de modo algum do mesmo animal! Então, a erotização do orifício anal, da qual o Homem dos ratos dá conta perfeitamente, ou seja, a idéia, evidentemente, de uma possível reabsorção, reintrodução do objeto, num jogo permanente com o objeto, Melanie Klein insistiria muito quanto a isso, das satisfações masturbatórias auto-eróticas desse tipo, e ela não estaria errada, isso também seria verdadeiro.</p>
<p>Há uma maneira que se poderia dizer antropológica ou naturalista de falar da neurose obsessiva, seria falar desses lares em que tudo foi arranjado entre o papai, a mamãe e o pequeno querubim para que, sobretudo, entre todos os três, nunca falte nada. Organizam-se numa espécie de pequena marmita deliciosa, assim, onde se fica bem quentinho e se ajeitam pra que o conforto recíproco seja absoluto, e na qual, verdadeiramente, desde que não se testemunhe interesse excessivo pela sexualidade, pois bem, pode-se realizar uma espécie assim de redoma em que o filho, evidentemente, pode ser o prisioneiro saciado! Aí está uma outra maneira de mostrar a tentação sempre presente no horizonte da neurose obsessiva, na medida em que é perfeitamente normativa. Tudo aquilo que vem se inscrever no registro do sensualismo ou que venha dar notícia da validade de uma experiência, ou de um objeto, pelo fato de saber se isso me satisfaz ou não, vem se inscrever nesse tipo de problemática.</p>
<p>E depois há maneira de Lacan que é mostrar que a neurose obsessiva, para além de suas incidências particulares que dão a cada uma sua particularidade, sua singularidade, trata-se sempre da estrutura desnudada e exibida. Vocês tem ali o esqueleto iluminado, sob luz plena, e o problema é saber se, o esqueleto, nós consentimos em levá-lo em conta ou então se preferimos romancear essa história toda.</p>
<p>Vou terminar por uma breve e sem dúvida última observação. Qual é o significado, se existe foraclusão fracassada do falo (eu expliquei porquê), qual é então o que assegura a significância das formulações do obsessivo?</p>
<p>Em primeiro lugar, o que nós sabemos é que o obsessivo tem como primeira propriedade não dar muito crédito ao que se pode contar – mesmo a seu próprio relato, aliás em geral é por isso que ele é eclético (“Fulano disse isso, depois o outro disso aquilo, o terceiro falou um pouco diferente e ainda tem o quarto”). O que faz com que, assim, no que diz respeito ao real que eventualmente incitou cada um, está-se seguro de perdê-lo completamente! Então, isso que é em primeiro lugar seu tipo de ceticismo irônico, divertido e inteligente (“é mesmo preciso conversar, mas enfim!”).</p>
<p>Em segundo lugar, isso não deve ter a menor conseqüência. Pois aquilo de que ele tem “horror”, para retomar esse termo de um instante atrás, é da possibilidade do ato, que se apresenta para ele de uma forma injuntiva, mas que ao mesmo tempo não se trata de realizar, já que é um ato horrível que eventualmente vem tomar o sentido de um assassinato ou de uma decapitação, como para o Homem dos ratos: cortar-se aquilo que é a parte corporal representativa da vida. Isso não deve se prestar a conseqüências: “Fazemos isso um pouco para nos divertir, fazemos colóquios, contamos histórias, cada um vem trazer sua cançoneta, enfim, tudo isso é bem normal” etc.</p>
<p>Mas localizemos bem a questão: o que é que para ele serve de referente? Será que vamos dizer, por exemplo, que é o objeto <em>a?</em> Aí, estamos nisso que foi evocado há pouco pelo Senhor X: a blasfêmia. A blasfêmia é evidentemente a invocação do vir a ser, não somente disso que é radicalmente mortífero, mas “você guardanapo! você cadeira!”, não sei o que mais ele disse a seu pai, objetos inanimados.</p>
<p>Será que há, na fala do obsessivo, um referente? Ou será que não haveria esse tipo de pura circulação de uma cadeia organizada de um modo metonímico e que faz com que, afinal, ela não faria nunca senão significar-se a si mesma? Talvez seja isso que dê a propriedade e o encanto do obsessivo, de nunca ter outra referência senão o próprio significante, na medida em que ele o destrói como significante para reduzí-lo a sua própria literalidade, à pura letra, ou seja, à pura materialidade do significante. A partir disso, ele se engaja num processo eminentemente científico, só podendo validar um conseqüente por um antecedente que, ele mesmo, está na cadeia, assim como o conseqüente. Ou seja, uma espécie de auto-validação na cadeia.</p>
<p>Será que alguém se cura de uma neurose obsessiva? Cabe a cada um de nós, tanto em sua prática quanto nas suas experiências subjetivas, ter que responder. Há pouco nossos amigos belgas levantaram muito bem a questão a propósito das mulheres obsessivas. Podemos conceber que, de início, uma mulher faça a opção não de vir contestar a sexualidade por causa do traumatismo que ela inflige ao Outro (posição histérica), mas que ela se devote, como o menino, a tentar fazer com que o grande Outro seja constituído por uma totalidade, O que a leva, no mesmo movimento, a se desprender de uma posição feminina que, como alteridade, é insuportável, pois, nem que seja enquanto alteridade, ela vem arruinar essa completude do Outro. Então, podemos perfeitamente compreender, a partir desse primeiro movimento, de que modo uma mulher pode efetivamente também se tornar obsessiva e também de que modo um homem pode se tornar histérico, é claro! Mas parece mesmo que seja em torno dessas duas respostas possíveis que se dá a escolha da neurose.</p>
<p>Então, para ficar no imaginário de Freud, será que a psicanálise deveria nos permitir responder de maneira diferente da opção neurótica, obsessiva ou histérica? Aí também cabe a nós responder.</p>
<p>Será que podemos aceitar o que Lacan formaliza em última instância com seu nó borromeano, mostrando que a falta no Outro não deve nada à intervenção edipiana? Pois os três nós, cada um sendo igualmente furado, se sustentam em sua própria materialidade, em nenhuma intervenção acidental ou cultural. Temos também, nesse encaminhamento de Lacan, a idéia de eventualmente vislumbrar outras respostas diferentes das neuróticas a esses impasses nos quais somos tomados e aos quais respondemos de maneira também astuciosa – isto é, por nossas neuroses.</p>
<p>Bom, obrigado a todos.</p>
<p>NT – Para ter acesso ao texto original, em francês:<br />
<a href="http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/202-La_rationalite_comme_symptome" target="_blank" rel="noopener">http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/202-La_rationalite_comme_symptome</a><br />
Tradução: Sergio Rezende.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A propósito do incesto</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-proposito-do-incesto-3/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 17:41:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[A propósito do incesto]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Melman]]></category>
