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	<title>Bernard Vandermersch &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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	<description>O Tempo Freudiano é uma associação de psicanalistas, fundada em abril de 1998, no Rio de Janeiro.</description>
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	<title>Bernard Vandermersch &#8211; Tempo Freudiano Associação Psicanalítica</title>
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		<title>De que duvida o paranoico?</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/de-que-duvida-o-paranoico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Aug 2015 12:21:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[Bernard Vandermersch O paranoico é aquele cujo delírio não deixa lugar para a dúvida. E a dúvida do ciumento? Logo constatamos que é uma dúvida que não duvida. Trata-se mais de um delírio de suposição em busca de uma prova. Seria também necessário marcar a diferença entre os delírios interpretativos, cujas convicções parecem se desenvolver  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">Bernard Vandermersch</p>
<p>O paranoico é aquele cujo delírio não deixa lugar para a dúvida. E a dúvida do ciumento? Logo constatamos que é uma dúvida que não duvida. Trata-se mais de um delírio de suposição em busca de uma prova. Seria também necessário marcar a diferença entre os delírios interpretativos, cujas convicções parecem se desenvolver progressivamente, e os delírios passionais, em que elas são completas de saída. Entretanto, os paranoicos que nos consultam confidenciam eventualmente sua perplexidade, suas incertezas. Tampouco é raro que, por meio do diálogo, eles consintam em levar em conta o que não é tão certo, com o risco de voltar na próxima vez com um fato novo, momentaneamente indubitável. De fato, a certeza do paranoico não incide tanto no conteúdo significado, nem mesmo nos elementos de convicção sempre aleatórios que ele tem à sua disposição, quanto no fato de que há signos, que eles lhe concernem e que em algum lugar “se” sabe&#8230; o que esses signos querem dizer. Já em 1892, a noção de “significação pessoal”, devida a Neisser<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>, deslocava a ênfase do delírio de sua referência à realidade, para colocá-la na singularidade da posição do sujeito no delírio: ele é visado, e disso ele não pode duvidar.</p>
<p>Notemos que, quanto ao fenômeno da própria dúvida, longe de que se possa tomá-lo como oposto à certeza, ele é, para Freud assim como para Descartes, ainda que de maneira diferente, seu único apoio: para Descartes, eu estou seguro de pensar pelo fato mesmo de que duvido; para Freud, ali onde o sujeito duvida da exatidão de seu enunciado, ele está seguro da existência de um pensamento inconsciente, que se revela aliás como ausente. Testemunha da instalação da fantasia inconsciente, essa certeza precisou de uma dúvida quanto ao desejo do Outro.</p>
<p>A partir daí, a certeza do paranoico distingue-se imediatamente dessas outras certezas por não estar fundada numa dúvida primeira. Nos <em>Escritos</em>, Lacan afirma que “o grau de certeza [dos pretensos fenômenos intuitivos de Schreber, de fato efeitos de significante] é um grau segundo: significação de significação” [ou seja, certeza de que isso significa e não do que isso significa] e que ele “toma um peso proporcional ao vazio enigmático que se apresenta de início no lugar da própria significação”.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> Certeza fundada não em uma dúvida, mas em um enigma. Enigma não é dúvida: ele não divide o sujeito.</p>
<p>Quanto ao vazio da significação (da significação fálica), ele é correlato da ausência do significante do Nome-do-Pai. Esse significante do Nome-do-Pai, Melman, em seu ensino recente, sugere considerá-lo não como um significante, mas como um nome, ou seja, nada além de uma sequência literal, que terá sido sexualizada pela referência a um pai. Aliás, é o que dá conta do gozo ligado à manipulação da letra. Veremos, mais adiante, as consequências da falta no paranoico desse referente literal e, portanto, de um referente fora do significante.</p>
<p>Se ele não duvida, não é exato dizer por isso que um paranoico acredita em seu delírio. O delírio não é um ato de fé. Ele se impõe ao sujeito. Em <em>RSI</em>, lição de 21 de janeiro de 1975, Lacan dirá sobre o psicótico que, em seu delírio, em suas vozes, não apenas ele acredita neles (<em>y croit</em>), mas ele os acredita (<em>les croit</em>).<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a> Trata-se para ele, nesse momento, de mostrar a diferença entre a neurose, em que o sujeito acredita em seu sintoma, <em>i.e.</em>, acredita que ele quer dizer alguma coisa – o que é justamente a primeira condição para que ele o interrogue –, e a psicose, na qual o sujeito acredita suas vozes.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> Se uma mulher pode ser um sintoma para um homem, é porque ele acredita nela (que ela tem algo a lhe dizer). Ele pode mesmo chegar a acreditá-la, é nisso que o amor pode ser uma loucura. Loucura no fato de que ele rejeita, desmente a falta da relação entre os sexos.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a> Essa crença do delírio é então também um amor pelo delírio, como Freud já havia notado (daí a questão das relações entre o delírio e o narcisismo, neonarcisismo, propõe Marc Caumel).</p>
<p>De fato, não só o delírio não é uma crença, mas é a não-crença que dá o traço específico do paranoico. Freud evocava, em seus manuscritos (H e K) dos anos 1895-1897, o fato de que no paranoico, diferentemente do obsessivo, “nenhuma crença se liga à autorrecriminação”.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a> No paranoico, essa autorrecriminação é objeto de uma projeção antes de ser recalcada e retorna, portanto, do exterior.</p>
<p>Essa descrença particular, que para Freud recai na própria implicação do sujeito em sua falta, Lacan a entende efetivamente como “a ausência de um dos termos da crença, do termo em que se designa a divisão do sujeito”.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a> Ele relaciona isso com um mecanismo que batiza de holófrase. Ele se produziria no começo do processo de subjetivação. Na cadeia significante primeira, entre o primeiro significante, que faz surgir um sujeito como sentido, e o segundo, sob o qual normalmente o sujeito que acaba de surgir de um sentido sofre o recalque originário, um tipo de solidificação (lhe) “interdita a abertura dialética que se manifesta [para os outros] no fenômeno da crença”<em>.</em><a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a> E é, com efeito, a “inércia dialética” de alguns pontos do enunciado, mais do que seu grau de certeza, que assinala o delírio. Nenhum dois: nenhuma dúvida. Um (que se reduplica em mesmo): holófrase e não abertura numa “causalidade”.</p>
<p>Essa solidificação impede o retorno do sujeito pela causalidade. No questionamento da fenda que normalmente se abre entre os dois primeiros significantes constituindo o enigma do desejo do Outro. “Ela me diz isso, mas o que ela quer realmente&#8230;?” Lacan propõe, então, que é seu próprio desaparecimento que o sujeito vai propor como resposta a esse enigma do desejo do Outro. O neurótico vai tirar partido de alguns objetos, os objetos <em>a</em>, objetos a perder, como solução para o enigma da causa, para metaforizar esse desaparecimento, constituindo assim essa resposta hipotética que é sua fantasia. É essa última que lhe serve, ao mesmo tempo, de identidade e de garantia da verdade. Na ausência de um referente fora do simbólico, o paranoico, privado dessa solução, parece ficar capturado na busca de uma prova “aleatória” pelo significante. Significante reificado: holófrase.</p>
<p>O termo que lhe falta, pelo fato de que os dois primeiros significantes fazem apenas um, é o falo. O falo é o significante que designa a falta do Outro: a ausência de um significante, S(<span class="lacan">A</span>) para o qual todos os outros significariam o sujeito. Por isso, o paranoico não pode nem ter a intuição dessa impossibilidade lógica: ele se encontra exposto a ocupar o lugar dela, sem sua mediação (o falo), em vez de ser aí representado, como sujeito dividido entre <span class="lacan">S</span> e <em>a</em>, por uma fantasia. Ocupando a sua revelia o lugar da instância fálica, ele vê apontarem para ele todas as intenções de significação. E daí empurrado a se ejetar no lugar da letra. Charles Melman, em nossas últimas jornadas sobre as paranoias, mostrava que podíamos deduzir dessa posição do sujeito paranoico todas as formas clássicas: delírio de grandeza, de reivindicação, de ciúme, erotomaníaco, conforme seja privilegiado esse ou aquele aspecto dessa instância.</p>
<p>Assim, um certo paciente dizia que “existia um feixe de indícios dos quais ele era a prova”. Prova cujo sentido lhe escapa: “Por que é que eles me perseguem assim? Que me digam!”. Prova de que ato? De um ato que todas as entrevistas mostram não ter sido contado como ato, mesmo que tenha sido cometido, na falta de que um sujeito possa ser seu produto, salvo sob a forma melancólica do objeto a eliminar. Fala-se dele no rádio. Ele escreveu um conto que encontrou plagiado no <em>Libération</em><a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a>. Ele é acusado de ter difamado sua professora de Filosofia, deixando entender que ela se prostituiria. Esse conto foi roubado em sua casa. Tratava-se, de fato, de um roteiro de cinema inventado a partir de um fato do cotidiano (para um DEUG<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a> de cinema). Dois caronas foram inspecionados pela polícia; um deles foi atropelado ao sair do carro. Em seu roteiro, ele introduzia dois fatos de ficção: 1) não era um acidente, era o outro que o havia arremessado, empurrado; 2) os dois caronas tinham dado sumiço numa jovem (mas, bizarramente, esse assassinato não era descrito no conto, era apenas sugerido, e é ele que lhe é incriminado pelo Outro). Em um colapso, o autor do conto é procurado como se fosse o autor do crime que ele relata: perda da divisão entre sujeito da enunciação e sujeito do enunciado. Oito dias após a eclosão do delírio, a angústia diminui, mas ele continua certo do roubo do conto e de sua divulgação. “Não há acaso possível”, diz ele. A ideia do outro não é semelhante à minha, é a mesma. Nesse lugar do falo a lei do significante se anula.</p>
<p>Deve-se aqui distinguir o falo como significante de uma falta e o objeto <em>a</em>, que é o objeto de uma perda. Esse objeto, sob as formas que conhecemos – seio, fezes, olhar e voz –, é o que vai ser solicitado como perda, para responder no lugar do sujeito ali onde ele não pode mais se sustentar com o falo imaginário. É uma perda que vem na falta. E deve-se dar a essa perda o suporte da letra. A letra é a única coisa que pode cair de uma cadeia significante em sua articulação, passar assim do simbólico ao real. O objeto <em>a</em> na neurose, na medida em que ele é o núcleo da fantasia, faz a certeza do neurótico passar pela dúvida do <em>Che vuoi?</em>: ele constitui a causa do desejo. O paranoico também, certamente, tem a ver com a letra (e muitos deles fazem grande uso dela), mas, pelo fato da gelificação primeira, parece que essa “colocação em causa” da letra fracassa. A letra aparece como prova, certamente não lógica, não discursiva, mas “sentimental”. Não como causa.</p>