		<category><![CDATA[criança]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[estrutura]]></category>
		<category><![CDATA[incesto]]></category>
		<category><![CDATA[interdito]]></category>
		<category><![CDATA[lei]]></category>
		<category><![CDATA[mãe]]></category>
		<category><![CDATA[mutação cultural]]></category>
		<category><![CDATA[objeto “a”]]></category>
		<category><![CDATA[organização familiar]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=6440</guid>

					<description><![CDATA[Meus colegas de Estrasburgo, ao me convidarem, sem dúvida, em grande parte, em nome da amizade, não sabiam que, ao fazê-lo, estavam convidando um especialista em incesto! (risos) Especialista involuntário, na medida em que tive, durante vários anos, uma atividade de supervisor junto a assistentes sociais da cidade de Paris. Elas me expunham, durante nossos encontros, os problemas difíceis que encontravam em sua prática e, para minha grande surpresa, constatei, em primeiro lugar, o número importante de problemas dessa ordem e, em segundo lugar, o tipo de engajamento pessoal muito intenso, muito violento, muito passional, no sentido de que fossem punidos os culpados, que eram, evidentemente, determinados de acordo com a lei, e as denúncias estavam relacionadas à posição assumida por elas, mas, também, seu engajamento muito pessoal naquilo que era a preocupação de que o culpado fosse punido.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Charles Melman<br />
<i><br />
Em Estrasburgo, maio 2004<br />
</i></p>
<p>Meus colegas de Estrasburgo, ao me convidarem, sem dúvida, em grande parte, em nome da amizade, não sabiam que, ao fazê-lo, estavam convidando um especialista em incesto! (risos) Especialista involuntário, na medida em que tive, durante vários anos, uma atividade de supervisor junto a assistentes sociais da cidade de Paris. Elas me expunham, durante nossos encontros, os problemas difíceis que encontravam em sua prática e, para minha grande surpresa, constatei, em primeiro lugar, o número importante de problemas dessa ordem e, em segundo lugar, o tipo de engajamento pessoal muito intenso, muito violento, muito passional, no sentido de que fossem punidos os culpados, que eram, evidentemente, determinados de acordo com a lei, e as denúncias estavam relacionadas à posição assumida por elas, mas, também, seu engajamento muito pessoal naquilo que era a preocupação de que o culpado fosse punido. Com isso, de modo muito tímido, fui levado a interrogá-las sobre o que acontecia com a criança nessa situação e sobre qual era a maneira pela qual podíamos testemunhar nosso interesse por ela e por seu futuro, particularmente seu futuro de adulto e sua participação na vida sexual; portanto, interrogá-las para saber se o fato de punir o culpado constituiria o termo ou a modalidade justa de resposta, sublinhando o que deveria ser nossa preocupação primordial, isto é, o futuro da criança. Pois, afinal, temos um papel, uma preocupação que parece bem terapêutica, antes de ser a do justiceiro.</p>
<p>Foi, então, com elas que, em grande parte, conheci o clima disso que atualmente se desenvolve em nosso país, não somente em nosso país, e que, certamente, pede nossa reflexão, a reflexão de vocês e todas as contribuições, forçosamente divergentes – não há por que elas serem comuns quanto a esse problema –, são preciosas. Então, eu me permito, nesse registro e nessa diversidade, trazer-lhes as minhas.</p>
<p>Perdoem-me se evoco problemas gerais, que vocês, talvez, já debateram, mas lembrarei a vocês que, no que concerne aos psicanalistas, eles foram bem cedo concernidos pela questão do incesto sob a forma do caráter muito geral de sua interdição. Foi uma grande surpresa, sentimento que os psicanalistas tiveram ao fazer a grande descoberta de que havia uma lei geral própria à humanidade, uma interdição comum a todos os seres humanos. As conseqüências vão bem longe, pois, se há uma interdição geral — não ouso dizer universal —, é porque há também um pai universal. Ali onde podemos constatar que há um fracasso das religiões no que diz respeito à universalidade do pai, podíamos constatar que havia um interdito partilhado por todos, que estipulava uma lei, tanto mais notável quanto ela não era escrita, quanto ela não era revelada, que se mostrava ativa, ad hoc; portanto, uma lei inconsciente, desconhecida daqueles mesmos que a fizeram, lei que fazia desse interdito um elemento maior da organização familiar e social.</p>
<p>Esse interdito, vou muito depressa, não vou retomar o que vocês já abordaram, Freud o reservou como concernindo eletivamente à mãe para o filho, esse interdito sendo a condição de acesso do filho à genitalidade. Para que o filho tenha uma vida sexual possível, uma identidade masculina possível, é preciso que se opere, para ele, a renúncia ao que é, no entanto, o objeto mais querido e que lhe corresponde bem, em certo número de casos; é preciso que ele renuncie, não há escolha, porque é assim. É estranho — eu, freqüentemente, chamo a atenção para isso – que nunca se veja isso no reino animal. No reino animal, o parceiro sexual é reconhecido por um certo número de traços físicos, mas nunca pelo fato de ter que renunciar ao objeto mais querido. Ora, para o ser humano, não somente ele teria tido que renunciar ao objeto mais querido, mas, ao fazê-lo, isso significa que toda a vida é um malogro, já que vocês renunciam, para poder viver a sexualidade, ao malogro fundamental. Portanto, vocês entram em um mundo estruturado pelo malogro e, como sabemos, nossas vidas sexuais são inscritas sob o signo daquilo que não vai bem.</p>
<p>Para Freud, portanto, limitação do interdito do incesto àquele com a mãe e constatação clínica de que, nos casos – vou dispensá-los do que pôde se passar em Roma, do que se passou no Egito, do que se passa entre os esquimós, onde o papai dá a filha antes que ela se case, bem, deixamos todas essas exceções de lado –, para chegar a essa conclusão surpreendente de que os casos conhecidos de incesto do filho com a mãe terminam mais freqüentemente em transformações psíquicas de tipo psicótico. Isso enlouquece. Portanto, um tipo de validação pela higiene, pela boa saúde, desse interdito do incesto do filho com a mãe, implicando, imediatamente, essa conseqüência bizarra de que, se o incesto está limitado a esta relação, isso quer dizer que as outras, que podem se produzir no seio do círculo familiar, mesmo, eventualmente, alargado, não pertenceriam a esse registro. Na realidade, os incestos filho/mãe não são muito freqüentes por razões que seria interessante estudar. Devo dizer que esse tipo de caso, em minha clientela privada, eu nunca encontrei. Não sei se os analistas, de sua parte, os encontraram, eu encontrei um caso em minha prática psiquiátrica, não me parece muito freqüente.</p>
<p>Em contrapartida, as relações sexuais entre os outros membros da família não são excepcionais. Observem, de imediato, de que maneira a relação — se eu sigo a linha freudiana eu não a chamo de incesto, eu a chamo pai/filha —, o quanto ela também aparece muito cedo na história da psicanálise sob a forma da neurose traumática, da histeria traumática, com um debate que alguns mantiveram até há pouco tempo: se a jovem alega ter sido assim submetida a relações, será que é em sua fantasia ou é verdade? Também não vou me estender quanto a isso, não é o centro de nosso interesse. É uma questão difícil, embora encontremos na clínica muitos casos em que a jovem tem o sentimento de que foi introduzida à sexualidade por uma ação violenta perpetrada, a sua revelia, pelo pai, quando ela dormia. Trata-se de uma situação ou de uma fantasia, que não tem nada de excepcional, que tem, evidentemente, conseqüências importantes sobre o desenrolar da existência, mesmo que, claramente ou de acordo com as lembranças e as informações fornecidas, nada se tenha passado. Ou seja, a fantasia por si só, inclusive com a incerteza que pode persistir na jovem, a fantasia por si só tem efeitos; em todo caso, não leva à psicose. Leva ao sentimento de ter sido vítima de uma arbitrariedade, vítima da autoridade, e de ter sido submetida ao que não queria, ou seja, à introdução na vida sexual, ser habitada pelo sexo – o que se supõe acontecer, no melhor dos casos, a cada um de nossos filhos –, de ter sido habitada pelo sexo de um modo interpretado como violento, o próprio pai sendo, forçosamente, o acusado. Isso não impede que haja um grande número de casos efetivamente autênticos, mas dá vontade de dizer quanto a isso que – acho que isso mereceria uma interrogação de todos nós – tenha sido real ou fantasiado, o efeito, talvez, seja o mesmo.</p>
<p>Tenho atualmente, na minha clínica, uma jovem cuja história é essa mesma, ou seja, essa idéia de que, quando ela era pequena, na cama dos pais, algo se passou, ela não sabe o quê, não tem nenhuma lembrança, mas algo deve ter se passado. Com efeito, é mesmo preciso explicar de que maneira ela pôde descobrir, um dia, que era habitada pela sexualidade. De onde isso pôde lhe vir? Como isso pôde entrar? É mesmo preciso responder a esse tipo de pergunta.</p>
<p>Chamo sua atenção, também, para o fato de que “o incesto” (entre aspas) irmão/irmã é freqüente. Não se pode dizer que ele seja forçosamente mal tolerado. Conheço ainda hoje o caso de um homem, que não é mais tão jovem, cuja vida foi toda marcada, de um modo que não é o da descompensação, mas de uma organização neurótica, pelo fato de ter tido relações sexuais com sua irmã, na juventude. Isso resultou num rapaz eminentemente inteligente, simpático, mas que passa o tempo a surfar pela existência. Não consegue se engajar em nada. Não consegue penetrar em nenhum domínio. Viaja muito freqüentemente, as viagens ocupam uma grande parte de sua atividade. Ele não ocupa lugar, inclusive em seu trabalho, que é um trabalho intelectual. Tem sempre o sentimento de que fica na superfície, e podemos ver esse sintoma como a conseqüência inesperada da culpa ligada a suas relações com a irmã.</p>
<p>Isso nos chama a atenção para a maneira original pela qual Lacan aborda a questão. Com efeito, ele não evoca aí o que seria um interdito recaindo sobre a mãe, mas uma oposição, exercida pelo pai, a que a mãe reintegre seu produto. Não é, de modo algum, a mesma coisa. Não funciona no mesmo registro, na mesma fantasia. Pois é mesmo certo que permanecemos todos na nostalgia desse período de nossa infância em que podíamos ter o sentimento de um acordo perfeito com uma criatura que nos amava, que nós amávamos, que, portanto, teria havido uma idade de ouro possível, aquela de uma congruência, de uma conivência realizada, até mesmo de uma língua secreta partilhada. O pai interviria, então, como aquele que vem quebrar, definitivamente, essa harmonia. Por outro lado, a concepção de Lacan quanto ao incesto é estranhamente generalizada, já que não se limita mais aos membros da constelação familiar, mas consiste em dizer, por razões de estrutura que não vou desenvolver, que o incesto é aquilo que se produz quando as relações sexuais sobrevêm entre pessoas que pertencem a gerações diferentes. Em outras palavras, quando alguém vai procurar na geração seguinte, ou na precedente, o parceiro que não deveria ser o seu, tendo em vista essa sucessão ordenada de gerações. É a posição dele, em todo caso, e eu a deixo para sua reflexão, se vocês quiserem, sem desenvolvê-la.</p>
<p>Seja o que for, se tivéssemos, nós, que definir hoje em dia, no contexto que estou expondo a vocês, o que é um incesto, sabendo que a lei, quanto a isso, nem mesmo inclui o termo, o que quer dizer que para a lei isso, por si só, não seria um delito, ela não define de forma alguma qual é a extensão do campo – onde começa e onde acaba? –, teríamos que tentar dizer, para nós, psicanalistas, um incesto é o quê? Há a resposta de Lacan, que lhes dei, havia a resposta de Freud, que, também, tem efeitos bem particulares. Poderíamos, também observar que, hoje, me parece, de maneira bem livre, que não há vida humana que não seja organizada por um interdito. O que especifica a vida humana é que ela é organizada por um objeto interditado. Um objeto que é recusado, e se verifica que esse interdito é congruente com o que diz respeito ao desejo, à organização do desejo e à manutenção da genitalidade e da sexualidade. Há, obrigatoriamente, um objeto, ao-menos-um objeto, que me é impedido. É a fórmula, dada por Lacan, da fantasia, na qual ele tenta mostrar que o sujeito do inconsciente é organizado pela perda de um objeto essencial, que ele chama de objeto a, pouco importa, mas há, sempre, um objeto interditado. Se não houvesse esse interdito, se, por exemplo, nós não o partilhássemos, não poderíamos nos entender. Se podemos nos entender, mais ou menos, é porque partilhamos esse traço: mesmo se, para cada um de nós, o objeto não é o mesmo, há, entretanto, um interdito.</p>
<p>Uma observação feita de passagem mostra por que as mulheres são menos sensíveis, menos vulneráveis a esse problema do incesto. É que uma mulher funciona num campo que lhe é próprio, no qual, justamente, a questão do interdito pode ser problemática; eu diria muito menos definida, estabelecida, do que no caso do parceiro masculino. Ou seja, uma mulher tem, a esse respeito, um pensamento muito mais livre, e talvez seja por isso que, diante do incesto, ela é menos vulnerável psiquicamente. Enfim, para aqueles entre vocês que teriam encontrado casos de incesto filho/mãe, a regra exige que seja, no entanto, a mãe quem esteja na posição de parceiro ativo. Creio que é totalmente excepcional ver o filho na posição de agente e, se vocês retomarem o caso-limite fundador, vocês verão claramente que Jocasta, por exemplo, tem uma posição muito fina, muito sutil, muito terna, muito inteligente; em todo caso, ela parece não ter estado, em nenhum momento, na ignorância do que se passava.</p>