<p>Assim, o sr. Ver&#8230; recebe aos 12 anos de idade uma carta<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a> de sua correspondente alemã, Sabine Friedrich. Ele a joga fora. Quatro anos mais tarde, numa viagem de grupo à Alemanha, encontra uma moça em um bar: “Era a mesma.” “Eu compreendi imediatamente que era minha irmã.” Como assim? Por um sentimento irrefutável, uma ligação estreita com essa pessoa. Os pontos de concordância estão nos olhos. A carta [letra] jogada fora e não recalcada permaneceu no real, onde é imediatamente identificada com o mesmo objeto que não foi revertido no -φ. Ela não é sexualizada. A moça não vale como significante da falta Φ, ela é o próprio objeto que partilha com ele o nome. Ele nos dirá: “Suponho que deva ser ela”, mas também: “É uma certeza 100%”. Aliás, ele escutará na rua as pessoas dizerem ao passarem diante dele: “Frédéric”, “É Friedrich em alemão!”. Embora admita que “o elemento de convicção é aleatório”, ele se engajará em manobras para demonstrar que ele não pode ser o filho de seu pai e fazer reconhecer sua identidade oculta. Notemos que esse tipo de provas pelas palavras foi descrito há muito tempo pelos autores clássicos. Por outro lado, Lacan chamou nossa atenção para o fato de que as letras tinham nomes próprios: aleph, beth etc., e, portanto, para a proximidade da letra com o suporte da identidade.</p>
<p>Então, é a função da letra como causa do desejo para o sujeito que falta na paranoia. Quando a letra faz efração, ela permanece ligada a uma sequência significante congelada, cuja significação, por permanecer enigmática para o sujeito, nem por isso é menos irredutivelmente significação de significação, mas sem lhe assegurar nenhuma identidade. Poderíamos dizer que o paranoico não se instituiu na certeza de ser uma falta irredutível de saber e precisamente porque os elementos literais de seu nome não foram sexualizados pela referência a um pai. Ora, é o sexo – e a morte – que, no neurótico, constituem o ponto de fracasso de todo saber e se acham assim na origem de sua elucubração fantasmática (elucubração notadamente ausente na infância do psicótico). É nesse ponto que o paranoico terá a certeza de que lhe roubaram um saber.</p>
<p>Para remediar esse saber roubado, o paranoico apoia-se numa outra lei que assume diversos aspectos conforme o tipo de delírio. No ciumento, é um apelo às regras éticas formais e absolutas para condenar o erro do parceiro. No erotomaníaco, cuja fé é sem falha, é a declaração do amor que é esperada, bem mais do que a satisfação sexual. No reivindicador, será um julgamento de justiça para restabelecer seu direito. Notaremos, paralelamente, que ele não pode pôr em dúvida a existência de uma garantia última, ainda que tenha que buscá-la sempre mais alto na hierarquia do poder. Sabemos a que ponto ele se recusa a acreditar na falta de saber: a prova está à disposição do Outro e é, então, pura má intenção subtraí-la ou ocultá-la. Assim, o sr. Ver&#8230; numa carta ao procurador da República:</p>
<p style="padding-left: 120px;">Senhor procurador da República, considerando o fato da ocultação que me foi submetida quanto a minha identidade real, vejo-me na obrigação e em toda a legitimidade de me constituir parte civil junto a sua instituição. A fim de atestar a veracidade de minha queixa contra o sr. Ver&#8230; A&#8230; [seu pai] pretendo que este e eu mesmo sejamos submetidos a um exame genético. Parece que toda essa maquinação gravíssima não teve outros objetivos senão o de me privar de prerrogativas consequentes; mais grave ainda constitui o fato de que essas ações foram premeditadas com o objetivo de trazer uma sustentação notória a movimentos fascistas. Peço que um inquérito seja aberto a fim de que dignidade me seja dada. Além disso, declino todas as responsabilidades concernentes a eventuais faltas que me incumbiriam, não tendo tomado conhecimento, e não possuindo nenhum documento me concedendo um estatuto particular. [Sabemos que a particular é a proposição da existência.] À espera de uma resposta e procedimento de sua parte, rogo-lhe receber, Senhor procurador, os meus mais sinceros respeitos. Assinatura.</p>
<p>Geralmente, consideramos que no campo das psicoses passionais, mas também no dos delírios de interpretação, a imagem especular do corpo está preservada. As alucinações, se não estão ausentes nesses últimos, permanecem sustentadas pela imagem de um semelhante (“pequeno outro”). Esse ponto permitiria mesmo distingui-las daquelas que surgem em outras psicoses, quando as vozes se emancipam “do suporte de toda consistência humana no desvelamento de um para além da relação especular”.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a> Entretanto, a falta de literalização da causa não é sem efeito sobre a identificação especular. Sabemos que Lacan propõe escrever essa imagem do corpo <em>i(a)</em>, marcando que essa imagem envolve e mascara o objeto <em>a</em>, causa do desejo. Trabalhos recentes na AFI tendem a recolocar em questão essa preservação da imagem especular, não apenas nas psicoses esquizofrênicas, mas mesmo na paranoia. S. Thibierge analisou, em sua tese<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a>, a decomposição dos elementos da imagem especular, <em>ï</em>(<em>a</em>) na álgebra lacaniana, nas síndromes delirantes classicamente agrupadas sob o nome de ilusão de falso reconhecimento dos alienados: síndrome de ilusão dos sósias (Capgras e Reboul-Lachaux), síndrome de Frégoli (Courbon e Fail), síndrome de intermetamorfose (Courbon e Tusques).</p>
<p>Marc Caumel propõe os termos neonarcisismo e delírio de invólucro.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a> Para ele, o invólucro corporal do paranoico não seria constituído pela imagem especular, mas por um reviramento do objeto sobre si mesmo, feito então de letras e passível de ser lido à custa do sujeito. J.-J. Tyszler evoca igualmente o fenômeno de um objeto que, na falta de se situar na linha de equivalência fálica dos objetos parciais, teria em troca “a surpreendente propriedade de se tornar invólucro”<a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a>. Assim, o paciente que se via no ponto de convergência de um “feixe de indícios do qual ele era a prova” se preocupava com sua falta de espessura. Ora, sua preocupação sempre tinha sido agradar, ou seja, para ele, “reduzir-se a uma superfície sem profundidade&#8230;”. Enquanto ele se queixa de seu vazio, os outros são plenos demais: “Eu não poderia lhes dizer senão coisas negativas.” Ao mesmo tempo em que seu delírio o designava como criminoso, ele reivindicava sua inocência: “Tenho grandes ambições: chegar ao último julgamento com a menção ‘puro’. Tenho medo de que isso transpire&#8230;” Esse “isso” se referia a uma colocação em causa de sua responsabilidade que ele recusava. Num momento fecundo, ele dizia: “Não sou dividido, sou multiplicado&#8230;”. Essa multiplicação não traduziria o fracasso do nada que assegura a identidade ao preço da divisão do sujeito? A não constituição de um tempo do zero-que-conta-por-um produz uma proliferação do mesmo.</p>
<p>Observemos que a permeabilidade da realidade (como campo da aparência) aos signos já parece confirmar a fragilidade da construção especular do eu. Esta repousa, normalmente, sobre uma falta na imagem, certamente despercebida, que está ligada ao fato de que o objeto causa de desejo é refratário ao mundo da representação. Ora, nessa falta na imagem, mas também no mundo que é uma extensão dessa imagem, o paranoico não acredita. Assim como não acredita na impossibilidade lógica de uma prova da boa-fé do Outro, ele acredita que a aparência esconde algo que lhe é subtraído, que lhe é ocultado. Em suma, poderíamos dizer que o paranoico duvida de “nada”, duvida que nada possa ser, que nada possa ser uma resposta do Outro que provê um lugar para o sujeito.</p>
<p>Quanto às consequências práticas, nada que alguém aqui não saiba. De nada serve levar à crítica do delírio. Mais vale se submeter inteiramente, ainda que sem ingenuidade, às posições subjetivas do doente para que ele aceite relatar sem reticências os fenômenos que o acossam. Na maioria das vezes, somos levados nos pontos sensíveis a atenuar seus projetos deploráveis. Assim, se ele está aberto para isso, por que não elaborar com ele o que poderia esclarecê-lo sobre essa posição, com a ajuda do que sabemos sobre seu lugar na estrutura? O jovem autor roubado colocava-me essa questão: “Será que há zonas de sombra na teoria? – Sim, certamente! – É tranquilizador!”</p>
<p>À falta de duvidar, ao menos o paranoico poderia apreciar que se saiba não saber demais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Notas</p>
<p>Publicado em <em>Le Discours Psychanalytique – Revue de l’Association freudienne, n<sup>o</sup> 24: De la croyance</em>. Paris, outubro de 2000.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> NEISSER, Clemens. “Disertación sobre la paranoia desde el punto de vista clínico”. In: <em>Clásicos de la paranoia</em>. Madri: Ediciones DOR S.L., 1997.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> LACAN, J. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. In: <em>Escritos</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998,<br />
p. 545.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> N.T. – Jogo de palavras impossível de traduzir, entre “<em>y</em> croire” e “<em>le</em> croire”. A primeira forma, transitiva indireta, corresponde a “acreditar em” (acreditar em Deus, por exemplo). A segunda é transitiva direta e não tem equivalente no português. Corresponderia a “acreditar Deus”. Na passagem referida do <em>RSI</em>, Lacan expressa uma diferença entre a neurose e a psicose: o neurótico que vem ao analista acredita no seu sintoma (‘<em>y</em> croit’, ‘croit <em>à</em> son symptôme’) no sentido de que ele “acredita que o sintoma é capaz de dizer alguma coisa, que é preciso apenas decifrá-lo”; já os psicóticos, “as vozes [&#8230;], não apenas eles acreditam nelas (‘<em>y</em> croient’), mas ‘acreditam elas’ (‘<em>les </em>croient’)”. A expressão denota, na psicose, uma homologação maciça e sem dialética das vozes ou do delírio, enquanto, na neurose, acreditar no sintoma implica um enigma quanto ao que ele quer dizer. Na neurose, Lacan joga ainda com a dupla função do “y”, de ser também um advérbio de lugar, “y croire” sendo também “acreditar aí”.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> N.T. – Na neurose, o sujeito “croit <em>à</em> son symptôme”; na psicose, o sujeito “croit <em>ses </em>voix”.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> LACAN, J. <em>R.S.I., Séminaire 1974-1975</em>. Edição não-comercial da <em>Association freudienne internationale</em>, p. 66.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> FREUD, S. “Extratos dos documentos dirigidos a Fliess – Rascunho K: As Neuroses de Defesa”. In: <em>Edição Standard das Obras Psicológicas Completas</em>, vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 1988,<br />
p. 274.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> LACAN, J. <em>O seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 225.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> Ibid., loc. cit.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> N.E. – <em>Libération</em>: jornal francês.</p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a> N.E. – Diploma de Estudos Universitários Gerais.</p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> N.T. – No original, <em>lettre</em>, carta/letra.</p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> FAUCHER, J. M. e JEAN, T. em CHEMAMA, R. (org.) <em>Dicionário Larousse da psicanálise</em>. Porto Alegre: Artmed Editora, 1995.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> THIBIERGE, S. <em>Pathologies de l’image du corps. Étude des troubles de la reconnaissance et de la nomination en psychopathologie</em>. Paris: PUF, 1999.</p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> N.T. – <em>Délire d’enveloppe</em>, no original<em>.</em></p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a> Cf. TYSZLER, J.-J. “A pele virada pelo avesso – Observações sobre o gozo do invólucro”. In: CZERMAK, M. e JESUÍNO, A. (orgs.) <em>O corpo na psicose: hipocondria, Cotard, transexualismo. A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol. 3</em>. Rio de Janeiro: Tempo Freudiano, 2015.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O cross cap de Lacan ou ‘asfera’</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/o-cross-cap-de-lacan-ou-asfera-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 17:20:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></category>