<p>Portanto, essa questão para nós — enquanto participantes da comunidade humana, disso que nos é fundamentalmente interditado e que faz com que, ao mesmo tempo, o desejo seja o que transgride a lei —, tudo isso, seria preciso que fôssemos um pouco menos bárbaros, um pouco menos selvagens, para reconhecermos, enfim, que o desejo, trata-se do que é interditado e sua realização implica a ultrapassagem desse limite. Há um momento em que, opa!, não se pode mais ficar na borda. É cansativo. É realmente preciso que se transgrida. É por isso que me permitirei dizer que, a meus olhos, há duas formas de desumanidade: aqueles que, às vezes, com uma certa coragem e um certo topete, querem ir até o limite de sua fantasia, ir até a própria apreensão do objeto interditado; eles existem entre nós; e, depois, aqueles que desconhecem de tal modo nossa humanidade que exigem que nosso desejo tenha que franquear esse limite, mesmo se for para perder o objeto, e que, então, fazem imediatamente questão de polícia, ou de justiça, disso que é um dos traços da humanidade.</p>
<p>Como foi observado, os “culpados” negam sempre e, quando reconhecem, não se pode dizer que isso seja um progresso. Por que eles negam sempre? Porque o que é produzido não pode ser simbolizado. O que é produzido não pode vir à luz do mundo das representações. O que é produzido se passou num espaço diferente daquele das representações ou daquele do diálogo e da interlocução, o culpado só vindo ocupar esse outro espaço de maneira completamente intermitente, no momento desse ataque de loucura que a captura pelo desejo constitui, ele pode muito bem alegar: “Verdadeiramente não, por quem me tomam?”. Não se trata do eu deles. Não se trata deles tal como são conhecidos, com sua dignidade, sua seriedade, sua probidade, sua etc. Se alguém fez isso, foi outro alguém. E vocês reconhecem nesse dispositivo algo muito menos a classificar na rubrica da denegação, mas a reconhecer aí a clivagem própria à subjetividade humana. Cada um de nós é fundamentalmente clivado entre uma parte de nós que funciona no campo das representações e outra parte que funciona em um outro espaço, parte essencial, já que é aquela onde o desejo se exprime. É por isso que Lacan dizia que nunca se anda senão mancando, porque os dois pés não estão no mesmo espaço nem no mesmo ritmo e eles não se comandam, forçosamente, um ao outro, eles podem ser perfeitamente independentes um do outro.</p>
<p>Uma observação surge imediatamente a esse propósito: um dos fatores facilitadores nessa questão, que funciona no interior da célula familiar, está, como sabemos, em grande parte, ligado ao alcoolismo. De qualquer modo, não é raro o alcoolismo como uma tentativa feita pelo bebedor de franquear os interditos que limitam o gozo, de ir até o fim, até o termo, até esse limite que implica o eclipse da consciência, e o fato de que, incontestavelmente, um certo número de atos e de delitos são cometidos nesse estado em que o culpado pode dizer que, no limite, ele não estava lá. Penalmente ele está lá, mas subjetivamente ele não estava.</p>
<p>Tudo isso nos conduz à questão de saber por que, hoje em dia, o que era um problema de caso individual se tornou um problema de sociedade; isso é que é surpreendente, esse é o fato novo. Será que os casos são individuais? Em primeiro lugar, eles sempre existiram. Não se trata, no entanto, de legitimá-los, evidentemente. Mas é preciso notar que isso sempre ocorreu. O problema é saber por que essa questão, até então reservada aos meios especializados, bruscamente se tornou um problema social. Se fazemos hipóteses para saber por que se tornou, bruscamente, um elemento de nossa modernidade – de qualquer modo é estranho –, podemos dar respostas, entre as quais algumas se arriscam a parecer provocantes, provocadoras. Pode-se observar que entramos em uma economia social, que é a da permissividade, já que todas as perversões são permitidas e mesmo legalizadas e defendidas pela lei; que, evidentemente, essa permissividade infiltra o meio familiar, e que, se até aqui a vida familiar era o campo de provas onde a criança era introduzida à lei, à regra e, em particular a esse interdito de que eu falava, hoje em dia o que a criança – mas também seus pais – traz para o meio familiar são, forçosamente, as incidências dessa permissividade social. Seria fácil mostrar que, finalmente, o abuso do gozo, o excesso, a ubris, estão por toda parte. Nós os encontramos a cada esquina, os encontramos quando vamos ao cinema, os encontramos ligando a televisão, ligando o rádio. Assim, se esses casos são hoje mais numerosos, não podemos nos surpreender com o fato de eles terem uma incidência familiar, enquanto outrora a célula familiar preparava a criança para uma introdução na vida social que era, ela mesma, organizada pelo compartilhamento desse interdito. O que parece organizar, hoje em dia, nossa comunidade é o compartilhamento desse excesso, dessa ubris. Eis aí o que agora nos junta, nos reúne: é o a mais de gozo. Não se trata do gozo banal, ele é sem graça, é preciso um suplemento. Portanto, se é verdade que, hoje em dia, os casos seriam mais numerosos, não é preciso tomá-los como a propagação de um vírus ou de uma modificação genética! Nós vivemos diferentemente.</p>
<p>Nesse contexto, é preciso também notar que isso gira regularmente em torno da figura paterna, quero dizer sua denúncia, enquanto tornada suspeita. Aí também somos obrigados a fazer intervir essa mutação cultural que conhecemos e que faz, efetivamente, do pai a figura cada vez mais depreciada da organização familiar, mas nesse caso ela é, muito precisamente, suspeita. Suspeita a ponto de, como todos aqueles que trabalham com esses casos sabem, gestos de uma ternura banal feitos pelo pai a seu filho poderem ser etiquetados, catalogados como suspeitos, o que introduz um clima que, a esse respeito, é bastante especial. Penso que vocês tiveram oportunidade de ver esse “passaporte de segurança” – chamava-se assim – desenvolvido pela educação nacional e que era dado às crianças. Era para explicar a elas como deviam constantemente desconfiar e que, se houvesse um problema na rua, nos transportes ou em casa, o número do telefone etc. Não sei como é que uma criança em cujas mãos se põe isso não se torna paranóica! Perseguida pelo sexo! Está sujeita a vê-lo por toda parte. Está dito, literalmente, nesse papelucho, que, se um dia um adulto lhe der um bombom, de jeito nenhum, não aceitar de jeito nenhum. Não discuto as razões que fazem com que tenha se tornado um problema de sociedade, em que me parece que as preocupações políticas são prevalentes sobre as preocupações morais: trata-se de mostrar à população que se está vigilante, enquanto vivemos nas perversões públicas, as mais exibidas, absolutamente notáveis; o que era escondido, na margem, é&#8230; é assim mesmo, não se trata nem de encorajar, nem de se queixar. Trata-se de mostrar que o governo está atento, enquanto se sabe que a garotada entra na vida sexual em idades muito mais precoces do que o que era habitual. Evidentemente, já que isso também faz parte do nosso ambiente.</p>
<p>A questão que, acredito, é a dos terapeutas, dos educadores, ou dos professores, ou dos assistentes sociais, ou dos psicólogos etc., é saber se nosso problema se trata de punir ou de saber o que, caso a caso, deve ser imaginado para que se possa decidir pelo que for melhor para os interesses da criança. Não há dúvida de que existem crianças que, pelo fato de terem ido denunciar seu pai e de terem contado a história aos juizes, vão ter uma vida impossível. Não é sem conseqüências! Será que isso quer dizer que, então, se deve deixar tudo isso tranqüilo, deixar continuar? Claro que não! É preciso, mesmo assim, ter a dimensão humana do que nós fazemos. Somos máquinas ou bem somos sensíveis ao problema do que vai acontecer com essa criança? Vamos nos comportar diante dela de maneira tão embrutecida quanto o pai que foi capaz de violentá-la? Vamos agir da mesma maneira?</p>
<p>Recordei-me, também, de um certo número de casos que, na minha clínica, são afetados por esse tipo de questão, seja no presente, seja, é claro, no passado. O que é que se vê?</p>
<p>Por exemplo, outro dia, vejo chegar uma senhora, 45 anos, completamente perdida, apavorada, aniquilada. O que é que houve? Ela percebeu que sua filha de doze anos fumava. Ela a repreendeu, que isso não era para sua idade, e sua filha de doze anos lhe disse: quando eu vou à casa do vovô, ele me toca e me pede para tocá-lo; ou seja, para o vovô eu sou grande. Ela chega então, essa mãe, num estado&#8230; era do pai dela que se tratava. Eu ia dizer evidentemente antigo militar, mas é absurdo. (risos) Acontece que ele é antigo militar. Então, o que é que eu devo fazer? Antes de vir me ver, ela o tinha denunciado à polícia&#8230; seu pai&#8230; O problema é que uma decisão foi tomada sem, de modo algum, se preocupar com sua filha, que foi então levada a contar a história e a dar seu testemunho ao policial, ao juiz, ela vai ter uma assistência psicológica. Fica bem claro que aí se trata de uma vingança dessa mulher, que prevalece sobre o resto. Portanto, maneira de abordar o problema de um modo que, eu diria, equivale àquele do vovô, ou seja, não se leva em conta a criança. Cuida-se sempre dos próprios problemas.</p>
<p>Penso em uma outra jovem que vem a mim para fazer uma análise. O que marcou sua juventude foram as relações sexuais com seu padrasto. Houve até uma gravidez e um aborto. A mãe supostamente não sabe de nada. Essa jovem reconhece claramente&#8230; enfim, ela diz claramente de que maneira ela atiçou seu padrasto e como ela não só consentia plenamente, mas participava dessa situação. Que conseqüências psíquicas isso tem? Para ela, já que nunca se pode generalizar, para ela está claro que não houve. Ela tem um companheiro, um namorado com quem ela tem uma vida sexual perfeitamente normal, ela leva adiante estudos difíceis de forma absolutamente normal, e é isso.</p>
<p>Uma outra, muito mais velha, cuja infância, aí também, foi marcada por relações com o padrasto. O caráter traumático da história com o padrasto – ela era muito mais jovem, tinha doze, treze anos – prende-se ao fato de que, desde o início, a mãe sabia e deixava correr, para conservar esse homem em casa; trata-se de um caso que, como vocês sabem, não é extraordinário, não é excepcional; o mais traumático da situação era isso, era que a mãe a sacrificava para conservar o cara em casa. O lado traumático estava aí, para ela. Não se trata de inculpar a mãe, eu creio. No entanto, é assim e ninguém se espanta quando se conta uma história assim&#8230; história humana!</p>
<p>Para concluir, vou lhes contar um último caso, que foi seguramente o que mais me afetou e que correspondia ao que era para mim uma atividade profissional iniciante, ou seja, há um certo número de anos. Recebi a visita de uma mãe de uns trinta anos acompanhada de seus dois filhos, um menino de 10 anos e uma mocinha de 11 anos, dizendo que, de uma maneira absolutamente inesperada, o pai havia violado as duas crianças. Que fazer? Então, eu atendo as duas crianças, eu os recebi durante mais ou menos três meses cada um, separadamente; eu os fiz desenhar, falamos e, ao cabo de algumas semanas, considerando o que se passava em seus desenhos e em suas falas, fui levado a dizer-lhes o seguinte – o pai tinha sido afastado da casa: acontece aos adultos ter um ataque de loucura, mas isso não impedia, de modo algum, que aquele que tinha tido esse ataque de loucura continuasse sendo o pai deles. Eis aí o que eu achei que devia dizer a eles. Ele tinha, talvez, perdido a cabeça, ou sabe Deus o quê, mas que era, assim mesmo, o pai deles. Nessa altura nos separamos em bons termos, todos os três, todos os quatro, e depois, evidentemente, eu me perguntava o que teria acontecido, e não sabia de nada. Como eu tenho, seguramente, um bom anjo, aconteceu que, há cerca de dois anos, eu recebo um telefonema de uma senhora que me pergunta: era o senhor que atendia no ano tal, no endereço tal? Sim. Evidentemente, o senhor não se lembra de mim, mas eu lhe trouxe meus dois filhos. Comecei a maquinar. Aconteceu isso ou aquilo com o pai deles etc. Eu queria que o senhor soubesse o que eles se tornaram. Eu estava bem inquieto. Eles tinham, todos os dois, uma vida perfeitamente normal, estavam todos os dois casados, tinham filhos; tinham uma atividade profissional e uma vida sentimental comuns, ordinárias, banais; não havia nada de extraordinário. Eles tinham seguido o percurso mais clássico possível e ela queria que eu soubesse. E eu também queria que vocês soubessem. Aí está.</p>
<p>Moderador: Terminamos com uma lembrança sua e um sorriso, o que é sempre bom, porque, não somente você distensionou – você falava desse engajamento passional que se vê regularmente aqui e ali –, não somente você distensionou o problema, mas reumanizou as coisas, centrando o problema em uma possível evolução, ou seja, no próprio futuro da criança. Por isso, obrigado.</p>