		<category><![CDATA[O cross cap de Lacan ou “asfera”]]></category>
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					<description><![CDATA[Para introduzir o cross cap Este estranho objeto foi apresentado por Lacan pela primeira vez em 16 de maio de 1962 em seu seminário A Identificação, como suporte da estrutura da fantasia. Mas sabemos que ele já estava pronto em 1959. Em uma nota redigida em 1966, no momento da publicação nos Escritos de seu  [...]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Para introduzir o <em>cross cap</em></strong></p>
<p>Este estranho objeto foi apresentado por Lacan pela primeira vez em 16 de maio de 1962 em seu seminário A Identificação, como suporte da estrutura da fantasia.</p>
<p>Mas sabemos que ele já estava pronto em 1959. Em uma nota redigida em 1966, no momento da publicação nos Escritos de seu artigo ‘Questão preliminar a todo tratamento da psicose’ (1959), Lacan já nos assinala que “este esquema R evidencia, é um plano projetivo”, isto é, um <em>cross cap</em>.</p>
<p>Esse esquema R mostra que o “campo da realidade só funciona se obturando com a tela da fantasia”. Em outras palavras, não temos acesso natural ao real, mas só pela mediação da fantasia.</p>
<p>A visão é sem dúvida o sentido que mais nos dá a ilusão de um acesso direto ao campo da realidade.</p>
<p>No entanto, é um campo bem achatado o que ela nos propõe. Ela projeta todos os pontos do espaço, situados numa mesma reta que passa pelo centro óptico do olho, num mesmo ponto da retina. Nosso espaço em três dimensões reduz-se assim a um pedaço de superfície esférica, a retina. A visão opera então uma redução dimensional.</p>
<p>Assim faz o pintor, que aplica as leis da perspectiva, e melhor ainda o aparelho fotográfico e a câmera.</p>
<p>Mas, enquanto o quadro ou a foto reconhecem seu limite, até mesmo o exaltam por uma moldura, o olho o apaga. Aliás, virando a cabeça ele vê tudo (exceto o que há na cabeça!).</p>
<p>Pela visão, o mundo se fechou numa esfera, ou seja, numa superfície, com a exceção notável do próprio olhar.</p>
<p>É aqui, com esse esquema projetivo alargado em todos os sentidos, que Freud estabelece sua representação topológica do eu:</p>
<p>“O eu, diz Freud em ‘O Ego e o Id’, é, antes de tudo, um eu corporal, não é somente uma superfície, mas é mesmo a projeção de uma superfície”. Em nota, ele precisa: “ou seja: o eu é afinal derivado de sensações corporais, principalmente daquelas que têm sua fonte na superfície do corpo, e, além disso, [&#8230;] ele representa a superfície do aparelho mental”.</p>
<p>Nesta concepção, o aparelho psíquico e o corpo são como uma bola (3 dimensões) onde o eu seria a zona de contato com o mundo exterior (ou seja, segundo o esquema, um pedaço de esfera: 2 dimensões). Em conseqüência, esta topologia esférica induz a idéia de um eu-superfície separando um mundo “exterior” e um inconsciente “interior”, opaco, visceral. A psicanálise seria uma “psicologia das profundezas”.<br />
<img fetchpriority="high" decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image002.jpg" alt="bvdm - figure 1" width="250" height="235" /></p>
<p><strong>Lacan dá um passo essencial</strong></p>
<p>Lacan demonstra claramente que o inconsciente descoberto por Freud é estruturado como uma linguagem. Daí a noção de um sujeito suposto na origem das manifestações do inconsciente (lapsos, atos falhos, sonhos, sintomas). Para o sujeito, nem o corpo nem o mundo exterior serão dados imediatamente, mas somente através da linguagem. Aliás, apenas os sintomas que vão se revelar tendo uma estrutura de linguagem podem ser ditos sintomas do sujeito.</p>
<p>Esse sujeito, Lacan o define como o referente desconhecido de uma função: “o que representa um significante para um outro significante”. Invisível, mas apenas situável, não é no entanto um sujeito desencarnado: a linguagem, a ordem simbólica, só produzirá um sujeito se encontrar um corpo vivo para aí se incorporar.</p>
<p>A introdução do termo sujeito, pouco usual em Freud, é aqui exigida pela estrutura de linguagem. Quanto ao eu, ele guarda a função de imagem projetada do corpo, imagem que seduz o sujeito. Mas retomemos nossa realidade, senão visível, pelo menos pensável, da qual faz parte nosso eu. Podemos dizer: tudo que se vê (ou pode se ver), para um sujeito, é significante. A imagem esférica do mundo, para um sujeito, é feita de significantes.</p>
<p>Ora, a propriedade do significante é ser diferente de todos os outros e mesmo dele próprio. Diremos então, em primeira aproximação, que todo significante equivale a seu oposto, ou que todo objeto significante é ao mesmo tempo ele mesmo e seu contrário: a = &#8211; a.</p>
<p>Aliás essa é uma intuição de Freud, que ele expõe em seu artigo sobre o sentido oposto das palavras primitivas, de 1910 (<em>Über den Gegensinn der Urworte</em>).</p>
<p>Se aceitarmos essa equivalência do significante a seu contrário, podemos identificar cada ponto da esfera visual a seu oposto. O objeto produzido por esta operação chama-se plano projetivo, e sua imersão mais simples no espaço de três dimensões é o <em>cross cap</em>.<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image004.jpg" alt="bvdm - figure 2" width="510" height="225" /></p>
<p><img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image006.jpg" alt="bvdm - figure 2 bis" width="350" height="345" /></p>
<p>Fig. 2</p>
<p>O <em>cross cap</em> é então a forma topológica da fantasia fundamental que condiciona a realidade, ou seja, o real passado pelo crivo do significante. Mas essa forma que guarda o sujeito escapa a ele. Sua aptidão para sustentar a realidade tem a ver com o fato de que ela liga o sujeito ao objeto que causa seu desejo. Esse laço é recalcado desde a origem na própria estrutura do <em>cross cap</em>. É o recalque originário.</p>
<p>Com efeito, essa forma aparentemente homogênea é de fato um composto heterogêneo do sujeito e do objeto. Quando um significante faz corte nessa forma, o sujeito é o produto da operação, o objeto, seu resto, a moldura não percebida da realidade do sujeito. Retomaremos isto mais adiante ao estudar a estrutura do <em>cross cap</em>.</p>
<p>Façamos aqui uma pequena reserva: a conivência do <em>cross cap</em> com o campo escópico sugere que ele daria apenas uma visão (é o caso de dizê-lo) parcial do laço do sujeito com seu objeto. Poderíamos admitir a possibilidade de que a fantasia se forme a partir de outros modelos topológicos. Aliás Lacan sugeriu (em seu seminário ‘De um Outro ao outro’) que os objetos oral, anal, escópico, vocal tenham cada um sua própria maneira topológica de sustentar a realidade: esfera, toro, <em>cross cap</em> ou garrafa de Klein. A coisa se complica se reconhecemos que, fora da psicose e da perversão, na fantasia do neurótico, o objeto se apresenta comumente sob duas facetas ao mesmo tempo (escópico-anal, por exemplo).</p>
<p><strong>Descrição do <em>cross cap</em></strong></p>
<p>Lacan chama de <em>cross cap</em> o conjunto do objeto conhecido em topologia sob o nome de esfera mitrada, feita de um pedaço de esfera completada por uma mitra (ou <em>cross cap</em>). O <em>cross cap</em> em topologia é apenas uma parte do <em>cross cap</em> de Lacan. Aqui nos conformaremos, no entanto, ao uso lacaniano.<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image008.jpg" alt="bvdm - figure 3" width="350" height="345" /></p>
<p>Fig. 3 Cross cap mitre</p>
<p><img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image006_0000.jpg" alt="bvdm - figure 4" width="350" height="345" /></p>
<p>Fig. 4</p>
<p align="left">Vemos que o <em>cross cap</em> parece um pouco uma esfera (Lacan o chama também de a-sfera). Como ela, ele é uma superfície sem borda. A linha Φ-Ω não é uma borda. É uma linha de intersecção da superfície por ela mesma. De fato, cada ponto desta linha corresponde a dois pontos diferentes e distantes do <em>cross cap</em>. Para ir de um destes pontos até aquele que se encontra no mesmo lugar sobre a linha, é preciso fazer um percurso sobre a superfície (Fig. 5).</p>
<p><img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image010.jpg" alt="bvdm - figure 5" width="305" height="305" /></p>
<p align="left">Se prolongarmos esse percurso, penetramos no « interior » do <em>cross cap</em>, para voltar a sair se ultrapassarmos novamente esta linha.</p>
<p>Conclusão: o <em>cross cap, </em>diferentementeda esfera, não divide o espaço em torno em um exterior e um interior. Suas duas faces estão em continuidade, de modo que podemos dizer que só há uma, como na banda de Möbius. (Fig. 6).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se com Lacan (L’Étourdit) só se conta os trajetos que se fecham (pois uma frase só toma seu sentido com a última palavra), vemos que é possível traçar vários tipos de alças fechadas.</p>
<p>Alças simples de dois tipos:</p>
<p>Em primeiro lugar: pode-se circundar um ponto qualquer da superfície por uma alça circular situada em sua vizinhança. Se cortarmos o <em>cross cap</em> segundo este traçado, obtemos um disco comum e um outro pedaço que guarda a propriedade möbiana de só ter uma face. (Fig. 7)<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image014.jpg" alt="bvdm - figure 7" width="520" height="200" /></p>
<p>Em segundo lugar : pode-se traçar uma alça que parta de um ponto da superfície e atravesse uma vez a linha de intersecção Φ-Ω antes de se fechar no avesso exato do ponto de partida. Um corte segundo este traçado não divide a superfície mas a reduz a um disco. Separando os lábios do corte vê-se desenhar-se na abertura uma banda de Möbius virtual. (Fig. 8)<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image016.jpg" alt="bvdm - figure 8" width="510" height="250" /></p>
<p>Fig. 8</p>
<p>Pode-se traçar alças de duas voltas. Para isso, partindo de um ponto da superfície, atravessa-se a linha de intersecção e depois, como um planeta em gravitação em torno de seu astro, gira-se em torno do ponto Φ para atravessar uma segunda vez a linha Φ-Ω antes de reencontrar o ponto de partida, desta vez do lado direito. Um corte segundo este traçado divide a superfície em um disco contornado que se atravessa a si mesmo e uma banda de Möbius, ela também bastante deformada por sua auto-travessia. Pode-se verificar no entanto sua respectiva natureza colorindo cada um destes objetos até encontrar uma borda. Fazendo isso, no final da operação teremos colorido apenas uma face do disco, mas a totalidade da banda de Möbius.</p>
<p>A banda de Möbius é o sujeito, na medida em que esse corte o revela. O disco centrado pelo ponto Φ é o que resta, o não möbiano escondido no <em>cross cap</em>, o objeto <em>a</em>. O conjunto dá a fórmula da fantasia: S◊<em>a</em>. (Fig. 9)<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image018.jpg" alt="bvdm - figure 9" width="520" height="200" /></p>
<p>Fig. 9</p>
<p>Consideremos agora a banda de Möbius: trata-se de uma superfície limitada por uma única borda fechada, portanto circular. Pode-se colar nesta borda a borda de um disco. A superfície fechada assim obtida é um<em>cross cap</em>.</p>