<p>Na seqüência, eu gostaria apenas de realçar o que você disse sobre o malogro. Sem dúvida, o mundo humano é o lugar por excelência do malogro. Se retomamos as categorias levi-straussianas, o humano é o único malogro verdadeiro na ordem da natureza. A hipótese não é impossível. Encontrei, uma vez, um incesto mãe/filho e não pude fazer absolutamente nada, porque o filho era louco varrido, confirmando de minha parte o que você dizia. Ainda assim, ao escutá-lo, há uma discordância que talvez seja interessante, em relação ao mito de Édipo, de que você também falou. Édipo, é bastante curioso, ele não se torna louco, e minha questão é, precisamente, que ele talvez fique louco de dor, ele se des-é, ele vai embora, ele termina sendo reabilitado, mas no fundo, no momento em que ele fura os próprios olhos para ter um pouco mais de clarividência, ele se desola. Você poderia nos dizer por que ele não é louco?</p>
<p>Ch. Melman: O problema de Édipo é que ele quer saber, como nós, que queremos saber. Pois bem, é aí que ele erra. É aí que ele peca, ou seja, ali, onde teria sido conveniente jogar um véu em cima, Édipo quer saber. Ele também quer ver e saber. Tirésias bem que lhe diz: “Fica tranqüilo”, mas ele quer ir até o fim. Isto é, ele é exatamente como nós. Ou melhor, nós somos como ele. Queremos ver tudo, queremos ver todos os subterrâneos, tudo o que há de escondido. Tudo aquilo que nos dissimulam, tudo o que se passa atrás das cortinas, nos corredores, inclusive os da Casa Branca. Isso nos interessa, não vejo em quê! Isso interessa a vocês, os corredores da Casa Branca? Quanto a mim, eu achava que o que interessava na Casa Branca eram as decisões políticas tomadas pelo Presidente. Mas, nada disso. O importante na Casa Branca é o que se passa nos corredores. Pois bem, isso interessa a todo mundo e tem conseqüências que não são negligenciáveis. Portanto, é assim que eu vou lhe responder: Édipo antecipa o que será nossa própria ubris, menos por seu gesto, em que ele é inocente. Jocasta era a mulher do outro e ele não tinha, a priori, nenhuma razão para pensar que ela podia ser sua mãe. Para ele, em todo caso, e aquele que ele matou, ele também não sabia que era seu pai. Aí está, foi aí que, pelo prazer de escrever uma tragédia, ele foi longe demais.</p>
<p>Debate depois da conferência</p>
<p>Pergunta: (alguns fragmentos audíveis) Uma reflexão que eu fazia esta manhã sobre o bombom e o manual da criança viajando na cidade [greve dos confeiteiros] indica-se à pessoa o sentido de qualquer ato e de qualquer palavra? Não há mais senão a lei escrita [&#8230;] e eu me colocava a questão de saber qual é a influência sobre o simbólico?</p>
<p>Charles Melman: Obrigado. Você tem toda razão. Esse se tornou mesmo um elemento essencial de um discurso que nos concerne a todos, que é o discurso político, mas no qual a denúncia do que tem a ver com o sentido, a ilustração do sentido, a decodificação, tornou-se a regra. Não nos convidam mais a ler um programa, nos convidam a ler uma decodificação. Em outras palavras, aquilo que seria seu sentido oculto e que nos é proposto. Trata-se de uma mutação que tem efeitos, conseqüências, nem que fosse porque vai, também, no sentido desse excesso de que falávamos há pouco: é normal que o sentido de uma palavra, de uma fala, de um escrito, possa permanecer equívoco, desde que não seja científico. O equívoco é componente normal, envolvido em nossas trocas, enquanto essa exigência de uma entrega do que seria o sentido e o verdadeiro sentido, ou seja, daquilo que se lhes quer fazer entender, é, paradoxalmente, um empreendimento de obscurecimento. O excesso de luz é uma forma de ofuscar e, portanto, de obscurecer, paradoxalmente. Não se vê mais nada. E não se pode pensar mais nada, não sobra mais espaço para o pensamento. Pensa-se por vocês e diz-se a vocês como é preciso que vocês pensem. É, seguramente, um grande traço contemporâneo. Eu lia, outro dia, num grande jornal cotidiano nacional: “o governo Raffarin decifrado”, decifrado, não é? Introduzem-nos nos pequenos segredos, nos pequenos esconderijos, naquilo que é dissimulado. O mais interessante talvez fosse aquilo em que se está engajado? Não, não, é aquilo que precisa ser decifrado.</p>
<p>Agora, o que você diz a respeito da lei é, evidentemente, muito importante. O problema da lei escrita é que ela se enuncia de lugar nenhum – quem é o enunciador? –, ela se estende a todos, sem exceção, ou seja, forçosamente, a lei escrita vai levar a uma casuística, felizmente aliás, vocês verão. É como o que eu evocava para essas crianças, isso deveria suscitar uma casuística, em vez de nos impor regras e condutas gerais. Pois bem, essa lei que se impõe a todos, vinda de lugar nenhum e que não suporta exceção, já que toda exceção é repreensível, é uma lei totalitária, enquanto a lei revelada introduz a dimensão real, ou seja, a palavra enquanto real e aquele que veio ali enunciá-la. Se fosse preciso desenvolver nossa reflexão sobre essas questões, poderíamos observar que, a partir do momento em que existe a palavra, não é mais necessário que ela enuncie a interdição do incesto. Pelo simples fato da palavra, há esse interdito que evocamos e que nos interessa. É algo que faz borda, faz limite, e seria pleonasmo, tautologia ou autofagia se a palavra viesse denunciar, basta que a palavra se coloque como tal.</p>
<p>Pierre Y: (inaudível)</p>
<p>Ch. Melman: Sim, obrigado, eu subscrevo completamente o que você diz. Essa fantasia inicial que você assinalava é uma fantasia tipicamente obsessiva: estar ao abrigo, num recinto fechado, quase fechado, com uma abertura para proteger contra os abalos do exterior, e uma relação, perfeitamente harmoniosa e despojada de qualquer mistério, com o entorno, ou seja, o que seria – você o dizia muito bem – a realização do incesto, ser, ao mesmo tempo, o filho de sua mãe e fazer esse filho nela. Pode-se observar também, a esse propósito, que, trocando em miúdos — e isso retoma a questão de Liliane de há pouco –, a ambição de nossa escrita é, ela também, de entregar todo o sentido, isto é, esgotar aquilo que seria o mistério introduzido consigo pelo significante, inclusive o mistério de nossa existência. Essa aspiração incestuosa que é, então, a nossa, pode-se dizer que ela opera, igualmente, naquilo que, há pouco, de maneira paródica, eu coloquei sob a rubrica do deciframento e que faz parte de nosso pensamento, coletivamente assumido, o de um relatório que esgotaria, como se diz, a questão, ou seja, o real que a suscita. É por isso que o estilo de Lacan, que, evidentemente, não é esse, parece, a todos aqueles que têm um espírito legitimamente “rigoroso”, insuportável, intolerável, isto é, poético. Como se não fosse com esse gênero de poesia que mais nos aproximássemos do real.</p>
<p>Lembro-me, nesta ocasião, de uma discussão; era, justamente, a propósito do Centenário da psicanálise, com um eminente biólogo, que explicava de que modo, cem anos após, a biologia estava em condição de resolver os impasses sobre os quais a psicanálise se debruçara. Pude dizer-lhe apenas que sua poesia era verdadeiramente muito interessante, mas que uma poesia não equivalia forçosamente a uma outra, que havia melhores e piores, mas que, em todo caso, por mais biólogo que ele fosse, ele não podia desconhecer que os termos dos quais se servia nada mais eram senão metáforas e metonímias e que ele era tomado por uma retórica e por fenômenos de estilo etc. Ele não nos tinha escrito no quadro fórmulas a partir das quais não tivesse que dizer mais nada; portanto, sua pretensão de nos dar conta dos fenômenos psíquicos pela biologia era uma forma, entre outras, de poesia. De poesia, por que não dizê-lo assim, com visada incestuosa. A partir do momento em que se pretende captar o próprio real e, como dizia Marc Morali ontem, querer copular com ele, copular com o real é o empreendimento incestuoso por excelência. É mesmo por isso que pode ter conseqüências, e que, em certos cientistas, as têm. Quando eles chegam aí, como sabemos, há percursos subjetivos que se vêem completamente perturbados pelo sucesso de sua operação. Por isso a extensão que teríamos, finalmente, que dar a esse termo, atividade incestuosa, mostrando como – já que justamente você partiu de uma fantasia obsessiva – é claro que ele está particularmente ligado à tentativa de realizar essa perfeição de um acordo com o Outro, o grande Outro. Como ficar colabado com ele, a ponto de provocar essa dificuldade quanto ao contato. Então, eu acredito, como você, que a questão do incesto mereceria ser abordada em seu domínio, que ultrapassa os acidentes da vida familiar, escolar, educativa e religiosa, como podemos observar.</p>
<p>Descobrimos que padres – trata-se do escândalo, hoje, da Igreja americana – têm atividades pedófilas&#8230; sempre se soube disso. A partir do momento em que alguém se ocupa com as crianças, isso significa que ele as ama. No melhor dos casos, trata-se de um amor sublimado, mas, como todos os amores sublimados, acontece de isso escorregar. Então, quando isso escorrega, não se trata de encorajar, mas como tratar isso imediatamente como se se tratasse de criaturas monstruosas e a serem excluídas da humanidade? É aí que complica, é aí que há uma regressão, ou seja, de não ousar reconhecer, nessas figuras, figuras eminentes da humanidade, porque elas são vítimas de um processo que é o nosso. Não é porque nós mesmos, no conjunto, somos tímidos, reservados, que não vamos aos extremos, que não há aqueles que são tomados por loucuras que os empurram a ir aos extremos. Existe – terminarei minha resposta por essa observação que eu espero que não vá chocá-los –, vocês sabem que existe no Japão um comércio de calcinhas de mocinhas, de meninas; calcinhas que só têm valor se não tiverem sido lavadas – vocês sabem disso, não é uma informação que eu lhes dou, não quero ser acusado de incitação ao despudor e não sei mais o quê –, pois bem, existe esse comércio que mostra que os japoneses fazem comércio com qualquer coisa, eles não as exportam, observem, mas talvez acabem por fazê-lo. Então, o que eu gostaria de dizer, e eu digo quando encontro as autoridades competentes, é que nossa maneira de exibir esses problemas familiares etc., é nossa maneira de colocar na primeira página dos jornais, ou dos espaços televisivos, as calcinhas das meninas. Nossos problemas são nossa maneira tão impudica quanto a dos japoneses, e isso não é menos perverso. É preciso deixar esses problemas para os meios destinados a tratá-los e não fascinar um grande público com questões que só podem – não são, no entanto, aqueles que estão no domínio psi que podem constatá-lo – constituir outras tantas incitações, pois é assim que funciona. É pela oferta que se provoca a demanda, e essa oferta é ainda mais preciosa quando é interditada, quando há proibição. Portanto, é por isso que se tem, verdadeiramente, o sentimento de que o que acontece a esse respeito no tecido social é uma regressão do pensamento e da moral. Não é menos impudico vir expor seus problemas em público do que vir, como esses japoneses perversos, atraí-lo. São os mesmos tipos. Então dizê-lo também! É evidente que, sob a forma da denegação e da denúncia, posso vir contar-lhes as piores torpezas – mas, enfim, a psicanálise conhece isso há cem anos – e, enquanto isso, eu estou perfeitamente inocente, eu venho denunciá-las! Enquanto isso, eu conto pra vocês, eu lhes explico.</p>
<p>Eu li ontem no nosso jornal favorito uma matéria, um escândalo imaginário, que não tinha interesse senão publicitário: um desconhecido tinha escrito, no seu jornal, textos anti-semitas. Fez-se uma confusão que, como é fácil compreender, favorece as vendas de um autor que até então talvez não tivesse sido lido, mas, a partir do momento em que vira escândalo, interessa. Li no Canard de quinta-feira, ontem, que esse tipo retoma isso porque suas vendas tinham caído e o jornal repete suas acusações, suas alegações anti-semitas, e expõe tudo isso, dizendo: Vejam só o que ele disse! Nossa história, e a seu modo essa história de publicidade dada a esse indivíduo, é da mesma ordem, evidentemente – eu digo banalidades – permite a um certo número de pessoas gozar disso a partir do momento em que foi denunciado. Sem risco.</p>
<p>Marc Morali: (inaudível)</p>
<p>Ch. Melman: Eu acho, Marc, que, a meu ver, você dá a mais justa definição do problema com o qual temos a ver, e haveria que meditar sobre a maneira pela qual, efetivamente, os desenvolvimentos da técnica que você evoca tão bem, e na medida em que eles asseguram para nós aquilo que é igualmente a mestria do real, a mestria perfeita já que chegamos mesmo a controlar o sexo, chegamos a controlar a reprodução, chegaremos a dessexualizá-la, chegaremos, nesse domínio, a ser nossos próprios patrões. Pois bem, na medida em que a técnica assegura essa captura sensacional e sem precedente do real, parece quase normal, como conseqüências, que vejamos se difundirem condutas de tipo incestuoso, formas de rapto, <i>parties tournantes, <a id="footup" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-proposito-do-incesto-3/?cod=31#footdown" name=""><sup>(1)</sup> </a></i>etc. Acho que seria muito interessante e justo, como você acabou de fazer ao desenvolver isso, mostrar que se trata de uma conseqüência direta do poder fascinante da técnica e de que modo só poderíamos nos sentir em falta diante dela, diante de suas exigências, se nós mesmos ficássemos com nossa timidez, nossas reservas, nosso pudor etc.</p>