<p>Mas um disco é uma superfície retrátil. É possível, por uma transformação topológica (ou seja, sem furá-lo ou esgarçá-lo) reduzi-lo a um ponto. Do mesmo modo um <em>cross cap</em> é uma banda de Möbius cuja borda foi retraída até poder fecha-la por um ponto comum “não möbiano”. (Fig. 10)<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image020.jpg" alt="bvdm - figure 10" width="425" height="345" /></p>
<p>Fig. 10</p>
<p>Um <em>cross cap</em> é então uma superfície heterogênea, é a união de um disco e de uma banda de Möbius. O disco é uma superfície orientável, ou seja, na qual direita e esquerda se distinguem. A banda de Möbius é não orientável, pois basta fazer deslizar o desenho de uma mão esquerda ao longo da banda para transformá-lo, ao final de um giro, no desenho de uma mão direita.</p>
<p>Disco e banda de Möbius são então dois tipos de espaço muito diferentes e uma heterogeneidade fundamental se esconde portanto no cerne da homogeneidade aparente do <em>cross cap</em>, ou seja, da realidade “esférica” construída na fantasia. “É a topologia esférica desse objeto dito <em>a</em> que se projeta sobre a outra do composto heterogêneo que o <em>cross cap </em>constitui.” (L’Étourdit).</p>
<p>Observação : se tivéssemos colado na borda da banda de Möbius a borda de uma outra banda de Möbius, no lugar da de um disco, teríamos obtido uma garrafa de Klein. (Fig. 11). Esta última – que, por outro lado, tem muitas propriedades comuns com o <em>cross cap</em> – não possui portanto essa mesma heterogeneidade.<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image022.jpg" alt="bvdm - figure 11" width="510" height="200" /></p>
<p>Fig. 11</p>
<p><strong>Significação clínica das propriedades do <em>cross cap</em></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<ol start="1" type="1">
<ol start="1" type="1">
<li>Na ausência de borda, todo circuito pode se fechar. “Em nossas asferas, o corte, o corte fechado, é o dito. Ele faz sujeito: o que quer que ele circunscreva&#8230; (L’Étourdit). Com efeito, uma frase só toma seu sentido com o enunciado de seu último termo. O “sujeito” desta frase é então um efeito retroativo de seu fechamento.</li>
</ol>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<ol start="1" type="1">
<ol start="1" type="1">
<li>É possível passar de uma face à outra sem ultrapassar nenhuma borda, o que dá conta da possibilidade do recalque e do retorno do recalcado.</li>
</ol>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<ol start="1" type="1">
<ol start="1" type="1">
<li>é possível traçar alças duplas, ou seja, significantes. A alça dupla simboliza com efeito a diferença do significante consigo mesmo. Ela produz sujeito.</li>
</ol>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<ol start="1" type="1">
<ol start="1" type="1">
<li>Sua construção implica, como vimos, a equivalência dos contrários e responde portanto à lei do significante a = não a.</li>
</ol>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas ao menos Um ponto escapa a esta lei e vai dar à fantasia sua “gravidade”. Esse ponto de exceção, o falo, constitui o ponto que dá sentido a todos os outros, mas onde o próprio sentido se anula, salvaguardando a possibilidade do não sentido.</p>
<p>Nota: Na figura do <em>cross cap</em>, o lugar do falo pode ser discutido (Boletim da ALI n°113, 114). Lacan o situa no nível do ponto Φ, singularidade no centro da figura. (Singularidade quer dizer lugar de ruptura da continuidade de uma função). Esse ponto singular não pode, no entanto, ser considerado como concentrando em si mesmo a propriedade möbiana do <em>cross cap</em>. O disco destacado pelo corte em alça dupla (Fig. 9) não possui essa propriedade möbiana embora possua o ponto Φ. Esse ponto não é então o ao menos Um ponto möbiano. Charles Melman pôde dizer que é a linha Φ-Ω que representa o falo. É mais exato, pois ela, com suas duas extremidades, concentra com efeito a propriedade möbiana. Se a retiramos, resta apenas um disco.<br />
<img decoding="async" src="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/cap_clip_image024.jpg" alt="bvdm - figure 12" width="510" height="200" /></p>
<p>Enfim, é possível demonstrar (cf. M.Darmon no Boletim da ALI n° 114) que toda imersão do plano projetivo (há outras além do <em>cross cap</em>) não induz forçosamente uma singularidade forte como o ponto Φ pois ela não pode se fazer sem linha de interpenetração. Então, é esta linha principalmente que resulta da presença escondida do falo no <em>cross cap</em>.</p>
<p>A heterogeneidade da estrutura do <em>cross cap</em> mostra que o imaginário da fantasia (S◊<em>a</em>) é fundado numa alteridade radical (mas também numa reversibilidade) entre o sujeito e o objeto, diferentemente do imaginário do espelho, fundado numa simetria entre o eu e sua imagem, simetria que induz entre eles uma rivalidade sem dialética.</p>
<p>O plano projetivo é a única das quatro variedades simples de superfície (esfera, toro, <em>cross cap</em>, garrafa de Klein) que possui a um só tempo todas essas propriedades que aliás não são independentes.</p>
<p><strong>Por que dar uma representação visual do plano projetivo ?</strong></p>
<p>Lacan não se interessa apenas pelas propriedades intrínsecas dos objetos topológicos. Ele leva em consideração propriedades que só aparecem quando esses objetos são imersos em nosso espaço em três dimensões, “em presentificação”. Ele trabalha com “figuras (embora esses objetos possam ser descritos unicamente por escritas matemáticas). Seria uma concessão ao que ele chamou de “nossa debilidade mental”, nossa alienação imaginária?</p>
<p>Talvez, mas trata-se sobretudo de levar em conta uma outra de suas hipóteses fundamentais, a saber, que três dimensões são necessárias para dar conta do sujeito: real, simbólico e imaginário. Essas três dimensões do sujeito podem definir um espaço, semelhante, numa primeira abordagem, ao espaço que aloja nosso corpo.</p>
<p>No entanto, o plano projetivo é um objeto que não pode ser mergulhado em nosso espaço R3. É bastante surpreendente que um espaço em três dimensões não possa alojar uma superfície que só tem duas. E no entanto tudo se passa como se essa superfície fosse pesada demais para se alojar no espaço de nosso corpo.</p>
<p>Em topologia, a noção de imersão “resolve” a impossibilidade do mergulho. Ela o faz ao preço de aceitar que um único ponto do espaço R3 corresponda a vários pontos diferentes e não vizinhos do objeto imerso.</p>
<p>Hipótese: Para o sujeito, essa super-ocupação do corpo pela linguagem traduz-se pelo que se chama de afetos. A angústia de “castração” seria assim a tradução de um excesso do corpo-linguagem no corpo vivo, evocando essa operação dita castração (operação simbólica). Descompletando o corpo-linguagem de seu objeto ela o torna apto a habitar o corpo vivo. Na ausência de tal operação simbólica (na psicose especialmente), a tendência a abrir realmente o corpo ou a retirar uma parte dele para aliviá-lo não é rara.</p>
<p><strong>Alguns cortes atípicos</strong></p>
<p>Vimos que o corte em alça dupla em torno do ponto Φ dá a estrutura da fantasia, separando o sujeito (banda de Möbius) do objeto <em>a</em> (disco). Ele revela assim a heterogeneidade que apóia o sujeito, não numa imagem de si mas em algo irredutivelmente diferente que sustenta sua divisão.</p>
<p>Existe um tipo de corte que só passa uma vez pela linha de interpenetração. Esse corte “simples” abre o<em>cross cap</em> e o reduz inteiramente a um disco. Esse corte pode ser considerado como o caso limite de um corte duplo cujos dois giros se aproximaram de tal modo que chegaram a se confundir. Nesse caso há perda da auto-diferença do significante. (ver Fig. 8)</p>
<p>Hipótese : Essa disposição evoca uma tentativa para um sujeito de se fazer representar por um significante sem perda de gozo (sem perda do disco). Um tal significante, cujo caráter decisivo o sujeito recusaria, perde sua auto-diferença e portanto sua natureza de significante. Ele se impõe sem fazer sentido para o sujeito. É possível reconhecer aí a origem do efeito psicossomático. Esse efeito se explicaria pelo caráter de sinal que um significante tornado unívoco assumiria assim para o corpo vivo. Esse sinal poderia anexar a si uma função biológica e desviá-la de seu funcionamento, no modelo do condicionamento pavloviano. (cf. &#8220;Inscrit, montré, non articulé&#8221; em Le trimestre psychanalytique, 1988, n° 5).</p>
<p>Um outro tipo de corte a considerar é aquele que não “concluiria” no segundo giro. Percebe-se então que o<em>cross cap</em> não permite que esse corte possa se fechar mais além. Diferentemente do toro, o <em>cross cap</em>impõe uma coerção muito estrita quanto ao número inteiro de giros. Se a alça dupla é mesmo a estrutura do ato, na medida em que o ato é significante, a falta de realização do ato leva a uma repetição infinita dos giros em torno do falo. Esse trajeto descreve uma espiral em que uma de suas extremidades se enrola em torno do falo, envolvendo-o cada vez mais, sem jamais atingi-lo. Inversamente, a outra extremidade se afasta cada vez mais do ponto Φ tendendo a se aproximar de si mesma. No limite, todo o <em>cross cap</em> é reduzido a uma lamínula biface.</p>
<p>Hipótese: Reconhecemos aqui o mecanismo próprio à neurose obsessiva. Por mais longe que o corte vá, ele nunca vai separar o <em>cross cap </em>em duas partes, o objeto permanece ligado. Daí resulta uma hipocondria específica e a sensação de invasão por pensamentos sujos ou obscenos. Poderemos aproximar disso as verificações vãs de toda ação que visa a fechar ou a fazer alça. Conhecemos também a incidência dos números não inteiros nessa neurose, a falta de fechamento do ato original perturbando o cômputo por inteiros. A falta de separação do objeto <em>a</em> tem por efeito que o real, como impossível, nunca é atualizado, mas apenas sempre procrastinado (adiado para o dia seguinte) num giro suplementar ilusório. (cf. &#8220;Topologie de la névrose obsessionnelle&#8221; em Le trimestre psychanalytique, 1992, n° 2)</p>
<p>Consultar também :</p>
<p>os Seminários de Lacan, em especial A identificação, A angústia, A lógica da fantasia.<br />
os <em>Essais de topologie lacanienne</em> de Marc Darmon (edições da ALI).</p>
<p><a id="_ftn1" title="" href="http://www.tempofreudiano.com.br/site/artigos/detalhe.asp?cod=74#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> NT &#8211; Para ler o texto original, em francês:<br />
<a href="http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/1273-Le_cross_cap_de_Lacan_ou_asphere" target="_blank" rel="noopener">http://www.freud-lacan.com/fr/44-categories-fr/site/1273-Le_cross_cap_de_Lacan_ou_asphere</a><br />
Tradução: Sergio Rezende</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Le corps en psychanalyse</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/le-corps-en-psychanalyse-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2015 17:10:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></category>
		<category><![CDATA[corpo]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[estruturas clínicas]]></category>
		<category><![CDATA[Le corps en psychanalyse]]></category>
		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
		<category><![CDATA[os três registros: real]]></category>
		<category><![CDATA[simbólico e imaginário]]></category>
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					<description><![CDATA[L’étymologie du mot corps nous renvoie au corps in-animé (corpus) par rapport à l’âme (anima). Le mot latin lui-même pourrait être un élargissement d’un thème KRP attesté en indo-iranien signifiant forme, beauté. Le corps, le cadavre et la beauté qui constituerait le dernier rempart devant la mort (Lacan).

Dans la cure analytique, le corps est là. Pas de cure in effigie. Pas de cure par correspondance. Pourquoi la nécessité de cette présence ? Mais d’abord qu’est-ce qu’un corps humain ?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Bernard Vandermersch</p>
<p>L’étymologie du mot corps nous renvoie au corps in-animé (corpus) par rapport à l’âme (anima). Le mot latin lui-même pourrait être un élargissement d’un thème KRP attesté en indo-iranien signifiant forme, beauté. Le corps, le cadavre et la beauté qui constituerait le dernier rempart devant la mort (Lacan).</p>
<p>Dans la cure analytique, le corps est là. Pas de cure <i>in effigie</i>. Pas de cure par correspondance. Pourquoi la nécessité de cette présence ? Mais d’abord qu’est-ce qu’un corps humain ?</p>
<p><b><br />
1.Qu’est-ce qu’un corps humain ? </b></p>
<p>Au premier abord, ce qui frappe, c’est sa ressemblance avec le corps des animaux, du moins les plus proches. On sait que nous partageons avec les chimpanzés la presque totalité de notre génome, ce qui pour le coup devient un peu gênant…</p>
<p>La différence surgit quand on considère le rapport de notre corps à son milieu. Ce rapport est complètement dénaturé. C’est un corps privé du savoir de l’instinct. Les modes dont il subvient à ses besoins sont complètement régis par la culture et spécialement en ce qui concerne sa sexualité. Il suffit de se promener à le surface de la planète pour s’en assurer.</p>
<p><b>2.Qu’est-ce qu’un corps humain pour celui qui l’habite ? </b></p>
<p>Celui qui l’habite dit : « J’ai un corps ». Il ne dit pas : « je suis un corps ». Je ex-siste au corps. Je est hors du corps qu’il prétend avoir.</p>
<p>Pourtant son corps est manifestement frappé de refoulement. J’ai été soumis précocement à l’idéal de maîtriser les manifestations de mon corps : c’est le but premier de toute éducation. Inversement j’ai une tendance à vouloir sentir mon corps, à l’éprouver dans des « épreuves sportives » par exemple mais aussi avec la drogue etc…</p>
<p>J’ai un corps. Est-ce que j’en ai la jouissance totale ou seulement l’usufruit ? Pour l’instant il ne m’est pas permis d’en céder des organes avec ou sans contre-partie. Il ne m’est pas permis de le tuer quoique aujourd’hui la compassion de mes contemporains fera de mon suicide une maladie et non un délit ou un crime. Ai-je le droit de choisir mon sexe ? Les temps changent. La compassion de mes contemporains fera de moi une femme si je leur déclare avoir l’intime conviction que mon être est femme, que mon sexe apparent est une erreur et que mon « genre » est féminin. Une fois opéré, il faudra changer mes papiers, car la compassion de mes contemporains…..</p>
<p>Disons que, pour celui qui l’habite, le corps lui sert avant tout à jouir. A vrai dire plutôt que de jouir de mon corps, j’en suis plutôt joui.</p>
<p>Ici apparaît encore une ambiguïté : on jouit d’une bonne santé quand on ne sent pas son corps : « La santé, c’est la vie dans le silence des organes » (Leriche). La santé serait donc le refoulement réussi des pulsions du corps. A l’inverse, la jouissance s’éprouve comme tension au delà de l’homéostase.</p>
<p>Question : la sexologie, en tant que discipline médicale, est-elle au service de la santé ou de la jouissance ?</p>
<p>On peut donc opposer le <b>plaisir </b>qui se produit du soulagement du corps de ses tensions : la faim, la fatigue, l’excitation sexuelle et la <b>jouissance</b> qui essaie d’aller un peu plus loin, de repousser les limites imposées par le plaisir, un peu, pas trop. Mais on sait des cas où ça va loin. Lacan fait remarquer que l’interdit porté sur la jouissance masque surtout le fait que ce qui la limite c’est notre capacité à la supporter. Ce sont des limites naturelles que seul le désir peut faire reculer.</p>
<p><b>3.Il y a donc deux corps très différents : </b></p>
<p><b>le corps</b><b>pour la science</b>, celui qui s’offre à une objectivation par les divers procédés de mesure, de visualisation par les techniques d’imagerie etc dans lequel il faut inclure le « psychisme » qui est tout aussi objectivable, mesurable, étalonnable par les techniques de testing divers,et <b>le corpsassujetti à la jouissance</b>.</p>
<p>C’est là la coupure essentielle qui marque la différence entre ces deux activités que sont la médecine et la psychanalyse qui relèvent de deux discours différents.</p>
<p>Le discours médico-psycho-sexo- vise la maîtrise des phénomènes corporels, le discours de la psychanalyse vise la reconnaissance du savoir inconscient sur la jouissance, savoir fabriqué par le sujet à la place du défaut spécifique de l’être humain : pas de savoir instinctif sur le sexe. Seuls les enfants humains demandent : comment viennent les enfants ? Et quand on leur explique, ils y reviennent parce qu’ils n’ont pas compris ou bien ils s’abstiennent car cela gêne. Surtout malgré les explications scientifiques, rationnelles, officielles, qu’aujourd’hui ils ont le bonheur de recevoir, ils fabriquent une théorie sexuelle infantile. On peut le vérifier à partir de leur façon de se conduire effectivement. C’est encore plus convaincant lorsque c’est un médecin qui tout à coup s’aperçoit que coexiste en lui le savoir officiel sur le sexe et un savoir de sa théorie infantile.</p>
<p>La coupure entre ces deux corps fait la différence irréductible entre la langue du médecin et celle du malade avec las malentendus qui fourmillent dans la moindre consultation.</p>
<p><b>4.</b><b>Les trois registres du corps.</b></p>
<p>En psychanalyse, c’est du corps pour la jouissance qu’il s’agit. Mais pour le penser il nous faut distinguer avec Lacan les 3 registres que sont : <b>le réel , le symbolique et l’imaginaire</b>.</p>
<p><b>  4. 1. Je vais vous parler dans un premier temps du corps réel. </b></p>
<p>Le réel n’est pas la réalité. <b>Le réel c’est l’impossible</b>, ce n’est pas simplement l’impossible en soi, mais l’impossible à dire, à imaginer. Prenons par exemple le corps pour la science, il y a tout un discours sur le corps, des kilomètres de textes médicaux, d’anatomie, de physiologie… Mais tous ces texte ne font que parler du corps. Où est le corps réel? Il nous échappe. Comme tout objet physique (cf <i>Le réel voilé</i> de Bernard D’Espagnat).</p>
<p>On pourrait penser que le corps c’est l’idée d’un tout. Faire corps, faire un, c’est tout un. Apparemment il y a cohésion des parties du corps. En fait nous savons que tout cela est assez imaginaire. Pour que les parties du corps tiennent ensemble il faut qu’en permanence elles se communiquent une quantité d’informations sur l’état de la carte d’identité antigénique qui est en perpétuelle modification elle-même. Le système immunitaire qui est impliqué dans cet échange d’information est quelque chose d’extrêmement complexe. On sait qu’il est sensible au conditionnement mais là-dessus mes données ne sont pas très récentes et je pense que vous en savez plus que moi. Si on prend le niveau de l’atome, il n’y a pas dans un corps vivant un seul atome qui ne soit remplacé au bout d’un certain temps. On est en présence du paradoxe de ce bateau dont toutes les planches ont été changées progressivement, si bien qu’il ne reste « matériellement » plus rien du bateau primitif. Est-ce que c’est toujours le même bateau ou pas ?</p>
<p>On peut saisir ici qu’on ne peut associer l’idée de réel à l’idée de consistance. L’idée de consistance est purement imaginaire.</p>
<p>Un point qui peut avoir de l’importance est qu’un bonne partie du corps se laisse décrire comme des membranes, des surfaces d’échange</p>
<p>S’il faut situer le réel du corps, en psychanalyse, on le cherchera plutôt dans ce qui lui est impossible au niveau de sa jouissance. Ce qui est impossible pour un corps c’est de jouir du corps d’un autre. Même dans l’amour le plus fou, on en a jamais que des petits morceaux qu’on attrape comme on peut.</p>
<p><b>  4. 2. Le corps imaginaire. </b></p>
<p>Remarquons que, pour celui qui l’habite comme pour celui qui l’observe d’un œil profane c&#8217;est-à-dire un œil libidineux, <b>le corps se présente comme une enveloppe </b>et que cette enveloppe peut être<b> un objet de désir</b>. C’est d’abord sur ce mode que se présente l’image du corps : il me plait, il ne me plait pas. Le corps est un objet de désir, à commencer par mon propre corps. Comment cela se fait-il ? Qu’est-ce qui donne à cette enveloppe ce lustre ?</p>
<p>Il a du y avoir au départ ce moment fécond où je me suis regardé dans la glace et j’ai dit : « c’est moi !». (Même si à l’époque je ne parlais pas encore). C’est tout à fait étonnant. Mettez un animal devant le miroir : une fois convaincu de la vanité de cette image, l’animal s’en détourne, indifférent en général. En tout cas il ne se prend pas pour l’image. Tous les humains ne se prennent pas pour cette image. Il y a certains autistes et puis il y a des gens qui tombent dans la psychose et l’un des premiers signes de cette psychose est justement que leur image leur devient tout à coup étrange. J’ai vu un gamin psychotique qui avait dessiné un lion au tableau (le roi lion !) et qui juste après avait peur du lion qu’il venait lui-même de dessiner. Tout ce qu’on dessine c’est un peu nous-même, sauf dans ce cas où l’image reprend son autonomie. Il faut donc que cette image fasse l’objet d’un assentiment de la mère pour qu’elle prenne.</p>
<p>La puissance de ce leurre qui consiste à se prendre pour son image est largement induit par le fait qu’on en a besoin pour que notre corps tienne. Le moi se constitue par identification du sujet à sa propre image ou à celle d’un semblable parce que l’unité apparente de l’image anticipe sur la maîtrise même de mon propre corps. Cette identification se fait à un âge très précoce où la motricité est encore incoordonnée.</p>
<p>Cette identification se voit dans le phénomène de la sympathie par exemple. Je me prends pour mon semblable. Dans l’envie aussi, parce que bizarrement cette image, elle peut me ravir à moi-même. Elle peut m’échapper. Elle est aussi à l’origine de la méconnaissance paranoïaque qui fait que ce que je dénonce chez mon semblable c’est ce qui me concerne. Nous n’avons à la limite accès à nos désirs secrets qu’en nous écoutant parler d’autrui.</p>
<p>Il y a aussi les phénomènes transitivistes, par exemple l’enfant qui donne un coup de pied au copain et qui dit : « il m’a frappé » en toute bonne fois.</p>
<p>Il y a donc <b>une première aliénation fondatrice </b>du sujet qui fait que ce sujet se prend pour un moi, pour une image.</p>
<p><b>4. 3. Le corps symbolique ou la deuxième</b> aliénation<b>. </b></p>