<p>É evidente que o despudor está, hoje em dia, por toda parte — não vou cair na banalidade, mas o que é o <i>Big Brother </i>senão o despudor exposto? É nesse aspecto que é interessante, pois, afinal, a vida das pessoas não é atraente, mas, se é a parte impudica que é exposta, no limite isso pode dar ibope. E a congruência dos meios técnicos utilizados nessa ocasião, o investimento nesses refletores, nessas câmeras, nesses microfones e nesse desenvolvimento técnico, torna possível a realização de um vivido que é, ele próprio, inteiramente dependente e organizado por essa possibilidade técnica. Portanto, o que você diz mereceria que você se permitisse desenvolvê-lo, Marc.</p>
<p><i>tradução de Sérgio Rezende</i></p>
<p>____________________________<br />
<a id="footdown" href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/a-proposito-do-incesto-3/?cod=31#footup" name="">1. </a><i>Parties tounantes:</i> espécie de estupro coletivo. (N. T.)</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>&#8220;A essência do psicanalista&#8221;</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/a-essencia-do-psicanalista-3/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Charles Melman]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 17:30:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[A essência do psicanalista]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Melman]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://www.tempofreudiano.com.br/?p=6427</guid>

					<description><![CDATA[Esse título é irônico e sério ao mesmo tempo. Pois sabe Deus que a questão do ser, ou seja, o que numa determinada espécie é comum entre todos os entes, apesar da sua diversidade, é desde Aristóteles cara aos filósofos. A preocupação deles é, certamente, a de desembocar numa ética e, portanto, naquilo que convém, a cada um dos entes, cumprir para realizar seu ser.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Esse título é irônico e sério ao mesmo tempo. Pois sabe Deus que a questão do ser, ou seja, o que numa determinada espécie é comum entre todos os entes, apesar da sua diversidade, é desde Aristóteles cara aos filósofos. A preocupação deles é, certamente, a de desembocar numa ética e, portanto, naquilo que convém, a cada um dos entes, cumprir para realizar seu ser.</p>
<p>De maneira perfeitamente imprevisível, a questão ressurge entre os psicanalistas, em termos diferentes, mas num ponto não menos decisivo.</p>
<p>Entre os entes tão diferentes que eles manifestam, existe um traço comum que permita imediatamente autenticar sua respectiva qualidade?</p>
<p>O mínimo que se pode dizer é que ele não é evidente: veremos que é justamente o que faz problema.</p>
<p>Com efeito, não poderíamos nos remeter ao saber exibido: o manejo dos textos está ao alcance de qualquer universitário.</p>
<p>Não podemos confiar na qualidade das interpretações relatadas em congressos, pois o que conta é antes o seu manejo e a sua oportunidade.</p>
<p>Não se pode julgar pelo tempo da análise pessoal nem pelo renome do didata: a resistência à análise ignora o tempo e despreza a autoridade.</p>
<p>Não podemos nos remeter ao carisma de tal ou qual, nem a seu apetite pelo poder.</p>
<p>O talento para seduzir tampouco é uma garantia.</p>
<p>Então, o quê? Apresentar as questões dessa maneira é simplesmente lembrar o embaraço de todos os júris que tiveram que julgar a qualidade de analista. Por ter participado, Lacan<em> regnante</em>,do júri do passe, posso dizer do mal-estar que me deixou uma experiência, que em seguida foi preciso interromper pela constatação do seu fracasso – foi Lacan quem o disse.</p>
<p>Fracasso por quê? Porque, segundo as regras próprias a qualquer sociedade humana, seus membros aspiram, de acordo com a tradição, a exigir a entrega do traço um, que legitima o pertencimento. A dificuldade é que, no caso dos analistas, a posse desse traço um não deveria mais desencadear a menor paixão, antes o embaraço. Para os candidatos ao júri do passe, o procedimento desencadeou, mais do que uma paixão, um delírio. Resumindo, o procedimento do passe vinha na contramão daquilo que o tratamento talvez tivesse podido, de sua parte, estabelecer.</p>
<p>Então, como fazer? É certo que em suas reuniões os analistas <em>escutam</em> quem, entre os seus, é, e quem não é. Mas não é raro que esse êxito lhes pareça antipático na sua organização social e que prefiram coroar o saber livresco, a pose, a habilidade política, a vontade carismática etc.: esses traços parecem poder ser aprendidos, transmitidos, ensinados… Mas como adquirir aquilo que é não mais um significante, mas o manejo de um significado? Na medida em que esse significado, se ele permanece sexual conforme o costume, é para, no nosso caso, se ver posto entre parênteses.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>A dificuldade para reconhecer ou diplomar um analista é, seguramente, que ele não se distingue por um traço evidente.</p>
<p>Mas, então, qual pode ser, portanto, <em>o ser </em>daquele que denuncia o <em>semblant</em> das representações, senão o conjunto vazio? Aquele, precisamente, que o logotipo de nossa Associação coloca no cerne de sua união.</p>
<p>Eis aí o retorno dos niilismos, objetarão. Certamente não, se é verdade que é o desejo o que esse nada mantém, delegando a função de valer como sua causa aos resíduos ali evacuados pelo funcionamento do significante.</p>
<p>E – observem a sutileza de Lacan – a marca da relação ao objeto <em>a</em> não é o traço um (esse traço fálico cobiçado pelo candidato), mas a falha, a barra que divide o sujeito, justamente quando ele esperava uma unidade de concreto armado.</p>
<p>Lacan tinha esta fórmula curiosa: não há analistas, ele dizia, mas analista.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a> Em outras palavras, os analistas não formam uma união de indivíduos, mas de objetos não especularizáveis e não quantificáveis, com essa particularidade física de se repelirem mutuamente, como ouriços.</p>
<p>Estranha estrutura que, no entanto, é nossa casa.</p>
<p align="right">Charles Melman<br />
Paris, Dezembro de 2007.</p>
<p>_________________________________________</p>
<p>Texto inédito, escrito para o livro <em>A prática psicanalítica hoje – conferências </em>(Tempo Freudiano, 2008).<br />
<a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> N.T.– No original, <em>mis en abyme</em>: “posto em abismo”<em>. </em>Uma estrutura “em abismo” é a que se vê no filme dentro do filme, na peça dentro da peça, no romance dentro do romance. A expressão “em abismo” existe em português, no sentido mencionado, mas seu uso é mais erudito do que em francês.<br />
<a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a> N.T. – No original, <em>il n’y a pas des analystes, disait-il, mais de l’analyste</em>. O uso do “<em>de</em>” partitivo não existe em português e ordinariamente se refere a coisas que são parte de um todo que não pode ser contado, como acontece, por exemplo, em português, com “manteiga”, da qual não se diz “tem manteigas”, mas sim “tem manteiga”.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