<p>Mais pourquoi l’être humain se prend-il de passion pour une image ? Pourquoi cette absurdité si manifeste ? Sans doute parce qu’elle lui confère une unité à un moment où il ne l’a pas encore conquise. Mais aussi sans doute parce qu’il souffre confusément <b>d’un manque au niveau de son être-même</b>et ce manque dans son être tient à une autre aliénation : celle du rapport du corps au langage. C’est un fait que le corps humain semble à la fois démuni d’instinct et particulièrement sensible à ce que nous appelons le signifiant. Du coup la satisfaction de ses besoins devra en passer par la demande et donc se soumettre aux lois du langage.</p>
<p>Un enfant élevé sans paroles dépérit très rapidement. L’enfant à la naissance est dans une telle prématurité physique qu’il ne doit sa survie qu’à la « machine extra-corporelle » qu’est sa mère. Du même coup la satisfaction de ses besoins va être livrée aux manières de faire de sa mère. Et les manières de faire de sa mère dépendent largement d’un savoir plus ou moins mythique ou scientifique, plus ou moins personnel, plus ou moins familial, culturel. En tout cas c’est un savoir qui peut se dire avec des mots et qui est contraignant. On n’élève pas partout un enfant de la même manière.</p>
<p>Ce savoir, qui supplée dans l’espèce humaine à l’absence d’instinct, n’est pas un chaos aléatoire. Il possède une structure. Les mots que la mère dit, quand ils parviennent au sujet, font déjà corps entre eux. Ils constituent déjà un <b>corps de savoir</b>, même si c’est un savoir mythique, culturel, celui de la langue. Quand une mère, par exemple, a été élevée dans une langue et qu’elle élève son enfant dans une autre langue, il se produit des effets au niveau de la descendance des enfants, parce que justement le savoir propre à sa langue, l’organisation de ce savoir ne va pas se transmettre. C’est ce corps de la langue qui va s’introduire dans le corps de l’enfant, par le discours de la mère.</p>
<p>Le corps de l’enfant devient le lieu de ce savoir apporté par l’Autre, avec un grand A, i.e. le trésor des signifiants de la langue apporté par la mère.</p>
<p>Le manque dans l’Autre.</p>
<p>La mère apparaît à l’enfant comme désirante, i.e. que sa parole, son activité sont orientés par un manque. Ce manque n’est pas contingent. Il traduit un fait de structure. La mère est l’incarnation de l’Autre et cet Autre a comme particularité, comme tout système symbolique, de se présenter comme manquant.</p>
<p>D’une part il ne peut se nommer lui-même. [C’est lié à la propriété du signifiant de ne pouvoir se signifier lui-même ce qui rappelle la propriété des ensembles : Il n’y a pas d’ensemble de tous les ensembles]. Du coup <b>il n’y a pas de nom pour le corps propre</b>. Le nom propre ça ne désigne pas notre être, ça désigne un trou. La faille dans le corps que le sujet habite. Mon nom ne désigne pas mon corps. Il <b>me</b>désigne, moi le sujet et non moi le moi, ce manque, ce trou dans le trésor des signifiants.</p>
<p>Donc le nom propre ne désigne pas un corps mais quelque chose d’insaisissable, plus ou moins vaguement situé à l’intérieur du corps. Confronté à ce défaut constitutif du langage, le futur sujet va se trouver engagé dans la tentative de dire ce qu’il est lui-même. Il va tenter de retrouver le signifiant qui le désignerait, mais bien sûr il ne le trouvera jamais sauf à mourir comme sujet parce que, être réduit à un signifiant pour un sujet c’est la mort, ou la honte de ne pas en mourir, dit Lacan. Le signifiant, le mot, c’est tuant même si c’est un joli signifiant : si un enfant se prend pour la vraie merveille de sa mère, ça a des effets très déprimant sur ses capacités.</p>
<p>L’autre manque est que l’Autre ne peut garantir la vérité de ses propres énoncés. [Ce qui rappelle plutôt l’incomplétude telle que le théorème de Gödel la démontre pour l’arithmétique : si l’arithmétique est consistante, i.e. la notion de vérité y a un sens, alors on pourra toujours produire un énoncé correctement formé et pourtant indécidable.]</p>
<p>Ces failles dans le « tout-savoir » de l’Autre garantissent non pas la vérité mais une place pour la <b>vérité</b>, pour la vérité comme ce qui reste opaque, qui échappe au savoir. Il faut donc bien distinguer vérité et exactitude sous peine d’abolir le sujet. Vous savez qu’on est dans un temps où il faut être transparent, mais si par malheur cette transparence pouvait se réaliser, ce serait la mort du sujet. Alors n’exigeons pas du sujet qu’il dise toute la vérité, contentons du peu qu’il peut dire. La vérité n’est pas absolue et même si un désir inconscient apparaît comme vrai, tout d’un coup, dans sa révélation, il n’est « vrai » que parce qu’il échappait à mon savoir l’instant d’avant et risque de retomber dans le savoir l’instant d’après.</p>
<p><b>Quand la vérité est passée dans le savoir, ce n’est plus la vérité</b>. Exemple : l’Œdipe, tout homme sait aujourd’hui qu’il a voulu coucher avec sa mère et tuer son père. Ca ne fait plus d’effet, et depuis longtemps dans une cure. Ce rapport de réversion de la vérité dans le savoir fait obstacle à la transmission de l’analyse sur le modes de la transmission du savoir médical ou du savoir scientifique. On peut bien sûr transmettre le savoir théorique de la psychanalyse comme ça, mais le résultat est qu’il perd son effet de vérité. On aura simplement fabriqué des élèves bétonnés, immunisés contre la vérité grâce au savoir.</p>
<p>Il n’y a de vérité, et donc de sujet, que si l’Autre se présente comme ne sachant pas tout et vous savez que le cauchemar c’est justement quand l’autre sait tout de vous que vous ne pouvez plus lui échapper. Big brother avec lequel on jous aujourd’hui dans une frange ténue entre réalité fictive et réalité virtuelle.</p>
<p>Encore un mot pour dire que le défaut de savoir dans l’inconscient est normalement signifié comme sexuel par le phallus. Il concerne l’origine, le sexe et la mort.</p>
<p><b>5. La fonction du phallus, signifiant du désir. </b></p>
<p>Le sujet humain est lui-même quelque chose qui ne figure pas dans le langage. Il n’est que supposé (sub-jectum). Ce manque apparaît donc d’abord chez l’Autre, incarné surtout au départ par la mère. Elle me dit ceci ou cela mais au-delà de ce qu’elle me dit, que veut-elle que je sois ? Elle-même n’a pas le mot pour le dire.</p>
<p>Du coup nous nous posons la question de ce que nous sommes. Spinoza avait déjà répondu : l’essence de l’homme c’est le désir. Cela veut dire que notre essence est d’être des « <b>manque à être », </b>de purs trousdans le langage : aucun dernier mot ne dira ce que nous sommes et jusqu’à notre dernier souffle nous cherchons à nous exprimer.</p>
<p>Tout sujet en fait un jour l’expérience lorsqu’il découvre qu’il n’est pas l’objet qui comble sa mère. Il perd alors ce qui masquait son manque à être mais aussi celui de la mère.</p>
<p>L’objet qu’il se croyait être, bien élevé, fièrement dressé sur ses jambes, Lacan l’appelle le phallus imaginaire de la mère.</p>
<p>Remarquons que l’absence de pénis sur le corps de la mère est généralement méconnue ou diversement désavouée par l’enfant. Cette ignorance est une défense mais contre quoi ?</p>
<p>Lacan montre que cette prétendue « castration » de la mère n’est qu’une présentation sous forme imaginaire du manque structural situé dans le langage, dans l’Autre qu’il appelle encore le Trésor des signifiants. Mais en prenant cette forme imaginaire, ce manque devient symbolisé par le phallus élevé au rang de signifiant. Pour servir cette opération le pénis doit être rayé de la carte du narcissisme.</p>
<p><b>6. L’objet a,</b> cause du désir et suture du manque dans l’Autre.</p>
<p>Il est ce qui vient à la place de cette garantie absente. Il est ce avec quoi (en dehors du nom propre) le sujet bouche le trou qui se dévoile au moment où il s’aperçoit qu’il n’est pas le phallus de la mère. A cet instant se découvre la béance et l’énigme pressante du désir de l’Autre (la sphynge). Je rappelle qu’il n’y a pas d’objet naturel du désir génital. Pour y répondre dans l’urgence et faire bouchon le sujet lâche ce qu’il a sous la main si je puis dire, un objet détachable du corps, un de ceux qui étaient déjà là, en attente, dans les échanges sensuels entre la mère et l’enfant. Il s’agit du sein (de l’enfant sevré), de l’excrément (de l’enfant propre) déjà bien connus des analystes freudiens en tant qu’objets pulsionnels dits prégénitaux, mais aussi du regard et de la voix.</p>
<p>Pris dans cette fonction de garantie de l’existence, l’objet a disparaît de la scène du monde. Il devient l’élément essentiel du fantasme inconscient qui n’est autre que la chaîne signifiante qui relie le sujet à cet objet et dont la psychanalyse révèle le caractère effectivement hétéroclite. L’objet a ne soutient la réalité du sujet qu’à la condition de rester voilé dans le fantasme. (Ainsi l’angoisse traduit la menace du son dévoilement et la honte, le sentiment d’y être réduit.)</p>
<p>C’est ainsi que les orifices du corps humain vont être « érotisés » et convoqués dans la relation sexuelle, où à priori, ils n’ont rien à faire.</p>
<p>Le problème, comme le souligne Charles Melman, c’est que ce sont les mêmes orifices qui servent aussi pour les besoins. D’où les problèmes d’anorexie, boulimie, diarrhée, constipation, voire les problèmes de la vue, de la voix qui ponctuent une vie ordinaire.</p>
<p>En conséquence, la physiologie du corps humain va dépendre inexorablement d’un accord entre, d’un côté, la maîtrise imaginaire du corps, commandée par ce qui doit plaire à l’Idéal &#8211; pour que j’ai une image satisfaisante de moi-même &#8211; et de l’autre côté le fonctionnement pulsionnel en tant qu’il est pris dans la fonction du désir, donc du sujet.</p>
<p><b>7. Le corps va donc se présenter différemment selon les structures cliniques. </b></p>
<p>Pour que le fantasme soutienne le désir d’un sujet il faut que la question du phallus soit réglée préalablement c&#8217;est-à-dire que le manque dans l’Autre ait été interprété comme ayant à voir avec le sexe. Ce n’est pas toujours le cas.</p>
<p><b>Ainsi dans la psychose</b> il y a toujours une espèce d’hypocondrie fondamentale. Cette hypochondrie est liée au fait de l’absence de décomplétion du corps par cet objet dont je viens de parler. Dans la psychose l’objet pulsionnel n’est pas venu interpréter, soutenir, supporter le manque à être du sujet. Quand le psychotique rencontre l’énigme du désir de l’Aure, il se trouve sans ménagement désigné comme cet objet. Faute de s’être fait, dans son fantasme inconscient, cet objet au titre de semblant, il se trouve, dans le réel, identifié par l’Autre à cet objet.</p>
<p>Exemple : un patient schizophrène ne pouvait plus aller au cinéma à Paris. Quand il faisait la « queue », en effet, il était en proie à des diarrhées. « Ca veut dire, disait-il, que je suis homosexuel. &#8211; Qu’entendez-vous par là ? lui demandai-je. – Ca veut dire qu<b>’Ils</b> veulent me sodomiser ». On voit que l’objet anal ne vient pas supporter la question de l’existence du sujet. C’est dans la réalité que vient une réponse avant toute question.</p>
<p><b>Dans l’hystérie,</b> le corps constitue une scène où le désir que le sujet ne peut pas nommer est mis en scène, en silence, dans un symptôme : aphonie, paralysie d’un bras etc.</p>
<p>Le corps peut aussi être le lieu de la protestation du sujet contre la nécessité de se soumettre à la jouissance. Le corps y est assez souvent dans le malaise d’avoir à supporter l’objet qui cause le désir des hommes avec la tentation de s’en débarrasser. Ce malaise peut être l’occasion d’un renversement de la maîtrise en faisant valoir précisément sa faiblesse comme pouvoir contre celui du maître.</p>
<p><b>Dans la névrose obsessionnelle</b> où se manifeste un doute permanent sur l’acte fondateur par lequel l’objet a été cédé, on trouve une sensibilité particulière à tout ce qui touche la sphère anale, mais aussi à tout ce qui pourrait avoir, à l’insu du sujet, contaminé le corps. N’y a-t-il pas des restes d’objet pris dans le corps (microbes divers, corps étrangers) comme aussi bien dans les pensées (idées parasites, obscénités) qui n’auraient pas été détachés?</p>
<p><b>Les phénomènes psychosomatiques</b> au sens de la psychanalyse, c’est-à-dire des troubles lésionnels en rapport avec une situation qui concerne la vie symbolique du sujet, semblent en rapport avec une structure particulière. Il n’y aurait pas de coupure entre le signifiant idéalisant de la maîtrise et le savoir de l’Autre qui conduit à la jouissance. Dans ce cas le corps, en tant qu’il a, comme on l’a vu, incorporé le savoir de l’Autre, se trouve soumis directement à l’impact du signifiant de la maîtrise sans la coupure (cette coupure n’est autre que le phallus qui relativise la toute puissance du signifiant) qui vient immuniser le rapport du sujet au langage. Autrement dit, le signifiant, dans ce cas, au lieu de représenter le sujet, se transforme en signe qui vient commander une fonction corporelle comme dans les expériences de Pavlov. La difficulté de ces cas est que ce type de symptôme est sans sujet, qu’ils ne peuvent donc être interprétés. Cependant la prise en charge psychanalytique, quand elle est possible peut avoir des effets bénéfiques sur ces personnes en les amenant à accepter l’intrusion dans leur monde du signifiant paternel qui introduit avec le phallus symbolique la césure entre la maîtrise et le savoir maternel.</p>
<p>Merci de votre attention.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>D’où sort un enfant? (Remarques sur les nouvelles difficultés qu’on fait aux enfants).</title>
		<link>https://tempofreudiano.com.br/artigo/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Dec 2014 12:34:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[apelo à lei]]></category>
		<category><![CDATA[Bernard Vandermersch]]></category>
		<category><![CDATA[castração]]></category>
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		<category><![CDATA[função paterna]]></category>
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		<category><![CDATA[o fim da autoridade paterna]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise com criança]]></category>
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					<description><![CDATA[Ce titre m’est venu à partir de la méconnaissance assez générale d’un fait pourtant banal et que révèle l’expression non moins banale : « Il va falloir que je, que tu, qu’il coupe le cordon ombilical ». Celui qui parle ne doute pas un instant qu’il s’agit, ce faisant de prendre ses distances avec sa mère. Or le cordon ombilical ne relie pas l’enfant – directement - à sa mère mais au placenta, lequel est une partie différenciée des caduques, « celles qui doivent ou peuvent tomber », qui entourent le fœtus et sont une partie de lui-même.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Bernard Vandermersch</p>
<p>1. Le placenta oublié.</p>
<p>Ce titre m’est venu à partir de la méconnaissance assez générale d’un fait pourtant banal et que révèle l’expression non moins banale : « Il va falloir que je, que tu, qu’il coupe le cordon ombilical ». Celui qui parle ne doute pas un instant qu’il s’agit, ce faisant de prendre ses distances avec sa mère. Or le cordon ombilical ne relie pas l’enfant – directement &#8211; à sa mère mais au placenta, lequel est une partie différenciée des caduques, « celles qui doivent ou peuvent tomber », qui entourent le fœtus et sont une partie de lui-même. Le placenta, premier objet dont l’enfant doit se séparer, est perdu<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftn1" name="_ftnref1"> <sup>(1)</sup></a> jusque dans la mémoire et l’enfant n’aura guère de représentation de la part de lui-même qu’ainsi il a abandonné. (Il est rare qu’on en fasse des photos comme souvenir). J’ai toutefois connu une femme dont le placenta avait été enterré au pied d’un rosier. C’était semble-t-il une coutume du lieu. Elle en avait conçu un amour des fraises qu’elle attrapait directement avec la bouche car son père lui avait interdit d’y toucher !</p>
<p>Dans un article du <i>Monde</i> annonçant le dernier progrès : l’utérus artificiel, on cite une certaine Rosemarie Tong, féministe et spécialiste de bioéthique de l’université de Caroline du Nord, qui fait remarquer que « les enfants nés d’une machine auront des organes génitaux mais pas d’ombilics. Ils seront de simples créatures du présent et des projections dans l’avenir, sans connexions signifiantes avec le passé. C’est là une voie funeste et sans issue.» J’avoue ne pas bien comprendre pourquoi ces bébés n’auraient pas de nombril… Mais l’idée avancée est bien celle d’un malheur lié à la dissociation parfaitement accomplie entre reproduction, sexualité et filiation. Un enfant est avant tout issu d’une lignée sans doute mais une lignée, si prestigieuse soit-elle, ne fait pas un sujet.</p>
<p>2. L’objet cause du désir.</p>
<p>Cette place et ce destin du placenta en font le <b><i>prototype imaginaire de toute une série d’objets</i></b>détachables du corps dans un champ ambigu entre mère et enfant (sein, fèces, regard, voix) et qui vont venir dans l’inconscient causer le désir. A la différence du placenta, ces objets sont l’effet de la parole, la conséquence de ce que le besoin de l’enfant en passe par le langage.</p>
<p>L’important est de voir que ces objets auxquels est attachée une certaine jouissance doivent être cédés par le sujet pour lui servir de support. Un sujet en effet n’est rien que ce qui est supposé parler mais qui ne peut être dit. C’est un trou dans le langage. C’est d’ailleurs dans les accrocs de la parole qu’il se manifeste le mieux.</p>
<p>Le sujet en tant qu’il n’est qu’un manque se <i>sépare</i> de cet objet pour se parer d’un être, se donner un être dans ces objets : il se fait voir (regard), entendre (voix), chier (fèces), sucer (sein).</p>
<p>Le placenta mériterait bien d’être appelé notre premier parent dans deux sens différents. Imaginairement il est ce qui protège et nourrit. Mais aussi en un sens plus conforme à l’étymologie et justement en ceci qu’il est le prototype de ces objets qui procurent &#8211; en latin <i>parere</i>, d’où vient <i>parentes</i>, ceux qui procurent &#8211; un être au sujet de la parole.</p>
<p>L’important est premièrement le fait que cet être que le sujet se donne échappe à sa connaissance, deuxièmement que ceci n’est possible que si le désir des parents et surtout celui de la mère sur ce qu’il doit être reste assez énigmatique au sujet pour qu’il puisse y répondre par ces objets. Or aujourd’hui il y a une demande de savoir qui tend à supprimer toute opacité, une exigence de transparence. C’est au nom de la prévention qu’on inflige aux enfants tout un discours sur la sexualité, ses périls ou ses joies qui ne me semble pas tellement les aider à soutenir leur désir, discours dont le « timing » est forcément raté puisqu’il ne répond pas à une demande de savoir de la part de l’enfant.</p>
<p>3. La castration.</p>
<p>C’est donc par une sé-paration que le sujet se procure un désir. Que cet objet soit cause du désir n’empêche pas que sa mise en place nécessite ce qu’on appelle la <b>castration</b>. C’est-à-dire une interprétation sexuelle du désir de la mère. D’où l’importance de l’histoire oedipienne et du drame qui se joue avec les parents, non pas en tant que géniteurs cette fois, mais en tant que couple homme-femme pris dans le désir sexuel.</p>
<p>Si l’exigence d’amour de l’enfant lui fait préférer les liens de tendresse et craindre les manifestations de la vie sexuelle de ses parents au point de les refouler (à condition que leur comportement le lui permette), ce n’est pas cet amour tendresse pourtant qui suffira à affermir son désir sexuel.</p>
<p>En effet, à la différence de l’amour tendresse, le désir est fondé sur une dissymétrie radicale entre le sujet et l’objet et donc une dissymétrie des places des hommes et des femmes quand ils entrent dans le jeu du sexe, le seul qui sans doute résiste à la parité et au principe « Ne fais pas à ton prochain ce que tu ne voudrais pas qu’il te fasse ».</p>
<p>4. La fonction du père.</p>
<p>Grosso modo il semble bien que l’exercice futur de la sexualité soit facilité chez ceux dont le père voit dans sa femme l’objet cause de son désir et dont la mère soutient ce semblant. Une dissymétrie ici reste irréductible (et même s’il s’agit d’un couple homo).</p>
<p>C’est la fonction du père en tant que père (et non en tant que « seconde-mère ») d’apprivoiser le réel du sexe, « de rendre ce sexe apte à la jouissance ». (Melman). Cela en nouant un pacte symbolique avec le sujet : si son enfant consent à une certaine perte ( pas tant perdre la mère que de ne pas se faire son objet) il aura les insignes qui lui permettront de s’affronter le moment venu à la jouissance sexuelle. Le respect attaché à ce père est donc moins lié à l’amour dont il témoigne qu’au désir qu’il assume.</p>
<p>Cette fonction paternelle apparaît avec plus d’évidence dans les situations qui peuvent la mettre en échec. Par exemple celle des jeunes gens pris entre deux cultures suffisamment différentes. Il arrive souvent que le fils rejette la culture du père avec les limitations de jouissance que celle-ci exige de ces membres, mais que la culture du pays d’accueil où il souhaite s’inscrire ne lui offre pas en échange de son consentement à des exigences différentes mais pas moins sévères la reconnaissance attendue. De ce fait certains y trouveront un alibi pour refuser toute amputation de jouissance, toute castration pouvant les faire reconnaître comme hommes dans la société.</p>
<p>A défaut d’être reconnus d’un côté comme de l’autre ces jeunes se retrouvent devant l’horreur et la terreur d’un sexe non apprivoisé. Sans la fonction tempérante du père ils sont soumis au déferlement d’un surmoi non bridé ordonnant la jouissance. D’où l’alternance de fuite et de violence.</p>
<p>En fait la carence paternelle n’est pas seulement le fait de ces circonstances contingentes. Depuis plus d’un siècle on assiste à un déclin de la référence paternelle avec un certain déclin de la primauté de la jouissance sexuelle et, en réponse au déclin du pacte symbolique de la parole, une inflation concomitante des contrats écrits, une juridisation des rapports humains. De même on assiste à une relative dévalorisation du désir (lié au père et à la castration) au profit de la recherche de jouissances sans perte, sans prix à payer. Ce n’est pas sans créer des difficultés aux enfants et cela se traduit notamment dans cette sorte de labilité de leurs investissements de désir. La signifiance phallique a constitué jusqu’ici ce qui permettait à un sujet de s’orienter. Aujourd’hui avec l’estompement de ce pôle implicite, tout doit être dit et explicité, jusqu’aux règles élémentaires des rapports entre les humains.</p>
<p>5.Quelques constats sociologiques.</p>
<p>Jusqu’à ces dernières décennies, le couple parental et le couple sexuel étaient supposés idéalement coïncider. Cela faisait le plus souvent un tableau à la Picasso mais c’était ce qui se donnait à voir.</p>
<p>Or les mœurs et la législation viennent aujourd’hui clairement les distinguer.</p>
<p>Ces dernières années (entre 1999 et 2003) ont vu apparaître le Pacs, la réforme de la prestation compensatoire, la revalorisation des droits du conjoint survivant et ceux des enfants adultérins ainsi que la réforme de l’autorité parentale mettant sur un pied d’égalité chaque parent et consacrant la fin de l’autorité paternelle au prix d’un appel plus fréquent à la loi.</p>
<p>Selon Valérie Feschet, ethnologue, ces importantes modifications s’articulent autour de deux principes forts : 1. <i>l’égalité</i> entre les sexes, les époux, les enfants, les mariages successifs et 2. <i>la liberté</i>citoyenne de toutes les sexualités. Je dois faire ici une importante restriction oubliée par la sociologue : la pédophilie recueille toute l’opprobre retirée aux autres formes de jouissance. Sans doute la liberté citoyenne des sexualités ne signifie pas leur égalité. Un couple homosexuel peut être conjugal grâce au Pacs mais la loi fait une distinction entre couple pacsé et couple marié. D’ailleurs cette distinction paraît suffisamment forte pour nourrir une puissante revendication en faveur du mariage homosexuel.</p>
<p>Cependant il est clair que le « progrès » est dans la conquête d’une stricte égalité entre couple homosexuel et couple « mixte » avec droit à l’adoption d’un enfant qui aura le droit de porter les deux noms dans un sens ou dans l’autre…</p>
<p>Toute réserve sur d’éventuels inconvénients ne peut être le fait que d’une position réactionnaire.</p>
<p>Egalité encore entre les enfants. Mais aussi droit de l’enfant « à être aimé et à aimer autant son père que sa mère ». Et cela par delà le divorce éventuel des parents. Ceci aboutit à scinder radicalement couple conjugal et couple parental.</p>
<p>Car intervient ici le <i>deuxième principe</i> : liberté de la sexualité des parents et le droit des parents à l’amour. « L’amour passion est réhabilité comme motif honnête de la conjugalité » La distinction des principes de l’alliance et de la filiation autorise un père ou une mère à aimer une autre personne en restant légalement parent à part entière.</p>
<p>L’ethnologue montre que c’est ce deuxième principe, la liberté de la sexualité des parents, qui vient faire limite à ce qui serait « l’empire des enfants ». En fait cet empire supposé me semble surtout être un immense piège où l’on fait de plus en plus jouer à l’enfant un rôle d’adulte en lui ôtant cependant la responsabilité de ses actes. Ainsi la parole de l’enfant doit être prise en compte mais son mensonge éventuel sera couvert par son immaturité. D’autre part cette nouvelle liberté sexuelle des parents est souvent confondue avec un droit à l’exhibition de leur jouissance devenue légale. Une nouveauté en ce domaine est la situation d’enfants dont le père (ou la mère) fait un coming out homosexuel plus ou moins fracassant. Ici encore ce n’est pas tant les particularités du désir qui sont à mettre en cause que le défaut de pudeur et de retenue qui parfois l’accompagne.</p>
<p>Il y a en tout cas au plan de la société un renversement symbolique fondamental en ceci que « aujourd’hui les relations de parenté ne se structurent plus autour de l’idée d’un mariage fondateur déterminant les relations de la famille une fois pour toutes ». Dans le nouveau droit le mariage s’écarte de sa fonction de cellule sociale<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftn2" name="_ftnref2"> <sup>(2)</sup> </a>pour symboliser plutôt un nouveau droit : le droit à l’amour.</p>
<p>6. Quelques conséquences.</p>
<p>Cette promotion des droits de l’amour (à entendre ici dans le sens de droit à la jouissance sexuelle) ne va pas sans conséquences.</p>
<p>La première est que l’échec du couple à trouver une jouissance qui convienne ne peut plus être imputable à quelque mauvais arrangement de la société puisque celle-ci met tout en jeu pour ne pas s’opposer à l’union amoureuse. Dès lors chacun n’a qu’à prendre sur soi ou rejeter sur l’autre la cause de l’échec de cette union. Or l’amour, fondé sur l’idéalisation, est par nature précaire. Il est ce qui vient masquer le défaut radical « chez les trumains<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftn3" name="_ftnref3"> <sup>(3)</sup> </a> » d’un rapport naturel entre les sexes. Présent, il vient souvent faire obstacle à la jouissance sexuelle attendue ; absent, il rend la relation conjugale terne ou insupportable. Dans ce climat d’insatisfaction ou de culpabilité l’enfant sera facilement tenu pour la cause des ennuis, surtout s’il n’est l’enfant que de l’un des deux.</p>
<p>Mais en raison d’un même déni du défaut de ce rapport sexuel, en cas de divorce il faudrait avant tout que l’enfant ne souffre pas. Ce souci, plutôt sympathique, amène en consultation des enfants sans aucun symptôme pour le seul motif de prévenir toute séquelle éventuelle d’un traumatisme qu’ils n’ont pas vécu!</p>
<p>Je rappelle la distinction faite ici entre différents types de jouissance. Le désir se soutient du manque de l’objet. Le sujet en prend la responsabilité et en assume le prix aux fins d’accéder à la jouissance sexuelle. La jouissance qui se propose aujourd’hui est bien plutôt de jouir de cet objet sans considération pour ce qui y donnerait accès et cela constitue un impératif pas moins surmoïque pour le sujet.</p>
<p>Prenons un exemple caricatural que j’ai eu à connaître il y a une vingtaine d’années. Un homme et une femme d’excellente allure l’un et l’autre se présentent à la consultation du Professeur X pour obtenir de lui qu’il procède à une fécondation in vitro d’un ovule de la dame par le sperme de l’homme. Pourquoi cet intermédiaire généralement inutile pour faire un enfant ? En effet l’un et l’autre sont tout à fait bien constitués et ne souffrent d’aucune stérilité. Le problème est le suivant : monsieur est un homosexuel strict qui avec l’âge sent en lui vibrer la fibre paternelle. Madame est une amie de longue date de monsieur, elle a de nombreux amants mais ne peut envisager d’avoir un enfant de l’un d’eux. Le désir qu’ils ont l’un et l’autre d’avoir un enfant et la certitude qu’ils formeraient un couple idéal pour l’élever, ne peut aller jusqu’à les amener à la copulation. Pas ce prix-là. Je leur ai fait remarquer que leur solution était parfaite. Ils avaient réussi à supprimer tout lien apparent entre sexualité et filiation. Le seul inconvénient étant de savoir comment le désir de leur enfant éventuel s’accrocherait à un mur si lisse, si propre, si débarrassé de toute saleté sexuelle.</p>
<p>Ce qui est frappant est la violence paradoxale exercée sur l’enfant au nom de son droit à jouir lui aussi sans les contraintes de castration. Ces enfants qui ne doivent plus subir la moindre douleur (au risque de les initier à la toxicomanie), à qui on parle précocement de sexualité pour les mettre en garde contre le pédophile qui se cache dans le père, qu’on écoute sans toujours distinguer les registres imaginaire ou réel de leur parole, est de plus en plus exposé à la violence d’un monde où l’objet cause du désir &#8211; qui ne joue sa fonction que voilé &#8211; est de plus en plus démasqué que ce soit dans le langage, dans les images voire dans ses évocations métaphoriques de plus en plus souvent explicites. Il y a de moins en moins de zones d’ombre où la subjectivité de l’enfant trouverait à se réfugier. Les enfants sont dès lors contraints à tenir des discours politiquement corrects sans sujet. La jouissance des adultes ne limite aucun empire des enfants, elle pénètre sans vergogne le vert paradis des amours enfantines en leur rendant difficile voire en annulant leurs efforts pour consentir à la séparation qui fera d’eux des adultes désirants. Ainsi cet exemple qui vient de m’être rapporté et qui conclura sur une note moins grave. Une petite fille se sépare de son doudou. A la crèche, la voyant sans son doudou, on s’inquiète. On téléphone à la mère en urgence pour s’enquérir de l’objet : « votre fille ne pourra pas dormir, elle a perdu son doudou ! ».</p>
<p>Merci de votre attention.<br />
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<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftnref1" name="_ftn1">1. </a>Pas perdu pour tout le monde car certains laboratoires les récupèrent.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftnref2" name="_ftn2">2. </a>En fait cette évolution si facile donne à penser que le mariage et la famille qu’il instaure n’ont peut-être jamais été les véritables support du lien social mais seulement la reproduction au niveau moléculaire d’un principe plus général concernant les rapports du peuple au souverain.<br />
<a href="http://www.tempofreudiano.com.br/index.php/dou-sort-un-enfant-remarques-sur-les-nouvelles-difficultes-quon-fait-aux-enfants?cod=8#_ftnref3" name="_ftn3">3. </a>Néologisme de Lacan utilisé dans le séminaire <i>Le moment de conclure</i> (1977-78)</p>
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